Mais um excelente livro para nos fazer compreender melhor os mecanismos do sucesso da ideologia neoliberal, e para nos lembrar que a economia não é independente da política e vive-versa. A tese de Naomi Klein, extremamente bem documentada (em alguns pontos até demasiado exaustivamente), é assustadoramente simples, e óbvia quando considerada. Acho que este livro devia ser leitura obrigatória para todos os neoliberais e capitalistas "de café", os tontos que acreditam e defendem as ideias habilmente propagandeadas pelos seguidores de Milton Friedman e que tanto sucesso têm gozado nas últimas décadas, com os belos resultados que se têm visto. Mas a política, e a economia, como tudo o resto, também são de modas. De certa forma, a recente crise financeira foi uma boa coisa, ao deitar um balde de água fria sobre os entusiasmos desreguladores - de que sem dúvida algumas pessoas beneficiam, mas não a maioria - e talvez se ponha um travão à orgia neoliberal. E talvez o facto do Nobel deste ano ter sido dado a um crítico dessa ideologia também seja um bom sinal. Quem sabe? Talvez vejamos em tempo útil a reabilitação das actualmente tão vilipendiadas ideias de Keynes e as pessoas reconheçam que afinal as ideias do Estado-providência que criaram tanto bem-estar na Europa são dignas de ser defendidas.
domingo, outubro 26, 2008
The Shock Doctrine, de Naomi Klein
Mais um excelente livro para nos fazer compreender melhor os mecanismos do sucesso da ideologia neoliberal, e para nos lembrar que a economia não é independente da política e vive-versa. A tese de Naomi Klein, extremamente bem documentada (em alguns pontos até demasiado exaustivamente), é assustadoramente simples, e óbvia quando considerada. Acho que este livro devia ser leitura obrigatória para todos os neoliberais e capitalistas "de café", os tontos que acreditam e defendem as ideias habilmente propagandeadas pelos seguidores de Milton Friedman e que tanto sucesso têm gozado nas últimas décadas, com os belos resultados que se têm visto. Mas a política, e a economia, como tudo o resto, também são de modas. De certa forma, a recente crise financeira foi uma boa coisa, ao deitar um balde de água fria sobre os entusiasmos desreguladores - de que sem dúvida algumas pessoas beneficiam, mas não a maioria - e talvez se ponha um travão à orgia neoliberal. E talvez o facto do Nobel deste ano ter sido dado a um crítico dessa ideologia também seja um bom sinal. Quem sabe? Talvez vejamos em tempo útil a reabilitação das actualmente tão vilipendiadas ideias de Keynes e as pessoas reconheçam que afinal as ideias do Estado-providência que criaram tanto bem-estar na Europa são dignas de ser defendidas.
terça-feira, outubro 14, 2008
O Senhor das Almas, de Irène Némirovsky
Não tão bom como O Baile, e muito longe do excelente Suite Francesa, mesmo assim O Senhor das Almas é um romance interessante, sobre a ambição e a fragilidade humanas. Gostei muito desta passagem, que me impressionou pela justeza com que descreve a doença da ansiedade generalizada: "...certas angústias inexplicáveis. Wardes tinha medo de se ver no meio de muita gente, de atravessar uma ponte, de entrar num automóvel ou numa carruagem de caminho de ferro. Esta doença mental, que oscilava entre a melancolia e a violência, doença lenta, quase invisível para outrem, mas terrível, e a que Wardes chamava, nas suas cartas a Dario, 'um cancro da alma', chegara ao seu período de depressão, a esse abatimento sombrio feito de um silêncio e de uma imobilidade de morte que acabam por satisfazer o espírito; este deixa de procurar sair das trevas que o rodeiam e adormece num torpor profundo."
domingo, outubro 05, 2008
Marraquexe

