segunda-feira, janeiro 26, 2009

3 filmes

Outros três filmes que vi recentemente:

Os Três Macacos, de Nuri Bilge Ceylan - um filme duro e um bocado pesado, mas com uma boa história e muito bem filmado, visualmente muito belo, com uma excelente interpretação da actriz principal. Uma história banal que assume dimensões de grande dramatismo, dilemas morais e o sofrimento causado por situações sentidas e percebidas mas não expressas (o que suponho é a razão do título, uma alusão à imagem dos três macacos: um não vê, um não ouve e o terceiro não fala).


O Labirinto do Fauno, de Guillermo del Toro - um filme bonito sobre a infância e o refúgio na fantasia; o ambiente está muito bem criado, com a chuva persistente e a velha casa de província, com frinchas, portas rangentes e os raios de luz no pó da adega, que me fez lembrar muito a casa dos meus avós; gostei menos da estética da figura do fauno.


Sonhar com Xangai, de Wang Xiaoshuai - conheço muito pouco do cinema chinês, mas este filme deu-me vontade de conhecer mais. Suave e melancólico, o retrato de um quotidiano triste e duro, em que as pessoas aspiram a uma vida melhor que sentem que finalmente parece estar ao seu alcance, mas atingi-la não é fácil. Esteticamente é muito bonito, pareceu-me bem interpretado (na medida em que se pode avaliar, com uma língua tão diferente das que conheço) e com momentos de grande tensão dramática.

Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen

Mais um óptimo filme de Woody Allen, bem mais alegre que os últimos, um verdadeiro feel good movie. Woody Allen é sempre um mestre do diálogo e as histórias são sempre boas. Neste filme aborda de forma divertida e inteligente - como é seu hábito - um dos seus temas preferidos - a variedade e a loucura das relações humanas, sempre meio absurdas, mas como já dizia no final de Annie Hall, we still need the eggs! Os actores estão excelentes - Rebecca Hall é uma revelação, Scarlet Johansson mostra como tem talento quando é bem dirigida (ao contrário por exemplo do que acontece em The Black Dahlia) e Javier Bardem e Penélope Cruz estão soberbos, com um registo histriónico que cria um ambiente impagável de Woody Allen meets Almodóvar. Muito bom, e uma verdadeira injecção de boa disposiçao para a semana.

domingo, janeiro 25, 2009

1808, de Laurentino Gomes

Este livro do jornalista brasileiro Laurentino Gomes é uma boa obra de divulgação histórica: bem documentado, bem escrito, fácil de ler e muito interessante. As descrições das principais personagens - nomeadamente de D. João VI e de D. Carlota Joaquina - estão excelentes, tal como as da vida quotidiana e sociedade no Brasil e em Portugal, e uma série de detalhes curiosos tornam a leitura divertida. E trata-se de um período da História dos dois países de importância fundamental, e extremamente curioso pelo seu carácter único - a mudança de uma corte europeia, mesmo provinciana e beata como a portuguesa, para uma colónia tropical. Não deixa de ser um pouco deprimente reconhecer já há 200 anos uma série de defeitos tão tristemente portugueses - o provincianismo, a mesquinhez, a mediocridade - mas também se termina o livro com um respeito pela astúcia e política de D. João VI maior do que o que lhe é habitualmente prestado. Ao fim e ao cabo, escapou a Napoleão, conservou a coroa, rapou os cofres de Portugal à ida e os do Brasil à volta, e contribuiu para que o Brasil se tornasse uma nação unida e independente, o que afinal de contas não foi pouca coisa para um príncipe medroso e indeciso.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Under Pressure

Esta é a minha versão favorita de Under Pressure, dos Queen e David Bowie, que vi na transmissão do espectáculo de homenagem a Freddie Mercury, nos anos 90. Escolhi-a para estrear a publicação de videos no blog! Espero que resulte.

terça-feira, janeiro 20, 2009

Finalmente, Bush fora da presidência!


