quinta-feira, junho 24, 2010

Nova viagem à Flandres



Depois da viagem à Flandres em Abril de 2009, regressei, e gostei tanto como da vez anterior. Comecei por voltar a Bruxelas, desta vez com um sol radioso, que fez encher as esplanadas dos cafés e restaurantes de uma multidão animada e cosmopolita. Nas Halles Sait Géry, que no ano anterior tinham estado desertas, foi difícil encontrar um lugar para nos sentarmos a saborear uma cerveja... Da mesma forma, a Grand Place estava muito mais bonita debaixo de sol.



Sabe-me sempre bem regressar a cidades / lugares onde já estive e de que gostei - ao prazer da descoberta de novos sítios (há-os sempre) junta-se uma sensação de familiaridade confortável, como quando se está com velhos amigos. Visitei a interessante Basilique Nationale art deco e o Musée Magritte, que ainda não existia há 1 ano, e que é muito bom - apesar de não estar lá nenhuma das obras mais conhecidas do pintor, a colecção é excelente e está muito bem exposta, com os trabalhos muito bem contextualizados.



De Bruxelas fui a Lewven / Louvain, a cidade universitária de Erasmo. É uma cidadezinha fantástica, combinando uma arquitectura gótica magnífica - a Stadhuis chega a ser mesmo demasiado ornamentada, tem de se olhar devagar os detalhos para os apreciar devidamente, e há também a catedral, a biblioteca da universidade, e sobretudo o conjunto, as praças, as casas de guildas, etc - com uma vida jovem e animada de estudantes que faria inveja a qualquer cidade espanhola. O Oude Markt é uma praça verdadeiramente incrível, basta estar lá para se ficar bem disposto.





Mechelen / Malines é mais uma cidade flamenga com um belo centro histórico, com a sua Stadhuis, casas de guildas, igrejas e praças. A torre da catedral de St. Romould sobressai na paisagem urbana, e mais uma vez há uma série de agradáveis praças com esplanadas e gente a beber cerveja e a conversar.





Por fim, Antuérpia. Uma cidade maior, mais esplanadas, cerveja, casas de guildas e igrejas... O Grotte Markt é quase tão bonito como a Grand Place de Bruxelas, e a disposição da praça é a meu ver mais interessante. Além da magnífica catedral gótica e da Stadhuis renascentista, há edifícios muito interessantes, como o Vleeshuis, o castelo, a Gare Central, exuberantes prédios Belle Époque, e claro as casas de guildas.



Fica a memória de alguns dias muito bem passados, e a vontade de voltar à Bélgica.

sexta-feira, junho 18, 2010

Lettres à Theo, de Vincent van Gogh



Gostei muito de ler as cartas de van Gogh ao irmão. Tocante, a escrita de van Gogh é apaixonada e intensa como os seus quadros (segundo Émile Bernard, “There, pulsating with life, one would find the whole of him.”), e é muito interessante seguir a evolução da sua vocação - de pregador protestante a pintor - e a génese de alguns dos seus quadros.

"...le monde ne m'importe guère, si ce n'est que j'ai une dette envers lui, et aussi l'obligation, parce que j'y ai déambulé pendant trente années, de lui laisser par gratitude quelques souvenirs sous la forme de dessins ou de tableaux qui n'ont pas été entrepris pour plaire à l'une ou l'autre tendance, mais pour exprimer un sentiment humain sincère."

Vincent viveu a sua curta vida de forma algo desastrada, mas sempre convicta, apaixonada e sincera, lutando com dificuldades financeiras (como é tristemente ir´nico ler: "C'est une perspective assez triste de devoir se dire, que jamais peut-être la peinture que je fais aura une valeur quelconque. Si cela valait ce que cela coûte, je pourrais me dire: je ne me suis jamais occupé de l'argent."!). Theo foi sempre o seu suporte inestimável, não só financeiro como afectivo. "Quand existe l'amitié véritable entre deux êtres, ceux-ci ne se fâchent pas facilement l'un contre l'autre, même lorsqu'ils en arrivent à se brouiller. Même si l'on se fâche, on ne tarde pas à se réconcilier."

"Ouf - le faucheur est terminé [...] - c'est une image de la mort tel que nous en parle le grand livre de la nature - mais ce que j'ai cherché c'est le «presqu'en souriant». C'est tout jaune, sauf une ligne de collines violettes, d'un jaune pâle et blond."

quinta-feira, junho 10, 2010

Viagem à Provença



Já não me lembro quando ou porque começou o meu desejo de ir à Provença. Foi seguramente há muito tempo, e provavelmente consolidado após a leitura, aos 20 e poucos anos, de O Quinteto de Avignon. Várias vezes adiada, finalmente lá fui conhecer a região.