Estive alguns dias em Marraquexe, e foram umas pequenas férias estupendas. Nunca tinha estado no Norte de África; esperava um choque cultural, mas este foi apesar de tudo menor do que imaginava. É certo que houve dois aspectos que por vezes me irritaram e chegaram a provocar-me momentos de exasperação: um, a "melguice" constante dos marroquinos, não só a pressionar para vender coisas, o que muitas vezes era contra-producente, pois não me sentia à vontade para ver os produtos com calma e fugia, como a insistência em prestar "serviços" desnecessários - é quase impossível determo-nos um instante na rua para consultar um mapa ou tentar orientar-nos sem sermos assediados: "que cherches tu?", "fermé par là!", "espagnol? italien?", "la place?", etc; o outro, as multidões apressadas nas ruelas estreitas à hora de ponta das 18:30, com inúmeras motoretas, bicicletas, e frequentemente furgonetas, carrinhos de mão ou caleches, tudo a grande velocidade, aos gritos e buzinadelas.

Mas o resto compensou plenamente, e adorei a cidade. Fiquei num riad na medina, descoberto através do blog http://www.joaoleitao.com/viagens/, que aproveito para recomendar. Foram uns dias com verdadeiro sabor a férias, passados noutro mundo - o labirinto de ruelas estreitas, com arcadas e portas baixas, onde me perdi várias vezes, a cor ocre-avermelhada da cidade, o colorido dos souks, dos tapetes, dos montes de especiarias, das pilhas de frutos secos, das lanternas, das pratas, os perfumes da hortelã e especiarias, a vida fervilhante e sempre em mutação da praça Jamaa al Fna, as mulheres, a maior parte muito bonitas, de túnicas e lenços, muitas veladas, os homens de djellabas e babuchas, os grandes cafés à moda antiga, com esplanadas e terraços, onde tão bem sabia descansar bebendo café ou chá de menta e imaginar-me a ler e a escrever sem pressas, a comida saborosa, os inúmeros gatos.

Soube-me bem ser turista por uns dias: visitar a magnífica medersa Ben Youssef e os túmulos Saadianos, que foi quase como voltar ao Alhambra, tirar as fotos kitsch da praxe com serpentes ao pescoço e macacos nos ombros na Jamaa al Fna, comprar nos souks um bule, brincos de prata e tapetes berberes que parecem quadros de Klee.

Enfim, cada vez aprecio mais estas saídas da rotina, que são uma verdadeira recuperação de energia mesmo se fisicamente cansativas - anda-se quilómetros, mas como é bom estar longe, e ter experiências como contemplar do terraço do Café Glacier ou do Café de France o fim da tarde na Jamaa al Fna, com a luz a declinar sobre os terraços pejados de antenas parabólicas, a Koutoubia destacando-se contra o céu, e o eterno e variado movimento da praça.
quinta-feira, setembro 04, 2008
In vino veritas...

Uma passagem de Talvez, de Lilian Hellman, vem-me ao pensamento, qualquer coisa como "aquilo que nos parece muito claro quando estamos embriagados e depois deixa de ser claro quando ficamos sóbrios é porque à partida nunca esteve muito claro". Cito de memória, as palavras não devem ser estas, mas acho que conservei o sentido. E é verdade que na maioria das vezes a embriaguez é um estado muito pouco propício ao raciocínio e às decisões - pelo menos se se deseja que aquele seja lógico e estas sensatas. Mas por vezes há um período, que sucede aos estados sucessivos de exultação e de embotamento, e que corresponde ao dissipar da embriaguez mas que precede a recuperação completa, em que tudo surge com uma extrema clareza e desprendimento, como se estivéssemos a ver os nossos problemas de fora e desapaixonadamente.
E a propósito de Lilian Hellman, outras palavras me perseguem, a citação da Bíblia que ela colocou em epígrafe no início de The Little Foxes: "Take us the foxes, the little foxes, that spoil the vines: for our vines have tender grapes."
quinta-feira, agosto 28, 2008
...

