quarta-feira, junho 25, 2008

Metamorfoses, de Ovídio

Metamorfoses, de Ovídio, é um livro delicioso, que já lera na sua maior parte numa velha edição da Europa-América e que reli agora numa tradução e edição bem mais cuidadas publicada pela Cotovia aproveitando a moda em boa hora lançada pelo sucesso da tradução de Frederico Lourenço da Odisseia. É uma espécie de Mil e Uma Noites da mitologia greco-romana (e já agora, para quando uma edição / tradução do mesmo género das Mil e Uma Noites? Ou pelo menos a tradução da famosa tradução de Richard Burton...), organizado da mesma forma, com histórias dentro de histórias, encadeadas umas nas outras, cobrindo todo o tempo desde a criação do mundo até ao reinado de Augusto (a actualidade de Ovídio, que termina o livro com um elogio ao imperador), histórias essas que têm em comum tratarem de metamorfoses, transformações das mais variadas. O autor desenvolve mais ou menos as histórias a seu bel-prazer, e há belíssimas descrições de personagens, de cenas da vida quotidiana, de sentimentos, pastiches de Homero, até uma defesa do vegetarianismo através de um discurso de Pitágoras. No conjunto, é um repositório imenso de lendas e mitos, e não admira que tenha servido de inesgotável fonte de inspiração para artistas ao longo dos séculos.

O que me leva a abordar uma questão em que penso muitas vezes e que por várias vezes tenho discutido com alguns amigos - porquê ler os clássicos? (por acaso é o título de um excelente livro de ensaios de Italo Calvino, e que o explica bem melhor do que eu). Com efeito, deparo-me frequentemente com o argumento: "há tanta informação hoje em dia, tanto que ler, que não há tempo para ler os clássicos" (e aqui, o termo clássicos é aplicado de forma bastante lata, desde Homero a Proust, passando por Mallory, os grandes russos ou - porque não? - Saint-Simon). Discordo totalmente deste argumento. Os clássicos são... bem, é difícil encontrar outra palavra, são clássicos. Por algum motivo suportaram a passagem do tempo, de séculos, mantendo toda a actualidade do seu interesse, tal como a Vénus de Milo ou os frescos de Mantegna se mantêm igualmente impressionantes agora, por muitos anos que tenham. A intemporalidade é precisamente uma das características das obras a que chamamos genericamente "os clássicos". E outro motivo, além do prazer que a sua leitura e fruição provoca, e da sua qualidade intrínseca, nomeadamente sobre a compreensão da natureza humana e de outras questões intemporais, é o da contribuição inestimável para a compreensão do mundo em que vivemos, da actualidade, da História, de tudo o que aconteceu e que nos trouxe até ao momento presente. Por exemplo, apesar de eu ser militantemente anti-religioso, considero fundamental o conhecimento da religião cristã, da Bíblia e das suas histórias e mitos, para a compreensão de grande parte de toda a arte europeia dos últimos dois mil anos, pois de facto esta foi dominada pelas mitologias cristã e greco-romana. Como fruí-la adequadamente se nada se sabe sobre o que a inspirou? Por tudo isto, acho que é hoje em dia igualmente fundamental ler os clássicos, continuo a fazê-lo com prazer, e acho que é tempo muito mais bem empregue do que o passado a absorver tanta da informação inútil e redundante que nos inunda por todos os lados. E quanto mais o tempo passa e mais a leitura do passado me ajuda a compreender e a colocar em perspectiva o presente mais disso me convenço.

