domingo, abril 12, 2009

Facebook


Por sugestão de um amigo, criei um perfil no Facebook. Inicialmente tive alguma resistência, pois não me parecia especialmente interessante. Mas lá acabei por aderir, e até tem uma certa graça. Hoje em dia, a internet proporciona múltiplas possibilidades de socialização - os chats, o messenger, os sites de encontros, etc, além da excelente forma de comunicação que é o e-mail, que veio de certa forma fazer reviver a comunicação escrita. Não tenho grande vocação, nem disponibilidade, para socializar online, de modo que duvido que a minha lista de amigos no facebook cresça por aí além. Mas é divertido; por enquanto serve-me sobretudo para fazer quizes mais ou menos tolos e preencher mapas de viagens.

sábado, abril 11, 2009

Postcards from Italy, de Beirut

E como tenho estado a digitalizar as fotos de uma viagem a Roma em 1996, esta música vem mesmo a calhar... Nostálgica e doce.



A Doença como Metáfora e A Sida e as Suas Metáforas, de Susan Sontag

Muito interessantes, estes ensaios de Susan Sontag sobre a doença como metáforas, sobre a forma como as doenças são encaradas e demonizadas. O primeiro, focado na tuberculose e no cancro, é de longe o melhor, o segundo uma extensão ao caso da sida. A autora demonstra como estas doenças, por muito terríveis que possam ser, são apenas isso - doenças. Não são maldições, nem castigos, nem "privilégios" - no sentido de tornarem as pessoas melhores ou " mais interessantes", como se pensava no século XIX em relação à tuberculose e na primeira metade do século XX em relação às doenças mentais. E mostra com lucidez como o impacto devastador que têm sobre a nossa sociedade tem muito mais a ver com a forma como são encaradas e mitificadas do que propriamente com os seus efeitos directos. A comparação da visão da tuberculose no século XIX e com a do cancro no século XX está muito bem apresentada, e o olhar igualmente lúcido sobre a sida, numa altura (1988) em que esta era ainda uma doença intratável (a grande viragem do tratamento anti-retroviral foi em 1996) é elucidativo e de certa forma tranquiilizador - por haver alguém que saiba expor e desmascarar os mitos da doença ( e do medo da doença) tão bem.

Como médico, o assunto interessa-me particularmente, e também me fez relembrar a minha "relação" pessoal com as doenças - como muitas almas livrescas e algo românticas, também eu tinha na juventude uma visão irrealisticamente idealizada das doenças mentais, como algo que tornava as pessoas mais "interessantes" - as neuroses, as psicoses - tomando como exemplo personagens como Sílvia Nogaret de O Príncipe das Trevas de Durrell. Só quando comecei a lidar ao vivo com a doença mental, primeiro nas enfermarias do Hospital Miguel Bomabarda na Faculdade, depois com alguém que me era muito próximo, me apercebi da verdadeira natureza destas doenças - tais como as físicas, doenças, causa de sofrimento terrível, talvez ainda pior porque levando ao desmoronamento da personalidade, da ideia de nós próprios. Como diz a personagem de Settembrini a Hans Castorp, a certa altura de A Montanha Mágica, a doença em nada "enriquece" nem torna "interessante" quem dela sofre. Causam sofrimento, e geralmente provocam uma degradação de quem sofre; não há nada de romântico nas doenças.

Algumas passagens que considero especalmente significativas:

Além do mais, existe uma particular predilecção dos tempos modernos pelas explicações psicológicas da doença, como de tudo o resto. "Psicologizar" dá uma aparência de controlo das experiências e dos acontecimentos (como as doenças graves) sobre os quais as pessoas de facto pouco ou nenhum controlo têm. Tal realidade tem que ter uma explicação. (O seu real significado é; ou é um símbolo de; ou deve ser interpretada como sendo.) [...] Grande parte da popularidade e do poder de persuasão da psicologia vem-lhe do facto de ser um espiritualismo sublimado: um modo secular, ostensivamente científico, de afirmar o primado do "espírito" sobre a matéria.