I've been swimming in a sea of anarchy
I've been living on coffee and nicotine
Sheryl Crow
Got a wife and kids in Baltimore Jack
I went out for a ride and I never went back
Like a river that don't know where it's flowin'
I took a wrong turn and I just kept goin'
Bruce Springsteen

Como às vezes gostava de fazer o mesmo...
terça-feira, agosto 26, 2008
Résumé, de Dorothy Parker
Edvard Munch, ou como a arte reflecte as nossas emoções
O que distingue a verdadeira arte, a meu ver, é a capacidade de exprimir as nossas emoções de uma forma completa, de nos fazer pensar "é exactamente assim que me sinto", seja na literatura, na música ou na pintura. E ultimamente, é a pintura de Munch que exprime como me sinto. Mas como gostaria antes que fosse a de Klee!






segunda-feira, agosto 25, 2008
Psicopatias/Sociopatias...
Em The Happiness Hypothesis, de Jonathan Haidt, deparei a certa altura com esta definição de psicopata: "A maioria dos psicopatas não são violentos (embora a maioria dos assassinos e violadores em série sejam psicopatas). São pessoas, na maioria homens, que não têm sentimentos morais, sistemas de integração, nem preocupação pelos outros. Porque não sentem vergonha, inibições ou culpa, é-lhes fácil manipular os outros para obterem dinheiro, sexo e confiança." Pois é. O que é arrepiante é quando reconhecemos nesta descrição alguém que nos é querido, que com o crescimento vai deixando de ser um encantador mesmo que um tanto cansativo Abdallah ou Calvin para se tornar um déspota amoral cada vez mais insuportável. Quando damos por isso, parece que toda a nossa vida está infiltrada e minada, que perdemos o
controle e passámos a viver em função de uma relação desgastante e frustrante. Como dizia o imperador Augusto em relação às duas Júlias, sua filha e neta, e ao seu neto Póstumo Agripa, que eram os seus três cancros. Ele nada sabia da biologia do cancro, mas acertou em cheio - um mal consumptivo, que toma conta do organismo e se alimenta dele destruindo-o.
domingo, agosto 03, 2008
Free World - A América, a Europa e o Futuro do Ocidente, de Timothy Garton Ash
Subscrevo inteiramente a divisa de Romain Rolland que o autor cita num dos capítulos finais, quanto à atitude que defende: "pessimismo do intelecto, optimismo da vontade". É assim que acho que nos devemos conduzir - realistas, com a capacidade de ver as coisas como elas são, mas sem assumir a pose de arautos da desgraça ou do desinteresse, e contribuirmos na medida das nossas possibilidades e talentos para que as coisas corram bem, ou seja, mantermo-nos interessados, informados e com espírito cívico.
(Timothy Garton Ash, na sequência da publicação deste livro, criou o site FreeWorldWeb, dedicado a esta temática, para quem esteja interessado fica o link)
quinta-feira, julho 31, 2008
Curta observação sobre o estado da imprensa
Transcrevo de seguida uma passagem do livro de Timothy Garton Ash, Free World, que se refere ao desgosto do autor com a imprensa em geral e a britânica em particular, porque exprime exactamente o que eu penso, nomeadamente a respeito da portuguesa."Mas também precisamos de uma revolta dos jornalistas. Afinal, são os jornalistas, e não os proprietários, quem efectivamente escreve e edita os jornais. Algumas das pessoas mais inteligentes, com melhor educação e mais empreendedoras da Grã-Bretanha enveredam pela carreira do jornalismo. Escrevem de modo rigoroso, sério e brilhante nos jornais semanários, em livros e em revistas americanas. [...] Porque não podemos restaurar nos jornais diários britânicos a nossa grande tradição de relato rigoroso, vivo e imparcial de notícias? Talvez ficássemos supreendidos com o número de leitores que adeririam a um jornal assim."
Pois é, eu também acho que haveria gente que gostaria de ler boa imprensa, e que de bom grado a pagaria, em vez dos verdadeiros tablóides em que os nossos jornais supostamente sérios se transformaram. Não haverá quem comece? Nem que fosse como um projecto na internet, que se expandiria posteriormente conforme a resposta?
domingo, julho 13, 2008
A Brief History of Neoliberalism, de David Harvey
Um livro muito esclarecedor, que mostra como alguma ideia que é repetida e propagada até à exaustão acaba por ser tomada como uma verdade ou uma inevitabilidade. Com efeito, é esse o caso da ideologfia do neoliberalismo - desde os anos 80 tem sido exaustivamente repetido que "não há outra solução", e as pessoas acabaram por acreditar e aceitar dessa forma uma prática cujos resultacdos estão longe de ser os que são publicitados - a melhoria da economia com a consequente melhoria do nível de vida para a generalidade das pessoas - mas que tem antes favorecido uma minoria que tem enriquecido progressiva e escandalosamente à custa de uma diminuição de uma série de regalias e direitos que o tão denegrido "Estado-providência" conferira às populações da Europa e que nos proporcionou algumas