quarta-feira, abril 25, 2012
Pessimism
Actually, everything she said was quite right and legitimate. But she wasn't talking about challenges for the next 2 decades, she was talking about our present concerns, the challenges we're facing right now. Any one of us, older guys, would have talked about stem cells, xenotransplantation, portable artificial kidneys, whatever. And it made us really sad that the present generation is so burdened with the financial crisis and its troubles that they cannot envisage a different future. That's one of the main problems with economic depression, the effect it has on people, it shortens their views, their horizons. People worry about the present, the morrow, stop thinking big.
What a difference from 38 years ago, when Lisbon - and all Portugal - was burning with hope, the 48 year-old decrepit dictatorship toppled by a coup by young army officers! For all the naiveté, for the the blunders in the next few years, it was a time of overflowing optimism. I was just a child then but I'm happy to have lived through those times, when people believed things would be better and were actually doing something for that. Will we ever be that optimistic again?
terça-feira, outubro 12, 2010
Intenção de Greve

Nunca aderi a nenhuma das muitas greves de médicos que tiveram lugar ao longo dos anos desde que comecei a trabalhar (isoladas ou integradas em greves de outros trabalhadores, como funcionários públicos). Não porque ache que os médicos não têm o direito de fazer greve, mas porque, dadas as características particulares do nosso trabalho – nomeadamente a forma como afecta o bem estar imediato das pessoas e o impacto emocional, e os custos humanos para os doentes e para nós de o adiar – sempre pensei que deve ser um recurso a utilizar o menos possível. E até agora, sempre achei os motivos invocados para as diversas greves insuficientes para as justificar.
Desta vez, no entanto, tenciono aderir à greve geral de 24 de Novembro. Por dois motivos:
Primeiro, porque novamente vão ser preferencialmente afectados os funcionários públicos, passando mais uma vez a mensagem de que são uns parasitas e ineficazes, quando o motivo porque se vai buscar aí o dinheiro e não aos bancos e à evasão fiscal é por ser muito mais fácil. No caso particular dos funcionários públicos médicos como eu, estas medidas vêm reforçar a já caricata situação em que nos encontramos: há vários anos que os quadros estão fechados, mas como continuam a ser precisos médicos para o SNS funcionar, estes vão sendo admitidos com contratos individuais de trabalho. Tecnicamente, não pertencem à Função Pública, apesar de trabalharem para o Estado. Na prática, são admitidos a ganhar mais do que as pessoas do quadro, que são mais antigas na instituição e geralmente seus superiores hierárquicos, e o ordenado pode variar significativamente entre pessoas com a mesma diferenciação e qualidade técnica, já que é ditado pela necessidade da instituição empregadora no momento do contrato e pela habilidade negocial do contratado. Quando os cortes dos vencimentos tiverem lugar, estes “não funcionários públicos” não serão afectados, o que ainda vai aumentar mais a desvantagem salarial dos médicos funcionários públicos. A consequência será provavelmente nova debandada dos médicos mais diferenciados e qualificados do SNS, que serão substituídos por novos “não funcionários públicos” de qualidade inferior e que irão ganhar mais do que os que saíram.
Segundo, porque estas medidas, mais uma vez, não vão resultar, e estou saturado dos dogmas que os governos ocidentais nos últimos anos nos têm incessantemente pregado, aplicando-os em nome “dos mercados”, essa nova religião, provocando uma espiral descendente que só favorece os bancos e os especuladores. Até eu, que percebo muito pouco de Economia, já percebi que estas medidas vão apenas piorar o nosso nível de vida para dentro de um ano “os mercados” novamente dizerem que Portugal apresenta poucas perspectivas de crescimento e tudo se repetir, como está a acontecer em outros países. Por isso acho que temos de nos opor a esta atitude persistente de autismo político, a esta religião saloia que está a destruir activamente o modo de vida que permitiu o período de maior e mais prolongado bem-estar que a Europa conheceu.
sexta-feira, agosto 27, 2010
100 Cidades de Todo o Mundo Contra a Lapidação

Amanhã vai ter lugar a iniciativa 100 Cities Around the World Against Stoning, um protesto organizado pela sociedade civil contra a lapidação no Irão de uma mulher de 43 anos, Sakineh Ashtiani, condenada pelo crime de adultério. A causa é meritória; a pena de morte é quanto a mim errada em qualquer circunstância, e neste caso ainda agravada pelo método bárbaro que, não só provoca sofrimento prolongado e gratuito, como sobretudo representa a defesa de um regresso ao passado no que ele tem de pior - práticas bárbaras implementadas para fortalecer um regime politico-religioso obscurantista e belicoso.
Nunca fui o género de pessoa de participar em manifestações ou protestos públicos, por inércia, por feitio... Acho no entanto importantes estas iniociativas da sociedade civil e acredito que têm resultados mais cedo ou mais tarde, por chamarem a atenção para este tipo de situações e criarem um clima de pressão internacional que já tem sido útil em muitos casos semelhantes. Desta vez estou particularmente envolvido porque a participação portuguesa se deve a uma iniciativa de um grande amigo meu, que organizou tudo com a colaboração de contactos/amigos da sua rede de facebook (com especial ajuda dos elementos do blog jugular), de modo que tenho assistido de perto a todo o processo.
