sábado, agosto 25, 2007

Hannah Arendt e o julgamento de Eichmann


Outro livro muito interessante que li recentemente foi Eichmann and the Holocaust, constituído por excertos de Eichmann in Jerusalem. Há muito tempo que tinha vontade de ler o famoso livro de Hannah Arendt, e quando vi este livrinho na Fnac enquanto comprava leitura para as férias não hesitei, só depois me apercebi de que não era a obra completa. De qualquer forma, o texto é extraordinariamente bom, certamente representativo, e já encomendei o livro integral na Amazon.

Nunca tinha lido nada de Hannah Arendt; escreve muito bem, com uma clareza, lucidez e elegância extraordinárias. Não admira que o livro tenha sido tão mal recebido pelo Estado de Israel e pelas comunidades judaicas em geral - não só é muito crítica sobre a forma como o julgamento de Eichmann foi conduzido como aborda muito clara e explicitamente o papel da sociedade em geral e dos líderes das comunidades judaicas em particular durante a perseguição. E, ao negar o estatuto de monstro a Eichmann (a famosa banalidade do mal, expressão cunhada por ela precisamente neste texto), levantou questões extremamente perturbadoras e desconfortáveis para todos nós (pois seria obviamente muito mais reconfortante pensar que tudo aquilo acontecera por uma aberração de alguns monstros invulgares, em vez de ser o resultado de uma conjuntura particular de acontecimentos, ideologias e muitas pessoas normais que agindo de forma prosaica e legalista realizaram um crime de proporções inéditas na história da Humanidade).

Pois como Hannah Arendt diz: "O problema com Eichmann era precisamente haver tantos como ele, e não serem nem pervertidos nem sádicos, mas terrivel e aterrorizadoramente normais. Do ponto de vista das nossas instituições legais e dos nossos valores morais, esta normalidade era muito mais assutadora do que todas as atrocidades juntas, pois implicava - como fora dito repetidamente em Nuremberga pelos réus e os seus defensores - que este novo tipo de criminoso, que é de facto hostis generis humani, comete os seus crimes em circunstâncias que lhe tornam virtualmente impossível saber ou aperceber-se de estar a agir mal." E desta forma Eichmann é retratado como um mesquinho funcionário, meticulosamente eficiente e tacanhamente ambicioso (o que mais lamenta é não ter sido promovido ao posto imediatamente superior, apesar de ser tão eficiente), com um discurso (reflexo do seu pensamento) repleto de pretensiosas e vazias frases-feitas, um perfeito exemplar de uma baixa clase-média de funcionários de colarinho mesquinhos e possidónios. "Aquilo em que ele acreditou fervorosamente até ao fim era no sucesso, o valor principal da 'boa sociedade' como ele a conhecia. [...] A sua consciência fora efectivamente aplacada quando notara o zelo e prontidão com que por todo o lado a boa sociedade reagia como ele. Não necessitara de 'tapar os ouvidos à voz da consciência', como o julgamento afirma, não porque não a tivesse mas porque a sua consciência falava com uma 'voz respeitável', com a voz da sociedade respeitável á sua volta."

Mais impressionante ainda que este retrato de Eichmann (impressionante precisamente por ser tão prosaico, como já foi dito) é a excelente descrição da atitude dos outros intervenientes. Os perpetradores das atrocidades, também quase todos eles 'pessoas respeitáveis' (como se vê pelas suas declarações em Entrevistas de Nuremberga), para quem "...o problema não era tanto ultrapassar a sua consciência como vencer a piedade animal que afecta todos os homens normais em presença do sofrimento físico. O truque usado por Himmler - que aparentemente era fortemente afectado por estas reacções instintivas - era muito simples e provavelmente muito eficaz; consistia em voltar estes instintos ao contrário, ou seja, em direcção a si próprio. De modo que em vez de dizer: Que coisas horríveis fiz às pessoas!, os assassinos poderiam dizer: Que coisas horríveis tive de suportar no cumprimento do meu dever, quão pesada foi a carga sobre os meus ombros!" Ou os numerosos colaboradores activos, que depois afirmaram terem sido sempre secretamente adversários do regime mas submeterem-se às suas ordens e cometerem crimes para "parecerem nazis" ou para impedirem que os "verdadeiros nazis" cometessem crimes ainda piores, chegando a criar o admirável conceito de "emigração interior" para justificar a sua não-emigração de facto, como se tivessem fugido para algum ignoto recesso das suas mentes, em que um bom exemplo foi "...apresentado [...] num tribunal polaco pelo antigo Gauleiter Arthur Greiser de Warthegau: apenas a sua 'alma oficial' tinha cometido os crimes pelos quais foi enforcado em 1946, a sua'alma privada' fora sempre contra eles."