décadas de um bem-estar inédito até ao século XX.E como é que o mundo ocidental tem sido progressivamente convencido desta "verdade científica"? Através de uma verdadeira lavagem ao cérebro realizada pelos media, cada vez menos imparciais e mais manipulados, por uma classe enriquecida que se apoderou das posições políticas chave, e que assim pretende - e consegue - perpetuar os seus ganhos. Citando o livro de Harvey (tradução minha): "Porque é que, então, há tanta gente persuadida de que a neoliberalização por meio da globalização é 'a única alternativa' e que tem sido tão bem sucedida? (o autor acabara de comparar dados da Suécia e da Grã-Bretanha, como exemplos de dois países menos e mais rendidos ao neoliberalismo, respectivamente, comparação muito favorável à Suécia) Destacam-se duas razões. Em primeiro lugar, a volatilidade de desenvolvimentos geograficamente desiguais acelerou, permitindo o avanço espectacular de certos territórios (pelo menos por algum tempo) em detrimento de outros. [...] Em segundo lugar, a neoliberalização, o processo mais do que a teoria, tem sido um enorme sucesso do ponto de vista das classes superiores. [...] Com os media dominados pelos interesses destas classes, pode propagar-se o mito de que os estados falham economicamente porque não são competitivos (criando assim a necessidade de ainda mais reformas neoliberais). [...] Se as condições das classes inferiores se deterioram é porque não conseguem(por dedicação à educação, a aquisição de uma ética de trabalho protestante, submissão à disciplina e flexibilidade no emprego, etc). Problemas particulares surgem, em resumo, por falta de força competitiva ou por derrotas pessoais, culturais e políticas. Ou seja, num mundo de Darwinismo neoliberal, apenas os mais aptos devem e conseguem sobreviver."
Entristece-me que a maioria das pessoas se deixa cair nesta armadilha e não pense pelas suas cabeças. Porque acho que essa maioria acredita que valores como a justiça, a segurança, a educação e a saúde, e a regulação do trabalho, são demaisado fundamentais e parte integrante da dignidade humana para serem negociados como televisores, roupas ou chouriços. E que o neoliberalismo não é mais do que uma entre várias teorias económicas, que actualmente está em voga, como outras estiveram mais ou menos tempo e com maior ou menor sucesso. E que é demasiado perigoso arriscar a perda de direitos que de facto e inquestionavelmente melhoraram a nossa qualidade de vida em nome de uma teoria muito propalada mas que, se examinada com algum espírito crítico, nomeadamente na sua prática e nos seus resultados até agora, revela que está muito longe de ser o que apregoa.
quarta-feira, julho 09, 2008
The Common Reader (second series), de Virginia Woolf
(Depois de referir o conhecimento da vida e pensamento do escritor e a sua influência sobre a leitura da obra): "For the book itself remains. However we may wind and wriggle, loiter and dally in our approach to books, a lonely battle waits us at the end. There is a piece of business to be transacted between writer and reader before any dealings are possible [...] All alone we must climb upon the novelist's shoulders and gaze through his eyes..."
(Ou, mais tarde no mesmo ensaio - sobre Robinson Crusoe): "In masterpieces - books, that is, where the vision is clear and order has been achieved - he inflicts his own perspective upon us so severely that as often as not we suffer agonies - our vanity is injured because our own order is upset; we are afraid because the old supports are being wrenched from us; and we are bored - for what pleasure or amusement can be plucked from a brand new idea? Yet from anger, fear, and boredom a rare and lasting delight is sometimes born." - Que esplêndida forma de exprimir o impacto que um livro - dos que nos tocam como obras-primas - tem sobre nós!
(E no ensaio final): "The only advice, indeed, that one person can give another about reading is to take no advice, to follow your own instincts, to use your own reason, to come to your own conclusions."
E que melhor forma de terminar, testemunho de uma leitora apaixonada apreciado por qualquer leitor apaixonado? "Yet who reads to bring about an end, however desirable? Are there not some pursuits that we practise because they are good in themselves, and some pleasures that are final? And is not this among them? I have sometimes dreamt, at least, that when the Day of Judgment dawns and the great conquerors and lawyers and statesmen come to receive their rewards - their crowns, their laurels, their names carved indelibly upon imperishable marble - the Almighty will turn to Peter and will say, not without a certain envy when he sees us coming with our books under our arms, 'Look, these need no reward. We have nothing to give them here. They have loved reading.'"
quarta-feira, junho 25, 2008
Body and Soul, Those Fabulous Ladies of Jazz


