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domingo, maio 02, 2010

Mais três entrevistas da Paris Review

Tenho grande admiração por Gore Vidal; não é especialmente talentoso como escritor de ficção, ebora os seus romances sejam geralmente bem acima da média e tenha escrito alguns excelentes como o original e delicioso Myra Breckinridge e a série dedicada à História dos Estados Unidos, mas como ensaísta é do melhor que há, de uma clareza, inteligência e humor contundentes e corrosivos. Gosto da sua personalidade forte e corajosa; é certo que pertence a um meio social privilegiado que lhe proporcionou oportunidades que a maioria nunca tem, mas soube viver à sua maneira e desafiar uma série de convenções e preconceitos do seu meio e do seu tempo (aliás, de todos os meios e tempos). É certo que é arrogante e vaidoso e nem sempe concordo com as uas posições, mas globamente acho-o um pessoa excepcional.

A entrevista à Paris Review, de 1974, mostra-o numa fase particularmente corrosiva, sente-se um despeito relacionado com o envelhecimento, quando estava a deixar de ser um homem atraente e com muitos anos pela frente e ainda não resignado ao declínio físico da idade. Não é por isso das entrevistas dele que eu mais aprecie; mas se estão lá a sua arrogância e snobismo, também está a sua verve eo seu humor; vale sempre a pena lê-lo.

A entrevista de Marguerite Yourcenar, realizada pouco antes da sua morte e por isso incompleta, surpreendeu-me agradavelmente. Gosto imenso dos livros de Yourcenar, Memórias de Adriano é dos meus livros favoritos de sempre. No entanto, sempre simpatizei menos com a escritora do que com os seus livros; apesar de exprimir nstes ideias lúcidas, independentes e não preconceituosas, vários dos seus ensaios e sobretudo as suas cartas mostram traços de grande conservadorismo e superioridade moral que me irritam, tal como a sua imagem muito construída e resguardada. Fico sempre com a impressão de que devia ser uma pessoa insuportável no dia a dia. Por isso gostei muito de ler esta entrevista, onde não se notam esses traços negativos, mostrando antes uma grande abertura de espírito, simplicidade de expressão e lucidez, notáveis sobretudo tendo em conta que tinha mais de 80 anos e que morreria em breve, penso que de um AVC.

Quanto a Aldous Huxley, li vários livros seus na adolescência, e lamento ter esquecido por completo a maior parte deles, como Contraponto ou Sem Olhos em Gaza; apenas me lembro bem de Admirável Mundo Novo, que é muito bom. Gostei muito da entrevista, era sem dúvida um homem inteligente, culto e interessante (mesmo tendo resvalado para um interesse por parapsicologia e misticismo na meia idade - a entrevista é de 1960).

Termino com o final desta entrevista, que é uma passaem que me agradou particularmente: "I think that fiction and, as I say, history and biography are immensely important, not only for their own sake, because they provide a picture of life now and of life in the past, but also as vehicles for the expression of general philosophic ideas, religious ideas, social ideas. My goodness, Dostoyevsky is six times as profound as Kierkegaard, because he writes fiction. In Kierkegaard you have this Abstract Man going on and on - like Coleridge - why, it's nothing compared with the really profound fictional Man, who has always to keep these tremendous ideas alive in a concrete form. In fiction you have the reconciliation of the absolute and the relative, so to speak, the expression of the general in the particular. And this, it seems to me, is the exciting thing - both in life and in art."

sábado, março 20, 2010

Mais entrevistas da Paris Review!

Depois de ler a colectânea recentemente publicada de entrevistas literárias da Paris Review, fui ao site da revista e tenho lido outras entrevistas; foi uma óptima descoberta! Nos últimos dias li as entrevistas a:

Lilian Hellman - Descobri Lilian Hellman há muitos anos, quando vi o filme Julia, de Fred Zinnemann, baseado num capítulo de um dos seus livros de memórias. Gostei muito do filme, de modo que encomendei o livro, Pentimento, a Book of Portraits, depois li várias peças e outros livros de memórias. Gosto bastante da sua escrita, do seu tom, e de algumas peças (sobretudo The Children's Hour e The Little Foxes; mais tarde vi o filme com a magnífica interpretação de Bette Davis, é muito bom). A entrevista confirmou a ideia que eu tinha dela - uma mulher determinada e opinionated, não muito simpática, que gostava de construir a sua imagem, da qual fazia parte a sua ligação com Dashiell Hammett, de quem fala inúmeras vezes. Mas gostei das suas declarações sobre o período de McCarthy, e acho que era uma boa escritora, e uma mulher "com coluna vertebral".