quinta-feira, junho 19, 2008

O prazer de ler Saint-Simon


A leitura das longas Memórias do duque de Saint-Simon continua a ser um enorme prazer. A escrita é deliciosa, combinando uma extrema elegância e correcção com uma abundância de expressões arcaicas e um fino sentido de humor. As suas descrições e análises dos caracteres e das situações são sempre interessantes e perspicazes, mesmo que muitas vezes muito parciais e temperadas pelos seus preconceitos de classe; é uma testemunha inigualável de uma época e de um meio, os seus retratos tornam-nos vivas e reais todas aquelas pessoas, nas suas grandezas e mesquinharias, nas ambições e fraquezas. E mostram bem como a natureza humana era exactamente o que é hoje. A tudo isso junta um sentido do dramático que muitos novelistas invejariam, bem patente nas passagens que li recentemente sobre a morte de Monseigneur (o Grande Delfim, filho de Luís XIV): o fim das cabalas que o rodeavam, o despontar das esperanças em volta do novo Delfim e da Delfina (uma espécie de Lady Di do século XVIII), a análise das reacções dos vários partidos; tanto mais pungente porque sabemos que este casal vai desaparecer também um ano depois. As descrições da noite que segue a morte de Monseigneur são geniais, desses momentos que ele aproveita para pôr a nu as emoções das personagens, quando ainda não tiveram tempo de se controlar e afivelar a máscara que lhes interessa, e realçando alguns toques que hoje chamaríamos surreais, como o aparecimento de Madame em grand habit de cour no meio de uma multidão de mulheres descompostas surpreendidas pelos acontecimentos a meio da noite (outra cena surreal é a descrição da viagem nocturna da princesa dos Ursinos pelas planícies geladas de Espanha quando foi expulsa por Isabel Farnese).

Para terminar, cito de uma carta de Lytton Strachey a Virginia Woolf, de Novembro de 1908: "[...] but Saint-Simon supports me, wonderful as ever. [...] I don't know what I shall do when I come to the end - but that's still 15 1/2 volumes off. And I suppose one can always begin again."

terça-feira, junho 17, 2008

Felicidade e relacionamentos


Em The Happiness Hypothesis, que li recentemente, o autor fala a certa altura de dois tipos de amor: passionate love e companionate love, que traduzirei por amor-paixão e amor-companheirismo. Estas noções não são novas – lembro-me aliás de um livro que esteve extremamente na moda nos anos 80, Enamoramento e Amor, de Francesco Alberoni, que era todo ele dedicado a esse assunto – mas gostei da forma como Jonathan Haidt as trata, e o tema interessa-me porque tenho pensado nele frequentemente. O autor define da seguinte forma estes dois tipos de amor: o amor-paixão é “um estado de emoção apaixonada, em que coexistem tumultuosamente sentimentos ternos e sensuais, a ansiedade e o alívio, o ciúme e o altruísmo”; o amor-companherirismo “cresce lentamente ao longo dos anos, à medida que os amantes desenvolvem a sua proximidade e solidariedade e passam a depender, a cuidar e a confiar um no outro". Mais à frente diz: “Se a metáfora para o amor-paixão é o fogo, a metáfora para o amor-companheirismo é uma trepadeira, cujos ramos crescem e se entrelaçam, aproximando e ligando progressivamente as duas pessoas" (traduções minhas). Gostei particularmente, porque concordo inteiramente com ela, da ideia do autor de que os dois tipos de amor são independentes, de que o amor-paixão não conduz necessariamente ao outro, e que é este último o que perdura e que produz uma felicidade mais completa e duradoura.

Tive a sorte de viver um amor-paixão intenso e completo, e que conduziu a um amor-companheirismo que, apesar de muitos acidentes e tribulações pelo caminho, se consolidou e fortaleceu ao longo de anos, como na imagem dos ramos de trepadeira que se foram entrelaçando e misturando de tal forma que a certa altura a vida parecia impossível sem essa ligação, sem esse complemento. Os acontecimentos mostraram-me que não foi impossível, mas é certo que com os seus ramos muitos dos meus também foram arrancados e muitos pedaços dos seus ficaram intrincada e definitivamente inseridos nos meus.

