terça-feira, maio 05, 2009

Viagem à Bélgica

Mais uma curta viagem, desta vez a Ghent, Bruges e Bruxelas. Não conhecia a Bélgica (tal como ainda não conheço a Holanda, que ficou para uma próxima vez), e gostei muito; aliás, como viajante optimista que sou, geralmente aprecio sempre os sítios onde vou, uns mais do que outros, é certo, mas tem valido sempre a pena viajar, e só lamento não o poder fazer mais e por mais tempo.

Desta vez, comecei po Ghent, que é uma bela cidade, de belas casas antigas e igrejas góticas à volta dos rios Leie e Scheldt e dos canais que os ligam. Foi o meu primeiro contacto com a Flandres, o tempo estava óptimo, céu azul e temperatura agradável sem estar calor. Fiz a volta de barco pelos canais, almocei carbonades flamandes e a sopa de peixe local (na vedade de frango, e depois de ver os peixesmortos a boiar no Leie fiquei satisfeito pela opção...) na esplanada do restaurante que fica na antiga casa dos condes de Egmont no Graslei, iniciei a degustação das inumeráveis cervejas e dos excelentes chocolates belgas, admirei o políptico de Jan van Eyck A Adoração do Cordeiro Místico na catedral, subi ao Belfort, visitei o castelo dos condes... Como o tempo estava bom, havia imensos grupos de jovens nas margens dos canais e nas praças, a fumar e a beber, como em Espanha. Os flamengos pareceram-me um povo alegre e saudável; as mulheres podiam ter saído dos quadros de Rubens e Brueghel, de formas generosas, pele clara e faces coradas, fáceis de imaginar em tamancos a ordenhar vacas; a língua parecida com o alemão mas mais suave parecia fácil de aprender.




De Ghent fui para Bruges, uma cidade lindíssima, de conto de fadas, como dizem no filme In Bruges, que tinha visto recentemente quando já planeava lá ir. Mais uma vez, tive sorte com o tempo, que continuou excelente e me permitiu passear e apreciar a cidade. E foi de facto um encantamento, é daqueles sítios que para onde quer que se olhe parece estar a ver-se um cartão postal. Fiquei num hotel mesmo atrás da praça principal, o Markt, numa água-furtada com uma vista esplêndida. Nem sequer tive vertigens (uma maldição que me persegue desde a adolescência) ao subir ao Belfort, por uma deliciosa escada de caracol que vai estreitando até ser verdadeiramente exígua - mas que panoramas se têm do cimo! Passeei imenso, entrei em várias igrejas - gostei do altar macabro da Jerusalemkerk e a estátua de Miguel Ângelo da Virgem com o Menino é lindíssima, ainda mais do que a Pietá - e vi a exposição sobre a corte da Borgonha de Carlos o Temerário, que estava no museu - uma excelente mostra do esplendor da Flandres do Renascimento. E a comida sempre deliciosa - moules, gauffres, mais chocolates e mais cervejas.





Em Bruxelas já o tempo foi menos simpático, e tive a tradicional chuva da Bélgica, felizmente com abertas suficientes pra andar a pé sem ser desagrdável. Antes de ir, vários conhecids meus que já lá tinham estado me tinham dito que Bruxelas não tinha graça nenhuma, resumindo-se o interesse à Grand Place e pouco mais. Discordo; pareceu-me uma cidade viva e cosmopolita, com boa qualidade de vida e várias zonas interessantes. A Grand Place é de facto imponente, mas toda a zona central à volta dela e da Bolsa é animada, com muitos cafés e esplanadas (o café nas Halles Saint Géry deixou-me particularmente encantado - que sítio magnífico para ler e estudar!), o bairro à volta dos Sablons é muito bonito, as igrejas góticas de Notre Dame du Sablon e a catedral são belíssimas. O museu tem uma colecção magnífica de primitivos flamengos e muitos Rubens interessantes (embora longe da magnificência da sala Rubens do Louvre), mas fiquei decepcionado por não ter visto os quadros de Magritte - o Museu Magritte abrirá em 2 de Junho...). O Centre Belge de la Bande Dessinée é um sítio onde adoraria ter estado há 30 anos, quando era um fanático adepto da revista Tintin; agora, deixou-me indiferente, e apreciei mais o edifício art nouveau onde fica. Vêem-se muitos imigrantes africanos e muçulmanos, e muitos pedintes pelas ruas, que na sua maioria são belgas, com ar de toxicodependentes, e a limpeza e cheiro das ruas e das estações de metro deixa bastante a desejar - talvez efeito de tanta cerveja... Comi e bebi novamente muito bem, e como bom turista comprei chocolates e uma t-shirt. Last but not least, terminei a visita a Bruxelas com uma idaao Brupark e a sua Mini-Europe, onde foi divertido reconhecer edifícios que já vi ao natural, como a Bolsa de Copenhaga, e fiquei com vontade de ver outros sítios (Portugal está representado pela Torre de Belém, o Oceanário, a Ribeira do Porto e uma aldeia algarvia).