Nada é mais repressivo do que atribuir um significado a uma doença sendo tal significado invariavelmente moralista.

O meu objectivo era o de aliviar o sofrimento inútil - exactamente como Nietzsche o formulou, numa passagem de Aurora que li recentemente: Reflexões sobre a doença - Tranquilizar a imaginação do enfermo, a fim de que pelo menos não sofra mais com os seus pensamentos sobre a doença do que com a própria doença - eis o que, na minha opinião, já seria alguma coisa! Seria mesmo uma grande coisa!

(A desconfiança em relação à medicina eficaz, científica, por oferecer tratamentos meramente específicos de determinada doença, e muitas vezes tóxicos, é uma suposição errada recorrente entre pessoas que se consideram esclarecidas.) Esta escolha desastrosa coninua a ser feita por pessoas com cancro, uma doença que muitas vezes a cirurgia e os medicamentos podem curar. [...] Mas submeter um corpo emaciado à purificação de uma dieta macrobiótica é tão útil na cura da sida como fazer uma sangria, o tratamento médico "holístico" por excelência na época de Donne.

Um cenário moderno constante: o apocalipse espreita... e nunca acontece. Aparentemente vivemos a um passo de um dos modernos tipos de apocalipse. [...] O apocalipse tornou-se num acontecimento que está e não está a acontecer.


É sempre bom, e instrutivo, lermos as reflexões de pessoas lúcidas e inteligentes.

The Ladykillers, de Joel e Ethan Coen


Ontem vi The Ladykillers, dos irmãos Coen, em video, e fartei-me de rir. É uma comédia negra muito divertida, num tom disparatado e exagerado, mas hilariante. Nunca vi o filme de que este é um remake, e os críticos dizem que é melhor - talvez, portanto, sorte a minha de ter visto este primeiro. Habitualmente não gosto de Tom Hanks, mas aqui está excelente. Soube-me muito bem ver um filme assim, depois de ter adormecido na pretensiosa e sobre-arrebicada "comédia" Duplicity há uma semana.

sexta-feira, abril 10, 2009

As Três Vidas, de João Tordo

Mais um livro de João Tordo, depois de O Livro dos Homens Sem Luz e de Hotel Memória. E é um prazer ver que continua a escrever muito bem, aliás, melhor, pois o seu estilo está a tornar-se mais pessoal e individualizado. Trata-se mais uma vez de uma história muito bem imaginada, de um thriller psicológico que agarra o leitor do princípio ao fim, e se se alonga por vezes um pouco excessivamente nas reflexões depressivas, no conjunto o livro está muito bem conseguido. Dos novos autores portugueses, este continua aparecer-me de longe o mais interessante. Muito bom.

quarta-feira, abril 08, 2009

Crime e Castigo, de Fyodor Dostoievsky

Reli recentemente Crime e Castigo, e foi absolutamente como se o estivesse a ler pela primeira vez. Pergunto-me mesmo onde teria a cabeça quando o li há muitos anos - a resposta é simples, no entanto: num período conturbado da minha vida e mais absorvido em outros assuntos. Mais precisamente, foi num Verão em que andava profundamente infeliz por uma paixão sem esperança, e a estudar Anatomia I, a cadeira mais terrível do 1º ano - e acho que de todo o curso - de Medicina. Durante cerca de um mês li, entre outros de que não me lembro, Crime e Castigo e Fado Alexandrino. O segundo detestei, e o primeiro não me deixou qualquer impressão e esqueci-o quase completamente. Só muitos anos depois me apaixonei por Dostoievsky, ao ler Os Possessos; desde então li vários, sempre com o mesmo entusiasmo, e fui adiando a releitura de Crime e Castigo - talvez com receio de uma decepção - até agora.