Tenho este cd há muitos anos, acho mesmo que foi um dos primeiros que comprei. É uma colectânea de temas cantados por Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Dinah Washington e Sarah Vaughan, todos excelentes e nas suas melhores versões. Estou a ouvi-lo novamente neste momento, com o mesmo prazer de sempre. Tem as versões de que mais gosto de Just One of Those Things e de Bewitched, ambas por Ella Fitzgerald, e de Cry Me a River e de Ain't Misbehavin', ambas por Dinah Washington. É uma pura delícia, prazer em estado puro.

Metamorfoses, de Ovídio
Metamorfoses, de Ovídio, é um livro delicioso, que já lera na sua maior parte numa velha edição da Europa-América e que reli agora numa tradução e edição bem mais cuidadas publicada pela Cotovia aproveitando a moda em boa hora lançada pelo sucesso da tradução de Frederico Lourenço da Odisseia. É uma espécie de Mil e Uma Noites da mitologia greco-romana (e já agora, para quando uma edição / tradução do mesmo género das Mil e Uma Noites? Ou pelo menos a tradução da famosa tradução de Richard Burton...), organizado da mesma forma, com histórias dentro de histórias, encadeadas umas nas outras, cobrindo todo o tempo desde a criação do mundo até ao reinado de Augusto (a actualidade de Ovídio, que termina o livro com um elogio ao imperador), histórias essas que têm em comum tratarem de metamorfoses, transformações das mais variadas. O autor desenvolve mais ou menos as histórias a seu bel-prazer, e há belíssimas descrições de personagens,
de cenas da vida quotidiana, de sentimentos, pastiches de Homero, até uma defesa do vegetarianismo através de um discurso de Pitágoras. No conjunto, é um repositório imenso de lendas e mitos, e não admira que tenha servido de inesgotável fonte de inspiração para artistas ao longo dos séculos. O que me leva a abordar uma questão em que penso muitas vezes e que por várias vezes tenho discutido com alguns amigos - porquê ler os clássicos? (por acaso é o título de um excelente livro de ensaios de Italo Calvino, e que o explica bem melhor do que eu). Com efeito, deparo-me frequentemente com o argumento: "há tanta informação hoje em dia, tanto que ler, que não há tempo para ler os clássicos" (e aqui, o termo clássicos é aplicado de forma bastante lata, desde Homero a Proust, passando por Mallory, os grandes russos ou - porque não? - Saint-Simon). Discordo totalmente deste argumento. Os clássicos são... bem, é difícil encontrar outra palavra, são clássicos. Por algum motivo suportaram a passagem do tempo, de séculos, mantendo toda a actualidade do seu interesse, tal como a Vénus de Milo ou os frescos de Mantegna se mantêm igualmente impressionantes agora, por muitos anos que tenham. A intemporalidade é precisamente uma das características das obras a que chamamos genericamente "os clássicos". E outro motivo, além do prazer que a sua leitura e fruição provoca, e da sua qualidade intrínseca, nomeadamente sobre a compreensão da natureza humana e de outras questões intemporais, é o da contribuição inestimável para a compreensão do mundo em que vivemos, da actualidade, da História, de tudo o que aconteceu e que nos trouxe até ao momento presente. Por exemplo, apesar de eu ser militantemente anti-religioso, considero fundamental o conhecimento da religião cristã, da Bíblia e das suas histórias e mitos, para a compreensão de grande parte de toda a arte europeia dos últimos dois mil anos, pois de facto esta foi dominada pelas mitologias cristã e greco-romana. Como fruí-la adequadamente se nada se sabe sobre o que a inspirou? Por tudo isto, acho que é hoje em dia igualmente fundamental ler os clássicos, continuo a fazê-lo com prazer, e acho que é tempo muito mais bem empregue do que o passado a absorver tanta da informação inútil e redundante que nos inunda por todos os lados. E quanto mais o tempo passa e mais a leitura do passado me ajuda a compreender e a colocar em perspectiva o presente mais disso me convenço.
quinta-feira, junho 19, 2008
O prazer de ler Saint-Simon

