Muito bom, este La Graine et le Mulet, um filme afectuoso, com momentos divertidos e outros comoventes, muito bem interpretado, com uma visão perspicaz das relações familiares. Uma esplêndida galeria de personagens femininas. Sai-se do cinema com uma espécie de nostalgia bem humorada, apesar do final amargo.
quinta-feira, maio 29, 2008
O Segredo de um Cuscuz, de Abdel Kachiche
Muito bom, este La Graine et le Mulet, um filme afectuoso, com momentos divertidos e outros comoventes, muito bem interpretado, com uma visão perspicaz das relações familiares. Uma esplêndida galeria de personagens femininas. Sai-se do cinema com uma espécie de nostalgia bem humorada, apesar do final amargo.
domingo, maio 25, 2008
Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, de Steven Spielberg

Indiana Jones está de volta, e Steven Spielberg regressa àquilo que sabe fazer bem - filmes de aventuras para crianças de todas as idades. Lembro-me de quando vi o primeiro filme do Indiana Jones, Os Salteadores da Arca Perdida, no enorme ecran do Berna, da sensação de embarcar numa viagem de aventura como nos livros e filmes da infância, logo desde a sequência inicial, com aquela pedra gigantesca a rolar vertiginosamente para cima de nós. O segundo filme passou-me um bocado ao lado, numa fase em que me achava demasiado adulto para ver filmes do Indiana Jones, e só o apreciei depois, mas ainda o acho o mais fraco dos três. Quando apareceu o terceiro já era mais adulto e podia saboreá-lo descontraído.
Estava um pouco apreensivo com este regresso de Indiana Jones, por um certo receio atávico das continuações "esticadas" de grandes êxitos. Mas o filme surpreendeu-me agradavelmente: um bom argumento, aventuroso e disparatado qb, o envelhecimento de Harrison Ford bem tratado, vilãos como deve ser, boas sequências de acção. Apenas achei que o Shia LaBeouf não é o actor ideal para aquele papel. De facto, é este tipo de filmes, ou o ET, que o Spielberg sabe fazer, em vez de tentar ser sério e produzir pastelões melodramáticos e maniqueístas. Indiana Jones é puro entretenimento cinematográfico, sai-se do cinema bem disposto com a vida.
terça-feira, maio 13, 2008
last.fm
Misto de estação de rádio e jukebox, a last.fm foi uma das últimas descobertas na net, graças ao meu amigo de sempre, ao qual fico grato - mais uma vez - por me proporcionar este prazer. Faz-se o download, cria-se um pefil, e pode-se ouvir todo o tipo de música enquanto se está a usar o computador. No momento estou a ouvir os Clash, na categoria anos 80, mas já ouvi vários géneros, de indie rock a jazz ou música do século XVIII. E que bem que sabe estar a usar o pc e ouvir a música que nos apetece, sem escolher ao pormenor, o que permite descobrir ou redescobrir músicas e bandas! Uma excelente descoberta!
quinta-feira, maio 08, 2008
The Letters of Lytton Strachey
Mais um exemplar de um tipo de literatura de que gosto bastante - cartas, memórias, biografias. Lytton Strachey é um dos elementos de Bloomsbury que acho mais interessantes, pela qualidade da sua escrita, pelas suas opiniões e críticas e mesmo pelo seu estilo de vida muito sui generis mas honesto e corajoso nas suas contradições. A sua prosa é sempre uma delícia de ler, bem escrita e cheia de espírito, mas confesso que esperava melhor desta selecção de correspondência - a colectânea de cartas que li de Virginia Woolf, Congenial Spirits, é infinitamente mais interessante. No entanto, valeu a pena ler; não só é mais um testemunho sobre a época e aquele grupo de pessoas como várias das cartas são interessantes em si, sobretudo as da época da guerra e as dirigidas a Carrington e a Leonard e a Virginia Woolf. E ler cartas provoca-me sempre uma nostalgia por essa forma de comunicação, tão ao meu gosto e tão pouco utilizada hoje em dia. O relativo distanciamento de uma carta permite uma abertura e uma formulação de ideias e sentimentos que não se consegue numa conversa por telefone, permite-nos organizar e expessar os pensamentos de forma simultaneamente mais livre e controlada. De certa forma, o aparecimento e generalização da internet permitiu um regresso à comunicação escrita, na forma de e-mails, a que me converti rapida e fervorosamente.
segunda-feira, maio 05, 2008
Dez anos

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.
Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crêpe bows round the white necks of the public
doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.
The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good.
W.H. Auden
Todo o dia este poema tem andado às voltas na minha cabeça, mesmo que afastado por momentos por me concentrar nas actividades do quotidiano. Diz-se que time heals, e é de certa forma verdade; mas é também verdade que não produz uma restitutio ad integro; cura mas também deforma, esbate, esfuma, deturpa, enquista. Quando olho para dez anos atrás, tudo me parece simultaneamente pungente e irreal, como num sonho, e interrogo-me: mas será que isto existiu mesmo? foi outra vida? Como a pergunta de Satoco no final de O Mar da Fertilidade: Mas tem a certeza de que existiu alguém chamado Quioáqui Matsugae?
Por outro lado, tento evocar os momentos de felicidade, e por vezes ressurgem, de forma quase sempre imprevisível, e então sim, tenho a certeza de que existiu. E nessas alturas, são outros os versos que me vêm automaticamente à cabeça, aqueles que são para mim uma espécie de divisa do que passou:
Is it too late to touch you, Dear?
We this moment knew -
Love Marine and Love Terrene -
Love celestial too -
Emily Dickinson
quinta-feira, maio 01, 2008
The Charioteer, de Mary Renault
Há muitos anos que li a trilogia de Mary Renault sobre Alexandre - Fogo do Céu, O Jovem Persa e Jogos Funerários -, de que gostei imenso; só muito mais tarde li outro livro dela, The Mask of Apollo, que não me causou grande impressão. The Charioteer, que comprei em Londres há meses um pouco por acaso e para dar uma outra oportunidade à autora foi assim uma agradável surpresa.Não só é um bom romance, bem escrito e com cenas e personagens muito bem criadas e convincentes, como é mais um exemplo, a par de Alexis, de Marguerite Yourcenar, de como é possível a uma mulher escrever de forma incrivelmente perspicaz e sensível (insightful é a palavra que exprime o que quero dizer) sobre experiências homossexuais masculinas. E juntando o facto de ter sido escrito por uma mulher (mesmo que ela própria lésbica, como é o caso de Mary Renault - e de Yourcenar) ao de os problemas tratados no livro serem não só o aprender a viver com a sua sexualidade mas mais ainda o da honestidade nas relações e os da escolha (ilustrada pela metáfora do auriga de Platão que dá o título ao livro) e da descoberta de si próprio, vem reforçar a minha convicção de que rotular estes romances em que as personagens principais são homossexuais e/ou os temas tratados envolvem o lidar com isso, de "literatura gay" é um erro, porque extremamente redutor. É aliás um reflexo da cultura americana de rótulos e compartimentos que a intelligentsia politicamente correcta europeia, curiosamente em outros aspectos tão crítica da cultura americana, tem adoptado avidamente.
The Charioteer - ou Alexis, ou tantos outros - vale pela sua qualidade, por ser bem escrito - e o bem escrito não significa escrita linguisticamente correcta, mas sim escrita convincente, arguta e tocante, que nos faz acreditar na história e pensar nos problemas e que deixa uma impressão durável. Enfim, acho que vou experimentar mais uns livros de Mary Renault.
Portugal e os seus BMWs - um detalhe
Houve um pormenor curioso em que reparei nesta viagem a Espanha. Na auto-estrada para o Algarve, no feriado de 25 de Abril, passei e fui ultrapassado por uma verdadeira multidão de BMWs; aliás, por muitos carros potentes e caros, como Audis ou Mercedes, mas decididamente os BMWs predominavam por uma grande margem. Dezenas não é exagero. Assim que entrei em Espanha, nada de BMWs. Como a quantidade deles que vira no trajecto de Lisboa ao Algarve me despertara a atenção, fui reparando nas marcas de automóveis por que ia passando e, mesmo que obviamente não tenha visto todos e me tenham escapado vários, nos 4 dias que estive em Espanha e em que passei por Sevilha, Granada e Córdova vi um total de... quatro BMWs, um dos quais era português!Que concluir deste fenómeno? Mesmo considerando que o território percorrido em Espanha não seja uma amostra perfeitamente representativa do país, nem a A2 de Portugal, a diferença observada é mais um dado ilustrativo do que em Portugal se entende por qualidade de vida e como essa noção está indissoluvelmente, ligada à de status. Como a maioria dos portugueses adora pavonear o seu carro!