Descontando todos os exageros da obamania, hoje é um dia de optimismo, pela mudança que finalmente acontece nos Estados Unidos. Barack Obama não é um messias, mas pelo menos terminou a era Bush, e as coisas só podem melhorar. Não há soluções milagrosas nem simples para os problemas americanos e mundiais, mas seguramente hoje estamos melhor do que ontem. Boa sorte para Obama, que bem precisa, com a carga de expectativas a seu respeito, e para nós todos, que também já merecemos!

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Juliano

Terminei o primeiro volume de The History of the Decline and Fall of the Roman Empire, de Edward Gibbon, que há anos desejava ler, e que encomendei pela Amazon - essa tão útil loja virtual. São três volumes de mais de mil páginas cada, mas cada uma é uma delícia de ler, pela extrema elegância da escrita e, claro, pela história, que está incrivelmente bem narrada e detalhada. Compreende-se ao lê-la a imensa influência que este livro exerceu ao longo dos anos sobre toda uma intelligentsia europeia, entre a qual se destaca o grupo de Bloomsbury, através de cujos elementos primeiro ouvi falar dele e me deu vontade de o ler. Não só no estilo, elegante e racional, mas nas ideias e abordagem à história da Europa e do Cristianismo em particular. É verdadeiramente um livro excepcional. Nos últimos tempos, tenho lido algumas obras dos séculos XVIII-XIX, e tenho ficado algo impressionado com a sua erudição e extensão, expressa numa linguagem extremamente cuidada e agradável, em que a forma da escrita se torna o veículo ideal para dar prazer ao leitor, que no final de milhares (literalmente) de páginas fica com pena de estar a terminar. Depois lembro-me que estas obras eram o fruto de uma elite muito limitada, que dispunha de meios materiais e sobretudo de uma quantidade de tempo que nos é difícil imaginar hoje - um ritmo de vida tão radicalmente diferente do actual.

O final deste volume é dominado pela personagem de Juliano, o Apóstata, que é um imperador que sempre me fascinou. Li há muitos anos o romance Juliano, de Gore Vidal (o primeiro livro deste autor que li) que emprestei a alguém que não mo devolveu e que não pude por isso reler. Acredito em geral que personalidades isoladas não alteram significativamente o curso da História, mesmo tendo em conta os exemplos de Napoleão, de Júlio César ou de Hitler. Mas não deixa de ser curioso imaginar como teria sido a evolução do Cristianismo se Juliano tivesse vivido mais tempo; é de supor que a sua influência teria podido ser não inferior à de Constantino, mas em direcção oposta - pelo menos, as suas qualidades e carisma pessoal não eram seguramente menores. E o Cristianismo do século IV é particularmente irritante, com as suas estéreis e sangrentas querelas do homoousion e homoiousion, uma primeira premonição de tantas que se seguiriam - a questão das imagens, a Reforma e a Contra-Reforma, as Guerras da Religião em França, a Inquisição, etc... E a posição muito crítica de Gibbon em relação à religião cristã, sempre subentendida num discurso muito elegante e diplomático, tão característico do Iluminismo, é admirável.

Como exemplo da linguagem do livro, transcrevo um pequeno excerto (mas poderia ser qualquer outro, todo o livro é assim): "We shall conclude this chapter by a melancholy truth, which obtrudes itself on the reluctant mind; that even admitting, without hesitation or enquiry, all that history has recorded, or devotion has feigned, on the subject of martyrdoms, it must still be acknowledged, that the Christians, in the course of their intestine dissentions, have inflicted far greater severities on each other, than they had experienced from the zeal of infidels. [...] The church of Rome defended by violence the empire which she had acquired by fraud; a system of peace and benevolence was soon disgraced by proscriptions, wars, massacres, and the institution of the holy office. [...] If we are obliged to submit our belief to the authority of Grotius, it must be allowed, that the number of Protestants, who were executed in a single provinve and a single reign, far exceeded that of the primitive martyrs in the space of three centuries, and of the Roman empire."

domingo, janeiro 18, 2009

La Zizanie, ou a intemporalidade de Caius Detritus...