Blue Valentine, de Tom Waits

O video é muito piroso, mas foi o único que encontrei desta música, que é linda, e que me apeteceu partilhar hoje.

sexta-feira, maio 01, 2009

Dois livros de Carlos Ruiz Zafón



Acontece às vezes um livro, por um motivo ou outro, "cair no goto" do público e tornar-se um enorme sucesso de vendas. Aconteceu por exemplo com O Código Da Vinci, recentemente com os livros de vampiros adolescentes de Stephanie Meyers, ou há muito anos com O Nome da Rosa. O ano passado, por alturas do Natal, ouvi pela primeira vez falar de A Sombra do Vento a uma colega, quando procurava um presente de Natal para pessoas que não me dizem muito, algo mais ou menos susceptível de agradar a qualquer pessoa. Sugeriu-me de imediato uma edição deste livro, que vinha com um cd, e teceu-me grandes elogios a seu respeito. En nunca tinha ouvido falar do livro nem do autor, mas segui o conselho e ofereci a dita edição. Nunca mais me lembrara do livro nem do autor até que, meses depois, me ofereceram O Jogo do Anjo, que vinha anunciado como "do mesmo autor de A Sombra do Vento". Como me lembrava de ter visto pouco tempo antes num blog que costumo ler um comentário a este livro, fui relê-lo, e era altamente elogioso. Como uns posts nos remetem a outros, fui percorrendo vários blogs, alguns de pessoas cujas opiniões habitualmente aprecio, e deparei-me com uma série de comentários aos dois livros de Ruiz Zafón, cada um mais elogioso que o anterior, e acabei a pensar: "mas como raio me passou despercebido?".

Foi assim com muita curiosidade que comecei a ler O Jogo do Anjo (e mais uma vez, como costumo andar com os livros atrás de mim or cafés, fiquei surpreendido com a quantidade de pessoas que me diziam como era bom, e que "o primeiro ainda era melhor"). Fiqei desapontado - é um livro sem dúvida agrdável de ler, um thriller gótico com uma história engraçada e algumas boas ideias, mas compersonagens muito simplistas, um desenlace decepcionante e sobretudo excessivamente longo, abundando em descrições e situações bastante repetitivas. Mas como sou curioso e apesar de tudo o livro não era mau, lá me lancei à leitura do "primeiro", que segundo a unânime opinião era melhor.

De Facto, A Sombra do Vento é melhor do que O Jogo do Anjo; mais uma vez, lê-se bem, mas seria muito melhor se tivesse metade do tamanho, e mais uma vez as personagens são pouco credíveis e, talvez por já ter lido o outro, o desenlace é inteiramente previsível, sempre um defeito neste tipo de livros.

Resumindo: Carlos Ruiz Zafón escreve na tradição dos thrillers góticos, que é longa e respeitável, com muitos livros emocionantes e entusiasmantes, desde O Italiano de Ann Radclyffe e O Castelo de Otranto, de Walpole, até O Clube Dumas, de Arturo Pérez Reverte, passando pelos conto de Edgar Allan Poe, A Mulher de Branco, de Wilkie Collins ou outros mais recentes como The Nine. A Sombra do Vento e O Jogo do Anjo lêem-se bem, mas não ultrapassam a mediania, e de facto não percebo o que os tornou tão populares. Numa linha próxima, acho os livros do português João Tordo bem mais interessantes.

domingo, abril 12, 2009

Facebook


Por sugestão de um amigo, criei um perfil no Facebook. Inicialmente tive alguma resistência, pois não me parecia especialmente interessante. Mas lá acabei por aderir, e até tem uma certa graça. Hoje em dia, a internet proporciona múltiplas possibilidades de socialização - os chats, o messenger, os sites de encontros, etc, além da excelente forma de comunicação que é o e-mail, que veio de certa forma fazer reviver a comunicação escrita. Não tenho grande vocação, nem disponibilidade, para socializar online, de modo que duvido que a minha lista de amigos no facebook cresça por aí além. Mas é divertido; por enquanto serve-me sobretudo para fazer quizes mais ou menos tolos e preencher mapas de viagens.

sábado, abril 11, 2009

Postcards from Italy, de Beirut

E como tenho estado a digitalizar as fotos de uma viagem a Roma em 1996, esta música vem mesmo a calhar... Nostálgica e doce.



A Doença como Metáfora e A Sida e as Suas Metáforas, de Susan Sontag

Muito interessantes, estes ensaios de Susan Sontag sobre a doença como metáforas, sobre a forma como as doenças são encaradas e demonizadas. O primeiro, focado na tuberculose e no cancro, é de longe o melhor, o segundo uma extensão ao caso da sida. A autora demonstra como estas doenças, por muito terríveis que possam ser, são apenas isso - doenças. Não são maldições, nem castigos, nem "privilégios" - no sentido de tornarem as pessoas melhores ou " mais interessantes", como se pensava no século XIX em relação à tuberculose e na primeira metade do século XX em relação às doenças mentais. E mostra com lucidez como o impacto devastador que têm sobre a nossa sociedade tem muito mais a ver com a forma como são encaradas e mitificadas do que propriamente com os seus efeitos directos. A comparação da visão da tuberculose no século XIX e com a do cancro no século XX está muito bem apresentada, e o olhar igualmente lúcido sobre a sida, numa altura (1988) em que esta era ainda uma doença intratável (a grande viragem do tratamento anti-retroviral foi em 1996) é elucidativo e de certa forma tranquiilizador - por haver alguém que saiba expor e desmascarar os mitos da doença ( e do medo da doença) tão bem.

Como médico, o assunto interessa-me particularmente, e também me fez relembrar a minha "relação" pessoal com as doenças - como muitas almas livrescas e algo românticas, também eu tinha na juventude uma visão irrealisticamente idealizada das doenças mentais, como algo que tornava as pessoas mais "interessantes" - as neuroses, as psicoses - tomando como exemplo personagens como Sílvia Nogaret de O Príncipe das Trevas de Durrell. Só quando comecei a lidar ao vivo com a doença mental, primeiro nas enfermarias do Hospital Miguel Bomabarda na Faculdade, depois com alguém que me era muito próximo, me apercebi da verdadeira natureza destas doenças - tais como as físicas, doenças, causa de sofrimento terrível, talvez ainda pior porque levando ao desmoronamento da personalidade, da ideia de nós próprios. Como diz a personagem de Settembrini a Hans Castorp, a certa altura de A Montanha Mágica, a doença em nada "enriquece" nem torna "interessante" quem dela sofre. Causam sofrimento, e geralmente provocam uma degradação de quem sofre; não há nada de romântico nas doenças.