Henry Miller - Em miúdo, li Sexus às escondidas, pela curiosidade pelo título, que sugeria algo proibido, mas achei-o incrivelmente chato (ainda acho, aliás); só muito mais tarde tive vontade de voltar a ler Henry Miller, quando, apaixonado pelo Quarteto de Alexandria, descobri que ele fora amigo de Lawrence Durrell. Li primeiro a correspondência entre os dois, publicada em 1962, depois Trópico de Cancer, que é muito bom, e O Colosso de Maroussi, de que também gostei muito; achei Trópico de Capricórnio algo repetitivo e não voltei a ler nada dele. A entrevista mostra-o como o imagino - um homem com imensa vitalidade e determinação, algo irregular como escritor, mas com a qualidade da franqueza e um amor pela vida contagiante. Não é dos mes escritores favoritos, acho as suas ideias algo ingénuas e datadas, mas penso que vale a pena ser lido.

Dorothy Parker - O nome era-me familiar há muito; a sua pessoa começou a tomar forma quando li sobre ela em Pentimento, de Lilian Hellman; mais tarde li uma colectânea dos seus contos e poesia de que gostei imenso, e vi o filme Mrs. Parker and the Vicious Circle, onde é interpretada por Janet Jason-Leigh (excelente interpretação, num biopic simultaneamente melancólico e divertido, como ela própria era). Tem alguns contos excelentes, tal como alguns poemas, e inúmeras frases célebres que fizeram a sua reputação de wit (ou, como ela diz depeciativamente, de wisecrack). A entrevista revela uma mulher inteligente, mas imensamente amarga e desiludida com a vida. Achei curioso ela referir E.M. Forster como um dos seus escritores favoritos. Foi sem dúvida uma personalidade, muito representativa do seu tempo, corajosa e independente, mas que obviamente foi prejudicada pela sua depressão crónica. Qiçá teria sido mais feliz na era do Prozac.

Isak Dinesen / Karen Blixen - Como muita gente, conheci Karen Blixen devido ao filme Out of Africa. Li inicialmente os seus contos, de que gostei muito, depois as suas memórias de África, que achei excelentes, embora por vezes me irritasse o seu discurso aristocrático (como quando usava tantas vezes os pronomes possessivos, "os meus cães", "os meus kikuyus", "a minha quinta"). Foi o meu primeiro contacto com a literatura dinamarquesa (se exceptuar Andersen), e encantou-me o seu tom algo sombrio e misterioso, a forma como as suas histórias se desenrolam de forma tão perfeita e ao mesmo tempo imprevisível. A entrevista mostra-a como ela sempre se mostrou, aristocrática e algo distante, mas dotada de um inegável fascínio e de uma sensibilidade muito especial.

Simone de Beauvoir - Depois de ler as memórias, vários romances (os melhores são Os Mandarins e A Convidada), O Segundo Sexo e a correspondência com Sartre e outros, a entrevista de Simone deBeauvoir nada acrescenta ao conhecimento e à ideia que tenho dela. Sempre a admirei intensamente, desde que li, aos 17 anos, Memórias de uma Menina Bem Comportada, e continuo a admirá-la (tal como a Sartre), com todas as suas qualidades e imperfeições; foi alguém que viveu a sua vida plenamente e conscientemente, com uma curiosidade e atenção pelo mundo inesgotáveis e uma lucidez invejável.

segunda-feira, março 08, 2010

Entrevistas da Paris Review - selecção e tradução de Carlos Vaz Marques

Uma colectâea de entrevistas muito interessantes; é fascinante ler sobre as opiniões e métodos de trabalho de escritores que admiramos expostas por eles próprios. E os escritores cujas entrevistas foram seleccionadas - com excepção de Saul Bellow, de quem nunca li nada, e de Graham Greene, de quem li alguns livros mas que não me impressionaram especialmente; quanto a Boris Pasternak, conheço-o pouco, apenas li Doutor Jivago há muitos anos e lembro-me mal, mas fiquei com vontade de o reler, parece-me aliás que a sua obra principal é poética - são todos autores de obras que li e que aprecio, em diferentes graus, é certo, mas o suficiente para me despertar a curiosidade e o interesse de ler o que têm a dizer.