O ambiente do meu serviço, que era tão bom no início, tem-se deteriorado nos últimos anos, e de forma mais acelerada no´ano que passou, o que é uma pena. Progressivamente, as naturais diferenças de ideias, temperamentos e comportamentos entre os vários membros foram-se acentuando e tornando-se motivo de discórdias e conflitos cada vez mais frequentes, até que agora estamos praticamente agrupados em duas facções em guerra aberta, com um ou outro elemento oscilando entre uma e outra. Tal como no livro de Astérix A Zaragata, este clima foi precipitado pela entrada de um colega há alguns anos, o nosso candidato a Caius Detritus. Mas sinto-me relutante em atribuir-lhe todo o "mérito", ou mesmo a maior parte, já que, se o Detritus de Goscinny e Uderzo possui inteligência, espírito e alguma graça, o nosso é de uma avassaladora mediocridade em todos os aspectos, verdadeira fuinha rasteira, de modo que penso que actuou apenas como catalisador pela sua presença e comportamento, mas os responsáveis somos todos os outros.

Acho que o que aconteceu foi basicamente o efeito do tempo e de uma convivência prolongada. Com a idade, os nossos traços de carácter acentuam-se, e é frequente observarmos que o carácter de um velho é uma caricatura da sua personalidade em novo. Ainda não estamos assim tão velhos, mas isto exprime bem a ideia. Inseguranças acentuam-se e disfarçam-se com assertividades despropositadas, seguranças e convicções tomam o aspecto de arrogâncias, a intolerância e irritabilidade aumenta à medida que a paciência e a boa vontade diminuem. O nosso chefe, que cotinuo a admirar como profissional e que aprecio como pessoa, tem tido grande parte da responsabilidade, pelo seu gosto pelos mezzo-termine (essa excelente expressão que aprendi em Saint-Simon); o sempre nos ter deixado governar-nos a nós próprios e sermos muito autónomos foi para mim uma das suas melhores qualidades, mas obviamente resultava enquanto nos dávamos todos bem, ou pelo menos pacificamente.

De qualquer forma, continuo a gostar muito de parte dos meus colegas (felizmente, da maior parte), do meu trabalho, do serviço e do hospital. Acho que temos de ser menos conflituosos, no entanto, mesmo sendo eu uma das pessoas que menos paciência tem para ménager (outra expressiva palavra muito utilizada por Saint-Simon...) os adversários. Mea culpa? Um pouco, mais pourquoi ménager ceux qui ne me ménagent point? Enfim, isto é apenas um pequeno desabafo sobre uma questão que me tem atazanado ultimamente, em´fase de reorganização de serviço do início do ano.

E para terminar - o nosso Detritus é mesmo asqueroso!

quarta-feira, janeiro 14, 2009

O Açucareiro, de Naguib Mahfouz


O último volume da Trilogia do Cairo, de Naguib Mahfouz, cujo título é o nome de outro bairro do Cairo, neste caso es-Sukaryyia, termina a saga familiar iniciada em Entre os Dois Palácios. Gostei muito, embora o final me deixasse algo em suspenso, com vontade de que a história continuasse. O que é bom sinal, pois só me acontece com livros de que gosto bastante. Já falei da trilogia a propósito de O Palácio do Desejo, e a minha opinião mantém-se a mesma. Ler faz-nos de facto viajar por lugares e culturas, e é um dos maiores prazeres da vida.