Algumas passagens que considero especalmente significativas:

Além do mais, existe uma particular predilecção dos tempos modernos pelas explicações psicológicas da doença, como de tudo o resto. "Psicologizar" dá uma aparência de controlo das experiências e dos acontecimentos (como as doenças graves) sobre os quais as pessoas de facto pouco ou nenhum controlo têm. Tal realidade tem que ter uma explicação. (O seu real significado é; ou é um símbolo de; ou deve ser interpretada como sendo.) [...] Grande parte da popularidade e do poder de persuasão da psicologia vem-lhe do facto de ser um espiritualismo sublimado: um modo secular, ostensivamente científico, de afirmar o primado do "espírito" sobre a matéria.

Nada é mais repressivo do que atribuir um significado a uma doença sendo tal significado invariavelmente moralista.

O meu objectivo era o de aliviar o sofrimento inútil - exactamente como Nietzsche o formulou, numa passagem de Aurora que li recentemente: Reflexões sobre a doença - Tranquilizar a imaginação do enfermo, a fim de que pelo menos não sofra mais com os seus pensamentos sobre a doença do que com a própria doença - eis o que, na minha opinião, já seria alguma coisa! Seria mesmo uma grande coisa!

(A desconfiança em relação à medicina eficaz, científica, por oferecer tratamentos meramente específicos de determinada doença, e muitas vezes tóxicos, é uma suposição errada recorrente entre pessoas que se consideram esclarecidas.) Esta escolha desastrosa coninua a ser feita por pessoas com cancro, uma doença que muitas vezes a cirurgia e os medicamentos podem curar. [...] Mas submeter um corpo emaciado à purificação de uma dieta macrobiótica é tão útil na cura da sida como fazer uma sangria, o tratamento médico "holístico" por excelência na época de Donne.

Um cenário moderno constante: o apocalipse espreita... e nunca acontece. Aparentemente vivemos a um passo de um dos modernos tipos de apocalipse. [...] O apocalipse tornou-se num acontecimento que está e não está a acontecer.


É sempre bom, e instrutivo, lermos as reflexões de pessoas lúcidas e inteligentes.

The Ladykillers, de Joel e Ethan Coen


Ontem vi The Ladykillers, dos irmãos Coen, em video, e fartei-me de rir. É uma comédia negra muito divertida, num tom disparatado e exagerado, mas hilariante. Nunca vi o filme de que este é um remake, e os críticos dizem que é melhor - talvez, portanto, sorte a minha de ter visto este primeiro. Habitualmente não gosto de Tom Hanks, mas aqui está excelente. Soube-me muito bem ver um filme assim, depois de ter adormecido na pretensiosa e sobre-arrebicada "comédia" Duplicity há uma semana.

sexta-feira, abril 10, 2009

As Três Vidas, de João Tordo

Mais um livro de João Tordo, depois de O Livro dos Homens Sem Luz e de Hotel Memória. E é um prazer ver que continua a escrever muito bem, aliás, melhor, pois o seu estilo está a tornar-se mais pessoal e individualizado. Trata-se mais uma vez de uma história muito bem imaginada, de um thriller psicológico que agarra o leitor do princípio ao fim, e se se alonga por vezes um pouco excessivamente nas reflexões depressivas, no conjunto o livro está muito bem conseguido. Dos novos autores portugueses, este continua aparecer-me de longe o mais interessante. Muito bom.

quarta-feira, abril 08, 2009

Crime e Castigo, de Fyodor Dostoievsky

Reli recentemente Crime e Castigo, e foi absolutamente como se o estivesse a ler pela primeira vez. Pergunto-me mesmo onde teria a cabeça quando o li há muitos anos - a resposta é simples, no entanto: num período conturbado da minha vida e mais absorvido em outros assuntos. Mais precisamente, foi num Verão em que andava profundamente infeliz por uma paixão sem esperança, e a estudar Anatomia I, a cadeira mais terrível do 1º ano - e acho que de todo o curso - de Medicina. Durante cerca de um mês li, entre outros de que não me lembro, Crime e Castigo e Fado Alexandrino. O segundo detestei, e o primeiro não me deixou qualquer impressão e esqueci-o quase completamente. Só muitos anos depois me apaixonei por Dostoievsky, ao ler Os Possessos; desde então li vários, sempre com o mesmo entusiasmo, e fui adiando a releitura de Crime e Castigo - talvez com receio de uma decepção - até agora.

E de facto não sei como me pôde deixar indiferente... Falta de maturidade? Não é o melhor de Dostoievsky - gostei mais de Os Possessos, Os Irmãos Karámazov e O Idiota, por exemplo - mas é excelente. Dostoievsky escreve sempre com uma paixão inigualável, as suas personagens são sempre terrivelmente fortes e reais, a sua descrição dos sentimentos, violentos e angustiantes, é sempre poderosa e convincente. O dilema da escolha, da responsabilidade pessoal do Bem e do Mal, e neste caso da culpa e do remorso, é um dos seus temas recorrentes e que expõe sempre como um mestre. Como diz Virginia Woolf em The Common Reader, somos arrastados num turbilhão de emoções tempestuosas (se não diz exactamente isto, é algo do género, num ensaio excelente sobre os romances russos), mas saímos desse turbilhão mais vivos e conscientes, e mais ricos; deixamos a poeira assentar e sentimos que compreendemos melhor o mundo e as pessoas. Decididamente, gosto imenso de Dostoievsky.