As expectativas eram obviamente grandes, e a viagem não começou da melhor maneira - novo adiamento, desta vez de 2 semanas, devido às famosas cinzas vulcânicas - mas foram inteiramente realizadas. Adorei a viagem, foi das que mais gostei nos últimos tempos, e tenho em geral gostado de todas (sou um viajante optimista!).



É difícil descrever 5 dias felizes e muito intensos em poucas palavras, por isso não vou tentar. Direi apenas que o tempo esteve estupendo (o adiamento causado pelo vulcão revelou-se uma blessing in disguise, já que na data incial esteve a chover), as cidades, as aldeias e o campo são belíssimos, as pessoas muito mais simpáticas que em Paris e a comida excelente como era de esperar.



Num resumo muito resumido, para dar uma ideia e aguçar o apetite de quem queira lá ir:



A natureza é bastante semelhante ao Alto Alentejo / Beira Baixa, o que me proporcionou uma sensação de familiaridade e de "estar em casa", com a vantagem de haver tudo o resto e ainda a costa, de que vi pouco mas é muito bonita (espero regressar para ver o resto): vinhas, oliveiras, pinheiros, ciprestes, penedos de granito, as planícies pantanosas e salinas da Camargue. Renques de ciprestes evocam paisagens pintadas por Van Gogh. Não vi as famosas florações da alfazema, que são mais tarde.



Magníficos vestígios da História encontram-se por todo o lado: o teatro romano de Orange, os anfiteatros de Arles e Nîmes, a Pont du Gard, os pórticos românicos de St. Trophime em Arles de de St. Gilles-du-Gard, castelos como o do rei René em tarascon, as muralhas de Aigues-Mortes, o palácio gótico dos Papas em Avignon, os edifícios dos séculos XVII e XVIII do Cours Mirabeau em Aix...



Das cidades, destaco Aix-en-Provence, Avignon e Arles; das aldeias Les Baux, Gordes, Crestet; mas todas as vilas são interessantes e agradáveis, como St. Rémy, Tarascon, etc.



A comida é óptima, desde a famosa bouillabaisse de Marselha a qualquer salada bem temperada em qualquer vilazinha, e o vinho é delicioso. Os sabores mediterrânicos no seu melhor.



É óbvio que não há só qualidades: em geral conduz-se mal, as sinalizações fazem lembrar as portuguesas na sua tendência críptica, as rotundas com "esculturas" "modernas" também pululam nos arredores de Marselha, as multidões de ciganos internacionais e de working classes tornavam Saintes-Maries-de-la-Mer (uma vilazinha à beira-mar não muito diferente da Costa da Caparica mas com uma imensa igreja tipo fortaleza) naquilo que os meus filhos chamaria "o paraíso da chungaria" (mas o ambiente acabava por ter a sua graça), Nîmes no dia da feria anual transbordava de barulho, música pimba e gente bebida, um autêntico "bordel" tauromáquico de onde fugimos com dor de cabeça uma hora depois de chegarmos... Mas os lugares não serem perfeitos torna-os mais reais, quanto a mim, e há sempre pequenos contratempos nas férias.

Numa próxima vez, espero explorar a região oriental da Provença e Côte d'Azur.

quarta-feira, maio 19, 2010

Uma história portuguesa

Actualmente, graças aos grandes avanços tecnológicos das últimas décadas, existem múltiplos aparelhos utilizados no tratamento e prolongamento da vida dos doentes – ventiladores, monitores, desfibrilhadores, máquinas de diálise, pacemakers, etc, etc. O manuseio desta tecnologia exige conhecimentos específicos, e não só os médicos se especializam cada vez mais como também os enfermeiros precisam de formação específica para trabalhar em unidades especializadas, sejam de Cuidados Intensivos, Neurocirurgia, Hemodiálise, Obstetrícia, etc.