terça-feira, janeiro 06, 2009

Eneida, de Virgílio


Há bastante tempo que procurava uma boa tradução da Eneida, e fiquei com mais vontade ainda depois de ler as traduções de Frederico Lourenço da Ilíada e da Odisseia. Encontrei finalmente uma tradução de Agostinho da Silva, num volume que inclui as Geórgicas e as Bucólicas (que ainda não li). Gostei muito; é um tipo de linguagem muito diferente, mais erudita e mais difícil, mas parece-me muito bom, na medida em que posso apreciar, já que nada sei de latim nem seria capaz de ler o original. Mas o tom e a linguagem evocam o género de epopeia como Os Lusíadas, denso e arcaico, adequado aos mitos de que fala. Desde a infância que a mitologia greco-romana me fascinou, e é bom poder continuar a descobri-la passados todos estes anos. É destes clássicos que descende a nossa literatura e cultura europeias, e como um verdadeiro clássico, não perde actualidade nem interesse com o tempo.

domingo, janeiro 04, 2009

Die Nibelungen, de Fritz Lang

Tal como com os livros, também com os filmes vale a pena ver os clássicos. Já há algum tempo que não via filmes mudos, e estes Die Nibelungen - A Morte de Siegfried e A Vingança de Kriemhild - foram uma verdadeira delícia. A característica dos verdadeiros clássicos é não perderem qualidade nem interesse com o tempo, e estes filmes cumprem-na perfeitamente, vêem-se com prazer mais de 80 anos depois da sua produção. Como em Metropolis ou Dr. Mabuse , Fritz Lang é um mestre da narrativa, "agarrando" o espectador do princípio ao fim. A história, um épico de violência e paixão, vale por si mesma, e presta-se a várias leituras a posteriori - as virtudes e a loucura germânicas, os presságios da loucura auto-destrutiva nazi da década seguinte (o filme é de 1924) - mas para mim o maior valor dos filmes é sem dúvida a estética. Cada plano é de uma beleza fascinante, desde as imagens de Siegfried na floresta, que parecem gravuras, até às imagens da implacável Kriemhild com uma magnífica coroa bárbara e um manto que parece desenhado por Klimt. Os décors são todos soberbos, desde a corte dos Burgundos ao castelo de Brunhild ou à corte bárbara de Attila, e mais uma vez, cada plano, com os motivos geométricos e a colocação das personagens, poderia ser um quadro. Verdadeiramente magnífico.


Gripe


Há uns 5 ou 6 anos que não tinha uma gripe, mas há duas semanas o vírus atacou-me e juntei-me aos números da tão falada epidemia. Já não me lembrava da sensação; como de costume, fui tomado nos primeiros dias por uma prostração e astenia intensas, e passei dois dias praticamente imóvel na cama, os processos físicos e mentais todos suspensos enquanto o sistema imunitário lutava contra o atacante a um nível subliminar. Depois, os dias de recuperação, ainda não completa, em que o mal estar e o cansaço se tornam irritantes e exasperantes por dominarem a nossa vontade. Mas aqueles dias iniciais, em que as forças desaparecem completamente, provocam uma estranha volúpia de incapacidade, um quase death wish, em que sabe bem abandonarmo-nos à fraqueza e ao oblívio. Raramente estou doente, e nunca tive nenhuma doença verdadeiramente grave, mas já houve algumas vezes em que me senti assim - gripes, uma laringite - e nessas alturas a morte parece doce e desejável. Já assisti incontáveis vezes a essa reacção em doentes internados, e acho que é um excelente mecanismo de defesa do corpo e da mente perante o fim - é como se se "desligasse", terminando o sofrimento e morrendo sem angústia. Claro que a minha doença foi apenas uma amostra, mas ajuda a compreender o que se sente nessas alturas. E não é uma má sensação.

domingo, dezembro 28, 2008

A Feiticeira de Florença, de Salman Rushdie

Quando, há cerca de 20 anos, li Os Filhos da Meia-Noite, foi amor à primeira vista; durante anos esperava ansiosamente cada novo livro de Salman Rushdie e, embora gostasse mais de uns do que de outros, senti as minhas expectativas geralmente satisfeitas, até O Chão Que Ela Pisa me ter parecido muito desinteressante. Depois desse, não gostei de Fúria, e Shalimar o Palhaço , recuperando algum vigor, estava muito longe de Rushdie no seu melhor. Assim, foi com um misto de curiosidade e de receio que comecei a ler A Feiticeira de Florença – seria o regresso do meu encantamento por Rushdie ou mais um desencanto? Termos tanto mais apropriados num livro cujo título original é The Enchantress of Florence, e cuja narrativa é feita à moda dos antigos contos das Mil e Uma Noites, desenvolvendo-se lentamente a partir de belas frases repletas de pormenores evocando luz, cor, sensações, riquezas e belezas fabulosas de uma Índia Mogol e de uma Florença renascentista não menos maravilhosa.