Um dos pontos levantados por Hannah Arendt e que acho extremamente importante é o facto de todos na época, incluindo as vítimas, terem aceite a existência de distinções entre os judeus, o conceito de "judeus importantes", o tratamento de excepção a grupos como os condecorados da 1ª Guerra: "Para aqueles que não desejavam fechar os olhos deve ter sido claro desde o início que 'era prática geral permitir algumas excepções de modo a poder manter a regra geral com maior facilidade. [...] O que era moralmente tão desastroso na aceitação destas categorias privilegiadas era que toda a pessoa que queria uma 'excepção' para o seu caso implicitamente reconhecia a regra. [...] Mesmo após o final da guerra, Kastner orgulhava-se do seu sucesso em salvar 'Judeus proeminentes', uma categoria oficialmente introduzida pelos Nazis em 1942, como se também na sua opinião fosse evidente que um judeu famoso tinha mais direito a permanecer vivo do que um judeu vulgar." E termina o assunto desta forma: "Na Alemanha actual, esta noção de judeus 'proeminentes' ainda não foi esquecida. Enquanto os veteranos e outros grupos privilegiados já não são mencionados, o destino de judeus 'famosos' ainda é deplorado a expensas de todos os outros. Não são poucas as pessoas, especialmente entre a élite cultural, que ainda publicamente lamentam o facto de a Alemanha ter mandado Einstein embora, sem perceberem que foi um crime muito pior matar o pequeno Hans Cohn da loja da esquina, mesmo que não fosse um génio."

Penso que o problema mais desconfortável de todos relacionado com toda a história das atrocidades nazis é o medo que temos de nós próprios - se num dado momento foi possível cometer tais crimes de forma organizada e burocrática num Estado europeu moderno, com a colaboração activa ou a tolerância passiva de todo um povo (de vários, desde a ocupação dos países europeus), será que a nossa atitude teria sido diferente? Até que ponto o nosso comportamento se teria mantido íntegro? Teríamos fugido, colaborado, "emigrado interiormente", resistido?

São algumas das muitas questões abordadas, agora resta-me ler o livro completo. Certamente falarei disto novamente.

Bug, de William Friedkin

Bug é uma peça de teatro filmada que provoca uma certa ambivalência. Inicialmente, o filme é lento e mesmo entediante, mas por outro lado vai criando um clima de desconforto e expectativa que depois cresce numa espiral de loucura e violência na segunda parte. Não sei se o realizador teve a intenção de propor vários níveis de interpretação da história (ou seja, até que ponto pretende que aceitemos como credíveis os delírios das personagens, ou que tomemos a história como uma metáfora do mundo moderno), mas parece-me que sim, por certos pormenores (que achei muito dispensáveis) como os flashes dos insectos a circular ou a eclodir. De qualquer forma, é uma história intensa de loucura, com boas interpretações e um excelente retrato da esquizofrenia paranóide; ao longo do filme lembrei-me muitas vezes de Repulsion, de Polanski, que é um dos melhores retratos em filme da esquizofrenia, e de Safe, de Todd Haynes, pela escalada inexorável do absurdo irracional e angustiante. Ou seja, não é um filme que se goste de ver, pois causa desconforto, mas por isso mesmo é interessante e com várias cenas excelentes (sobretudo o ambiente final de irrealidade do quarto forrado de alumínio).

Paranóia, de D.J. Caruso

Disturbia, de D.J. Caruso, é um filme divertido e bem conseguido, um thriller para adolescentes que teve a boa ideia de abandonar os clichés satirizados em Scary Movie e ir buscar uma boa ideia a um clássico (Rear Window), aadaptá-la aos dias de hoje, temperar com humor e suspense qb, sem recorrer a grandes twists nem personagens complexas. O resultado é um filme que se vê com agrado e em que se entra muito bem, e que mesmo sendo muito previsível ainda faz dar um ou dois saltos na cadeira.

quinta-feira, agosto 16, 2007

Algumas leituras de férias

Nunca tinha lido nada de Don DeLillo, e devo dizer que Falling Man não me agradou especialmente. É razoavelmente interessante, sobretudo nas descrições do dia do 11 de Setembro e do estado de espírito de confusão e estupefacção / choque que se lhe seguiu, mas a evolução das personagens é pouco credível, o desenvolvimento da história pouco interessante, as partes do terrorista enxertadas à pressão, e sobretudo a escrita e a estrutura do romance são pretensiosos e entediantes, fizeram-me lembrar uma Anne Tyler com pretensões a Ian McEwan. Decididamente, o 11 de Setembro e os seus efeitos mereciam um tratamento literário melhor.