Sabendo isto, consideremos agora que existe uma máquina que permite realizar uma técnica que é indispensável para os cuidados médicos em certas circunstâncias. Chamemos-lhe uma máquina de fazer laranjada, indispensável nas ocasiões em que um doente não pode sobreviver sem ela, em que nem sequer limonada serve. Num certo hospital central, essa máquina foi adquirida pelo serviço que habitualmente confecciona os sumos necessários à sobrevivência dos doentes, embora os que estejam na condição crítica em que precisam da laranjada estejam, dado o seu estado de gravidade, internados em unidades de outros serviços, dedicados especialmente aos cuidados críticos / intensivos. Os médicos e enfermeiros do serviço “dono” da máquina deslocam-se com ela quando necessário às unidades de doentes críticos, programam a máquina e deixam-na a fazer laranjada continuamente, aos cuidados dos enfermeiros dessas unidades, e assim se salvam vidas.

Tudo muito simples e linear… se não estivéssemos em Portugal. Neste hospital de que falo, há um problema que persiste e que tem complicado muito as coisas – nomeadamente a minha actividade de modesto médico prescritor de laranjada. É que, se em várias unidades o processo tem decorrido sem problemas – os enfermeiros locais dispuseram-se a aprender o fabrico da laranjada, que aliás não é nada complicado – noutras, e por azar aquelas em que mais frequentemente os doentes precisam do precioso suco, os enfermeiros recusam-se a realizar a técnica, alegando falta de pessoal e de formação. Ao longo do tempo, várias vezes foi proposto pelo serviço “dono” da máquina fornecer a formação necessária – que é bem simples, pois fazer a laranjada é bem mais fácil do que operar muitas das outras máquinas já utilizadas nessas unidades, como os ventiladores – mas os chefes de enfermagem dessas unidades sempre se têm escusado, alegando vários pretextos – obras, a gripe A, etc… Entretanto, e para não deixar morrer os doentes que dela precisam por falta de laranjada, os enfermeiros do serviço “dono” da máquina têm-se disponibilizado para ficar nas unidades longas horas a vigiar o fabrico do sumo, o que está fora das suas obrigações.

Cartas e mails têm sido trocadas entre os directores dos vários serviços e a direcção clínica do hospital, mas até agora nada se resolveu, e de cada vez que algum doente nessas unidades “problemáticas” precisa de laranjada, lá volta a mesma eterna discussão.

E agora vem o pequeno pormenor que me levou a publicar este post. Há quanto tempo este problema dura? Dois meses? Seis? Um ano? Errado! Desde Setembro de 2002! Exactamente: mais de 7 anos e meio, e as perspectivas de solução permanecem exactamente as mesmas.

Acho que esta situação é um excelente exemplo de como as coisas (não) funcionam em Portugal. Alguém falou em produtividade? Pois.

terça-feira, maio 11, 2010

À l'ami qui ne m'a pas sauvé la vie, de Hervé Guibert

Este é um livro que há muito tinha vontade de ler, por um motivo ou outro nunca o tinha feito, encontrei-o a 3.55 € em Paris e comprei-o. Gostei muito, é um relato na primeira pessoa de um homem com SIDA nos anos 80, quando ter SIDA era uma sentença de morte. A convivência com a doença, os efeitos sobre a relações afectivas, o medo, a revolta, estão extremamente bem descritos. Lembro-me bem dos tempos antes da teapêutica anti-retroviral eficaz, que apareceu em 1996; as enfermarias de Infecciologia eram deprimentes, com os mesmos jovens internados e reinternados, de cada vez piores, até morrerem. A SIDA foi a última grande pandemia de uma doença mortal, como tantas outras na História, mas numa época em que as pessoas já não esperavam morrer de uma doença infecciosa.

domingo, maio 09, 2010

Neve, de Orhan Pamuk

Li há algum tempo O Meu Nome É Vermelho, de Pamuk, de que gostei bastante, tal como de alguns artigos seus em várias revistas, de modo que tinha uma expectativa elevada em relação a Neve. Talvez por isso, o livro decepcionou-me batante. O tema é interessante, mas achei o ritmo demasiado lento, e não consegui sentir-me "agarrado". Talvez porque os problemas da laicidade vs religiosidade, do lenço islâmico, da identidade turca, não me toquem de muito perto, ou então porque o autor não conseguiu apresentar esses problemas de forma suficientemente universal para me interessar (ao contrário, por exemplo, dos livros de Naguib Mahfouz, A Trilogia do Cairo, que, embora tratando também de um mundo muito afastado culturalmente do nosso, me prendeu do princípio ao fim, e sobretudo soube tornar-me esse mundo familiar e compreensível). Li a elogiosa crítica da New York Review of Books e, embora compreenda o que diz o texto, não alterou a minha opinião sobre o livro - basicamente não me caivou.