Como nos contos das Mil e Uma Noites, que frequentemente começam insidiosamente e de súbito nos mergulham num turbilhão de peripécias, fui lendo capítulo após capítulo à espera desse momento de encantamento. Quando dei por mim a preferir pegar num número de uma revista médica (que nem sequer era o meu bem-amado New England Journal of Medicine!) em vez de no romance de Salman Rushdie, e reparei que este já ia a mais de um terço, resignei-me à ideia de que esse momento não chegaria – como não chegou.

Não é o que o livro seja mau, é simplesmente médio, e um bocado maçador. Os livros de Salman Rushdie utilizam geralmente uma história para expor / criticar uma situação – a Índia dos anos 60-70 em Os Filhos da Meia-Noite, o Paquistão em Vergonha, o fundamentalismo islâmico e o Irão em Os Versículos Satânicos e Harun e o Mar de Histórias, a Caxemira e o novo terrorismo em Shalimar, por exemplo. Mas havia sempre duas características: a história e as personagens eram interessantes e fortes por si próprias, sem um didactismo óbvio, e havia sempre algo de orgânico, visceral, no tom da sua escrita, mesmo em livros de que gostei pouco com Fúria ou O Chão Que Ela Pisa. Neste A Feiticeira de Florença, a história é chocha, as personagens quase todas simultaneamente caricaturais e vagas, os “toques” de "realismo fantástico" parecem pinceladas aqui e ali para dar “pitoresco”, e a sensação geral com que se fica é de aborrecimento. É certo que a intenção de fundo é “boa”, no sentido em que as ideias sobre a tolerância e a religião expressas pela personagem de Akbar são dignas de ser expostas e defendidas (como nestas passagens: "Se nunca tivesse havido um Deus, pensou o imperador, poderia ser mais fácil entender o que era o bem. Esta questão do culto, da renúncia a si próprio peranto o Todo-Poderoso, era uma distracção, uma falsa pista. Onde quer que o bem estivesse, não era na obediência ritual, irracional, perante uma divindade, mas sim, talvez, na descoberta lenta, desajeitada e juncada de erros de um caminho individual ou colectivo." ou "O futuro não seria aquilo que ele esperara, mas sim um lugar seco, hostil, antagonista, onde as pessoas sobreviveriam o melhor que podiam, odiariam os vizinhos, esmagariam os seus lugares de culto e voltariam a matar-se umas às outras no renovado calor da grande disputa a que ele procurara pôr termo para sempre, a disputa acerca de Deus. No futuro era a aridez, e não a civilização, que reinaria."), mas sabe francamente a pouco. Ainda tenho de esperar mais uns anos para voltar a ser “agarrado” por um livro de Rushdie.

sábado, dezembro 13, 2008

Separation




Your absence has gone through me
Like thread through a needle.
Everything I do is stitched with its color.


(Um poema que me tocou particularmente, conciso e elegante como um haiku. Não conhecia William S. Merwin, o autor, descobri-o no site Poem of the Week. Lindo.)