A leitura das longas Memórias do duque de Saint-Simon continua a ser um enorme prazer. A escrita é deliciosa, combinando uma extrema elegância e correcção com uma abundância de expressões arcaicas e um fino sentido de humor. As suas descrições e análises dos caracteres e das situações são sempre interessantes e perspicazes, mesmo que muitas vezes muito parciais e temperadas pelos seus preconceitos de classe; é uma testemunha inigualável de uma época e de um meio, os seus retratos tornam-nos vivas e reais todas aquelas pessoas, nas suas grandezas e mesquinharias, nas ambições e fraquezas. E mostram bem como a natureza humana era exactamente o que é hoje. A tudo isso junta um sentido do dramático que muitos novelistas invejariam, bem patente nas passagens que li recentemente sobre a morte de Monseigneur (o Grande Delfim, filho de Luís XIV): o fim das cabalas que o rodeavam, o despontar das esperanças em volta do novo Delfim e da Delfina (uma espécie de Lady Di do século XVIII), a análise das reacções dos vários partidos; tanto mais pungente porque sabemos que este casal vai desaparecer também um ano depois. As descrições da noite que segue a morte de Monseigneur são geniais, desses momentos que ele aproveita para pôr a nu as emoções das personagens, quando ainda não tiveram tempo de se controlar e afivelar a máscara que lhes interessa, e realçando alguns toques que hoje chamaríamos surreais, como o aparecimento de Madame em grand habit de cour no meio de uma multidão de mulheres descompostas surpreendidas pelos acontecimentos a meio da noite (outra cena surreal é a descrição da viagem nocturna da princesa dos Ursinos pelas planícies geladas de Espanha quando foi expulsa por Isabel Farnese).
Para terminar, cito de uma carta de Lytton Strachey a Virginia Woolf, de Novembro de 1908: "[...] but Saint-Simon supports me, wonderful as ever. [...] I don't know what I shall do when I come to the end - but that's still 15 1/2 volumes off. And I suppose one can always begin again."
terça-feira, junho 17, 2008
Felicidade e relacionamentos