domingo, maio 02, 2010

Lettres de la Princesse Palatine

Há já bastante tempo que tinha vontade de ler a famosa correspondência da Princesa Palatina (Elisabeth Charlotte do Palatinado, mulher de Monsieur, o irmão de Luís XIV); já a encontrara no Project Gutenberg mas em inglês, de modo que foi com satisfação que comprei o livro em Paris. É um bom complemento às Memórias de Saint-Simon, mais uma descrição em primeira mão da corte de Luís XIV e do tempo da Regência. Madame era uma espécie de rebelde inadaptada na corte, de quem troçavam por ser feia e nada coquette, estando ainda por cima casada com esse proto-campeão-do-queer que era Monsieur, uma espécie de bicha louca do século XVII governada pelos seus mignons. Mas Elisabeth Charlotte, ou Liselotte como lhe chamavam os íntimos, vingava-se escrevendo longas cartas aos seus familiares alemães, onde descrevia com perspicácia e mordacidade a corte que a rodeava. De linguagem truculenta e sem papas na língua - Madame desejaria ter sido um homem e a sua actividade favorita era a caça -, com uma provável paixoneta pelo rei seu cunhado, um ódio visceral a Madame de Maintenon (a que chama venenosamente la vieille ordure, la pantocrate, la vieille ratatinée e outros mimos semelhantes) e desprezando o marido e a corte de bajuladores em geral, as suas cartas são divertidas e cheias de pormenores para conhecer a fundo uma sociedade de gente frívola, interesseira e superficial, que vivia na dependência de um olhar ou de uma palavra do rei que assinalasse o respectivo grau de faveur. Saint-Simon é mais elegante e erudito, mas Madame, numa corte onde imperava a cupidez e a estupidez, onde o próprio rei era um completo ignorante, era uma mulher notavelmente culta, que lia, pensava e escrevia (correspondia-se inclusivamente com Leibniz). Enfim, um livro instrutivo e divertido, que se lê rapidamente e com prazer.

Mais três entrevistas da Paris Review

Tenho grande admiração por Gore Vidal; não é especialmente talentoso como escritor de ficção, ebora os seus romances sejam geralmente bem acima da média e tenha escrito alguns excelentes como o original e delicioso Myra Breckinridge e a série dedicada à História dos Estados Unidos, mas como ensaísta é do melhor que há, de uma clareza, inteligência e humor contundentes e corrosivos. Gosto da sua personalidade forte e corajosa; é certo que pertence a um meio social privilegiado que lhe proporcionou oportunidades que a maioria nunca tem, mas soube viver à sua maneira e desafiar uma série de convenções e preconceitos do seu meio e do seu tempo (aliás, de todos os meios e tempos). É certo que é arrogante e vaidoso e nem sempe concordo com as uas posições, mas globamente acho-o um pessoa excepcional.

A entrevista à Paris Review, de 1974, mostra-o numa fase particularmente corrosiva, sente-se um despeito relacionado com o envelhecimento, quando estava a deixar de ser um homem atraente e com muitos anos pela frente e ainda não resignado ao declínio físico da idade. Não é por isso das entrevistas dele que eu mais aprecie; mas se estão lá a sua arrogância e snobismo, também está a sua verve eo seu humor; vale sempre a pena lê-lo.

A entrevista de Marguerite Yourcenar, realizada pouco antes da sua morte e por isso incompleta, surpreendeu-me agradavelmente. Gosto imenso dos livros de Yourcenar, Memórias de Adriano é dos meus livros favoritos de sempre. No entanto, sempre simpatizei menos com a escritora do que com os seus livros; apesar de exprimir nstes ideias lúcidas, independentes e não preconceituosas, vários dos seus ensaios e sobretudo as suas cartas mostram traços de grande conservadorismo e superioridade moral que me irritam, tal como a sua imagem muito construída e resguardada. Fico sempre com a impressão de que devia ser uma pessoa insuportável no dia a dia. Por isso gostei muito de ler esta entrevista, onde não se notam esses traços negativos, mostrando antes uma grande abertura de espírito, simplicidade de expressão e lucidez, notáveis sobretudo tendo em conta que tinha mais de 80 anos e que morreria em breve, penso que de um AVC.