domingo, abril 05, 2009

Gran Torino, de Clint Eastwood


Mais um belo filme de Clint Eastwood. Nostálgico e melancólico, mas com momentos de humor, profundamente afectuoso, e transmitindo uma mensagem de esperança para a América, de integração e continuação dos valores que constituiram o core da formação do país, simbolizados na aproximação progressiva do velho reaccionário aos vizinhos hmongs, no seu papel de role model em relação ao adolescente asiático e no legado final do Gran Torino ao jovem. Uma boa história, bem filmada no modo contido habitual a Eastwood, emotivo sem lamechice, e bem interpretada pelo próprio e com destaque para a jovem actriz que faz de Sue. Muito bom.

domingo, março 29, 2009

Nostalgia - a propósito de uma notícia do Guardian

Li há dias uma notícia no Guardian que dizia que David Hockney não terminaria uma série de quatro quadros que estava a pintar sobre as estações do ano, porque as árvores que eram o tema da série tinham sido abatidas. Não sei porquê, mas senti-me solidário com a tristeza do pintor, talvez porque é sempre triste quando algo majestoso e antigo como aquele cnjunto de árvores desaparece, talvez pela beleza dos quadros já pintados e o contratse entre as fotografias do local antes e depois do abate. Ficam as imagens:


O quadro do Verão


O quadro do Inverno


As árvores dos quadros...


...e o local depois do abate.

There is a Light that Never Goes Out, por The Smiths

Mais uma das minhas bandas favoritas, que gosto de ouvir em qualquer circunstância e disposição. Esta é uma das minhas músicas favoritas deles.



Take me out tonight
Where theres music and theres people
And theyre young and alive
Driving in your car
I never never want to go home
Because I havent got one
Anymore

Take me out tonight
Because I want to see people and i
Want to see life
Driving in your car
Oh, please dont drop me home
Because its not my home, its their
Home, and Im welcome no more

And if a double-decker bus
Crashes into us
To die by your side
Is such a heavenly way to die
And if a ten-ton truck
Kills the both of us
To die by your side
Well, the pleasure - the privilege is mine

Take me out tonight
Take me anywhere, I dont care
I dont care, I dont care
And in the darkened underpass
I thought oh god, my chance has come at last
(but then a strange fear gripped me and i
Just couldnt ask)

Take me out tonight
Oh, take me anywhere, I dont care
I dont care, I dont care
Driving in your car
I never never want to go home
Because I havent got one, da ...
Oh, I havent got one

And if a double-decker bus
Crashes into us
To die by your side
Is such a heavenly way to die
And if a ten-ton truck
Kills the both of us
To die by your side
Well, the pleasure - the privilege is mine

Oh, there is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out

O Visitante, de Tom McCarthy



Um filme muito simpático, que foca dois problemas de uma forma inteligente e sensível - a xenofobia americana pós-11 de Setembro e a crise de motivação da meia-idade. As interpretações são excelentes, e apesar de não ter um final feliz, não nos deixa infelizes, apenas com uma certa melancolia doce.

Diary of a Bad Year, de J.M. Coetzee

Cada vez gosto mais de Coetzee. O primeiro livro que li dele, À Espera dos Bárbaros, é excelente e impressionou-me muito; li depois The Master of Petersburg e Disgrace, de que também gostei bastante. Diary of a Bad Year é muito bom - exprime as ideias e preocupações de um liberal sobre o mundo actual (o Ocidente pós-9/11), e trata também do envelhecimento e da nostalgia. No entanto, o tom não é sombrio, e está soberbamente escrito - consegue nomeadamente criar três vozes bem distintas, das três personagens, cuja interacção é apresentada com humor e ironia. depois da leitura deste livro, acho que Coetzee passou a ser um autor de que lerei tudo o que puder.

sábado, março 21, 2009

O Pintor de Batalhas, de Arturo Pérez Reverte

O primeiro livro de Arturo Pérez Reverte que li foi A Tábua de Flandres; gostei da história engenhosa, mas achei a escrita um pouco "floreada" de mais, e a leitura de O Mestre de Esgrima (fracote) e de O Clube Dumas (o mais interessante, com uma história muito bem imaginada) confirmou a minha opinião de que a escrita do autor não estava à altura das intrigas. Pele de Tambor é também um livro com uma boa história, e marca uma certa transição na obra de Pérez Reverte, como se ele pretendesse tornar-se mais "sério", o que evidentemente não é um defeito em si, mas leva a um maior pretensiosismo da escrita, sobretudo quando as suas reflexões filosóficas continuam a parecer um tanto serôdias. Essa seriedade acentua-se em Território Comanche, que é completamente diferente dos romances iniciais - é uma memória e reflexão dos seus tempos como corresponde de guerra nos Balcãs. É na mesma linha que se insere O Pintor de Batalhas, em que as mesmas memórias e impressões são transmitidas, agora de forma romanceada (deixo de lado O Cemitério dos Barcos Sem Nome, que achei palavroso e aborrecido, e O Capitão Alatriste, uma espécie de glosa dos romances históricos de Dumas mas no estilo de Reverte, engraçado no seu género).

N'O Pintor de Batalhas, Reverte volta a tratar o tema da guerra, das suas atrocidades e da desumanização a que conduz, e a ética dos fotógrafos de guerra. Foca aspectos interessantes, mas sofre do pretensiosismo, da falta de génio do autor para exprimir o cerne dos problemas sem parecer estar a dar lições ou ser um filósofo de café. Além de não resistir a incluir a habitual personagem feminina inverosímil, que provavelmente é a sua ideia da mulher ideal mas que parece claramente irreal. Os diálogos são igualmente improváveis, e a história rebuscada. Não acrescenta nada ao que ele disse muito melhor em Território Comanche. Lembrou-me o filme de Isabel Coixet, A Vida Secreta das Palavras , com os seus defeitos e com bastante menos força.

Smells Like Teen Spirit, por Nirvana

Last but not least, os Nirvana! Sobre eles nem vale a pena comentar, e como a escolha era difícil, fica um clássico...