Com o passar do tempo, aconteceram entusiasmos, algumas breves paixões, mas nada que se aproximasse nem de longe do que já vivera e como tal sempre me sabendo a muito pouco; aceitei que o grau maior ou menor de felicidade na minha vida não incluiria uma relação a dois, o que foi de certa forma um alívio. Até que a dada altura, constatei que sem me aperceber me envolvera numa relação que, sem nunca ter passado por uma fase de amor-paixão, evoluíra imperceptivelmente para um companheirismo, uma amizade, precisamente do tipo que “cresce lentamente ao longo dos anos, à medida que os amigos desenvolvem a sua proximidade e solidariedade e passam a depender, a cuidar e a confiar um no outro”. Substituí a palavra amantes pela palavra amigos, e a definição aplica-se na perfeição. Não será então o amor-companheirismo um outro nome para a amizade que Montaigne considerava a relação mais nobre entre dois seres humanos? Não será portanto a amizade-companheirismo o que mantém unidas e entrelaçadas, quais trepadeiras frondosas, duas pessoas ao longo da vida, seja casadas ou depois de terem vivido o amor-paixão (o enamoramento de Alberoni), seja quaisquer outras que tenham evoluído directamente para esse tipo de relação, sem passar por paixões tumultuosas, sendo do mesmo ou de diferente sexo? A nossa sociedade actual está tão excessivamente estruturada à volta da procriação, do sexo, da ideia de amor romântico e sexual, que as pessoas se habituaram a viver centradas no casal, e a relegar a amizade para relações entre adolescentes (no pressuposto de algo transitório até ao acasalamento) e na vida adulta para conversas no trabalho ou no café, enquanto que o principal, a verdadeira vida, decorre no lar na vida a dois. Daí derivam tantos preconceitos e clichés, incluindo a estranheza com que se encara quem decide não formar família e a suspeição que desperta uma amizade mais chegada.

É uma pena, porque estou certo de que esses preconceitos, essa forma limitada de ver as coisas, impedem o desenvolvimento e o crescimento de muitas trepadeiras, e como tal de muita felicidade. E sei que pelo menos no meu caso grande parte da felicidade que tenho experimentado se deve a ter deixado crescer e entrelaçar novas ramadas, numa amizade (ou amor-companheirismo, porque não?) cujo valor nunca celebrarei o suficiente.

domingo, junho 15, 2008

Tales of the Alhambra, de Washington Irving


Nunca tinha lido nada de Washington Irving, apesar de o conhecer de nome como o autor de Sleepy Hollow (vi o filme de Tim Burton) e de Rip Van Winkle. Durante a minha recente viagem a Granada, tive curiosidade e comprei, como bom turista, o livro Tales of the Alhambra, que se encontra à venda em tudo quanto é loja de recuerdos na cidade. Foi uma leitura agradável, por vários motivos: contos bem escritos num inglês muito clássico e correcto, revivi a visita ao Alhambra ao reconhecer as várias descrições das salas, torres, pátios e jardins, entretive-me com histórias de tesouros escondidos, encantamentos, princesas e magos mouriscos ao estilo das Mil e Uma Noites. E é curioso como reencontrei um tipo de lendas e mitos que não ouvia desde a minha infância - quando era miúdo e passava férias na Beira Baixa, lembro-me de que sobre cada colina, cabeço de granito ou ruína havia uma história de potes de ouro enterrados, mouras encantadas, cujos segredos geralmente se descobriam se se circundassem umas tantas vezes à meia-noite, ou se se proferissem determinadas orações ou empunhassem certos talismãs. Suponho que esta afinidade de lendas tenha a ver com o nosso passado comum de ocupação árabe, mas achei engraçado e despertou-me uma certa nostalgia.

quarta-feira, junho 11, 2008

The Happiness Hypothesis, de Jonathan Haidt

Um livro muito interessante, um dos melhores que tenho lido sobre este tema da psicologia da felicidade - e nos últimos meses li vários, fornecidos por um amigo que se interessa particularmente pelo assunto. De leitura fácil e agradável, está muito bem documentado e não cede a duas tentações de facilitismo - não sacrifica o rigor à simplificação e não apresenta soluções ou "receitas" definitivas, mas apenas sugestões. O autor consegue um excelente equilíbrio na escrita entre a seriedade científica e a clareza de exposição, mostrando uma formação científica sólida que lhe permite escrever um livro de senso comum das nossas avós travestido de grande ciência psicológica, e uma grande capacidade de síntese e de comunicação. Não concordo com tudo o que ele diz, sobretudo nos últimos capítulos, que são mais especulativos (no sentido em que expoem mais as suas ideias do que dados objectivos), sobretudo no que diz respeito à utilidade da religião - continuo irredutivelmente anti-religioso e convencido de que pode perfeitamente existir moralidade sem religião - mas reconheço-lhe a honestidade intelectual de apresentar as suas ideias como tal - ideias e não factos - e de tentar ver as coisas do ponto de vista da religião sendo ateu.