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Paul of Dune, de Brian Herbert e Kevin J. Anderson

Descobri o universo de Dune relativamente tarde, quando o meu entusiasmo juvenil pela ficção científica estava já em declínio. Mais exactamente, foi através do filme de David Lynch, que vi salvo erro num ciclo de cinema da Gulbenkian, em 1984 ou 1985. Gostei da história e do ambiente do filme, de modo que depois li o livro; talvez porque o li depois de ver o filme, acho este uma adaptação muito boa, e sempre fiquei a imaginar o universo e as personagens de Dune com as imagens do filme - os cenários, os vermes, as indumentárias Fremen; e as personagens de Paul, Jessica, Gaius Helen Mohiam ou Irulan sempre terão na minha cabeça os rostos de Kyle MacLachlan, Francesca Annis, Sian Phillips e Virginia Madsen. Como gosto sempre de conhecer o seguimento das histórias que aprecio, fui encomendando e lendo nos anos seguintes os outros livros da saga - estupidamente esqueci-me do último, que nunca cheguei a ler (também sinal de que o interesse foi esmorecendo).

Há algumas semanas - muitos anos depois de ter lido Heretics of Dune, o último volume da série que li - quando, tomado por um apetite de ficção, fui à Fnac comprar livros, deparei na prateleira dos paperbacks em língua inglesa com este Paul of Dune, um dos vários livros acrescentados à série pelo filho de Frank Herbert com a colaboração de Kevin J. Anderson (este último, pelo que percebi, escreve livros baseados em outras séries, como a de Star Wars); tive curiosidade de mergulhar novamente no universo de Dune e nas aventuras de Paul Atreides e comprei-o.

Não fiquei decepcionado; é um livro de aventuras bem estruturado, que segue fielmente o universo criado por Frank Herbert. O meu interesse pela série tinha esmorecido em grande parte porque achei - e ainda acho - que a certa altura o autor complicara demasiado as histórias e começara a repetir-se de alguma forma, levando-se demasiado a sério, ou seja, sendo demasiado ambicioso no simbolismo e grandiosidade, ultrapassando largamente a sua capacidade (lembro-me de pensar, quando lia Heretics of Dune: "mas será que estas personagens não conseguem falar ou pensar sem ser como se estivessem a citar Shakespeare ou tratados de Filosofia?"). Isso não diminui, no entanto, a excelência do primeiro livro, Dune, nem o mérito de ter criado um verdadeiro universo ficcional de imensa riqueza, desde a ecologia à linguística; como li algures, F. Herbert está para a ficção científica como Tolkien para a fantasia.

Acho que ainda vou colmatar o meu esquecimento de Chapterhouse: Dune e talvez ler outros acrescentos de Brian Herbert e Kevin Anderson, que isto de leituras, como dizia alguém que me era muito próximo, não é só ler Kafka!

domingo, dezembro 07, 2008

Copenhaga



Há férias que nos deixam uma impressão particularmente forte de felicidade, por vezes sem nenhuma razão especial. Esta curta viagem a Copenhaga foi uma delas; apesar de se tratar de um sítio completamente diferente, senti-me tão feliz como na luminosa Granada. Penso que foi uma conjuntura de diversos factores particularmente afortunada - a cidade muito bonita na suave luz outonal, o frio cortante mas limpo e revigorante, o ambiente civilizado e acolhedor, a companhia (claro!)...

Nunca tinha estado em nenhum país escandinavo, e foi uma agradável surpresa. Esperava talvez que tudo fosse demasiado arranjadinho, mas o que me ficou foi uma impressão de civilização no seu melhor sentido e de grande qualidade de vida, uma população socialmente muito homogénea, um sítio onde deve ser agradável viver, mesmo com o frio e a falta de luz no Inverno.

Gostei da arquitectura sóbria mas colorida, dos velhos edifícios em tijolo vermelho, dos barcos ao longo dos cais, das esplanadas com mantas para aquecer as pernas, das bancas com os enfeites de Natal, do cheiro a amêndoas torradas e a especiarias, das velas por todo o lado (não admira que tenha havido tantos incêndios em Copenhaga ao longo dos séculos...), dos campanários das igrejas, da combinação de linhas e cores dos telhados vermelhor, pretos e verdes vistos do cimo da Rundtärn. A língua é feia e difícil de compreender, mas a palavra hygge vai sempre ficar-me na memória como traduzindo um conceito muito especial que senti durante a estadia.