Sempre gostei muito de História, e acho este tipo de exercícios de especulação sobre a história contrafactual extremamente interessantes quando bem fundamentados, como é o caso de História Virtual, organizado por Niall Ferguson. Abordei a longa introdução com algumas reticências devido à sua extensão (100 páginas!), mas é das partes mais interessantes do livro e ajuda muito na sua compreensão. A revisão sobre as várias teorias e formas de encarar e de escrever a História está excelente e faz reflectir. Quanto aos vários cenários apresentados, o menos interessante pareceu-me o primeiro, o da América britânica, e a conclusão, com a sua "História alternativa", está muito engraçada. Também sempre me fascinou até que ponto o evoluir da História é determinista ou dependente do acaso, e a minha opinião actual é que é um misto de ambos - a tendência geral é determinista, mas com grandes variações a curto / médio prazo dependentes do acaso, nomeadamente de factores relacionados com os indivíduos. No fundo penso que acaba por ser também a posição de Niall Ferguson, ao ler a conclusão - apesar de vários cenários diferentes ao longo do tempo, o curso geral da História não ficava muito diferente. Ou será porque conhecendo a História que foi se torna quase impossível imaginar algo de completamente diferente a longo prazo? Com efeito, se os desvios se sucedessem e potenciassem, a certa altura quase tudo seria possível de imaginar, o que começa a ser inútil para a análise e compreensão do que de facto aconteceu..

Gostei imenso de Norwegian Wood. Haruki Murakami está actualmente muito na moda; eu tinha lido dele há uns anos A Wild Sheep Chase (traduzido recentemente em português como Em Busca do Carneiro Selvagem...) e não tinha gostado muito - escrita interessante, mas não me prendeu especialmente e achei-o no geral um pouco maçador e pretensioso. Mas Norwegian Wood é muito bom, um livro intimista e terno, com personagens e situações extremamente bem construídas e reais, uma história agridoce de nostalgia e crescimento, e uma escrita sóbria e cativante. Depois deste, fico com vontade de ler mais Murakami.

Este é daqueles livros de que não sei como dizer que gostei, porque o gostar aqui não se refere a nenhum prazer estético (nem de qualquer outro tipo, a não ser talvez o de conhecer, de saber, de tentar compreender). O livro é excelente para quem se interesse pela questão do nazismo e das atrocidades nazis, e de como foi possível. E a leitura das entrevistas a vários acusados e testemunhas do Julgamento de Nuremberga é mais um elemento, e não para simplificar. Sinto sempre uma espécie de horror gelado misturado com um fascínio doentio sobre esta questão, porque de facto foi tão horrível que desafia o entendimento. As declarações dos nazis revelam duas tendências comuns a quase todos - o afectarem desconhecimento do que se passava com os judeus (temperado por aquela tão humana mania de acrescentarem: "eu até tinha amigos judeus" ou "sempre ajudei pessoalmente os judeus") e o empurrar as responsabilidades para os ausentes (geralmente Hitler, Himmler e Bormann). E depois é a forma espantosa como descrevem tudo o que aconteceu como normal, banal, burocrático, o que atinge o expoente do horror / absurdo nas declarações de Rudolf Hoess, Julius Streicher e Otto Ohlendorff. Arrepiante.

quarta-feira, agosto 15, 2007

Férias


Acho que nunca passei nenhuma estadia na praia em que fosse tão pouco à praia. Por um lado, o tempo não estava muito quente, por outro cada vez aprecio menos estar muito tempo na praia - o ideal para mim agora é chegar a uma hora de calor, tomar banho e nadar um pouco, secar-me a um sol quente, voltar à água quando recomeço a sentir-me quente, repetir este procedimento duas ou três vezes e ir embora. Quão longe me sinto dos tempos em que passava (com gosto) horas e horas na praia, a ler e a aboborar ao sol!