Abordando os restantes autores: gosto muito dos livros de E.M. Forster, cujas declarações sobre como imagina os livros antes de os escrever achei interssantes. A entrevista de William Faulkner é belíssima, como a sua escrita e os seus livros. A de Ernest Hemingway surpreendeu-me agradavelmente, já que é um autor com o qual a minha relação tem variado ao longo dos anos e conforme os livros - gostei imenso de Fiesta, Por Quem os Sinos Dobram e O Jardim do Paraíso; Across the River and into the Trees aborreeu-me profundamente e não empatizei nada com O Velho e o Mar, além de não apreciar aquilo que conhecia da personalidade do escritor. Mas gostei da entrevista, mesmo transmitindo um grande desejo e controlar a sua imagem sem parecer fazê-lo; mas tem frases como: "Leia aquilo que escrevo pelo prazer de o ler. Tudo o que lá encontrar corresponderá àquilo que você mesmo levou consigo para a leitura."

Truman Capote é sempre um conversador delicioso, e é engraçado ler a sua entrevista anterior à escrita de In Cold Blood, particularmente porque li recentemente uma colectânea dos seus contos. Mesmo que por vezes se torne um pouc irritante, escrevia sempre muito bem, e esta entrevista é um bom momento.

Lawrence Durrell é um dos meus escritores favoritos (embora sejam tantos que seja difícil fazer uma lista...) A sua entrevista está plena da vitalidade e do amor pela vida e pela escrita que enchem os seus livros, e é feta no seu momento áureo, na altura da publicação do final do Quarteto de Alexandria.

A de Jorge Luis Borges é excelente, graças à qualidade e interesse de tudo o que ele diz. Sempre o achei um escritor fascinante, e revela nas suas declarações uma personalidade não menos interessnate que a sua escrita.

Quanto a Jack Krouac, cuja entrevista termina o livro, foi um escritor que me fascinou quando adolescente (li Pela Estrada Fora aos 15 anos de um fôlego, e adorei), e que depois me desiludiu pela sua evolção (ou involução...), mas a entrevista é uma excelente peça de época, bem ilustrativa dos delírios anfetamínicos em que a escrita beatnick terminou.

No conjunto, o livro lê-se deliciosamente, e vem reforçar aquilo que eu penso em relação à actividade literária - e artística em geral: os escritores criam a sua obra com base na sua experiência e sensibilidade, e aquilo que lemos toca-nos mais ou menos e tem um significado consoante a nossa experiência e sensibilidade enquanto leitores - toda a verdadeira arte tem a ver com essa interacção emissor / receptor e deixa de pertencer exclusivamente ao artista a partir do momento em que é produzida / exposta.

domingo, julho 12, 2009

Uma citação de Natália Correia



Não Antero meu santo não me mato.
Antes me zango até ficar um cacto.
Quem me tocar (maldito) que se pique!


Tantas vezes me identifico com estas palavras!

Um amigo ofereceu-me a fotobiografia de Natália Correia. Fiquei a conhecer bem melhor a personagem e a sua obra, e se já a respeitava e por ela sentia alguma admiração, o meu respeito aumentou, sobretudo pela qualidade da sua escrita, por vezes barroca e excessiva, mas com poemas de grande beleza e sobretudo com uma força anímica e uma energia invulgares. Lembro-me em miúdo de a achar uma figura um tanto caricatural e divertida, e de facto era uma mulher com um certo excesso de energia e paixão que a levou a dizewr e fazer muitas coisas com as quais não concordo e de que não gosto, com alguma tendência ao exagero, mas é inegável que foi uma personagem, corajosa, inteligente, brilhante e marcante. De certa forma, imagino-a mais integrada na sociedade romântica, uma outra George Sand. Mas deixou-nos pérolas inesquecíveis, uma das quais, cujo impacto delicioso bem recordo na altura, é o poema que em minutos escreveu na Assembleia durante os debates da lei de despenalização do aborto:

"O Acto Sexual é para fazer filhos" - disse ele
Já que o coito - diz Morgado -
Tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração! -
uma vez. E se a função
faz o órgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.

quarta-feira, julho 09, 2008

The Common Reader (second series), de Virginia Woolf

Depois de ter lido com imenso prazer o primeiro The Common Reader, este segundo volume foi um tanto decepcionante. Muito menos interessante, em grande parte porque a maior parte dos ensaios diz respeito a escritores que só conheço de nome, como Meredith, Dorothy Wordsworth, Donne, etc. À excepção do último texto (How Should One Read a Book?), não há aquilo a que hoje chamaríamos artigos de opinião, embora ao longo dos diferentes ensaios, como habitualmente, Virginia Woolf vá apresentando os seus pontos de vista. Resta no entanto a extrema elegância da sua escrita, como sempre, e algumas afirmações e opiniões que vale sempre a pena ler e difundir. Virginia Woolf amava verdadeiramente os livros e a leitura, um traço curioso e pouco comum era o seu gosto em vasculhar livros e autores menores ou caídos no esquecimento, aquilo a que chamava "o cesto de papéis da Literatura", e que por vezes fornece pormenores tão esclarecedores e interessantes. Passo a citar alguns exemplos (mais uma vez, não me atrevo a traduzir Virginia Woolf):