Até me soube bem ir ao Tivoli - eu, que sempre detestei parques de diversões - pela beleza das iluminações e das bancas de Natal. Um passeio a Christiania deprimiu-me - um ar tão decadente, desleixado e desconfortável; que estranhas são as pessoas que vivem numa cidade tão agradável e criam voluntariamente para si uma espécie de bairro da lata. E provavelmente quando estiverem doentes ou verdadeiramente indigentes, saem de lá e beneficiam dos sistemas sociais "burgueses". Ainda fui uma tarde a Malmö, um passeio prejudicado pela chuva - a Suécia foi-me menos hospitaleira - e gostei bastante menos do que de Copenhaga, embora também tivesse umas belas praças. De qualquer forma, fiquei com vontade de visitar Estocolmo e a Noruega.

Pois é, viajar é um dos maiores prazeres da vida, e permite-nos a experiência de passar de sítios como Marraquexe para outros como Copenhaga.

sexta-feira, novembro 28, 2008

O Palácio do Desejo, de Naguib Mahfouz

Mais um livro para me reconciliar com a ficção. O Palácio do Desejo é o segundo livro da Trilogia do Cairo, de Naguib Mahfouz. O primeiro é Entre os Dois Palácios, que li há algum tempo. Os nomes dos livros referem-se a bairros do Cairo - este segundo chama-se Qasr el-Shawq no original. Sempre gostei de sagas familiares, e esta é de excelente qualidade; ler o segundo livro é ainda melhor do que ler o primeiro, pois já nos sentimos familiarizados com as personagens e o ambiente. Como toda a boa ficção, esta transporta-nos a um mundo diferente do nosso, no qual entramos gradualmente e que se torna vivo e real. As personagens são extremamente humanas e reais, a escrita viva e expressiva. A cultura e o modo de vida revelados são muito diferentes dos nossos, e Mahfouz faz-nos compreendê-la e amá-la à medida que nos vai familiarizando com ela - de certa forma, fez-me lembrar a forma como os livros de Mishima revelam a cultura e a sociedade japonesas, ou A Suitable Boy, de Vikram Seth, a indiana, igualmente estranhas à nossa. Em resumo, muito bom, e fico com vontade de ler o terceiro.

terça-feira, novembro 25, 2008

Museu Nacional de Arqueologia


O Museu Nacional de Arqueologia é pequeno, mas vale bem uma visita. Para já, fica numa excelente localização - o Mosteiro dos Jerónimos, um dos monumentos mais bonitos de Portugal, numa das zonas mais bonitas de Lisboa - e a colecção, sendo pequena, tem peças muito interessantes. A colecção egípcia é modesta mas as peças são boas - melhor em Lisboa, só na Gulbenkian - e incluem a única múmia que penso haver no nosso país - fraco, se se pensar nas dezenas de múmias do British Museum, por exemplo, mas sempre é uma amostra. A sala do tesouro tem uma boa colecção de peças de ouro, com muitos belos torques e um colar belíssimo que parece uma obra de arte moderna, e a colecção romana é pequena mas bem representativa. Para terminar, a loja é bastante boa, e pode-se sempre aproveitar para visitar a igreja do mosteiro e o claustro, um dos mais belos da Europa.