No conjunto, um livro muito bom que nos ajuda a conhecermo-nos melhor, a compreendermo-nos e aos outros melhor, e que sem ser didáctico nos fornece uma série de pistas que podemos utilizar para reflectir e melhorar a nossa felicidade. Não sei se existe tradução em português, mas se não existe é uma pena.

segunda-feira, junho 09, 2008

Marcel Proust, de Edmund White

Uma biografia curta, que se lê de um fôlego, muito bem escrita e interessante. Edmund White percorre a vida de Proust, a infância, a vida social, a doença, as influências, a génese e a evolução da escrita de Em Busca do Tempo Perdido, os amores, a fama. Apesar de se debruçar com mais detalhe sobre a homossexualidade de Proust - o que era de esperar, já que Edmund White é um dos representantes mais conhecidos, e de maior qualidade, da chamada literatura gay americana - não cede à facilidade de explicar tudo desse ponto de vista e sabe apresentar o escritor como a personalidade complexa e multifacetada que foi, fruto de múltiplas influências sociais, culturais, familiares, que combinadas com o seu talento, produziram o livro que - e eu tenho muitas reticências a fazer este tipo de classificações - é provavelmente o melhor livro que já li. E reli, treli, e conto fazer a próxima leitura no original francês. Há um livrinho relativamente famoso, How Proust Can Change Your Life, que nunca li, mas posso dar a receita de como Proust pode mudar a nossa vida - basta lê-lo. Está lá praticamente tudo, e tão incrivelmente bem escrito, com uma perspicácia e inteligência que surpreendem a cada página - "mas é mesmo assim!" - e me deixam sempre com pena de o acabar.

domingo, junho 08, 2008

Dias de descanso


Uns dias de sossego na Serra de S.Mamede, dedicados à preguiça, leitura, comida e algum passeio, para ganhar fôlego para um mês que vai ser muito complicado. O tempo esteve primaveril, mais sugestivo de fins de Abril do que de princípios de Junho, os campos do Alentejo muito bonitos, e é sempre bom rever Marvão e Castelo de Vide. As barragens todas muito cheias - lá se vai essa sempre útil desculpa da seca! No regresso, ao ligar o rádio, sempre as mesmas notícias, os alarmismos, as repetições das mesmas histórias até à náusea. Sim, Junho vai ser mesmo um mês difícil de suportar.

sexta-feira, junho 06, 2008

Orientação política - um teste divertido

The Political Compass

Economic Left/Right: -8.88
Social Libertarian/Authoritarian: -4.87



Descobri este teste através de outro blog. Disponível neste site. Parece que estou mais à esquerda do que imaginava... Com todas as limitações deste género de testes, acho que vale a pena fazer.

segunda-feira, junho 02, 2008

Curta estada em Viena


Apesar de curta, esta deslocação a Viena soube-me muito bem. Estivera lá antes uma vez, numa deslocacação ainda mais curta, no Inverno, em que apenas dera um passeio pelo centro de noite e com chuva, ficara-me a impressão de uma cidade de arquitectura monumental mas nada mais. Desta vez consegui tempo para passear, e o tempo esteve bom - bem melhor do que tem estado aqui - embora o calor seja demasiado continental, pesado, e a luz baça, bem diferente da luminosidade de Lisboa.

Gostei do ambiente civilizado da cidade, com pessoas de aspecto próspero e calmo, dos cafés e esplanadas, de ainda não terem sucumbido à histeria anti-tabágica - não se fuma na maioria dos interiores mas há cinzeiros nas esplanadas e as pessoas fumam sem ar de estarem a cometer uma infracção moral. Gostei imenso do edifício da Secessão, dos quadros de Klimt no Belvedere e descobri uma série de artistas desse período que não conhecia (foi pena não ter tido tempo de ver a galeria Albertina, mas nestas viagens curtas prefiro seleccionar e ver com calma do que andar a correr de um lado para o outro; detesto cultura à pressão!). De facto, viajar, mesmo que por períodos curtos, revigora a disposição e lava o espírito!