(Depois de referir o conhecimento da vida e pensamento do escritor e a sua influência sobre a leitura da obra): "For the book itself remains. However we may wind and wriggle, loiter and dally in our approach to books, a lonely battle waits us at the end. There is a piece of business to be transacted between writer and reader before any dealings are possible [...] All alone we must climb upon the novelist's shoulders and gaze through his eyes..."

(Ou, mais tarde no mesmo ensaio - sobre Robinson Crusoe): "In masterpieces - books, that is, where the vision is clear and order has been achieved - he inflicts his own perspective upon us so severely that as often as not we suffer agonies - our vanity is injured because our own order is upset; we are afraid because the old supports are being wrenched from us; and we are bored - for what pleasure or amusement can be plucked from a brand new idea? Yet from anger, fear, and boredom a rare and lasting delight is sometimes born." - Que esplêndida forma de exprimir o impacto que um livro - dos que nos tocam como obras-primas - tem sobre nós!

(E no ensaio final): "The only advice, indeed, that one person can give another about reading is to take no advice, to follow your own instincts, to use your own reason, to come to your own conclusions."

E que melhor forma de terminar, testemunho de uma leitora apaixonada apreciado por qualquer leitor apaixonado? "Yet who reads to bring about an end, however desirable? Are there not some pursuits that we practise because they are good in themselves, and some pleasures that are final? And is not this among them? I have sometimes dreamt, at least, that when the Day of Judgment dawns and the great conquerors and lawyers and statesmen come to receive their rewards - their crowns, their laurels, their names carved indelibly upon imperishable marble - the Almighty will turn to Peter and will say, not without a certain envy when he sees us coming with our books under our arms, 'Look, these need no reward. We have nothing to give them here. They have loved reading.'"

segunda-feira, junho 09, 2008

Marcel Proust, de Edmund White

Uma biografia curta, que se lê de um fôlego, muito bem escrita e interessante. Edmund White percorre a vida de Proust, a infância, a vida social, a doença, as influências, a génese e a evolução da escrita de Em Busca do Tempo Perdido, os amores, a fama. Apesar de se debruçar com mais detalhe sobre a homossexualidade de Proust - o que era de esperar, já que Edmund White é um dos representantes mais conhecidos, e de maior qualidade, da chamada literatura gay americana - não cede à facilidade de explicar tudo desse ponto de vista e sabe apresentar o escritor como a personalidade complexa e multifacetada que foi, fruto de múltiplas influências sociais, culturais, familiares, que combinadas com o seu talento, produziram o livro que - e eu tenho muitas reticências a fazer este tipo de classificações - é provavelmente o melhor livro que já li. E reli, treli, e conto fazer a próxima leitura no original francês. Há um livrinho relativamente famoso, How Proust Can Change Your Life, que nunca li, mas posso dar a receita de como Proust pode mudar a nossa vida - basta lê-lo. Está lá praticamente tudo, e tão incrivelmente bem escrito, com uma perspicácia e inteligência que surpreendem a cada página - "mas é mesmo assim!" - e me deixam sempre com pena de o acabar.

domingo, março 09, 2008

Virginia Woolf, de Hermione Lee


Li recentemente a biografia de Virginia Woolf por Hermione Lee, que achei excelente. Não só é extensa e bem documentada, como sobretudo está muito bem escrita e a autora tentou transmitir a pessoa de Virginia Woolf tanto quanto possível como se fosse ela própria a exprimir-se, ou os seus próximos a descrevê-la, utilizando constantemente as palavras da escritora (dos livros, contos, ensaios, diários, cartas, socorrendo-se do extenso material existente) ou dos seus amigos e conhecidos. A tarefa de ligar todos estes testemunhos numa trama coerente e agradável de ler, interpretando-os e organizando o livro numa cronologia não excessivamente rígida mas rigorosa e documentada, não foi certamente fácil mas está muito bem conseguida. Não é uma biografia muito mais detalhada do que a de Quentin Bell, que li há muitos anos e que é igualmente muito boa e muito bem escrita, e por vezes enferma de um defeito muito comum às biografias, que é o de querer dar a todos os pormenores (sobretudo da infância) um significado posterior provavelmente maior e certamente muitas vezes diferente do que na realidade tiveram - fico sempre com a sensação de que este ou aquele pormenor foi isso mesmo, um pormenor, a que não se ligaria importância se não se estivesse a escrever uma biografia.