Quanto a Aldous Huxley, li vários livros seus na adolescência, e lamento ter esquecido por completo a maior parte deles, como Contraponto ou Sem Olhos em Gaza; apenas me lembro bem de Admirável Mundo Novo, que é muito bom. Gostei muito da entrevista, era sem dúvida um homem inteligente, culto e interessante (mesmo tendo resvalado para um interesse por parapsicologia e misticismo na meia idade - a entrevista é de 1960).

Termino com o final desta entrevista, que é uma passaem que me agradou particularmente: "I think that fiction and, as I say, history and biography are immensely important, not only for their own sake, because they provide a picture of life now and of life in the past, but also as vehicles for the expression of general philosophic ideas, religious ideas, social ideas. My goodness, Dostoyevsky is six times as profound as Kierkegaard, because he writes fiction. In Kierkegaard you have this Abstract Man going on and on - like Coleridge - why, it's nothing compared with the really profound fictional Man, who has always to keep these tremendous ideas alive in a concrete form. In fiction you have the reconciliation of the absolute and the relative, so to speak, the expression of the general in the particular. And this, it seems to me, is the exciting thing - both in life and in art."

domingo, abril 25, 2010

Duncan Grant - a Biography, de Frances Spalding


















Depois de ler as biografias dos elementos principais de Bloomsbury - Virginia Woolf, Lytton Strachey e Maynard Keynes - restam-me as dos outros membros, e foi com grande prazer que li a de Duncan Grant que, segundo alguém que agora não me lembro quem foi, foi amado por todos eles. A extensa biografia de Frances Spalding está bem escrita e é sempre interessante rever aquele meio e aquela época; aliás, Grant foi o elemento do grupo original que morreu mais tarde (exceptuo Frances Partridge, que foi um membro mais acessório). A meu ver, a importância artística de Duncan Grant é muito inferior à de Virginia Woolf, e a sua personalidade muito menos interessante que a de Lytton Strachey, no entanto, ocupou um lugar central no círculo de amigos, pelas suas ligações com Lytton, Keynes e Vanessa Bell. Como pintor, apesar de uma obra enorme e muitas vezes interessante, ficou sempre muito aquém dos seus contemporâneos e inspiradores Matisse, Picasso, Cézanne ou Derain. Para mim, é a sua ligação a Bloomsbury e a sua participação no movimento artístico do primeiro quarto do século XX, incluindo a experiência das Omega Workshops, que o tornam interessante. Foi de facto um período fascinante.






sábado, abril 17, 2010

Los Alegres Muchachos de Atzavara, de Manuel Vázquez Montalbán

Comprei este livro na minha última ida a Madrid para treinar o meu Castelhano. De Montalbán só tinha lido Ou César ou Nada, de que por sinal gostei bastante, um bom romance sobre os fascinantes Bórgias, centrado em César. Los Alegres Muchachos de Atzavara é um livro divertido e mordaz, uma comédia de costumes passada no Verão de 1974, na fase final do franquismo, narrada por quatro personagens diferentes. O tom é divertido, nomeadamente na diferença entre as vozes e perspectivas dos diferentes narradores, e o ambiente bem conseguido. Quanto ao Castelhano, consegui perceber quase tudo e ler com fluidez; espero ler mais nesta língua no futuro.

domingo, abril 11, 2010

Viagem a Paris em família



Depois de várias vezes projectada e várias vezes adiada, realizou-se a minha ida a Paris com os meus filhos. Foram uns óptimos dias de férias, combinando divertimento e cultura, e sinto um especial prazer não só em dar-lhes a conhecer sítios de que gosto e que é engraçado rever pelos olhos deles, como se fosse a primeira vez, mas em incutir-lhes o gosto por viajar, alargar-lhes os horizontes e sentir o prazer deles ao contactarem com os lugares.



Tivemos muita sorte com o tempo, que esteve quase sempre excelente, o que nos permitiu andar imenso a pé e ver a cidade no seu melhor aspecto. Fomos uns verdadeiros turistas: percorremos os bairros da Île de La Cité e Île de St.Louis, o Quartier Latin e Saint Germain-des-Prés, os Champs-Elysées e a Place de l'Etoile, a Opera, Les Halles, o Marais e Montmartre, com muitas paragens em cafés e lojas e várias viagens de metro. Foi bom rever sítios que não voltara a visitar desde a minha primeira ida a Paris, como Notre Dame, a Torre Eiffel, os Museus do Louvre e d'Orsay (infelizmente o Museu Picasso está em remodelações até 2012). Conheci o Palais de Tokyo e o seu excelente museu de arte moderna (e almoçámos no Tokyoeat, um óptimo restaurante que me fora recomendado) e o Museu do Quay Branly, de arte não ocidental, que abriu há poucos anos e que foi uma excelente surpresa (tal como fora o Whitney Museum de San Francisco, há uns anos).