State of Love and Trust, por Pearl Jam

Mais uma das minhas 3 bandas favoritas dos anos 90 - estes acho que os ouvi pela primeira vez na banda sonora do filme Singles. São excelentes, deixam-me sempre mais feliz ao ouvi-los (o Live on Two Legs foi a minha companhia no carro por imensas vezes), e esta é talvez a minha música preferida deles, combina a energia com um certo lirismo jovem e forte.


1979, por The Smashing Pumpkins

Já não me lembro quando ouvi pela primeira vez, talvez na XFM. Mas foi amor à primeira vista, o álbum Mellon Collie and the Infinite Sadness é extraordinário - além de ter um nome absolutamente perfeito. Os Smashing Pumpkins são dos melhores exemplos de uma certa angústia existencial urbana e moderna que me diz muito.

domingo, março 15, 2009

The Reader, de Stephen Daldry



Esperava melhor deste filme. Está bem interpretado e bem filmado, com cenas de grande beleza estética, mas a história deixou-me algo desconfortável. O problema dos agentes das atrocidades nazis como pessoas tão humanas como as outras é sempre difícl de abordar; neste caso na personagem interpretada por Kate Winslet, que se destina a despertar a nossa compaixão - mas como se pode aceitar a vulnerabilidade e a vergonha causadas pelo seu analfabetismo como justificação para as suas acções como guarda de campo de concentração? A certa altura, os únicos momentos mais fortes do filme são a perplexidade do rapaz quando descobre a identidade dela e a intervenção final da personagem da sobrevivente (um magnífico curto papel de Lena Olin), que pergunta qualquer coisa como "mas que diferença faz isso?". Ficam as cenas da descoberta do amor físico pelo jovem de 15 anos, muito belas, acentuadas pela partilha da leitura, mas parece-me insuficiente, e a impressão geral que me fica é de uma história desequilibrada, misturando um problema importante mas "normal", a iliteracia, com a questão moralmente injustificável do extermínio. Talvez porque esta questão sempre me atinge como arrepiante, como a imagem do mal absoluto, estranho e incompreensível.

A Língua Posta a Salvo, de Elias Canetti

Elias Canetti é um daqueles escritores que ganhou o prémio Nobel mas que é pouco conhecido em Portugal; até ao ano passado só o conhecia de nome, quando li um livro dele, The Voices of Marrakesh, a propósito da minha ida a Marraquexe. Gostei da escrita, das descrições feitas como em pinceladas impressionistas, mas não me afectou especialmente, ficou para mim como uma agradável recriação de lugar e ambiente.

Recentemente, um amigo elogiou-me muito o seu livro autobiográfico, A Língua Posta a Salvo, e quando o vi poucos dias depois numa prateleira da Fnac, tive curiosidade e comprei-o - sempre tive um fraco por biografias e memórias. Não me arrependi, gostei bastante. Está muito bem escrito, e apresenta um retrato / memórias d einfância e adolescência com uma combinação de candura e inteligência muito interessantes. Foca a influência da língua na formação do pensamento - o autor, pertencente a uma das famílias de judeus sefarditas que emigraram da Península Ibérica para o Império Otomano no século XVI, foi passando de uma língua para outra conforme as fases da sua vida (do ladino, o espanhol arcaico falado pelos sefarditas, o búlgaro falado pelo povo da sua cidade natal, ao inglês da sua estadia em Manchester e por fim ao alemão de Viena e depois de Zurique, que se tornaria na sua língua definitiva) -, a descoberta do mundo através dos livros (no que me identifiquei muito com ele) e a influência da família, sobretudo da mãe, em relação à qual se pressente a sua libertação, a que ele chama o seu "segundo nascimento" no final do livro, que é o primeiro de uma trilogia. Ilustra também um aspecto que sempre achei fascinante - a forma como os grandes acontecimentos da História nos podem passar ao lado sem os compreendermos na altura e quase sem nos afectarem no momento; neste caso a Primeira Guerra Mundial, que o autor viveu sem se aperceber da importância fundamental que teve, inclusivamente sobre a sua própria vida. Fez-me lembrar quando, em criança, ao apaixonar-me pela História, crivava os meus avós de perguntas sobre os tempos da Segunda Guerra Mundial, e ficava desapontado por eles não se lembrarem de nada, quando tinham vivido naquele tempo, e eu pensava "como é possível?", e apenas referiam vagamente os tempos da "guerra de Espanha"... Só muito mais tarde percebi que a Segunda Guerra Mundial pouco significou na altura para o Portugal rural dos anos 40, apesar de obviamente terem sido indirectamente afectados por ela.

Fico à espera que publiquem os dois volumes seguintes, e mais uma vez me congratulo por haver tantos autores ainda a descobrir.

domingo, março 08, 2009

Slumdog Millionaire, de Danny Boyle, e outros filmes sobre a Índia e o Ocidente

Slumdog Millionaire é um filme agradável e bem disposto, soberbamente filmado por Danny Boyle, muito bem interpretado, que padece no entanto de um argumento algo simplista / simplório que transmite uma visão um bocado paternalista e "turística" da Índia. Compreendo os argumentos das críticas negativas de Salman Rushdie, mas sou muito menos severo - o filme é um bom entertainment, sai-se bem disposto da sala de cinema, e mostra pelo caminho bastante sobre a vida dos pobres na Índia (houve uma altura que pensei que ia abordar o problema dos transplantes selvagens - deformação profissional? - mas ficou-se pela exploração da mendicidade e da prostituição).