E de facto não sei como me pôde deixar indiferente... Falta de maturidade? Não é o melhor de Dostoievsky - gostei mais de Os Possessos, Os Irmãos Karámazov e O Idiota, por exemplo - mas é excelente. Dostoievsky escreve sempre com uma paixão inigualável, as suas personagens são sempre terrivelmente fortes e reais, a sua descrição dos sentimentos, violentos e angustiantes, é sempre poderosa e convincente. O dilema da escolha, da responsabilidade pessoal do Bem e do Mal, e neste caso da culpa e do remorso, é um dos seus temas recorrentes e que expõe sempre como um mestre. Como diz Virginia Woolf em The Common Reader, somos arrastados num turbilhão de emoções tempestuosas (se não diz exactamente isto, é algo do género, num ensaio excelente sobre os romances russos), mas saímos desse turbilhão mais vivos e conscientes, e mais ricos; deixamos a poeira assentar e sentimos que compreendemos melhor o mundo e as pessoas. Decididamente, gosto imenso de Dostoievsky.

domingo, abril 05, 2009

Gran Torino, de Clint Eastwood


Mais um belo filme de Clint Eastwood. Nostálgico e melancólico, mas com momentos de humor, profundamente afectuoso, e transmitindo uma mensagem de esperança para a América, de integração e continuação dos valores que constituiram o core da formação do país, simbolizados na aproximação progressiva do velho reaccionário aos vizinhos hmongs, no seu papel de role model em relação ao adolescente asiático e no legado final do Gran Torino ao jovem. Uma boa história, bem filmada no modo contido habitual a Eastwood, emotivo sem lamechice, e bem interpretada pelo próprio e com destaque para a jovem actriz que faz de Sue. Muito bom.

domingo, março 29, 2009

Nostalgia - a propósito de uma notícia do Guardian

Li há dias uma notícia no Guardian que dizia que David Hockney não terminaria uma série de quatro quadros que estava a pintar sobre as estações do ano, porque as árvores que eram o tema da série tinham sido abatidas. Não sei porquê, mas senti-me solidário com a tristeza do pintor, talvez porque é sempre triste quando algo majestoso e antigo como aquele cnjunto de árvores desaparece, talvez pela beleza dos quadros já pintados e o contratse entre as fotografias do local antes e depois do abate. Ficam as imagens:


O quadro do Verão


O quadro do Inverno


As árvores dos quadros...


...e o local depois do abate.

There is a Light that Never Goes Out, por The Smiths

Mais uma das minhas bandas favoritas, que gosto de ouvir em qualquer circunstância e disposição. Esta é uma das minhas músicas favoritas deles.



Take me out tonight
Where theres music and theres people
And theyre young and alive
Driving in your car
I never never want to go home
Because I havent got one
Anymore

Take me out tonight
Because I want to see people and i
Want to see life
Driving in your car
Oh, please dont drop me home
Because its not my home, its their
Home, and Im welcome no more

And if a double-decker bus
Crashes into us
To die by your side
Is such a heavenly way to die
And if a ten-ton truck
Kills the both of us
To die by your side
Well, the pleasure - the privilege is mine

Take me out tonight
Take me anywhere, I dont care
I dont care, I dont care
And in the darkened underpass
I thought oh god, my chance has come at last
(but then a strange fear gripped me and i
Just couldnt ask)

Take me out tonight
Oh, take me anywhere, I dont care
I dont care, I dont care
Driving in your car
I never never want to go home
Because I havent got one, da ...
Oh, I havent got one

And if a double-decker bus
Crashes into us
To die by your side
Is such a heavenly way to die
And if a ten-ton truck
Kills the both of us
To die by your side
Well, the pleasure - the privilege is mine

Oh, there is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out

O Visitante, de Tom McCarthy



Um filme muito simpático, que foca dois problemas de uma forma inteligente e sensível - a xenofobia americana pós-11 de Setembro e a crise de motivação da meia-idade. As interpretações são excelentes, e apesar de não ter um final feliz, não nos deixa infelizes, apenas com uma certa melancolia doce.