Em The Happiness Hypothesis, que li recentemente, o autor fala a certa altura de dois tipos de amor: passionate love e companionate love, que traduzirei por amor-paixão e amor-companheirismo. Estas noções não são novas – lembro-me aliás de um livro que esteve extremamente na moda nos anos 80, Enamoramento e Amor, de Francesco Alberoni, que era todo ele dedicado a esse assunto – mas gostei da forma como Jonathan Haidt as trata, e o tema interessa-me porque tenho pensado nele frequentemente. O autor define da seguinte forma estes dois tipos de amor: o amor-paixão é “um estado de emoção apaixonada, em que coexistem tumultuosamente sentimentos ternos e sensuais, a ansiedade e o alívio, o ciúme e o altruísmo”; o amor-companherirismo “cresce lentamente ao longo dos anos, à medida que os amantes desenvolvem a sua proximidade e solidariedade e passam a depender, a cuidar e a confiar um no outro". Mais à frente diz: “Se a metáfora para o amor-paixão é o fogo, a metáfora para o amor-companheirismo é uma trepadeira, cujos ramos crescem e se entrelaçam, aproximando e ligando progressivamente as duas pessoas" (traduções minhas). Gostei particularmente, porque concordo inteiramente com ela, da ideia do autor de que os dois tipos de amor são independentes, de que o amor-paixão não conduz necessariamente ao outro, e que é este último o que perdura e que produz uma felicidade mais completa e duradoura.
Tive a sorte de viver um amor-paixão intenso e completo, e que conduziu a um amor-companheirismo que, apesar de muitos acidentes e tribulações pelo caminho, se consolidou e fortaleceu ao longo de anos, como na imagem dos ramos de trepadeira que se foram entrelaçando e misturando de tal forma que a certa altura a vida parecia impossível sem essa ligação, sem esse complemento. Os acontecimentos mostraram-me que não foi impossível, mas é certo que com os seus ramos muitos dos meus também foram arrancados e muitos pedaços dos seus ficaram intrincada e definitivamente inseridos nos meus. Com o passar do tempo, aconteceram entusiasmos, algumas breves paixões, mas nada que se aproximasse nem de longe do que já vivera e como tal sempre me sabendo a muito pouco; aceitei que o grau maior ou menor de felicidade na minha vida não incluiria uma relação a dois, o que foi de certa forma um alívio. Até que a dada altura, constatei que sem me aperceber me envolvera numa relação que, sem nunca ter passado por uma fase de amor-paixão, evoluíra imperceptivelmente para um companheirismo, uma amizade, precisamente do tipo que “cresce lentamente ao longo dos anos, à medida que os amigos desenvolvem a sua proximidade e solidariedade e passam a depender, a cuidar e a confiar um no outro”. Substituí a palavra amantes pela palavra amigos, e a definição aplica-se na perfeição. Não será então o amor-companheirismo um outro nome para a amizade que Montaigne considerava a relação mais nobre entre dois seres humanos? Não será portanto a amizade-companheirismo o que mantém unidas e entrelaçadas, quais trepadeiras frondosas, duas pessoas ao longo da vida, seja casadas ou depois de terem vivido o amor-paixão (o enamoramento de Alberoni), seja quaisquer outras que tenham evoluído directamente para esse tipo de relação, sem passar por paixões tumultuosas, sendo do mesmo ou de diferente sexo? A nossa sociedade actual está tão excessivamente estruturada à volta da procriação, do sexo, da ideia de amor romântico e sexual, que as pessoas se habituaram a viver centradas no casal, e a relegar a amizade para relações entre adolescentes (no pressuposto de algo transitório até ao acasalamento) e na vida adulta para conversas no trabalho ou no café, enquanto que o principal, a verdadeira vida, decorre no lar na vida a dois. Daí derivam tantos preconceitos e clichés, incluindo a estranheza com que se encara quem decide não formar família e a suspeição que desperta uma amizade mais chegada.
É uma pena, porque estou certo de que esses preconceitos, essa forma limitada de ver as coisas, impedem o desenvolvimento e o crescimento de muitas trepadeiras, e como tal de muita felicidade. E sei que pelo menos no meu caso grande parte da felicidade que tenho experimentado se deve a ter deixado crescer e entrelaçar novas ramadas, numa amizade (ou amor-companheirismo, porque não?) cujo valor nunca celebrarei o suficiente.
domingo, junho 15, 2008
Tales of the Alhambra, de Washington Irving