Muitos cafés e restaurantes pelo meio, lojas de delicatessen como o enorme Fauchon, horas em livrarias da Rive Gauche de onde saí com um pequeno (porque me controlei!) carregamento de livros, os bouquinistes ao longo do rio, as galerias das Passages, lojas de roupas (felizmente as minhas filhas ainda não apreciam a que se vende pelo Marais), etc.



No meio das férias, cumpri a promessa de os levar à EuroDisney. Nunca gostei deste tipo de parques de divertimento enlatado, e achei-o ainda muito pior do que esperava - foi o meu sacrifício de pai indulgente... Saí de lá com dor de cabeça de ouvir aquelas horríveis músicas saltitantes; a única vantagem foi ter sido o único dia em que o tempo esteve muito nublado e choveu um pouco. Teria sido um dia para esquecer se não o tivesse acabado metido nas livrarias. Encontram-se livros terrivelmente baratos, e há de tudo - por minha vontade teria enchido um baú!



Para completar a circuito turístico, não faltou o passeio de barco pelo Sena, os meus filhos quiseram fazer-se retratar a carvão na Place du Tertre (ficaram reconhecíveis) e terminámos com a subida à Torre Eiffel, num dia de sol que nos permitiu apreciar as vistas no seu melhor.



Enfim, mais uma viagem bem sucedida, que me deixou já com vontade de fazer as próximas (destinos a determinar)!

domingo, abril 04, 2010

John Maynard Keynes, de Robert Skidelsky

Terminei há dias a excelente biografia de Keynes por Robert Skidelsky. É um livro magnífico, que faz justiça à personalidade do biografado. Robert Skidelsky é historiador e economista, o que lhe permite alongar-se sobre os aspectos técnicos da obra de Keynes; sou pouco versado em Economia, de modo que houve várias passagens sobre detalhes técnicos que não compreendi inteiramente, mas o principal está muito bem explicado, e é uma das qualidades do livro nunca se tornar aborrecido, mesmo nessas partes. Keynes foi uma personagem bigger than life, inteligente, inovador, de uma energia inesgotável, culto, socialmente consciente, dos mais importantes representantes da geração de Bloomsbury que eu tanto aprecio e sem dúvida o seu elemento globalmente mais influente. Uma citação de Lionel Robbins,escrita já na fase final da vida de Keynes, resume-o bem: "... I often find myself thinking that Keynes must be one of the most remarkable men that have ever lived - the quick logic, the birdlike swoop of intuition, the vivid fancy, the wide vision, above all the incomparable sense of the fitness of words, all combine to make something several degrees beyond the limit of ordinary human achievement..." Além da vida e obra de Keynes, o livro é extremamente interessante como história da sua época; as passagens sobre as negociações anglo-americanas durante e após a 2ª Guerra Mundial são empolgantes, dão-nos uma ideia vívida de como foram aqueles momentos tão decisivos para o mundo em que vivemos actualmente. E é lamentável pensar como evoluiu nas últimas décadas o pensamento económico, e nas pessoas que defendem que a economia não está indissoluvelmente ligada à política, permitindo a "selva" financeira actual. Bem falta nos fazem pessoas como Keynes.

domingo, março 21, 2010

The History of the Decline and Fall of the Roman Empire, de Edward Gibbon



Terminei a leitura dese clássico de Gibbon com pena. Como outras longas obras que me dão especial prazer, gostaria que continuasse indefinidamente, pelo puro prazer da degustação da leitur. De facto, uma das maiores qualidades deste livro é a elegância da linguagem, que o torna uma verdadeira delícia de ler. Devorei a primeira parte rapidamente, até ao século VI, que é a mais interessante, depois deixei alongarem-se os mil anos até à tomada de Constantinopla pelos Turcos - de certa forma, um ritmo adequado à longa decadência do Império Bizantino. Este livro literalmente monumental - vários milhares de páginas - publicado entre 1776 e 1787 - nada perdeu da sua actualidade, e é simultaneamente um registo de uma certa forma de escrever própria do elegante século XVIII (outro magnífico testemunho desse estilo são as Memórias de Saint-Simon) e de uma forma de pensar radicalmente nova para a sua época, e por isso tão actual ainda hoje.