quarta-feira, abril 30, 2008
Córdova

Menos deslumbrante que Granada, mas também magnífica - o labirinto de ruas estreitas e brancas, os pátios alegres e coloridos, e a fabulosa mesquita, que é verdadeira e esmagadoramente mágica, com a floresta de colunas na penumbra, o espaço dividido e multiplicado ao infinito pelas arcadas, o implante da catedral gótica, numa estranha e bela fusão de estilos mourisco, mudéjar e gótico. A dimensão da mesquita é impressionante, por muito que soubesse já que era enorme é completamente diferente vê-la e senti-la ao vivo.
E a comida andaluza, uma delícia para os sentidos! Vale mesmo a pena viajar, e mais uma vez senti o efeito regenerador de passear em boa companhia; acho que são os momentos em que me sinto mais vivo e completo.

Granada, ou dias felizes

Sinto-me revigorado, depois de uma curta viagem à Andaluzia - Granada e Córdova. Granada foi uma revelação. Clara e luminosa, o casario branco, as ruelas e as pequenas praças do Albaicín, com vista sobre o Alhambra e os picos da Sierra Nevada; senti-me literalmente a pairar. A visita do Alhambra é uma experiência inesquecível - as vistas espectaculares sobre o Albaicín e o resto da cidade, as intrincadas decorações das paredes e tectos dos palácios Nasri, as arcadas, os tanques, os jardins do Generalife, com o constante murmúrio da água a correr. Que prazer percorrer as ruas estreitas do Albaicín, parar numa esplanada para beber uma cerveja ou comer um gelado, descobrir os panoramas sobre a Sierra Nevada, descansar no miradouro de San Nicolás cheio de jovens "yonkies" que abundam na cidade!

sábado, abril 19, 2008
A depuralina - um caso típico
Há dias, na minha consulta, um homem que é meu doente há já uns 10 anos, tipo de uns 60 anos, bastante reivindicativo e chico-esperto qb, disse-me logo de início, num tom meio apreensivo meio irritado: "Ó doutor, as minhas análises estão pior, e acho que sei porque é, é que eu tomei duas caixas dessa depuralina!" Tanto quanto eu sei, a toma da depuralina não teria agravado as análises em causa, mas aproveitei a ocasião para ser didáctico e dizer coisas do género: "Pois, não sei se terá sido por causa disso, mas é por essas e por outras que nós sempre dizemos para não tomarem coisas que não sabemos exactamente o que são nem o que fazem...", "Mas diziam que fazia bem, toda a gente andava a comprar!", "Bem, de certeza que não foi nenhum dos seus vários médicos que lhe disse... Por isso é que sempre lhe digo para não tomar nada, nem outros medicamentos, sem antes perguntar a um médico.", "Ah, mas ainda tenho lá duas caixas, sempre quero ver se sou ressarcido do que paguei, que aquilo ainda custa 27 euros!", "Vê? Ainda por cima é caro!". No final da consulta, enquanto passava as receitas, diz ele: "Estes medicamentos são uma pipa de dinheiro, doutor, isto é uma vergonha o que a gente tem de pagar!", não pude deixar de responder: "Bem, pelos vistos ainda lhe sobra bastante, porque foi comprar a depuralina, que é mais cara do que todos estes juntos e nem tem comparticipação!", ao que se limitou a dizer: "Pois, bem..."O que é lamentável é que esta é uma atitude extremamente frequente - as pessoas queixam-se do sistema de saúde e dos médicos, mas acreditam com a maior das ingenuidades em inúmeras banhas da cobra, em geral inofensivas mas por vezes perigosas e sempre inúteis.