Mas aparte a qualidade técnica da biografia, que é de resto um género literário que cada vez aprecio mais, tal como memórias e ensaios, o maior prazer da leitura deveu-se à própria Virginia Woolf, às suas palavras, às suas ideias, à sua vida. Quanto mais passa o tempo, mais me sinto identificado com ela e parte do grupo de Bloomsbury - a sua curiosidade, os seus dilemas, a sua franqueza, o humor, a ironia, as contradições, as fraquezas, a maledicência, o amor das ideias e da conversação, o comodismo, o liberalismo... Sempre admirei imenso essa geração que rompeu as convenções da época vitoriana e do século XIX e contribuiram à sua maneira - e não foi pouco - para o modernismo e o liberalismo, sem falsas virtudes nem hipócritas heroísmos ou sacrifícios.


E sinto uma simpatia e ternura especial pela própria Virginia Woolf, mesmo com a sua língua temível e o seu humor sarcástico e implacável, pela sua honestidade e curiosidade intelectuais, pelo seu imenso talento, pela sua escrita poética e tão perfeita, pela sua longa luta com a doença mental e pela derrota final, quando se rendeu ao pavor de enlouquecer. E senti também no livro de Hermione Lee esse amor não condescente mas repassado de respeito e admiração por Virginia Woolf.

sexta-feira, dezembro 21, 2007

The Costs of Living, de Barry Schwartz

Um livro interessante, que gostei de ler, embora em várias passagens me tenha irritado um pouco. A tese central - de que a mentalidade da economia de mercado, o chamado imperialismo económico, está progressivamente a invadir todos os campos da nossa vida e a corrompê-los - é válida, está bem apresentada, e globalmente o autor faz uma descrição muito correcta e perspicaz da nossa sociedade. Chama a atenção para o facto muito importante de que o imperialismo económico não é uma inevitabilidade biológica, e que é o predomínio actual da mentalidade "de mercado" que assim o faz pensar.

Há dois aspectos no livro, no entanto, que me desagradaram. O primeiro é um certo tom... lamentoso, saudosista, que frepassa todo o texto, ou boa parte dele. Logo n início, o autor deplora a sorte de um casal conhecido, de profissionais bem sucedidos economicamente e na sua carreira, mas que no entanto vive infeliz, pressionado pelo esforço de manter uma vida e um "sucesso" a que se sentem social e culturalmente obrigados mas que não os satisfaz nem realiza. E passa daí a expor como a superabundância de escolhas nos torna inseguros e infelizes - contrapondo com antigamente em que a maior parte dos aspectos da nossa vida não precisavam de ser escolhidos pois estavam determinados à partida. Ora esse é um raciocínio falacioso - é verdade que ainda não aprendemos a gerir a multiplicidade de escolhas e decisões que a liberdade actual nos proporciona, mas a resposta é aprender a geri-la e não deixar de a ter. Estou certo de que um casal correspondente de há 30 ou 50 anos tinha outros problemas - a mulher obrigada a estar em casa e dependente economicamente do marido, o homem a seguir a profissão imposta pela tradição familiar, eventualmente a forçar-se a disfarçar uma possível homossexualidade, por exemplo... Pelo menos os problemas do casal da actualidade dependem deles próprios e podem sempre aprender a fazer as escolhas que os farão verdadeiramente felizes e realizados.

O segundo aspecto que me desagradou é o das soluções propostas pelo autor (um problema aliás muito frequente neste tipo de livros - acertam no diagnóstico dos problemas mas apresentam soluções irrealistas e desajustadas; pergunto-me porque insistem em propor soluções?), com um ênfase particular no recurso à religião e à vida "espartilhada" numa comunidade. Discordo absolutamente de que impormo-nos regras ou recorrermos à perda da livre-escolha (seja em coisas tão importantes como a profissão que escolhemos ou tão insignificantes como o que comemos à 6ª feira) seja a solução. O individualismo e a liberdade pessoal são de facto uma conquista e a base da nossa civilização, e não é por acaso que esta, com todos os defeitos que possa ter, é a mais bem sucedida actualmente e a que proporciona maior bem estar (e por favor não me venham com a felicidade dos povos do 3º Mundo ou dos países muçulmanos, basta ver a direcção dos fluxos de emigração).