De qualquer forma, soube-me bem esta estadia no Algarev - prefiro o tempo assim, moderado, li um pouco, dormi imenso, e sobretudo passei muito tempo com o meu cão, que acho que só agora sinto verdadeiramente como o meu cão, com o mesmo género de afecto que tive pelo seu saudoso predecessor.

segunda-feira, julho 30, 2007

Calor

Atrasado, o Verão chegou em força... Não sei se o planeta está realmente a aquecer nem, caso isso seja verdade, se a actividade humana é responsável. Na minha curta vida (em termos geológicos, obviamente) não penso que dê para avaliar - os Verões sempre foram quentes, uns mais do que os outros, e os INvernos sempre foram frios, uns mais frios do que os outros. Como cada vez mais me custa suportar o calor, fico grato por este ano ter chegado mais tarde. Sempre me senti um pouco alien no Verão, com toda a gente radiante a correr para a praia e a deliciar-se com temperaturas acima dos 30ºC. Eu detesto fazer praia em Lisboa, cansa-me estar muito tempo ao sol, e fico com uma terrível inércia e desconforto físico nos dias quentes. De qualquer forma, também eu vou migrar para sul por 2 semanas para alguma praia e espero que muita leitura à sombra... E agradeço ao progresso que nos forneceu essa maravilhosa invenção que é o ar condicionado. Quanto ao calor, há que aguentá-lo até Setembro.

domingo, julho 29, 2007

A beringela biológica


Há uns tempos, decidi fazer uma salada de beringelas e grão. Levava 3 beringelas. Quando comprei os ingredientes no supermercado - sou geralmente muito meticuloso a cumprir as receitas - as beringelas vinham embaladas 2 a 2; preparava-me para comprar 4 quando reparei que mais ao lado, na prateleira dos legumes, havia uma sberingelas "biológicas", mais caras, embaladas individualmente. Comprei uma, completando assim a quantidade necessária.

Atrasei-me nesse dia, de modo que liguei para casa e disse às minhas filhas para irem adiantando a receita. Quando cheguei, já estava a salada quase pronta, e perguntei: "Então, entenderam-se com a receita, estava tudo em ordem?"; ao que me responderam: "Sim, já fizemos tudo... Mas uma das beringelas estva toda podre!". Logo me assaltou a terrível suspeita: "Qual delas? A que estava embalada sozinha?". "Sim! Essa mesmo!". Ou seja, a beringela podia não ter utilizado químicos, mas pelos vistos fizeram-lhe alguma falta...

domingo, julho 22, 2007

Safe, de Todd Haynes

Vi há algum tempo Safe, não escrevi nada na altura, depois com o Verão, a família de férias, a inércia, a inércia!..., fui adiando, como com tantos outros posts que componho mentalmente mas que nunca chego a passar a escrito, mas gostava de deixar a minha impressão.

Safe é um filme muito interessante a vários níveis. Formalmente é muito bom: contido, com uma excelente interpretação da sempre óptima Julianne Moore, com um ambiente extremamente bem conseguido, em que a ansiedade, o medo, a claustrofobia, progridem num crescendo quase palpável. Há quanto a mim dois planos de leitura principais - um relacionado com o caso particular daquelas personagens (aquela mulher, aquelas fobias, aquele grupo de entre-ajuda, aqueles médicos, aquele subúrbio), o outro em que aquela história serve como metáfora de um problema mais generalizado: a sensação de insegurança e malestar crescente numa classe média suburbana e provida de uma afluência material e de um excesso de tempo livre que contrasta com a pobreza da sua vida interior, com a falta de objectivos e com o desinteresse geral da sua vida quotidiana, o que a leva a canalizar essa falta de sentido da vida numa série de medos absurdos, mal definidos e generalizados que acabam por ser o centro da sua vida. É nesse aspecto, e por essa leitura, que o filme se torna angustiante e que impressiona. Em relação à leitura mais estreita (a do caso particular contado), a minha visão é temperada por uma razoável experiência pessoal com doentes mais ou menos semelhantes, com os quais é muito difícil sentir empatia, pois nunca encontrei nenhum que fosse bonito como a Julianne Moore e são em geral pessoas auto-centradas, negativistas, sem capacidade de elaborar o sofrimento (nem aliás praticamente nada), e que se tornam extremamente destrutivas, corroendo tudo à sua volta, a começar pelas vidas dos familiares, sem qualquer consideração pelos sentimentos dos outros (aliás, o filme ilustra esses aspectos perfeitamente).

O final é como deve ser, em aberto, a melhor forma de terminar quer se faça uma ou outra leitura. É a melhor forma de nos pôr a pensar e de enfatizar o desconforto que o filme pretende causar.