Diary of a Bad Year, de J.M. Coetzee

Cada vez gosto mais de Coetzee. O primeiro livro que li dele, À Espera dos Bárbaros, é excelente e impressionou-me muito; li depois The Master of Petersburg e Disgrace, de que também gostei bastante. Diary of a Bad Year é muito bom - exprime as ideias e preocupações de um liberal sobre o mundo actual (o Ocidente pós-9/11), e trata também do envelhecimento e da nostalgia. No entanto, o tom não é sombrio, e está soberbamente escrito - consegue nomeadamente criar três vozes bem distintas, das três personagens, cuja interacção é apresentada com humor e ironia. depois da leitura deste livro, acho que Coetzee passou a ser um autor de que lerei tudo o que puder.

sábado, março 21, 2009

O Pintor de Batalhas, de Arturo Pérez Reverte

O primeiro livro de Arturo Pérez Reverte que li foi A Tábua de Flandres; gostei da história engenhosa, mas achei a escrita um pouco "floreada" de mais, e a leitura de O Mestre de Esgrima (fracote) e de O Clube Dumas (o mais interessante, com uma história muito bem imaginada) confirmou a minha opinião de que a escrita do autor não estava à altura das intrigas. Pele de Tambor é também um livro com uma boa história, e marca uma certa transição na obra de Pérez Reverte, como se ele pretendesse tornar-se mais "sério", o que evidentemente não é um defeito em si, mas leva a um maior pretensiosismo da escrita, sobretudo quando as suas reflexões filosóficas continuam a parecer um tanto serôdias. Essa seriedade acentua-se em Território Comanche, que é completamente diferente dos romances iniciais - é uma memória e reflexão dos seus tempos como corresponde de guerra nos Balcãs. É na mesma linha que se insere O Pintor de Batalhas, em que as mesmas memórias e impressões são transmitidas, agora de forma romanceada (deixo de lado O Cemitério dos Barcos Sem Nome, que achei palavroso e aborrecido, e O Capitão Alatriste, uma espécie de glosa dos romances históricos de Dumas mas no estilo de Reverte, engraçado no seu género).

N'O Pintor de Batalhas, Reverte volta a tratar o tema da guerra, das suas atrocidades e da desumanização a que conduz, e a ética dos fotógrafos de guerra. Foca aspectos interessantes, mas sofre do pretensiosismo, da falta de génio do autor para exprimir o cerne dos problemas sem parecer estar a dar lições ou ser um filósofo de café. Além de não resistir a incluir a habitual personagem feminina inverosímil, que provavelmente é a sua ideia da mulher ideal mas que parece claramente irreal. Os diálogos são igualmente improváveis, e a história rebuscada. Não acrescenta nada ao que ele disse muito melhor em Território Comanche. Lembrou-me o filme de Isabel Coixet, A Vida Secreta das Palavras , com os seus defeitos e com bastante menos força.

Smells Like Teen Spirit, por Nirvana

Last but not least, os Nirvana! Sobre eles nem vale a pena comentar, e como a escolha era difícil, fica um clássico...


State of Love and Trust, por Pearl Jam

Mais uma das minhas 3 bandas favoritas dos anos 90 - estes acho que os ouvi pela primeira vez na banda sonora do filme Singles. São excelentes, deixam-me sempre mais feliz ao ouvi-los (o Live on Two Legs foi a minha companhia no carro por imensas vezes), e esta é talvez a minha música preferida deles, combina a energia com um certo lirismo jovem e forte.