Qual a solução então? Não sei, e não sei sequer se existe. Pessoalmente, acho que, como bom herdeiro do Iluminismo, a educação, a informação e a cultura são a resposta - quanto mais informadas as pessoas estiverem mais perceberão que a felicidade não está num consumismo selvagem nem na competição a todo o custo. Não acho que sejamos todos basicamente "bons selvagens" nem uns egoístas inveterados como defendem os extremistas do darwinismo social - mesmo porque, sob o ponto de vista evolutivo, a capacidade de cooperação contribuiu tanto como o egoísmo para o sucesso da nossa espécie. Acredito que um maior conhecimento desenvolve também o sentido da importância de uma moral, que não tem de e não deve ser religiosa. Ao fim e ao cabo, a maioria das pessoas é normal, ou seja, razoavelmente decente.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Justinian's Flea, de William Rosen


Um livro muito interessante sobre a pandemia de peste bubónica no século VI, em que o autor defende a tese de que o declínio do império romano do Oriente - e a consequente formação da Europa e ascensão do Islão - foram condicionados em grande parte pela devastação provocada por esta doença. Claro que a pandemia de peste contribuiu para o desenvolvimento dos acontecimentos, dada a sua importância e o facto de qualquer acontecimento dessa magnitude forçosamente influenciar o desenrolar da História. O mais interessante no livro é ser um relato muito bem escrito e empolgante de um período crucial da História, uma época de transição fascinante, cobrindo o final do Império Romano e o século de ouro de Bizâncio, tomando como fio condutor a vida do imperador e com a invulgar perspectiva - para um livro de História - focada numa doença, e com uma mestria descritiva dos assuntos científicos semelhante à dos assuntos históricos, o que é invulgar e para mim constituiu um dos encantos do livro. E é extremamente informativo sobre o período de que trata, sem nunca ser aborrecido. E para quem goste de especular - Histórias virtuais, ou alternativas - é muito interessante imaginar um mundo em que a expansão bizantina sob Justiniano tivesse tido seguimento.

terça-feira, dezembro 11, 2007

O Solar, de William Faulkner

O último livro da trilogia Snopes é o único que tenho em Português e que tinha lido antes, há uns 20 anos, mas é muito melhor lê-lo depois dos outros dois. A história de Flem Snopes e da sua família, inicialmente picaresca e mesquinha, vai crescendo até atingir a grandeza trágica das outras famílias de Yoknapatawpha e, sendo um dos últimos livros de Faulkner, vamos ficando a saber o que aconteceu a várias das personagens de outros livros - os Sartoris, os Compsons, etc. Linda Snopes é das melhores personagens femininas de Faulkner, a par de Rosa Millard ou Jenny Du Pré. Muito, muito bom.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Crónicas Italianas, de Stendhal

Apaixonei-me por A Cartuxa de Parma à primeira leitura, é uma história fantástica e imensamente bem escrita, com personagens humanas nas suas contradições, fraquezas e amoralidades, sobretudo a famosa Sanseverina. O Vermelho e o Negro decepcionou-me, por mais convencional e novelesco. Nas Crónicas Italianas reencontrei o encanto de Stendhal - histórias rocambolescas, por vezes francamente escabrosas, com personagens que cativam porque não são boas nem más, e longe dos enredos tradicionais e moralistas dos romances do século XIX. Não admira que Stendhal fosse tão admirado pelos modernistas, estava bem adiantado para a sua época. Um livro divertido e saboroso.

quinta-feira, novembro 01, 2007

A Argonáutica, de Apolónio de Rodes

É uma pena que a Argonáutica ainda não tenha sido traduzida com a qualidade das traduções de Frederico Lourenço da Ilíada e da Odisseia. Li a versão publicada na Europa-América, que além de ser uma tradução sem grande qualidade literária está pessimamente revista, cheia de gralhas. Mas a história é fabulosa, com os heróis da geração anterior à Guerra de Tróia (muitos são os pais das personagens da Ilíada), uma viagem repleta de aventuras e episódios memoráveis, como os da ilha de Lemnos, de Fineu e as Harpias, do desespero de Héracles pela perda do seu rapaz, do deserto da Líbia, das várias intervenções dos deuses, e com a extraordinariamente vívida figura de Medeia, cujo realismo ofusca todos os outros intervenientes - tornada ainda mais fascinante porque sabemos o que lhe sucedeu depois, a história de Pélias e o abandono por Jasão. Enfim, talvez alguém pegue nesta obra e seja traduzida como merece, quem sabe o próprio Frederico Lourenço, ou outro, pois certamente há outros tradutores de grego de qualidade.