Death Proof, de Quentin Tarantino

Gostei imenso do último filme de Tarantino, é daqueles casos em que se sai do cinema com a sensação de ter visto cinema a sério, puro entertainment. É uma homenagem divertida e afectuosa aos filmes de acção / série Z dos anos 70, mas tão bem feita e com com uma qualidade de diálogos, interpretações (e direcção de actores), planos e perspectivas, que é um filme bom, qual toque de Midas transformando o lixo em arte. A violência caricaturada deixa de ser chocante ou repulsiva, as sequências de perseguições automóveis são empolgantes. Kurt Russell está muito bom, mas sobretudo as actrizes estão todas extraordinárias (o serem pouco conhecidas torna-as ainda mais convincentes), e o filme está repleto de planos que apelam à nossa nostalgia por um certo cinema americano / ideia americana: as jukeboxes, as estações de serviço, os carros, os duplos, os sotaques texanos, os rednecks, as Lolitas belas, ordinárias e provocantes, com os seus calções reduzidos, longas pernas, pés de unhas mal pintadas, cabelos luxuriantes. E abanda sonora é espectacular - onde vai ele descobrir aquelas músicas todas?

Enfim, muito bom, causou-me uma impressão tão favorável como quando vi Pulp Fiction; manter esta vitalidade e pujanças mais de 10 anos passados é muito bom sinal.

sexta-feira, junho 29, 2007

Lolita, de Vladimir Nabokov

Apesar de ser um livro tão famoso, nunca tinha lido Lolita, como aliás nunca vi os filmes nele baseados, nem o de Kubrick nem o de Lyne. Surpreendeu-me por ser tão explícito e tão divertido, tendo em conta o tema - uma relação pedófila (confesso que pudibundamente pensava tratar-se apenas da obsessão platónica de um homem de meia idade por uma ninfita). Está soberbamente bem escrito, e torna-se fascinante como a obsessão maníaca do narrador e o seu mergulho progressivo na loucura são descritos de forma tão humanizada e ao mesmo tempo repleta de ironia acutilante, criando uma ambivalência de simpatia pelo homem e repugnância pelos seus actos. O retrato da ninfita é igualmente impiedoso e desarmante. É também de certa forma um road book, com excelentes descrições da América. Imagino que deve ter sido precisa uma grande coragem da editora para o publicar nos anos 50; como o autor diz no posfácio, este é um dos "...três temas que são absolutamente tabu no que respeita à maioria dos editores americanos. Os outros dois são um casamento negro-branco que é um êxito completo e glorioso e origem de muitos filhos e netos, e o ateu absoluto, total, que vive uma vida feliz e útil e morre durante o sono, aos cento e seis anos."

quarta-feira, junho 27, 2007

Marie Antoinette, de Sophia Coppola



A primeira frase que me veio à cabeça quando acabei de ver este filme foi a de uma crónica de Vasco Pulido Valente: “um filme frívolo sobre uma rainha frívola” (cito de memória, podem não ser exactamente estas as suas palavras). Com efeito, o que fica de Marie Antoinette de Sophia Coppola é um filme visualmente bonito (candy for the eyes, como li algures numa crítica americana), mas em que tudo é tratado de forma extremamente superficial e em que se fica com uma sensação de um enorme desperdício de meios – foram autorizados a filmar em Versalhes. Fico com a ideia de que os louvores com que a crítica cobriu o filme se devem a uma de três coisas (ou às três combinadas): o crédito acumulado por Sophia Coppola pelo seu nome e por Virgin Suicides, que já lhe valeu no incensamento de Lost in Translation, a beleza visual do filme (caras bonitas, belos décors, muita, muita roupa) ou a aparente originalidade que se limita a usar música pop na banda sonora de um filme de época (e que nem sequer é assim tão original). Acho os filmes de Sophia Coppola de um interesse decrescente: Virgin Suicides era interessante e tocante, Lost in Translation pretensioso e banal, e Marie Antoinette é pretensioso e... frívolo, é mesmo a melhor palavra.