A Índia é um país que me provoca um misto de atracção e repulsa - gosto da sua cultura e de muita da sua estética, mas a miséria e as multidões assustam-me e duvido que algum dia tenha a coragem de lá ir. A propósito da cultura indiana, dos seus valores e do contraste e interacção com os valores ocidentais, que são temas que sempre me interessaram, relembro outros três filmes, qualquer deles quanto a mim superior a Slumdog Millionaire:

Outsourced (Despachado para a Índia), de John Jeffcoat, é um filme muito engraçado sobre um americano que vai gerir um call-center na Índia. Foca os temas da globalização, do choque cultural, e apresenta uma visão afectuosa e não paternalista nem turística da cultura indiana. É divertido e deixa-nos bem dispostos e a gostar e respeitar a Índia.

The Namesake (não me lembro do título em Português), de Mira Nair, é sobre duas gerações de indianos, em que a primeira emigra de Calcutá para os Estados Unidos e a segunda passa pelos problemas de integração / desenraizamento cultural. É uma história bem contada, optimista mas sem lamechices, que novamente apresenta os indianos e a sua cultura como algo tão real e humano como os ocidentais.

Por fim, Bend it Like Beckham (Joga como Beckham), de Gurinder Chadha, é uma divertida comédia passada no meio dos imigrantes indianos em Londres; mais uma vez abordam-se os choques culturais entre as tradições indianas e a vida ocidental, desta vez através de uma rapariga que sonha ser futebolista. O filme é muito engraçado e consegue fazer humor com os valores e as personagens indianos sem ser paternalista nem trocista.

Num ano em que Slumdog Millionaire ganhou o Oscar de melhor filme, penso que vale a pena rever estes filmes (e outros, certamente) e ler livros como A Suitable Boy, de Vikram Seth (e certamente outros...).

In South American Way, ou Regresso aos Trópicos



Desde pequeno que sou muito exigente com a temperatura da água do mar, sempre achei a água do Algarve fria (salvo em raras ocasiões) e a da zona de Lisboa gelada; como para mim o prazer da praia esteve sempre sobretudo ligado aos banhos de mar e cada vez gosto menos de calor, o meu gosto pela praia tem diminuído progressivamente.

Este Inverno, depois de não ter ido à praia em 2008, decidi voltar a uma praia com água verdadeiramente boa, e planear uma semana de férias nos trópicos, onde não ia há mais de 10 anos. Pensei inicialmente em Cabo Verde, mas a pobreza da oferta em relação ao preço fez-me desistir; investiguei as hipóteses de outros destinos, lugares onde uma vez ou outra tive vontade de ir - Martinica, Maurícia, Senegal, Mombaça, até Miami ou Key West... Não considerei inicialmente o Brasil, porque nunca tive vontade de lá ir - nunca me senti atraído pela cultura brasileira, o sotaque irrita-me, a insegurança das cidades repele-me, e o facto de se ter tornado um destino de férias particularmente popular entre os portugueses também não me atrai nada (talvez por um pouco de snobismo, mas a verdade é que um dos encantos de sair de férias é precisamente afastar-me do que vejo todos os dias). Mas, depois de considerar os preços, as profilaxias de doenças, e sobretudo os voos complicados com ligações que implicam imensas perdas de tempo, acabei por concluir que o melhor era "deixar de frescura" (ler com sotaque brasileiro!) e ir mas era ao Brasil, onde não faltam praias tropicais, com voos directos e sem necessidade de tomar comprimidos para a malária nem levar vacinas. Depois de analisar várias opções e de ouvir a opinião de vários conhecidos que já estiveram no Brasil a praia eleita foi a Baía dos Golfinhos, nos arredores de Natal, no Nordeste.



Foi uma boa escolha - a praia é muito bonita, o hotel era confortável, e o mar verdadeiramente cinco estrelas, com a temperatura ideal e a ondulação suficiente para proporcionar o prazer imenso de nos sentirmos embalados pelas ondas sem impedir de nadar. Foram uns dias de descanso e calma perfeitos - a modorra do calor aliviada por longos banhos de mar - literalmente horas na água - onde frequentemente pares de golfinhos se aproximavam a poucas dezenas de metros, leitura e boa comida.



Não posso dizer que tenha ficado a conhecer o Brasil: fui directamente do aeroporto (das piores burocracias que já encontrei para entrar num país) para o hotel, a maioria das pessoas que vi eram turistas (portugueses, argentinos e noruegueses), e os brasileiros que encontrei resumiram-se praticamente aos funcionários do hotel e aos vendedores das lojas e criados dos restaurantes - todos nordestinos, pequenos e escuros, afáveis no trato e com o sotaque que já ouvimos muitas vezes nas novelas. São claramente muito pobres, e prejudicados pela alta dos preços trazida pelo turismo, embora este provavelmente os beneficie com empregos. Pipa é uma aldeia com uma rua e muitos becos, repleta de lojas e restaurantes, com um verniz de cor e movimento, mas no caminho do aeroporto passámos por outras aldeias que eram francamente miseráveis. Tal como no México, onde me surpreendi ao encontrar em cada aldeiazinha paupérrima, de casas de madeira, uma igreja das Testemunhas de Jeová, também aqui se nota a implantação da igreja, neste caso as evangélicas, e foram várias as jovens lojistas que estavam a ler a Bíblia nos intervalos do trabalho.



Enfim, foram uns dias muito bons, passados de papo para o ar (literalmente), que me trouxeram de volta a maravilhosa sensação quase esquecida de nadar em águas tropicais e que quebraram o preconceito anti-ida-ao-Brasil... Talvez ainda volte, quiçá a Salvador, que é a única cidade cuja cultura e ambiente tenho curiosidade em conhecer.

segunda-feira, março 02, 2009

Just One of Those Things, por Ella Fitzgerald

Uma das minhas músicas favoritas na voz da magnífica Ella Fitzgerald. Quem pode deixar de se sentir melhor ao ouvi-la?