1979, por The Smashing Pumpkins

Já não me lembro quando ouvi pela primeira vez, talvez na XFM. Mas foi amor à primeira vista, o álbum Mellon Collie and the Infinite Sadness é extraordinário - além de ter um nome absolutamente perfeito. Os Smashing Pumpkins são dos melhores exemplos de uma certa angústia existencial urbana e moderna que me diz muito.

domingo, março 15, 2009

The Reader, de Stephen Daldry



Esperava melhor deste filme. Está bem interpretado e bem filmado, com cenas de grande beleza estética, mas a história deixou-me algo desconfortável. O problema dos agentes das atrocidades nazis como pessoas tão humanas como as outras é sempre difícl de abordar; neste caso na personagem interpretada por Kate Winslet, que se destina a despertar a nossa compaixão - mas como se pode aceitar a vulnerabilidade e a vergonha causadas pelo seu analfabetismo como justificação para as suas acções como guarda de campo de concentração? A certa altura, os únicos momentos mais fortes do filme são a perplexidade do rapaz quando descobre a identidade dela e a intervenção final da personagem da sobrevivente (um magnífico curto papel de Lena Olin), que pergunta qualquer coisa como "mas que diferença faz isso?". Ficam as cenas da descoberta do amor físico pelo jovem de 15 anos, muito belas, acentuadas pela partilha da leitura, mas parece-me insuficiente, e a impressão geral que me fica é de uma história desequilibrada, misturando um problema importante mas "normal", a iliteracia, com a questão moralmente injustificável do extermínio. Talvez porque esta questão sempre me atinge como arrepiante, como a imagem do mal absoluto, estranho e incompreensível.

A Língua Posta a Salvo, de Elias Canetti

Elias Canetti é um daqueles escritores que ganhou o prémio Nobel mas que é pouco conhecido em Portugal; até ao ano passado só o conhecia de nome, quando li um livro dele, The Voices of Marrakesh, a propósito da minha ida a Marraquexe. Gostei da escrita, das descrições feitas como em pinceladas impressionistas, mas não me afectou especialmente, ficou para mim como uma agradável recriação de lugar e ambiente.

Recentemente, um amigo elogiou-me muito o seu livro autobiográfico, A Língua Posta a Salvo, e quando o vi poucos dias depois numa prateleira da Fnac, tive curiosidade e comprei-o - sempre tive um fraco por biografias e memórias. Não me arrependi, gostei bastante. Está muito bem escrito, e apresenta um retrato / memórias d einfância e adolescência com uma combinação de candura e inteligência muito interessantes. Foca a influência da língua na formação do pensamento - o autor, pertencente a uma das famílias de judeus sefarditas que emigraram da Península Ibérica para o Império Otomano no século XVI, foi passando de uma língua para outra conforme as fases da sua vida (do ladino, o espanhol arcaico falado pelos sefarditas, o búlgaro falado pelo povo da sua cidade natal, ao inglês da sua estadia em Manchester e por fim ao alemão de Viena e depois de Zurique, que se tornaria na sua língua definitiva) -, a descoberta do mundo através dos livros (no que me identifiquei muito com ele) e a influência da família, sobretudo da mãe, em relação à qual se pressente a sua libertação, a que ele chama o seu "segundo nascimento" no final do livro, que é o primeiro de uma trilogia. Ilustra também um aspecto que sempre achei fascinante - a forma como os grandes acontecimentos da História nos podem passar ao lado sem os compreendermos na altura e quase sem nos afectarem no momento; neste caso a Primeira Guerra Mundial, que o autor viveu sem se aperceber da importância fundamental que teve, inclusivamente sobre a sua própria vida. Fez-me lembrar quando, em criança, ao apaixonar-me pela História, crivava os meus avós de perguntas sobre os tempos da Segunda Guerra Mundial, e ficava desapontado por eles não se lembrarem de nada, quando tinham vivido naquele tempo, e eu pensava "como é possível?", e apenas referiam vagamente os tempos da "guerra de Espanha"... Só muito mais tarde percebi que a Segunda Guerra Mundial pouco significou na altura para o Portugal rural dos anos 40, apesar de obviamente terem sido indirectamente afectados por ela.