segunda-feira, novembro 24, 2008

Satisfações


Depois de um dia de intenso trabalho, apesar do cansaço físico, fica-me sempre uma agradável sensação de satisfação e de realização. Não é só pelo sentimento de obrigação cumprida ligado à ética protestante de que por vezes sou acusado, ou pelo facto da imersão no trabalho me fazer abstrair de outros problemas. É porque gosto realmente do meu trabalho. Nunca me arrependi da especialidade que escolhi; pelo contrário, quanto mais passam os anos e aumenta a experiência mais me congratulo pelo acerto da escolha. Combina todos os elementos que aprecio e me estimulam na Medicina: uma matéria intelectualmente estimulante, doentes graves pelos quais se pode fazer alguma coisa, seguimento longitudinal de doentes crónicos, o que permite uma relação humana e familiar que é uma das satisfações da profissão, e o exercício de técnicas e intensivismo qb. Hoje apeteceu-me escrever sobre isto porque na minha última urgência tive uns poucos de doentes muito graves, um deles num estado de instabilidade com o qual felizmente não tenho de lidar todos os dias, do tipo em que se sente que cada gesto ou decisão, a cada 10 minutos, faz diferença. Acho que só quem tenha trabalhado em cuidados intensivos percebe bem o que se sente nessas alturas, são momentos simultaneamente angustiantes e exaltantes, pela responsabilidade e pelo imediatismo dos efeitos das nossas acções.
Ao contrário do que muita gente pensa, incluindo médicos, o trabalho numa unidade de cuidados intensivos é a maior parte do tempo bastante rotineiro e calmo, e a ausência de contacto com doentes que falam, e sobretudo a falta de seguimento longitudinal de doentes crónicos, nunca me atraiu particularmente. É por isso também que a minha especialidade me faz sentir realizado - lido com doentes graves, por vezes com as emoções do intensivismo, mas mantendo o contacto pessoal com os doentes que também me é tão gratificante. Sempre gostei imenso dos tempos de consulta, em que num período limitado de tempo se tenta orientar os problemas dos doentes da melhor forma que sabemos. E sinto uma especial satisfação ao reencontrar, ao longo de meses e anos, pessoas que vou conhecendo cada vez melhor, com as quais se estabelecem laços de uma certa intimidade e às quais sinto que faço alguma dferença, ao contribuir de alguma forma, mesmo que muitas vezes incompleta e limitada, para o seu bem estar.
Enfim, alegrias da Medicina...

sexta-feira, novembro 21, 2008

(Uma espécie de) Marley & Eu


Ele não se chama Marley, nem é um labrador (nem um boxer, ao contrário do que muita gente pensa, mas sim um perdigueiro português). Mas faz-me no entanto lembrar muitas vezes do protagonista do livro de John Grogan. Não é muito esperto, é muito bruto, e nos seus meses de maior energia de cachorrice revelou-se um verdadeiro vândalo, esventrando sofás, despedaçando almofadas, estraçalhando colchas e lençóis, roendo até paredes. Muitas vezes me provocou acessos de desespero e houvemomentos em que maldisse a hora em que decidi dar um sucessor ao meu saudoso épagneul breton.
Mas é tão bonzinho, tão meigo e afectuoso, que quando se encosta a mim a pedir festas e passo as mãos pelo seu focinho macio e quente lhe perdoo tudo. Ou quando me olha com aqueles olhos claros tão incondicionalmente dedicados, ou quando franze o sobrolho de um modo que lhe dá uma expressão tão cómica de seriedade num cão tão pateta. Derreto-me e penso que ao fim e ao cabo posso sempre substituir as almofadas e, agora que ele já fez 2 anos e acalmou bastante, posso esperar pela Primavera para estucar e pintar de novo as paredes. Será que, como diz a minha empregada russa, tenho mesmo "um coração mole"? Talvez, em certos aspectos.

segunda-feira, novembro 17, 2008

Outono


Gosto do Outono. Gosto das folhas secas a cair e espalhadas pelo chão, do cheiro da terra molhada depois das primeiras chuvas. Mas sobretudo gosto do regresso do frio, das manhãs límpidas e húmidas em que uma neblina suave cobre o rio, revelando ao desvanecer-se um azul limpo e claro. Lisboa tem uma luz espectacular, seja de manhãzinha ou ao fim da tarde, quando as casas e as igrejas ficam douradas por uma luz quente e avermelhada. É um verdadeiro repouso para os sentidos, depois da luz forte e do calor opressivo do Verão. Não que este Verão tenha sido muito quente, foi felizmente misericordiosamente benigno. Que me perdoem os frustrados adeptos da praia e do calor, mas o frio sabe-me muito melhor.