Prospero's Cell, de Lawrence Durrell

Depois de The Corfu Trilogy, li a evocação de Corfu pelo Durrell "original", o escritor, que figura de forma caricata no livro de Gerald. Apesar de um estilo completamente diferente, a nostalgia e o afecto pela ilha são muito semelhantes. Durrell escreve sempre bem, sabe ser poético e irónico, e transmite sempre um entusiasmo pela vida que é uma das características da sua escrita que sempre mais me atraiu. Gostei mais de Bitter Lemons of Cyprus, sobre outra ilha e outro tempo, menos inocente e idílico, mas que me tocou mais, mas apreciei bastante Prospero's Cell - e já tenho outro livrinho de Lawrence Durrell sobre as ilhas gregas na calha.

quarta-feira, outubro 17, 2007

Black Coffee Blues, de Henry Rollins

Nunca tinha ouvido falar de Henry Rollins até um amigo me emprestar este livro; trata-se de um artista punk americano multifacetado - cantor rock, poeta, performer, escritor. O livro tem vários textos interessantes, por vezes Rollins consegue ser forte e intenso num estilo de desespero e existencialismo americanos que evoca influências de Jim Morrison (frequentes) a Raymond Carver (nas melhores partes). Achei no entanto em geral o livro de um homem imaturo e auto-centrado, que poderia ser escrito por um adolescente em crise de crescimento em fase de desencanto com o mundo
à procura de si próprio - todo aquele gloom angustiado e desesperançado dá vontade de dizer: "Snap out of it!", "Grow up!". (Como tinha 30 anos quando escreveu Black Coffee Blues, talvez tenha crescido e não tenha cedido à tentação de se fixar numa pose que lhe deu notoriedade:)

Mas é certo que tem bons momentos, curtos textos que nos tocam e impressionam, e os textos finais, como Exhaustion Blues, Monster (uma vívida e realista evocação da depressão) e I Know You, são muito bons.

I know you
You were too short
You had bad skin
You couldn't talk to them very well
Words didn't seem to work
They lied when they came out of your mouth
You tried so hard to understand them
You wanted to be part of what was happening
You saw them having fun
Seemed like such a mystery
Almost magic
Made you think that there was something wrong with you
You would look in the mirror trying to find it
You thought that you were ugly
And that everybody was looking at you
So you learned to be invisible
To look down
To avoid conversation
[...]
You had to be strong tokeep yourself alive
You know yourself very well now
You don't trust people
You know them too well
You try to find a special person
Someone you can be with
Someone you can touch
Someone you can talk to
Someone you won't feel so strange around
You found that they don't really exist
You feel closer to people on movie screens
Yeah, I think I know you
You spend a lot of time daydreaming
People have made comment to that effect
Telling you that you're self involved and self centered
But they don't know, do they
About the long night shifts alone
About the years of keeping yourself company
All the nights you wrapped your arms around yourself
So you could imagine someone holding you
[...]
For you life is a long trip
Terrifying and wonderful
Birds sing to you at night
The rain and the sun
The changing seasons are true friends
Solitude is a hard won ally
Faithful and patient
Yes I think I know you


domingo, outubro 07, 2007

The Tipping Point, de Malcolm Gladwell

É um livro bastante interessante, mais pelo tratamento dos exemplos que apresenta do que pela teoria subjacente. Aliás, como muitos dos livros que expoem e defendem uma teoria, este também sofre do defeito de querer encaixar tudo nessa teoria, acabando por apresentar algumas ideias pouco convincentes e forçadas. Mas globalmente é engraçado, dá algumas ideias perspicazes sobre o tema das modas (fads é o termo em inglês mais adequado, mas que não sei traduzir bem), levando-nos a apercebermo-nos de certos pormenores e tendências que geralmente não notamos e como tal ajuda a compreender o mundo em que vivemos, mesmo que muitas vezes, como diz a crítica do New York Times, que achei muito boa, se limite a ser "common sense dressed up as science".

domingo, setembro 30, 2007

The Corfu Trilogy, de Gerald Durrell


The Corfu Trilogy inclui três livros: My Family And Other Animals (o mais famoso e sem dúvida o melhor), Birds, Beasts and Relatives e The Garden of the Gods, em que Gerald Durrell conta a sua infância encantada em Corfu nos anos 30. O meu desejo de o ler tinha a ver com o facto de Gerald ser irmão de um dos meus escritores favoritos, Lawrence Durrell, que é um dos retratados no livro, aliás de forma muito irónica e afectuosa, como os outros membros da família. Mas os livros valem por si, são uma evocação terna do tempo mágico de uma infância vivida num lugar e tempo privilegiados, com episódios narrados com um humor irónico, elegante e divertido (muito na linha do humor de Lawrence, que tem alguns livros cómicos que são muito divertidos: Stiff Upper Lip, Esprit de Corps e Sauve Qui Peut). Enfim, um livro que se saboreia e nos faz ficar bem dispostos, e que me dá imensa vontade de voltar à Grécia.