quarta-feira, abril 16, 2008
Uma História de Violência, de David Cronenberg
terça-feira, abril 15, 2008
Censurado, de Brian de Palma
Redacted é, entre os recentes filmes que vi sobre a guerra do Iraque, talvez o mais efectivo. Directa e violentamente contra a guerra, não usa metáforas moralistas nem assume uma postura didáctica; no entanto, através de uma história contada aparentemente de modo linear e sem enfeites, toca uma série de pontos importantes de uma forma muito inteligente, nomeadamente:- o risco inevitável de um exército profissionalizado, ded voluntários, incorporar um número importante de indivíduos violentos e desajustados, mal inseridos na sociedade, risco tanto maior quanto durante uma guerra os critérios de recrutamento são forçosamente pouco exigentes;
- o tédio e a tensão a que estão sujeitas as forças de um exército de ocupação;
- as barbaridades que pessoas de pouca moralidade e colocadas numa posição de poder são capazes de fazer;
- a importância da tecnologia nesta guerra - os equipamentos dos soldados, as tecnologias de informação (a net, as fotografias e filmes feitos com telemóveis ou câmaras de bolso, a utilização da propaganda na net pelas forças de resistência e terroristas);
- a inércia / medo do "homem comum" que o leva tantas vezes a consentir em barbaridades que teoricamente nunca permitiria.
Enfim, uma agradável surpresa depois da desilusão do didactismo e moralismo de In the Valley of Ellah .
segunda-feira, abril 14, 2008
Control, de Anton Corbijn

Muito bom, este biopic de Ian Curtis. A história está bem contada, nota-se grande afecto pelas personagens, os actores excelentes - Sam Riley é incrivelmente parecido com Curtis e canta bem, apesar da voz ser menos profunda e forte - e a fotografia a preto e branco muito bela, criando uma atmosfera poética e nostálgica bem apropriada à música dos Joy Division, que vai aliás pontuando o filme e sublinhando as emoções de forma muito bem conseguida. Centenas de fotogramas do filme dariam fotografias excelentes. Só achei que faltava mostrar melhor o processo de criação musical; não se vê a banda a formar-se, a trabalhar, as músicas a nascer, o que é algo que, provavelmente por ser um processo que me é completamente estranho, me interessaria muito.
Lembro-me bem do suicídio de Ian Curtis, embora na altura a música dos Joy Division não me dissesse muito - conhecia os temas que se ouviam na rádio e nada mais. Só anos depois os ouvi com mais atenção, e a beleza e força da sua música entranhou-se em mim. Gosto cada vez mais e ouço-a frequentemente. Como não comprei os discos na época, quando quis comprá-los, já nos tempos do cd, encontrei apenas uma colectânea, Permanent, que é a que sempre ouço. Pouco purista, eu sei, mas a maior parte dos temas estão lá, e um dia hei-de colmatar esta falha comprando os cds originais - o que aliás me dará o prazer de descobrir temas que para mim serão novos.
E as cenas finais do filme são belíssimas, com o tema dos Joy Division que eu mais gosto, Atmosphere.
Walk in silence,
Dont walk away, in silence.
See the danger,
Always danger,
Endless talking,
Life rebuilding,
Dont walk away.
Walk in silence,
Dont turn away, in silence.
Your confusion,
My illusion,
Worn like a mask of self-hate,
Confronts and then dies.
Dont walk away.
People like you find it easy,
Naked to see,
Walking on air.
Hunting by the rivers,
Through the streets,
Every corner abandoned too soon,
Set down with due care.
Dont walk away in silence,
Dont walk away.
domingo, abril 13, 2008
Stumbling on Happiness, de Daniel Gilbert
Este livro foi uma óptima surpresa. O título induziu-me em erro, pensei que fosse sobre como encontrar a felicidade por acaso, mas o "tropeçar" não é na felicidade, mas antes no caminho da felicidade, ou nas tentativas de ser feliz. E é uma excelente descrição dos múltiplos mecanismos que utilizamos para nos enganarmos, e dos motivos pelos quais nos enganamos nas nossas predições. De leitura muito fácil e agradável, sempre bem humorado, mas extremamente bem documentado, não cai na armadilha em que tão frequentemente "tropeçam" os livros sobre este tema de nos pretender apresentar "soluções" e "vias de 9 passos" para resolver os nossos problemas e encontrar a felicidade. Ajuda-nos antes a compreender porque nos enganamos tantas vezes, e nesse aspecto acho que contribui para sermos mais felizes, pois acredito que conhecermo-nos a nós e ao nosso funcionamento nos ajuda a aceitarmo-nos, a sermos mais indulgentes com o nosso passado e mais optimistas em relação ao nosso futuro. Um livro muito bom, cuja leitura aconselho vivamente a todos os que gostem de se conhecer e de saber como funciona essa entidade tão complexa e puzzling que é o nosso cérebro.