As Dorothy Parker once said
To her boyfriend, "fare thee well"
As Columbus announced
When he knew he was bounced,
"it was swell, Isabel, swell"

As Abelard said to Eloise,
"don't forget to drop a line to me, please"
As Juliet cried, in her Romeo's ear,
"Romeo, why not face the fact, my dear"

It was just one of those things
Just one of those crazy flings
One of those bells that now and then rings
Just one of those things

It was just one of those nights
Just one of those fabulous flights
A trip to the moon on gossamer wings
Just one of those things




If we'd thought a bit, of the end of it
When we started painting the town
We'd have been aware that our love affair
Was too hot, not to cool down

So good-bye, dear, and amen
Here's hoping we meet now and then
It was great fun
But it was just one of those things

If we'd thought a bit, of the end of it
When we started painting the town
We'd have been aware that our love affair
Was too hot, not to cool down

So good-bye, dear, and amen
Here's hoping we meet now and then
It was great fun
But it was just one of those things

Just one of those things

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

A doença que não tem nome...



Deparei com uma citação de Betty Friedan (uma autora feminista que desconhecia), que achei perfeita como descrição do "problem that has no name" que afecta de forma tão generalizada a nossa sociedade actual:

the ubiquitous malaise, tension, and anxiousness that results from the gap between the expectations of a fulfilling life and the realities of a stifling existence

(Although Friedan was referring to the malaise of housewives during the 1950s, the unnamed problem she noted is far more widespread in the general population of contemporary societies)

Retirado da secção Book Reviews do New England Journal of Medicine desta semana.

terça-feira, fevereiro 24, 2009

Sartre e Beauvoir - A História de uma Relação, de Hazel Rowley



Desde muito novo que tenho uma enorme admiração por Jean-Paul Sartre e por Simone de Beauvoir; li Memórias de uma Menina Bem Comportada no 11º ou 12º ano e senti uma sintonia imediata com o tom e os sentimentos da autora, e A Idade da Razão marcou a minha passagem á idade adulta (é sem dúvida um dos livros da minha vida, se eu fizesse essa lista). Ao longo dos anos, fui lendo muitos dos seus livros´- romances, memórias, correspondência - e desenvolvi uma forte admiração por eles, como escritores e como pessoas.

Foi por isso com muito prazer que li Sartre e Beauvoir, um livro contando a história do seu relacionamento de 50 anos - a perspectiva é quase sempre a de Simone de Beavoir, o que é natural, pois foi ela quem escreveu mais sobre as suas vidas, de modo que o grosso do testemunho é o seu. Sempre me fascinou a relação dos dois, e de certa forma sempre sonhei em ter uma relação assim - de confiança e compromisso, acima de e incluindo relacionamentos paralelos - talvez porque sempre achei que o amor e companheirismo estão muito além de simples e passageiros entusiasmos, sexuais ou não (aquilo a que eles chamavam as relações contingentes). Sim, é certo que cometeram muitos erros em relação a outras pessoas, que tiveram muitos momentos difíceis, mas isso só confirma que eram humanos, e uma das suas grandes qualidades foi precisamente a de reconhecerem esses erros e de os discutirem. E talvez seja devido ao meu carácter, ao meu gosto pela discussão, pela análise, pela intriga, que eu me sinta tão identificado com eles, como também com o grupo de Bloomsbury, que teve igualmente a coragem de romper com a família e os modelos convencionais. Para mim, foi esse o espírito cultural do século XX que transformou o mundo em que vivemos, que contribuiu para a liberdade de que hoje gozamos na sociedade ocidental, e estas pessoas foram fulcrais para essa mudança, para vivermos hoje de uma forma que nos parece adquirida desde sempre.

A Viagem do Elefante, de José Saramago



A Viagem do Elefante é um livro engraçado e bem disposto, que se lê praticamente de um fôlego. Como de costume, José Saramago é um verdadeiro mestre do uso das palavras e da Língua Portuguesa, que maneja como poucos. Ler a sua prosa é um puro prazer só pela leitura em si, e há que reconhecer que a idade avançada em nada diminuiu o seu vigor. A história é interessante e está bem contada, as personagens, como sempre nos livros de Saramago, parecem-se todas e falam todas da mesma maneira, mas é de facto a perícia da escrita que se destaca e delicia. Não sei se o autor gostaria desta apreciação... Nunca foi dos meus escritores preferidos, sempre achei que a maioria dos seus livros, sempre soberbamente escritos, começavam com uma boa ideia, e original, mas que depois esta se perdia numa certa pretensão de profundidade (que contribui para as personagens serem todas iguais e falarem todas com a mesma voz - a do autor) e se ficava geralmente no final com a sensação de que o passo era maior que a perna. Neste livro, talvez devido à propositada leveza do tema, isso não acontece.

(Acrescento que, apesar desta crítica se aplicar à maior parte dos livros de José Saramago que li, há três aos quais não se aplica, e que considero excelentes do princípio ao fim: Levantado do Chão, Memorial do Convento e Ensaio Sobre a Cegueira.)

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Nostalgia musical

Ultimamente, uma música dos Talking Heads não me tem saído da cabeça, Air, a primeira música dos Talking Heads que me lembro de ter ouvido. Tinha 14 anos, alguém me ofereceu o álbum Fear of Music, que eu desconhecia completamente, e lembro-me do fascínio que senti quando a agulha tocou no vinil e um som que me pareceu então extra-terrestre invadiu a sala, tão diferente da música que eu habitualmente ouvia nessa época - a descobrir o rock dos Pink Floyd e Led Zeppelin, o rock'n'roll dos anos 50, as músicas dos anos 60 a partir de Bob Dylan, e da "contemporânea" pouco mais que Kate Bush, Police e Dire Straits (refiro-me ao que ouvia em repeat, dos discos que comprava; obviamente ouvia os hits do tempo na rádio).