Nunca tinha lido nada de Washington Irving, apesar de o conhecer de nome como o autor de Sleepy Hollow (vi o filme de Tim Burton) e de Rip Van Winkle. Durante a minha recente viagem a Granada, tive curiosidade e comprei, como bom turista, o livro Tales of the Alhambra, que se encontra à venda em tudo quanto é loja de recuerdos na cidade. Foi uma leitura agradável, por vários motivos: contos bem escritos num inglês muito clássico e correcto, revivi a visita ao Alhambra ao reconhecer as várias descrições das salas, torres, pátios e jardins, entretive-me com histórias de tesouros escondidos, encantamentos, princesas e magos mouriscos ao estilo das Mil e Uma Noites. E é curioso como reencontrei um tipo de lendas e mitos que não ouvia desde a minha infância - quando era miúdo e passava férias na Beira Baixa, lembro-me de que sobre cada colina, cabeço de granito ou ruína havia uma história de potes de ouro enterrados, mouras encantadas, cujos segredos geralmente se descobriam se se circundassem umas tantas vezes à meia-noite, ou se se proferissem determinadas orações ou empunhassem certos talismãs. Suponho que esta afinidade de lendas tenha a ver com o nosso passado comum de ocupação árabe, mas achei engraçado e despertou-me uma certa nostalgia.
quarta-feira, junho 11, 2008
The Happiness Hypothesis, de Jonathan Haidt
Um livro muito interessante, um dos melhores que tenho lido sobre este tema da psicologia da felicidade - e nos últimos meses li vários, fornecidos por um amigo que se interessa particularmente pelo assunto. De leitura fácil e agradável, está muito bem documentado e não cede a duas tentações de facilitismo - não sacrifica o rigor à simplificação e não apresenta soluções ou "receitas" definitivas, mas apenas sugestões. O autor consegue um excelente equilíbrio na escrita entre a seriedade científica e a clareza de exposição, mostrando uma formação científica sólida que lhe permite escrever um livro de senso comum das nossas avós travestido de grande ciência psicológica, e uma grande capacidade de síntese e de comunicação. Não concordo com tudo o que ele diz, sobretudo nos últimos capítulos, que são mais especulativos (no sentido em que expoem mais as suas ideias do que dados objectivos), sobretudo no que diz respeito à utilidade da religião - continuo irredutivelmente anti-religioso e convencido de que pode perfeitamente existir moralidade sem religião - mas reconheço-lhe a honestidade intelectual de apresentar as suas ideias como tal - ideias e não factos - e de tentar ver as coisas do ponto de vista da religião sendo ateu. No conjunto, um livro muito bom que nos ajuda a conhecermo-nos melhor, a compreendermo-nos e aos outros melhor, e que sem ser didáctico nos fornece uma série de pistas que podemos utilizar para reflectir e melhorar a nossa felicidade. Não sei se existe tradução em português, mas se não existe é uma pena.
segunda-feira, junho 09, 2008
Marcel Proust, de Edmund White
Uma biografia curta, que se lê de um fôlego, muito bem escrita e interessante. Edmund White percorre a vida de Proust, a infância, a vida social, a doença, as influências, a génese e a evolução da escrita de Em Busca do Tempo Perdido, os amores, a fama. Apesar de se debruçar com mais detalhe sobre a homossexualidade de Proust - o que era de esperar, já que Edmund White é um dos representantes mais conhecidos, e de maior qualidade, da chamada literatura gay americana - não cede à facilidade de explicar tudo desse ponto de vista e sabe apresentar o escritor como a personalidade complexa e multifacetada que foi, fruto de múltiplas influências sociais, culturais, familiares, que combinadas com o seu talento, produziram o livro que - e eu tenho muitas reticências a fazer este tipo de classificações - é provavelmente o melhor livro que já li. E reli, treli, e conto fazer a próxima leitura no original francês. Há um livrinho relativamente famoso, How Proust Can Change Your Life, que nunca li, mas posso dar a receita de como Proust pode mudar a nossa vida - basta lê-lo. Está lá praticamente tudo, e tão incrivelmente bem escrito, com uma perspicácia e inteligência que surpreendem a cada página - "mas é mesmo assim!" - e me deixam sempre com pena de o acabar. domingo, junho 08, 2008
Dias de descanso

Uns dias de sossego na Serra de S.Mamede, dedicados à preguiça, leitura, comida e algum passeio, para ganhar fôlego para um mês que vai ser muito complicado. O tempo esteve primaveril, mais sugestivo de fins de Abril do que de princípios de Junho, os campos do Alentejo muito bonitos, e é sempre bom rever Marvão e Castelo de Vide. As barragens todas muito cheias - lá se vai essa sempre útil desculpa da seca! No regresso, ao ligar o rádio, sempre as mesmas notícias, os alarmismos, as repetições das mesmas histórias até à náusea. Sim, Junho vai ser mesmo um mês difícil de suportar.

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