Como diz Italo Calvino no seu excelente ensaio Porquê Ler os Clássicos?, "A única razão que se pode aduzir é que ler os clássicos é melhor do que não ler os clássicos."

sábado, março 20, 2010

O resort



Nas minhas recentes férias na Bahia, fiquei pela primeira vez hospedado num resort de praia completo (já tinha ficado em vários hotéis de praia, com piscina e comodidades semelhantes, mas nunca num empreendimento com esta dimensão e tão... típico). Fora-me aconselhado por vários colegas e, embora o conceito não me atraísse particularmente, a relação qualidade / preço e a vantagem do regime "tudo incluido" para umas férias de aboboranço na praia (e tendo em conta que não desejava ter de ir muitas vezes à cidade) convenceram-me.

Não lamento a decisão: as ditas vantagens confirmaram-se, a praia era uma delícia, a comida muito boa, descansei imenso e aboborei qb, de modo que as férias corresponderam inteiramente ao que eu desejava. Mas, decididamente, este tipo de resort não é o meu alojamento ideal.

Para lá entrar, passava-se por três controlos, para afastar com segurança a pobreza da região, de modo que os nossos pertences ficavam perfeitamente resguardados, podendo os hóspedes esquecr os seus blackberries ou câmaras digitais nas espreguiçadeiras, que cedo lhes seriam entregues por um dos múltiplos empregados. Aliás, no check in era-nos aplicada uma pulseirinha de plástico que servia como livre-trânsito para utilizar as instalações, bares, etc. O complexo era de grandes dimensões, com centenas de quartos e os correspondentes ocupantes - muitos brasileiros, portugueses e italianos, a maioria com a sua próspera barriguita, e muitas criancinhas. Podia-se comer a qualquer hora, entre os vários restaurantes e cafetarias (todos com nomes de romances de Jorge Amado) - das 5 às 7, o café continental, das 7 às 11, o café buffet, das 11 às 13, o buffet de piscina, das 13 às 16, o almoço buffet, das 16 às 19, o lanche buffet, das 19 às 23, o jantar buffet, das 23 às 5, a ceia buffet... Além do bar molhado da piscina e do bar do lobby. Não vim mais gordo, porque o calor dos trópicos convidava a comer sobretudo saladas e fruta, e os doces de coco regionais são demasiado enjoativos, mas ainda comi saborosos pratos baianos como vatapá e xinxim de galinha, e os mojitos e as margaritas sabiam muito bem.

Mas o crème de la crème era a animação da piscina. A toda a hora havia uns frenéticos animadores, dando aulas de samba, de capoeira, de ritmo, de relaxamento, etc. Apesar da variedade dos temas, a actividade dos participantes era sempre muito parecida: de pé na piscina, braços erguidos ondulando de um lado para o outro. Já os animadores mexiam-se como se possuídos por um poltergeist - um negro pulava e saracoteava-se qual bicha louca como um boneco com molas nos pés, uma negra, a "Tia Tempestade", deixaria a Madonna verde de inveja; mas o máximo foi uma mulata de cabelo pintado de louro e calças negras artisticamente crivadas de buracos que deu uma aula de "relaxamento intensivo". Por entre música New Age (a eterna Enya) e frases omo "...porque o todo é o um, e o colectivo é o individual...", "agora formem um círculo... sempre de mãos dadas...", acabando por "abram os olhos, e vão ver um clarão, e voltarão a entrar no ventre materno"!!! Enfim, epifanias à parte, a zona da piscina era geralmente demasiado barulhenta para ler, embora a água fosse deliciosamente quente.

Resumindo, embora este tipo de resort não me atraia, aproveitei e diverti-me, como viajante optimista que sou (e não, não participei em nenhuma animação da piscina!).

Manuscrito Encontrado em Saragoça, de Jan Potocki

Um livro delicioso, que foi uma excelente descoberta. É uma espécie de Mil e Uma Noites gótico, com histórias dentro de histórias, aventuras rocambolescas e labirintos que se entrecruzam, desde as montanhas de Granada até ao Egipto de Cleópatra, mistérios, tesouros, odaliscas, enforcados e fantasmas, com o cuidado de tudo se desvendar no final. Decididamente, estes romancistas do início do século XIX teriam muito que ensinar aos escritores de pulp fiction histórica da actualidade (tipo Dan Brown)! Gostei imenso.

Mais entrevistas da Paris Review!