quinta-feira, maio 29, 2008

O Segredo de um Cuscuz, de Abdel Kachiche

Muito bom, este La Graine et le Mulet, um filme afectuoso, com momentos divertidos e outros comoventes, muito bem interpretado, com uma visão perspicaz das relações familiares. Uma esplêndida galeria de personagens femininas. Sai-se do cinema com uma espécie de nostalgia bem humorada, apesar do final amargo.

domingo, maio 25, 2008

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, de Steven Spielberg


Indiana Jones está de volta, e Steven Spielberg regressa àquilo que sabe fazer bem - filmes de aventuras para crianças de todas as idades. Lembro-me de quando vi o primeiro filme do Indiana Jones, Os Salteadores da Arca Perdida, no enorme ecran do Berna, da sensação de embarcar numa viagem de aventura como nos livros e filmes da infância, logo desde a sequência inicial, com aquela pedra gigantesca a rolar vertiginosamente para cima de nós. O segundo filme passou-me um bocado ao lado, numa fase em que me achava demasiado adulto para ver filmes do Indiana Jones, e só o apreciei depois, mas ainda o acho o mais fraco dos três. Quando apareceu o terceiro já era mais adulto e podia saboreá-lo descontraído.

Estava um pouco apreensivo com este regresso de Indiana Jones, por um certo receio atávico das continuações "esticadas" de grandes êxitos. Mas o filme surpreendeu-me agradavelmente: um bom argumento, aventuroso e disparatado qb, o envelhecimento de Harrison Ford bem tratado, vilãos como deve ser, boas sequências de acção. Apenas achei que o Shia LaBeouf não é o actor ideal para aquele papel. De facto, é este tipo de filmes, ou o ET, que o Spielberg sabe fazer, em vez de tentar ser sério e produzir pastelões melodramáticos e maniqueístas. Indiana Jones é puro entretenimento cinematográfico, sai-se do cinema bem disposto com a vida.

terça-feira, maio 13, 2008

last.fm

Misto de estação de rádio e jukebox, a last.fm foi uma das últimas descobertas na net, graças ao meu amigo de sempre, ao qual fico grato - mais uma vez - por me proporcionar este prazer. Faz-se o download, cria-se um pefil, e pode-se ouvir todo o tipo de música enquanto se está a usar o computador. No momento estou a ouvir os Clash, na categoria anos 80, mas já ouvi vários géneros, de indie rock a jazz ou música do século XVIII. E que bem que sabe estar a usar o pc e ouvir a música que nos apetece, sem escolher ao pormenor, o que permite descobrir ou redescobrir músicas e bandas! Uma excelente descoberta!

quinta-feira, maio 08, 2008

The Letters of Lytton Strachey

Mais um exemplar de um tipo de literatura de que gosto bastante - cartas, memórias, biografias. Lytton Strachey é um dos elementos de Bloomsbury que acho mais interessantes, pela qualidade da sua escrita, pelas suas opiniões e críticas e mesmo pelo seu estilo de vida muito sui generis mas honesto e corajoso nas suas contradições. A sua prosa é sempre uma delícia de ler, bem escrita e cheia de espírito, mas confesso que esperava melhor desta selecção de correspondência - a colectânea de cartas que li de Virginia Woolf, Congenial Spirits, é infinitamente mais interessante. No entanto, valeu a pena ler; não só é mais um testemunho sobre a época e aquele grupo de pessoas como várias das cartas são interessantes em si, sobretudo as da época da guerra e as dirigidas a Carrington e a Leonard e a Virginia Woolf.

E ler cartas provoca-me sempre uma nostalgia por essa forma de comunicação, tão ao meu gosto e tão pouco utilizada hoje em dia. O relativo distanciamento de uma carta permite uma abertura e uma formulação de ideias e sentimentos que não se consegue numa conversa por telefone, permite-nos organizar e expessar os pensamentos de forma simultaneamente mais livre e controlada. De certa forma, o aparecimento e generalização da internet permitiu um regresso à comunicação escrita, na forma de e-mails, a que me converti rapida e fervorosamente.

segunda-feira, maio 05, 2008

Dez anos




Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.
Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crêpe bows round the white necks of the public
doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.
The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good.