sexta-feira, abril 11, 2008
Flags in the Dust, de William Faulkner
Só há poucos anos descobri a existência deste livro, a versão original que depois de muitos cortes foi publicada como Sartoris. Não esperava que fosse muito diferente deste, mas é infinitamente melhor. A prosa é de uma poesia e beleza fantásticas, repassada de uma nostalgia e amor pela terra e pelas personagens, barroca de metáforas, de uma melancolia forte e tocante. Para quem goste de Faulkner, como eu, não há nada de supérfluo nesta versão! Mas imagino que seria difícil ser aceite para primeiro livro de um autor então desconhecido. Saboreei-o lentamente, cada página. Muito, muito belo.
Persepolis, de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud
Gostei imenso de Persepolis, o filme de animação autobiográfico de Marjane Satrapi sobre a sua infância e juventude em Teerão no tempo da revolução dos ayatollahs. Divertido e comovente, com algumas partes hilariantes - sobretudo as passadas em Viena - sem nunca ser piegas. A evolução do ambiente pós-revolução está muito bem contada, vive-se o clima de euforia inicial (tão parecido com aquele por que passámos em Portugal no pós-25 de Abril), depois o regresso da opressão, o crescer do obscurantismo, a mediocridade e a intolerância a dominarem. Graficamente muito bom, com desenhos extremamente expressivos, e com as histórias que contam à rapariguinha desenhadas ao estilo dos contos das Mil e Uma Noites.
O que é deprimente é pensar que aquelas pessoas passaram e passam mesmo por tudo aquilo, que é assim que se vive no Irão desde 1980, e sem esperança de mudar tão cedo.
domingo, abril 06, 2008
Resoluções de Primavera
Sempre achei o começo da Primavera muito mais adequado a tomar resoluções do que o Ano Novo. Ao fim e ao cabo, com o regresso do bom tempo, dos dias mais longos, sentimos muito mais energia e vontade de mudar. Por isso estou a tomar algumas decisões na minha vida, tentando melhorá-la. Há anos que vivo caindo e levantando-me de novo, e sei que os altos e baixos mais determinantes são os da minha disposição, mais do que os acontecimentos propriamente ditos. Gosto de pensar que a minha maturidade tem aumentado, mas muitas vezes interrogo-me: será que tem mesmo? Olhando para trás, acho que sim, mas há ainda tanto que melhorar. O que de certa forma é positivo, por me proporcionar objectivos na vida.
Ainda há alguns dias, conversando com uma das minhas melhores amigas, surgiu o tema de qual a idade em que gostaríamos de nos fixar, se pudéssemos escolher. Curiosamente, ambos escolhemos a mesma: 36 anos. Por coincidência, no dia seguinte li isto: "I have now passed the mezzo del cammin di nostra vita, and am rather surprised to find that existence continues to be highly interesting in spite of that fact. I used to think in early youth that one's development would come to an end in one's thirties - but I don't find it so - on the contrary. One seems, as one goes on, to acquire a more complete grasp of life - of what one wants and what one can get - and of the materials of one's work, which gives a greater sense of security and power. I think I can see now where my path lies, and I feel fairly confident that, with decent luck and if my health can go on keeping its head above water, I ought to be able to get somewhere worth getting to." São palavras de Lytton Strachey, numa carta, a propósito precisamente do seu 36º aniversário. Concordo inteiramente, e acho que até as aplico em relação a idades mais avançadas que os 36 anos - sinto aliás que estou bem mais sensato do que nessa época, apesar de já ter então uma quantidade razoável de bom senso, que lamento infinitamente não ter tido aos 28 ou aos 30. E nessa idade ainda não tinha dores nas costas nem no pescoço...
Mas, voltando às minhas resoluções de Primavera, uma delas foi voltar a fazer algum exercício físico, actividade que iniciei e cessei ciclicamente ao longo dos anos até há cerca de 3 ou 4 anos, quando achei que era melhor desistir de vez - a inércia, a inércia! Mas, como me lembro de comentar com um primo quando tinha 12 anos: "sozinho custa-me fazer seja o que for, enquanto acompanhado era capaz de ir ao fim do mundo", acho que nesse aspecto não me tornei muito mais maduro - embora hoje aprecie muito mais fazer coisas sozinho, incluindo ir, se não ao fim do mundo, pelo menos ao outro lado do oceano sozinho - e foi graças à boa companhia do meu melhor amigo que consegui vencer a dita inércia e inscrever-me num ginásio. E estou a apreciar, acho que me vai fazer muito bem - além das endorfinas, o tempo passado em boa companhia a desanuviar a mente!