The Town, de William Faulkner

O segundo romance da trilogia Snopes é um pouco mais negro que o primeiro (The Hamlet); narra a ascensão social e a conquista de Jefferson por Flem Snopes, que no processo vai snopesianamente eliminando os outros membros, incómodos, da família. Os Snopes são uma espécie de erva-daninha indestrutível, que desponta em qualquer interstício e cresce aproveitando tudo, seja as fraquezas dos outros ou as suas próprias. Faulkner mostra um certo respeito por este género de gente, mas também despreza - a saga dos Snopes nunca é uma tragédia grandiosa como por exemplo as dos Sutpen ou dos Compson, a sua história é contada num tom ora melancólico ora irónico, e Faulkner sabe muito bem combinar estes dois registos, o humor e o drama, numa escrita sempre soberba. Eula Varner, a sua Helena de Tróia, é uma personagem quanto a mim muito menos bem conseguida que as dos Snopes (excelentes, todos) ou as dos Stevens.

domingo, setembro 23, 2007

Mémoires de Saint-Simon

Há uns três anos, penso que durante a minha última estadia em Paris, comprei um volume com excertos das famosas Mémoires de Saint-Simon; já as vira citadas tantas vezes que há muito tinha curiosidade de as ler. Gostei imenso; sempre gostei particularmente de ler memórias e biografias, e gosto de História e do período da França do Grand Siècle; além de ser uma imensa fonte de informação sobre a vida quotidiana na Corte, os retratos de Saint-Simon são perspicazes e implacáveis, e a escrita é num francês saboroso e elegante, muito superior, por exemplo, ao de Mademoiselle de Montpensier nas suas Mémoires. Há uns meses, descobri um site com a transcrição integral das Memórias de Saint-Simon, e tenho estado a lê-las lentamente, divertindo-me com os intermináveis mexericos e intrigas da Corte de Luís XIV. Como a obra é enorme, não vou esperar por terminá-la para falar dela, pois poderá ser dentro de muito tempo. Os retratos são particularmente fascinantes, sobretudo os das personalidades importantes - começam geralmente com elogios rasgados e acaba pelas críticas mais ferozes e contundentes. Também é muito interessante ver os moeurs da época, em relação à vida quotidiana - higiene, divertimentos, sexo, etc. Apercebemo-nos também do triste estado a que a nobreza fora reduzida pelos reinados de Luís XIII e Luís XIV - um punhado de tontos dependentes do rei e lutando por cargos honoríficos e pensões, disputando lugares de chefes de guarda-roupa como se fossem de primeiro-ministro. Não admira que tenha acontecido a vassourada da Revolução.

sábado, setembro 22, 2007

Desejo de Papel, de John Buchan

Este livro, em que o dinheiro é tratado como a encarnação do desejo humano - representando a satisfação potencial dos desejos humanos e acabando por se transformar ele próprio no principal objecto do desjo - é bastante interessante, sobretudo por uma série de informação que veicula sobre a história do dinheiro. A escrita é um tanto entediante, e muitas das ideias do autor parecem-me um tanto rebuscadas e expostas de forma complicada. Mas aprendi várias coisas que desconhecia sobre a história do dinheiro, e tem muitas passagens interessantes. Fez-me reflectir na minha própria relação com o dinheiro, que tanto mudou ao longo dos anos - de franca avareza na adolescência até uma atitude bastante desprendida actualmente. É útil ter dinheiro, mas uma vez assegurado um nível de conforto razoável, a sua importância diminui consideravelmente.

quarta-feira, setembro 05, 2007

Odisseia, de Homero

Depois da Ilíada li a tradução de Frederico Lourenço da Odisseia. Foi igualmente um imenso prazer, embora Homero e gerações de literatos que me perdoem mas preferiria que o poema se alongasse mais na viagem e menos na parte passada em Ítaca até à matança dos pretendentes. Mais uma vez achei a tradução saborosa e empolgante (embora goste mais da expressão "Aqueus de belas cnémides" usada na Ilíada do que das "belas joelheiras", mas é um pequeno pormenor). Mas não vou tecer comentários eruditos que seriam despropositados e pretensiosos, apenas digo que o prazer da sua leitura no século XXI dc confirma a imortalidade da obra.