W.H. Auden



Todo o dia este poema tem andado às voltas na minha cabeça, mesmo que afastado por momentos por me concentrar nas actividades do quotidiano. Diz-se que time heals, e é de certa forma verdade; mas é também verdade que não produz uma restitutio ad integro; cura mas também deforma, esbate, esfuma, deturpa, enquista. Quando olho para dez anos atrás, tudo me parece simultaneamente pungente e irreal, como num sonho, e interrogo-me: mas será que isto existiu mesmo? foi outra vida? Como a pergunta de Satoco no final de O Mar da Fertilidade: Mas tem a certeza de que existiu alguém chamado Quioáqui Matsugae?

Por outro lado, tento evocar os momentos de felicidade, e por vezes ressurgem, de forma quase sempre imprevisível, e então sim, tenho a certeza de que existiu. E nessas alturas, são outros os versos que me vêm automaticamente à cabeça, aqueles que são para mim uma espécie de divisa do que passou:

Is it too late to touch you, Dear?
We this moment knew -
Love Marine and Love Terrene -
Love celestial too -

Emily Dickinson


quinta-feira, maio 01, 2008

The Charioteer, de Mary Renault

Há muitos anos que li a trilogia de Mary Renault sobre Alexandre - Fogo do Céu, O Jovem Persa e Jogos Funerários -, de que gostei imenso; só muito mais tarde li outro livro dela, The Mask of Apollo, que não me causou grande impressão. The Charioteer, que comprei em Londres há meses um pouco por acaso e para dar uma outra oportunidade à autora foi assim uma agradável surpresa.

Não só é um bom romance, bem escrito e com cenas e personagens muito bem criadas e convincentes, como é mais um exemplo, a par de Alexis, de Marguerite Yourcenar, de como é possível a uma mulher escrever de forma incrivelmente perspicaz e sensível (insightful é a palavra que exprime o que quero dizer) sobre experiências homossexuais masculinas. E juntando o facto de ter sido escrito por uma mulher (mesmo que ela própria lésbica, como é o caso de Mary Renault - e de Yourcenar) ao de os problemas tratados no livro serem não só o aprender a viver com a sua sexualidade mas mais ainda o da honestidade nas relações e os da escolha (ilustrada pela metáfora do auriga de Platão que dá o título ao livro) e da descoberta de si próprio, vem reforçar a minha convicção de que rotular estes romances em que as personagens principais são homossexuais e/ou os temas tratados envolvem o lidar com isso, de "literatura gay" é um erro, porque extremamente redutor. É aliás um reflexo da cultura americana de rótulos e compartimentos que a intelligentsia politicamente correcta europeia, curiosamente em outros aspectos tão crítica da cultura americana, tem adoptado avidamente.

The Charioteer - ou Alexis, ou tantos outros - vale pela sua qualidade, por ser bem escrito - e o bem escrito não significa escrita linguisticamente correcta, mas sim escrita convincente, arguta e tocante, que nos faz acreditar na história e pensar nos problemas e que deixa uma impressão durável. Enfim, acho que vou experimentar mais uns livros de Mary Renault.

Portugal e os seus BMWs - um detalhe

Houve um pormenor curioso em que reparei nesta viagem a Espanha. Na auto-estrada para o Algarve, no feriado de 25 de Abril, passei e fui ultrapassado por uma verdadeira multidão de BMWs; aliás, por muitos carros potentes e caros, como Audis ou Mercedes, mas decididamente os BMWs predominavam por uma grande margem. Dezenas não é exagero. Assim que entrei em Espanha, nada de BMWs. Como a quantidade deles que vira no trajecto de Lisboa ao Algarve me despertara a atenção, fui reparando nas marcas de automóveis por que ia passando e, mesmo que obviamente não tenha visto todos e me tenham escapado vários, nos 4 dias que estive em Espanha e em que passei por Sevilha, Granada e Córdova vi um total de... quatro BMWs, um dos quais era português!