Mas este disco dos Talking Heads foi uma verdadeira descoberta - fortuita, como quase todas as melhores são - e lembro-me de o ouvir vezes sem conta. Curiosamente, só muitos anos depois apreciei os discos posteriores da banda; talvez devido à impressão tão forte que Fear of Music exerceu sobre mim, achei o que ia aparecendo deles mais fraco.

Procurei no youtube, e encontrei esta versão ao vivo de Air e Cities em 1979 - o som é fraco, mas o video de uma interpretação de Air por David Byrne num concerto, com muito melhor qualidade, está muito mais longe do som que eu ouvi e me fascinou naquela época.

domingo, fevereiro 08, 2009

One Art, de Elizabeth Bishop



One Art

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

--Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.




A arte de aceitar as perdas foi uma das conquistas mais inestimáveis que fiz na vida... Facilita tanto as coisas! (E o poema é lindo)

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

The Quiet Girl, de Peter Høeg

O primeiro livro que li de Peter Høeg foi The History of Danish Dreams, há muitos anos, comprado em Londres por uma amiga, e gostei muito – da escrita, mágica e melancólica, e do ambiente, nebuloso e meio fantástico. Não conhecia a Escandinávia, e muito pouco da literatura dinamarquesa (apenas Karen Blixen e Hans Christian Andersen), e este livro evocava uma terra onírica de brumas e lendas. Li depois Miss Smilla’s Sense of Snow, um thriller excelente, com o mesmo estilo de escrita e uma história muito engenhosa e que nos mantém suspensos do princípio ao fim (fizeram a partir dele um filme muito fracote, com Julia Ormond no papel de Smilla). Muito mais tarde, li The Borderliners, de que gostei menos, por achar a história demasiado rebuscada, e fiquei com menos interesse por ler outros livros dele.

Recentemente, no entanto, a minha ida a Copenhaga, de que gostei imenso (e que me pareceu uma cidade tão serena e bem disposta, diferente do que seria de esperar a partir da escrita melancólica de Andersen, Blixen e Høeg), deu-me vontade de voltar a ler alguma coisa da sua literatura, e comprei lá o último livro dele, The Quiet Girl.

Mais uma vez, a escrita é melancólica, e a história muito complexa, uma combinação de thriller com realismo fantástico e reflexões sobre a arte, a vida e as relações humanas. Além de ter de se tomar atenção aos pormenores para não perder o fio à meada que está verdadeiramente emaranhada, a minha falta de conhecimentos musicais impediu-me de apreciar / compreender as inúmeras referências à linguagem musical, e as permanentes reflexões profundas das personagens tornam-se por vezes cansativas e um bocado irritantes. Apesar de todos estes defeitos, é um thriller engenhoso, capaz de nos agarrar até ao fim – mesmo que este se revele um tanto decepcionante – e bem escrito, e a organização da narrativa, em fragmentos que se vão revelando em diferentes momentos cronológicos, agradou ao apreciador de puzzles que sou. Não é um grande livro, mas é interessante; no entanto, ainda está muito longe de me transmitir algo próximo da sensação que Copenhaga me transmitiu, que espero um dia encontrar em algum outro autor, pois para mim ler sobre os lugares enriquece-os imenso (tal como conhecê-los enriquece a leitura sobre eles). Pelo menos, foi agradável visualizar muitos dos sítios onde se passa a acção – por exemplo, quando estacionavam o carro atrás da Bolsa, eu revi mentalmente o magnífico edifício da Bolsa, com o seu campanário formado pelas caudas entrelaçadas de quatro dragões.

domingo, fevereiro 01, 2009

Déjà vu (a influência dos genes?)


Há dias, quando estava a guardar uma pasta de documentos numa gaveta da cómoda do meu quarto, tive uma sensação de déjà vu. E o que vi foi uma outra cómoda, num outro quarto, igualmente repleta de coisas, desde a óbvia roupa a documentos e fotografias, tal com a minha está. Era uma cómoda antiga, pesada, alta (cerca de 1,50 m), de madeira pintada de tinta castanha num dos acessos de bricolage da minha avó. Estava no quarto do meu avô, e ele guardava ali de tudo um pouco. Lembro-mede como me deliciava bisbilhotá-la, desde o topo, onde se acumulavam resmas de livros de Camilo Castelo Branco em velhas edições, até às gavetas, onde descobri velhas escrituras de hortas e fotografias da minha mãe e tios em crianças. O quarto do meu avô - como aliás toda a casa dos meus avós - era uma inesgotável fonte de deliciosas descobertas quando eu era criança, desde a sala que só era aberta para as grandes ocasiões, como os jantares de Natal, até aos armários da cozinha ou às arcas do sótão.

O facto de os meus avós terem cada um o seu quarto parecia-me inicialmente justificado por viverem numa casa tão grande, só mais tarde me apercebi que era uma consequência da longa guerra que foram os seus 60 anos de casamento. A minha avó governava toda a acasa, e o meu avô vivia praticamente confinado ao seu quarto - o que não significava de modo algum que fosse a parte mais fraca, mas fora o equilíbrio a que tinham chegado. Por motivos diferentes, também eu tenho vivido confinado no meu quarto numa casa grande. E, tal como as coisas do meu avô estavam todas guardadas numa cómoda (aliás, eram duas, do mesmo género) no seu quarto, também as minhas estão numa, que embora bem diferente, comprada na moderna Ikea, acaba por cumprir as mesmas funções. E foi essa a sensação que tive no momento em que estava a guardar numa gaveta a pasta de documentos, junto ao carregador do telemóvel, ao passaporte e outras utilidades - é assim que a história se repete em diferentes gerações? São os meus módulos de gavetas da Ikea a nova versão da velha e pesada cómoda do meu avô? Um avô de que herdei outra característica - a de dormir de janela aberta todo o an, faça frio, chuva ou sol.