Fico à espera que publiquem os dois volumes seguintes, e mais uma vez me congratulo por haver tantos autores ainda a descobrir.

domingo, março 08, 2009

Slumdog Millionaire, de Danny Boyle, e outros filmes sobre a Índia e o Ocidente

Slumdog Millionaire é um filme agradável e bem disposto, soberbamente filmado por Danny Boyle, muito bem interpretado, que padece no entanto de um argumento algo simplista / simplório que transmite uma visão um bocado paternalista e "turística" da Índia. Compreendo os argumentos das críticas negativas de Salman Rushdie, mas sou muito menos severo - o filme é um bom entertainment, sai-se bem disposto da sala de cinema, e mostra pelo caminho bastante sobre a vida dos pobres na Índia (houve uma altura que pensei que ia abordar o problema dos transplantes selvagens - deformação profissional? - mas ficou-se pela exploração da mendicidade e da prostituição).

A Índia é um país que me provoca um misto de atracção e repulsa - gosto da sua cultura e de muita da sua estética, mas a miséria e as multidões assustam-me e duvido que algum dia tenha a coragem de lá ir. A propósito da cultura indiana, dos seus valores e do contraste e interacção com os valores ocidentais, que são temas que sempre me interessaram, relembro outros três filmes, qualquer deles quanto a mim superior a Slumdog Millionaire:

Outsourced (Despachado para a Índia), de John Jeffcoat, é um filme muito engraçado sobre um americano que vai gerir um call-center na Índia. Foca os temas da globalização, do choque cultural, e apresenta uma visão afectuosa e não paternalista nem turística da cultura indiana. É divertido e deixa-nos bem dispostos e a gostar e respeitar a Índia.

The Namesake (não me lembro do título em Português), de Mira Nair, é sobre duas gerações de indianos, em que a primeira emigra de Calcutá para os Estados Unidos e a segunda passa pelos problemas de integração / desenraizamento cultural. É uma história bem contada, optimista mas sem lamechices, que novamente apresenta os indianos e a sua cultura como algo tão real e humano como os ocidentais.

Por fim, Bend it Like Beckham (Joga como Beckham), de Gurinder Chadha, é uma divertida comédia passada no meio dos imigrantes indianos em Londres; mais uma vez abordam-se os choques culturais entre as tradições indianas e a vida ocidental, desta vez através de uma rapariga que sonha ser futebolista. O filme é muito engraçado e consegue fazer humor com os valores e as personagens indianos sem ser paternalista nem trocista.

Num ano em que Slumdog Millionaire ganhou o Oscar de melhor filme, penso que vale a pena rever estes filmes (e outros, certamente) e ler livros como A Suitable Boy, de Vikram Seth (e certamente outros...).

In South American Way, ou Regresso aos Trópicos



Desde pequeno que sou muito exigente com a temperatura da água do mar, sempre achei a água do Algarve fria (salvo em raras ocasiões) e a da zona de Lisboa gelada; como para mim o prazer da praia esteve sempre sobretudo ligado aos banhos de mar e cada vez gosto menos de calor, o meu gosto pela praia tem diminuído progressivamente.

Este Inverno, depois de não ter ido à praia em 2008, decidi voltar a uma praia com água verdadeiramente boa, e planear uma semana de férias nos trópicos, onde não ia há mais de 10 anos. Pensei inicialmente em Cabo Verde, mas a pobreza da oferta em relação ao preço fez-me desistir; investiguei as hipóteses de outros destinos, lugares onde uma vez ou outra tive vontade de ir - Martinica, Maurícia, Senegal, Mombaça, até Miami ou Key West... Não considerei inicialmente o Brasil, porque nunca tive vontade de lá ir - nunca me senti atraído pela cultura brasileira, o sotaque irrita-me, a insegurança das cidades repele-me, e o facto de se ter tornado um destino de férias particularmente popular entre os portugueses também não me atrai nada (talvez por um pouco de snobismo, mas a verdade é que um dos encantos de sair de férias é precisamente afastar-me do que vejo todos os dias). Mas, depois de considerar os preços, as profilaxias de doenças, e sobretudo os voos complicados com ligações que implicam imensas perdas de tempo, acabei por concluir que o melhor era "deixar de frescura" (ler com sotaque brasileiro!) e ir mas era ao Brasil, onde não faltam praias tropicais, com voos directos e sem necessidade de tomar comprimidos para a malária nem levar vacinas. Depois de analisar várias opções e de ouvir a opinião de vários conhecidos que já estiveram no Brasil a praia eleita foi a Baía dos Golfinhos, nos arredores de Natal, no Nordeste.