Que concluir deste fenómeno? Mesmo considerando que o território percorrido em Espanha não seja uma amostra perfeitamente representativa do país, nem a A2 de Portugal, a diferença observada é mais um dado ilustrativo do que em Portugal se entende por qualidade de vida e como essa noção está indissoluvelmente, ligada à de status. Como a maioria dos portugueses adora pavonear o seu carro!

quarta-feira, abril 30, 2008

Córdova


Menos deslumbrante que Granada, mas também magnífica - o labirinto de ruas estreitas e brancas, os pátios alegres e coloridos, e a fabulosa mesquita, que é verdadeira e esmagadoramente mágica, com a floresta de colunas na penumbra, o espaço dividido e multiplicado ao infinito pelas arcadas, o implante da catedral gótica, numa estranha e bela fusão de estilos mourisco, mudéjar e gótico. A dimensão da mesquita é impressionante, por muito que soubesse já que era enorme é completamente diferente vê-la e senti-la ao vivo.

E a comida andaluza, uma delícia para os sentidos! Vale mesmo a pena viajar, e mais uma vez senti o efeito regenerador de passear em boa companhia; acho que são os momentos em que me sinto mais vivo e completo.



Granada, ou dias felizes



Sinto-me revigorado, depois de uma curta viagem à Andaluzia - Granada e Córdova. Granada foi uma revelação. Clara e luminosa, o casario branco, as ruelas e as pequenas praças do Albaicín, com vista sobre o Alhambra e os picos da Sierra Nevada; senti-me literalmente a pairar. A visita do Alhambra é uma experiência inesquecível - as vistas espectaculares sobre o Albaicín e o resto da cidade, as intrincadas decorações das paredes e tectos dos palácios Nasri, as arcadas, os tanques, os jardins do Generalife, com o constante murmúrio da água a correr. Que prazer percorrer as ruas estreitas do Albaicín, parar numa esplanada para beber uma cerveja ou comer um gelado, descobrir os panoramas sobre a Sierra Nevada, descansar no miradouro de San Nicolás cheio de jovens "yonkies" que abundam na cidade!





sábado, abril 19, 2008

A depuralina - um caso típico

Há dias, na minha consulta, um homem que é meu doente há já uns 10 anos, tipo de uns 60 anos, bastante reivindicativo e chico-esperto qb, disse-me logo de início, num tom meio apreensivo meio irritado: "Ó doutor, as minhas análises estão pior, e acho que sei porque é, é que eu tomei duas caixas dessa depuralina!" Tanto quanto eu sei, a toma da depuralina não teria agravado as análises em causa, mas aproveitei a ocasião para ser didáctico e dizer coisas do género: "Pois, não sei se terá sido por causa disso, mas é por essas e por outras que nós sempre dizemos para não tomarem coisas que não sabemos exactamente o que são nem o que fazem...", "Mas diziam que fazia bem, toda a gente andava a comprar!", "Bem, de certeza que não foi nenhum dos seus vários médicos que lhe disse... Por isso é que sempre lhe digo para não tomar nada, nem outros medicamentos, sem antes perguntar a um médico.", "Ah, mas ainda tenho lá duas caixas, sempre quero ver se sou ressarcido do que paguei, que aquilo ainda custa 27 euros!", "Vê? Ainda por cima é caro!". No final da consulta, enquanto passava as receitas, diz ele: "Estes medicamentos são uma pipa de dinheiro, doutor, isto é uma vergonha o que a gente tem de pagar!", não pude deixar de responder: "Bem, pelos vistos ainda lhe sobra bastante, porque foi comprar a depuralina, que é mais cara do que todos estes juntos e nem tem comparticipação!", ao que se limitou a dizer: "Pois, bem..."

O que é lamentável é que esta é uma atitude extremamente frequente - as pessoas queixam-se do sistema de saúde e dos médicos, mas acreditam com a maior das ingenuidades em inúmeras banhas da cobra, em geral inofensivas mas por vezes perigosas e sempre inúteis.

quarta-feira, abril 16, 2008

Uma História de Violência, de David Cronenberg


É um filme violento e perturbador, por mostrar como a violência se infiltra insidiosamente nas personagens, transformando-as de forma imprevisível. O final deixa a pergunta no ar: será que alguma vez vão poder retomar as suas vidas como antes?