Parece-me que a biografia de Maria Antonieta merecia melhor, não porque tenha qualquer admiração pela personalidade (frívola) da rainha mas porque sempre me fascinou o seu percurso de vida: dos píncaros da frivolidade, riqueza e posição a uma cela da Conciergerie e à guilhotina (parte que o filme nem sequer aborda, pois termina com o final do período de abundância). Aliás, é essa a ideia do subtítulo da biografia de Antonia Fraser – The Journey (biografia em que se baseou Marie Antoinette, que contou com a autora como consultora). No entanto, gosto pouco desta biografia, que comprei há uns anos num quiosque de aeroporto: muito detalhada, cheia de factiúnculos, mas excessivamente hagiográfica (sempre com a preocupação de desculpar a rainha; do género: “gastava x francos em plumas e vestidos, mas no ano de 1784 a sua contribuição para caridades foi de y”), não conseguindo de todo recriar uma pessoa convincente. Muito melhor é de longe a biografia de Stefan Zweig, que sem ser factualmente exaustiva (mas contando basicamente o mesmo) apresenta uma Maria Antonieta humana e convincente nos seus actos, erros e tolices, uma mulher normal apanhada numa conjuntura particularmente turbulenta da História.

terça-feira, junho 26, 2007

Queixas de médicos


Recentemente, as queixas de um amigo sobre o atendimento que recebera do médico de família num Centro de Saúde deram-me vontade de escrever um pouco sobre isso. Começo por dizer que sendo médico ouvir queixas a respeito de médicos me causa sempre um certo desconforto, por dois motivos. Em primeiro lugar, por muito que eu deteste generalizações e tenha relutância em amalgamar num grupo homogéneo a "classe médica", que é um termo que me irrita por englobar na mesma designação centenas de pessoas muito diferentes, a verdade é que essa generalização é feita pela maioria das pessoas, de modo que me sinto sempre indirectamente atingido no meu brio profissional. Em segundo lugar, a maioria das críticas e queixas que ouço no dia-a-dia são mais fruto de expectativas descabidas das pessoas ou da má organização / coordenação / concepção dos serviços do que propriamente da actividade directa dos médicos, que são sempre um alvo fácil por serem a "cara" do sistema e também alvo de uma certa hostilidade tradicional por serem considerados como uma classe privilegiada (o que actualemente é cada vez menos verdade).

Depois desta "declaração de interesses", acrescento que as queixas concretas do meu amigo eram perfeitamente razoáveis e ele tinha toda a razão. Tinham a ver com aquilo que não deve falhar na actividade dos médicos - falta de respeito pelos pacientes (no caso, atrasos injustificados no atendimento e atitude desinteressada em relação aos seus problemas) e incompetência (mau atendimento e prescrição errada - entendida no sentido lato e não só da medicação). E foi de certa forma por isso que quis escrever: a nossa actividade é complicada e ansiogénica, lidamos com pessoas em sofrimento e vulneráveis, as nossas acções têm sempre potenciais complicações muitas vezes impossíveis de evitar, e somos confrontados tantas vezes com queixas absurdas e injustas que temos de rebater, que me revolta e enfurece ver colegas a falhar em coisas estupidamente simples e básicas por desleixo e falta de respeito, contribuindo para alimentar o clima de suspeição e hostilidade que cada vez mais ensombra a nossa prática profissional.

Com efeito, será assim tão difícil ser-se pontual? É apenas uma questão de organização, e pode fazer o contacto com o paciente começar logo mal. E também não é assim tão complicado estar-se actualizado de forma a não cometer erros grosseiros; é claro que ninguém pode saber tudo, mas é indispensável saber-se o suficiente para resolver os problemas básicos e orientar os mais complexos. E também convém saber comunicar com os doentes de forma a responder às suas questões mais prementes e fazê-los sair do consultório menos inseguros do que lá entraram. Porque se é verdade que existem doentes hostis e desconfiados com quem é muito difícil conseguir um entendimento, na esmagadora maioria dos casos os doentes confiam em nós e os médicos têm (ou deveriam ter) tanta mais informação do que eles sobre as doenças que o controle da conversa está quase sempre do nosso lado.

Sempre defendi que a maioria dos médicos são pessoas sérias e interessadas pelo que fazem. Ao contrário do que em geral se pensa, quem queira apenas ganhar dinheiro tem seguramente outras formas mais fáceis de o fazer, sem necessidade de tirar notas elevadas no liceu, fazer um curso exigente de 6 anos, seguido de exame de candidatura à especialidade, anos de avaliação, exames depois dos 30 anos, e uma prática profissional com as responsabilidades e os riscos que se conhecem. Por isso mesmo também defendo que os médicos têm de estar ao nível dessas responsabilidades; não têm de ser perfeitos nem santos, mas respeito pelos doentes e competência profissional não são opcionais, sobretudo se queremos deixar de ouvir este tipo de queixas, que sendo fundamentadas, nos fragilizam para quando temos de enfrentar os verdadeiros desafios (que incluem as queixas indevidas). E afinal de contas uma atitude correcta não é assim tão difícil.