Foi uma boa escolha - a praia é muito bonita, o hotel era confortável, e o mar verdadeiramente cinco estrelas, com a temperatura ideal e a ondulação suficiente para proporcionar o prazer imenso de nos sentirmos embalados pelas ondas sem impedir de nadar. Foram uns dias de descanso e calma perfeitos - a modorra do calor aliviada por longos banhos de mar - literalmente horas na água - onde frequentemente pares de golfinhos se aproximavam a poucas dezenas de metros, leitura e boa comida.



Não posso dizer que tenha ficado a conhecer o Brasil: fui directamente do aeroporto (das piores burocracias que já encontrei para entrar num país) para o hotel, a maioria das pessoas que vi eram turistas (portugueses, argentinos e noruegueses), e os brasileiros que encontrei resumiram-se praticamente aos funcionários do hotel e aos vendedores das lojas e criados dos restaurantes - todos nordestinos, pequenos e escuros, afáveis no trato e com o sotaque que já ouvimos muitas vezes nas novelas. São claramente muito pobres, e prejudicados pela alta dos preços trazida pelo turismo, embora este provavelmente os beneficie com empregos. Pipa é uma aldeia com uma rua e muitos becos, repleta de lojas e restaurantes, com um verniz de cor e movimento, mas no caminho do aeroporto passámos por outras aldeias que eram francamente miseráveis. Tal como no México, onde me surpreendi ao encontrar em cada aldeiazinha paupérrima, de casas de madeira, uma igreja das Testemunhas de Jeová, também aqui se nota a implantação da igreja, neste caso as evangélicas, e foram várias as jovens lojistas que estavam a ler a Bíblia nos intervalos do trabalho.



Enfim, foram uns dias muito bons, passados de papo para o ar (literalmente), que me trouxeram de volta a maravilhosa sensação quase esquecida de nadar em águas tropicais e que quebraram o preconceito anti-ida-ao-Brasil... Talvez ainda volte, quiçá a Salvador, que é a única cidade cuja cultura e ambiente tenho curiosidade em conhecer.

segunda-feira, março 02, 2009

Just One of Those Things, por Ella Fitzgerald

Uma das minhas músicas favoritas na voz da magnífica Ella Fitzgerald. Quem pode deixar de se sentir melhor ao ouvi-la?





As Dorothy Parker once said
To her boyfriend, "fare thee well"
As Columbus announced
When he knew he was bounced,
"it was swell, Isabel, swell"

As Abelard said to Eloise,
"don't forget to drop a line to me, please"
As Juliet cried, in her Romeo's ear,
"Romeo, why not face the fact, my dear"

It was just one of those things
Just one of those crazy flings
One of those bells that now and then rings
Just one of those things

It was just one of those nights
Just one of those fabulous flights
A trip to the moon on gossamer wings
Just one of those things




If we'd thought a bit, of the end of it
When we started painting the town
We'd have been aware that our love affair
Was too hot, not to cool down

So good-bye, dear, and amen
Here's hoping we meet now and then
It was great fun
But it was just one of those things

If we'd thought a bit, of the end of it
When we started painting the town
We'd have been aware that our love affair
Was too hot, not to cool down

So good-bye, dear, and amen
Here's hoping we meet now and then
It was great fun
But it was just one of those things

Just one of those things