Brindemos, portanto, à Primavera e às boas resoluções.
domingo, março 30, 2008
Três bons exemplos de film noir
Vi estes filmes recentemente, e têm em comum o pertencerem ao bom velho género do film noir. Mulheres fatais, ambientes sombrios, anti-heróis condenados, os bons sentimentos como uma fatalidade redimindo as más acções, etc. Estes elementos tornaram-se clichés do género, mas vendo filmes como estes percebe-se porque nos continuam a atrair e a emocionar.
Lust, Caution, de Ang Lee; belo e sombrio, muito bem filmado, bem interpretado, uma história de fatalidade e inocência perdida, e a presença extraordinária de Tang Wei, a jovem actriz principal.
Eastern Promises, de David Cronenberg; igualmente sombrio, com grandes interpretações de Viggo Mortensen e de Naomi Watts, com algumas cenas de grande violência explícita (o que não admira muito em Cronenberg), e novamente a fatalidade, os vilões simpáticos, a humanidade onde menos se espera.
Finalmente, um clássico: Double Indemnity, de Billy Wilder. Um clássico é isso mesmo - não perde interesse ao ser visto em 2008 tendo estreado em 1944. Uma história excelente, algumas cenas memoráveis e uma Barbara Stanwick o mais femme fatale que se consegue ser.
Lust, Caution, de Ang Lee; belo e sombrio, muito bem filmado, bem interpretado, uma história de fatalidade e inocência perdida, e a presença extraordinária de Tang Wei, a jovem actriz principal.
Eastern Promises, de David Cronenberg; igualmente sombrio, com grandes interpretações de Viggo Mortensen e de Naomi Watts, com algumas cenas de grande violência explícita (o que não admira muito em Cronenberg), e novamente a fatalidade, os vilões simpáticos, a humanidade onde menos se espera.
Finalmente, um clássico: Double Indemnity, de Billy Wilder. Um clássico é isso mesmo - não perde interesse ao ser visto em 2008 tendo estreado em 1944. Uma história excelente, algumas cenas memoráveis e uma Barbara Stanwick o mais femme fatale que se consegue ser.
sábado, março 29, 2008
Curta escapada - e sabe TÃO bem!

Finalmente, depois de uma tentativa abortada por acidente, ordálios com seguros, etc, lá consegui passar mais uns dias longe de casa. Dias de descanso puro, físico e mental, passados a comer, dormir, ler, conversar e passear. Apesar do tempo não estar excepcional, o vale do Zêzere estava muito bonito, a comida excelente, a companhia melhor ainda. Já estou a ansiar pela próxima!


domingo, março 09, 2008
Point to Point Navigation, de Gore Vidal

Point to Point Navigation é claramente uma obra de despedida, que transmite a sensação da velhice e da proximidade da morte quase em cada página. Bem escrito, irónico e witty como sempre, cada vez mais desencantado com os Estados Unidos, vaidoso e seguro de si (certamente muitos o consideram arrogante, e é-o, de uma forma que não considero um defeito); este livro não apresenta praticamente nada de novo em relação ao anterior livro de memórias, Palimpsest, que saboreei deliciadamente em 1996, numas férias em Roma, a não ser as várias elegias a amigos mortos, sobretudo ao companheiro de muitos anos, Howard Auster. É sempre um prazer ler Gore Vidal, mesmo quando é melancólico e amargo, ou quando não se concorda totalmente com ele, e é uma pena sentir que em breve deixará de escrever. A sua postura é de certa forma a de alguém convicto de que já viu, viveu e pensou a maior parte do que lhe interessava ver, viver e pensar, e formou as suas opiniões e está certo de ter razão - daí a sensação de excessiva segurança / arrogância. Mas a verdade é que tem de facto razão em muitas coisas, e que sempre viveu e se exprimiu com coerência e coragem, mesmo que nem sempre se concorde com o que diz ou as posições que toma. É uma espécie rara - o americano de classe alta pensante. E gosto dos seus livros, do seu humor, do seu amor pela História.
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