Depois de ler a colectânea recentemente publicada de entrevistas literárias da Paris Review, fui ao site da revista e tenho lido outras entrevistas; foi uma óptima descoberta! Nos últimos dias li as entrevistas a:

Lilian Hellman - Descobri Lilian Hellman há muitos anos, quando vi o filme Julia, de Fred Zinnemann, baseado num capítulo de um dos seus livros de memórias. Gostei muito do filme, de modo que encomendei o livro, Pentimento, a Book of Portraits, depois li várias peças e outros livros de memórias. Gosto bastante da sua escrita, do seu tom, e de algumas peças (sobretudo The Children's Hour e The Little Foxes; mais tarde vi o filme com a magnífica interpretação de Bette Davis, é muito bom). A entrevista confirmou a ideia que eu tinha dela - uma mulher determinada e opinionated, não muito simpática, que gostava de construir a sua imagem, da qual fazia parte a sua ligação com Dashiell Hammett, de quem fala inúmeras vezes. Mas gostei das suas declarações sobre o período de McCarthy, e acho que era uma boa escritora, e uma mulher "com coluna vertebral".


Henry Miller - Em miúdo, li Sexus às escondidas, pela curiosidade pelo título, que sugeria algo proibido, mas achei-o incrivelmente chato (ainda acho, aliás); só muito mais tarde tive vontade de voltar a ler Henry Miller, quando, apaixonado pelo Quarteto de Alexandria, descobri que ele fora amigo de Lawrence Durrell. Li primeiro a correspondência entre os dois, publicada em 1962, depois Trópico de Cancer, que é muito bom, e O Colosso de Maroussi, de que também gostei muito; achei Trópico de Capricórnio algo repetitivo e não voltei a ler nada dele. A entrevista mostra-o como o imagino - um homem com imensa vitalidade e determinação, algo irregular como escritor, mas com a qualidade da franqueza e um amor pela vida contagiante. Não é dos mes escritores favoritos, acho as suas ideias algo ingénuas e datadas, mas penso que vale a pena ser lido.

Dorothy Parker - O nome era-me familiar há muito; a sua pessoa começou a tomar forma quando li sobre ela em Pentimento, de Lilian Hellman; mais tarde li uma colectânea dos seus contos e poesia de que gostei imenso, e vi o filme Mrs. Parker and the Vicious Circle, onde é interpretada por Janet Jason-Leigh (excelente interpretação, num biopic simultaneamente melancólico e divertido, como ela própria era). Tem alguns contos excelentes, tal como alguns poemas, e inúmeras frases célebres que fizeram a sua reputação de wit (ou, como ela diz depeciativamente, de wisecrack). A entrevista revela uma mulher inteligente, mas imensamente amarga e desiludida com a vida. Achei curioso ela referir E.M. Forster como um dos seus escritores favoritos. Foi sem dúvida uma personalidade, muito representativa do seu tempo, corajosa e independente, mas que obviamente foi prejudicada pela sua depressão crónica. Qiçá teria sido mais feliz na era do Prozac.

Isak Dinesen / Karen Blixen - Como muita gente, conheci Karen Blixen devido ao filme Out of Africa. Li inicialmente os seus contos, de que gostei muito, depois as suas memórias de África, que achei excelentes, embora por vezes me irritasse o seu discurso aristocrático (como quando usava tantas vezes os pronomes possessivos, "os meus cães", "os meus kikuyus", "a minha quinta"). Foi o meu primeiro contacto com a literatura dinamarquesa (se exceptuar Andersen), e encantou-me o seu tom algo sombrio e misterioso, a forma como as suas histórias se desenrolam de forma tão perfeita e ao mesmo tempo imprevisível. A entrevista mostra-a como ela sempre se mostrou, aristocrática e algo distante, mas dotada de um inegável fascínio e de uma sensibilidade muito especial.

Simone de Beauvoir - Depois de ler as memórias, vários romances (os melhores são Os Mandarins e A Convidada), O Segundo Sexo e a correspondência com Sartre e outros, a entrevista de Simone deBeauvoir nada acrescenta ao conhecimento e à ideia que tenho dela. Sempre a admirei intensamente, desde que li, aos 17 anos, Memórias de uma Menina Bem Comportada, e continuo a admirá-la (tal como a Sartre), com todas as suas qualidades e imperfeições; foi alguém que viveu a sua vida plenamente e conscientemente, com uma curiosidade e atenção pelo mundo inesgotáveis e uma lucidez invejável.