Paris Je t'aime

Paris é de facto uma cidade lindíssima, e este é um filme simpático, com múltiplos olhares sobre a cidade, cada realizador filmando uma curta história localizada num bairro. Umas são melhores, outras piores (achei fraquinhas as dos chineses e dos vampiros), mas o conjunto resulta muito bem, a final constitui um belo remate, e os actores estão todos excelentes. Os episódios de que gostei mais foram: Montmartre, de Bruno Podalydès, Tuileries, de Ethan e Joel Coen, Le Marais, de Gus Van Sant, Bastille, de Isabel Coixet, Pigalle, de Richard LaGravenese e 14ème Arrondissement, de Alexander Payne. Que vontade de rever Paris!

quarta-feira, junho 20, 2007

Memórias de um Nómada, de Paul Bowles

Como já várias vezes disse neste blog, sou um admirador da obra de Paul Bowles, e sempre achei a sua experiência de vida muito interessante, de modo que foi com grande curiosidade que li a tradução portuguesa de Without Stopping. Gostei muito, e surpreendeu-me um pouco tê-lo achado tão divertido, porque geralmente os livros de Bowles, mesmo se revelam um humor irónico e fino, são na sua maioria bastante sombrios. Paul Bowles teve uma vida fascinante, conheceu pessoas e sítios interessantes e é um observador arguto e divertido. A descrição da sua infância, das suas andanças pelo mundo, os retratos das pessoas e dos ambientes que foi encontrando, são excelentes. Muito bom.

segunda-feira, junho 18, 2007

Play Time, de Jacques Tati

Depois de me deliciar com Mon Oncle, não podia deixar de ir ver Play Time ao Nimas. É também um filme muito engraçado e inteligente, praticamente um filme mudo, cheio de gags hilariantes e repleto de pormenores significativos e com uma estética extremamente cuidada e bem conseguida. Nunca fui especialmente adepto dos filmes de gags, mas este de Tati é realmente engraçado, porque subjacente ao nonsense das cenas está sempre uma fina ironia, um olhar trocista e inteligente sobre o deslumbramento (tolo) com a modernidade e a tecnologia. Que diferença abismal dos trejeitos idiotas de Mr. Bean! Tati mostra que para fazer humor com nonsense não é preciso ser-se estúpido. Por isso se mantém tão actual 40 anos depois.

domingo, junho 17, 2007

Cenas da vida moderna - uma passagem de The Progress Paradox

Não resisto a transcrever uma passagem de The Progress Paradox, que está uma delícia e me fez rir até às lágrimas (tradução minha):

"Devido à profusão de coisas desnecessárias que acumulamos, livros como-fazer tais como Let Go of Clutter e o best-seller Clear Your Clutter with Feng-Shui prometem melhor sono e mesmo melhor sexo às pessoas que têm a coragem de deitar o excesso no lixo. Uma profissão de assistentes apareceu com esta finalidade, dando a "organizador" um novo significado como carreira. Um organizador já não é alguém que se dirige a uma mina ou uma fábrica para instar os trabalhadores a formarem um sindicato, mas alguém contratado à hora para entrar numa casa e atacar a tralha. A Associação Nacional de Organizadores Profissionais, sediada em Norcross, Georgia, tem 1500 membros; oferece um programa de certificação e diz que os seus membros profissionais são capazes de "criar uma redescoberta liberdade e sensação de controle" aos seus clientes controlando as suas coisas. A nova profissão até tem uma estrela mediática, Julia Morgenstern, que se anuncia como "a perita em organização nº 1 da América" e que frequentemente aparece na Oprah. Habitualmente, Oprah envia Morgenstern à casa atafulhada de um espectador, onde a perita em organização nº 1 da América é filmada revelando o seu incrível segredo - avançando pelas salas enfiando tralha em sacos de plástico verdes, que depois leva até à esquina e deixa no contentor do lixo."

Aqui fica portanto o segredo da organização, e uma sugestão para quem não sabe como ganhar a vida!

The Progress Paradox, de Gregg Easterbrook

The Progress Paradox - How Life Gets Better While People Feel Worse é um livro interessante, mais pelas questões que levanta e descreve do que pelas respostas que apresenta, o que aliás é frequente neste género de livros. Mas vale a pena pela primeira metade, que além de abordar uma questão importante, interessante e actual (o culto do mal estar, do catastrofismo, pela sociedade em geral e os media em particular numa é poca em que o mundo ocidental vive mais e melhor do que em qualquer altura da história - e o resto do mundo não vive pior), está escrito de forma inteligente e divertida, constituindo uma leitura agradável e informativa.

E de facto, porque havemos de estar rodeados de anúncios de desgraças e sensações de impending doom? O livro é muito bom a demonstrar o desfasamento entre a realidade e a percepção da mesma transmitida pelos media; apresenta uma série de hipóteses de explicação plausíveis, embora talvez eu acrescentasse algumas mais prosaicas, como a memória curta das pessoas e das sociedades (que aliás explica também a nostalgia de um passado dourado - que nunca existiu - e faz com que só nos lembremos do que desejamos, explicando fenómenos como o enaltecimento de Salazar a que temos assistido, por exemplo), ou o simples facto de as pessoas gostarem de se queixar e de profetizar desgraças desde tempos imemoriais - será para inconscientemente se congratularem com o seu bem estar presente?

Nos capítulos finais, o livro soçobra numa série de boas intenções piedosas e num misto de cristianismo e new age, salpicadas aqui e ali de ingenuidade americana, bastante simplórias. Mas no geral é uma leitura útil e divertida, e é sempre bom lembrar aos arautos da desgraça que vivemos num mundo cheio de confortos e vantagens que nunca eistiram noutras épocas (sim, eu sei que nem toda a gente no mundo vive bem, mas os arautos a que me refiro vivem, e fazem de conta que não).

Uma espécie de Marley...



Às vezes parece-me estar a viver uma versão de Marley & Eu... O meu jovem perdigueiro rói sacos, pegas, canetas, estojos, cadernos, livros, cadeiras, mesas, até a parede... É um verdadeiro torpedo mal comportado - ladra se fica preso à porta do café ou do supermercado, ganiu até às 4 da manhã na única noite em que o deixei em casa de outra pessoa, com quase 7 meses faz chichi na cozinha se o deixo sozinho muito tempo... Mas depois é tão bonito, tão meigo e olha-nos com uma expressão tão devotada e amigável! Sempre pronto para brincar, seja connosco seja com as gatas, que não lhe têm medo absolutamente nenhum. É um cãozinho delicioso, mas confesso que estou morto porque lhe passe a cachorrice, já me custa tanta vitalidade.

quinta-feira, junho 14, 2007

Requiem por uma Freira, de William Faulkner

Requiem por uma Freira está muito longe dos livros de Faulkner que eu mais gosto. A ideia de retomar a personagem de Temple Drake (do excelente Santuário) é interessante, mas a forma teatral não está muito bem conseguida e quanto a mim o livro sofre de um grande defeito, que é o de ser explicitamente uma metáfora, didáctico, o que torna pomposo e artificial. Quão melhor é quando a mensagem é transmitida de forma mais subtil, através das sensações / emoções despertadas pela história ou pela escrita, em vez de tão claramente proclamada!

Mas o livro vale a pena pelos textos intercalares, sobretudo pelos dois primeiros, em que se conta parte da história de Jefferson e do condado de Yoknapatawpha, complementando a informação de outros livros, como Absalão, Absalão! ou Os Invencidos e Sartoris, no belo estilo inconfundível de Faulkner. Infelizmente, o último (A Cadeia) é o menos bem conseguido, o que contribui para deixar um certo gosto a desilusão por um dos livros de Faulkner que menos aprecio.

Shortbus, de John Cameron Mitchell

Um filme delicioso, sob vários aspectos. Divertido, inteligente, emotivo, afectuoso, sexy, recorrendo sem pudor (e sem hipocrisia) a cenas de sexo explícito (que tem sido o que mais chamou a atenção sobre o filme), mas sem nunca ser pornográfico, para tratar os temas sempre actuais da solidão urbana e das relações humanas. As personagens são convincentes e apresentadas de forma afectuosa, e acho que o filme consegue atingir o objectivo de mostrar como aquelas pessoas que à primeira vista parecem marginais e bizarras são na verdade como qualquer um de nós, de forma que todos aqueles tipos de relação sexual (e são muitos) surgem como naturais e inocentes. A banda sonora é excelente, e todo o filme é repassado de um ambiente envolvente e humano que nos deixa no final bem dispostos com o mundo. No clube Shortbus só faltou mesmo aparecer Antony e ouvi-lo, seria ouro sobre azul.