E hoje fiquei verdadeiramente estarrecido com os comentários de leitores à notícia sobre o evento no site da TSF. O meu amigo já me tinha mostrado comentários e mails recebidos na página do grupo da organização do protesto no facebook e no blog jugular, em que os organizadores eram acusados desde de terem intenções políticas ocultas a serem ferozes sionistas. E no site da TSF podem ler-se comentários como estas pérolas:
"Cada País tem a sua cultura, as suas regras e as suas leis. Esta senhora ao cometer este crime já sabia de antemão o que a esperava. Condeno sim a intromissão nos assuntos internos do Irão."
"Já visitei o Irão e posso-vos dizer que é um país maravilhoso. Estas leis podem parecer bárbaras no Ocidente mas por lá resultam e mantém a dignidade e disciplina."
"Vergonha é o mundo Ocidental Capitalista querer impor os seus modos de vida priviligiando a traição, vaidade e arrogância. Deixem o Irão em paz...depois queixem-se..."
Há mais, mas para exemplo chega. Perplexo, interrogo-me: mas será que estas pessoas acreditam realmente no que dizem? Concordarão com a lapidação? Com o direito de praticar a barbárie "porque é a cultura deles"? É indiferença? Relativismo cultural e political correctness levados às últimas consequências? Não me custaria a perceber que não se envolvessem no assunto e que este lhes fosse indiferente, mas manifestarem-se a favor da lapidação?
Outra crítica frequente é a de que há muitos casos de atentados aos direitos humanos, que este é só mais um e porque não se manifestam contra os outros. Este tipo de crítica sempre me irritou - pois, há muitos outros casos, mas isso em nada diminui este, e cada caso serve como alerta e precedente para outros, e se Sakineh é só mais uma das vítimas da barbárie, se o protesto internacional servir para ajudar a salvá-la, isso será um passo em frente que ajudará os próximos casos. E de qualquer forma, não se está a falar dos outros casos, mas deste, e em que é que a existência dos outros desculpa este?
Enfim, com tudo isto, o resultado foi ficar convencido a, ao contrário do que é o meu hábito e a minha tendência, ir ao Largo Camões amanhã às 18:00. Ao fim e ao cabo, é o mínimo que posso fazer, não só pela infeliz Sakineh e outras como ela, mas para apoiar o meu amigo e os outros que desinteressadamente dedicam o seu tempo e esforços para tentar melhorar um pouco o mundo e ainda têm que ouvir semelhantes atoardas.
(O cartaz de Ana Vidigal está belíssimo.)
quarta-feira, maio 19, 2010
Uma história portuguesa
Actualmente, graças aos grandes avanços tecnológicos das últimas décadas, existem múltiplos aparelhos utilizados no tratamento e prolongamento da vida dos doentes – ventiladores, monitores, desfibrilhadores, máquinas de diálise, pacemakers, etc, etc. O manuseio desta tecnologia exige conhecimentos específicos, e não só os médicos se especializam cada vez mais como também os enfermeiros precisam de formação específica para trabalhar em unidades especializadas, sejam de Cuidados Intensivos, Neurocirurgia, Hemodiálise, Obstetrícia, etc. Sabendo isto, consideremos agora que existe uma máquina que permite realizar uma técnica que é indispensável para os cuidados médicos em certas circunstâncias. Chamemos-lhe uma máquina de fazer laranjada, indispensável nas ocasiões em que um doente não pode sobreviver sem ela, em que nem sequer limonada serve. Num certo hospital central, essa máquina foi adquirida pelo serviço que habitualmente confecciona os sumos necessários à sobrevivência dos doentes, embora os que estejam na condição crítica em que precisam da laranjada estejam, dado o seu estado de gravidade, internados em unidades de outros serviços, dedicados especialmente aos cuidados críticos / intensivos. Os médicos e enfermeiros do serviço “dono” da máquina deslocam-se com ela quando necessário às unidades de doentes críticos, programam a máquina e deixam-na a fazer laranjada continuamente, aos cuidados dos enfermeiros dessas unidades, e assim se salvam vidas.
Tudo muito simples e linear… se não estivéssemos em Portugal. Neste hospital de que falo, há um problema que persiste e que tem complicado muito as coisas – nomeadamente a minha actividade de modesto médico prescritor de laranjada. É que, se em várias unidades o processo tem decorrido sem problemas – os enfermeiros locais dispuseram-se a aprender o fabrico da laranjada, que aliás não é nada complicado – noutras, e por azar aquelas em que mais frequentemente os doentes precisam do precioso suco, os enfermeiros recusam-se a realizar a técnica, alegando falta de pessoal e de formação. Ao longo do tempo, várias vezes foi proposto pelo serviço “dono” da máquina fornecer a formação necessária – que é bem simples, pois fazer a laranjada é bem mais fácil do que operar muitas das outras máquinas já utilizadas nessas unidades, como os ventiladores – mas os chefes de enfermagem dessas unidades sempre se têm escusado, alegando vários pretextos – obras, a gripe A, etc… Entretanto, e para não deixar morrer os doentes que dela precisam por falta de laranjada, os enfermeiros do serviço “dono” da máquina têm-se disponibilizado para ficar nas unidades longas horas a vigiar o fabrico do sumo, o que está fora das suas obrigações.
Cartas e mails têm sido trocadas entre os directores dos vários serviços e a direcção clínica do hospital, mas até agora nada se resolveu, e de cada vez que algum doente nessas unidades “problemáticas” precisa de laranjada, lá volta a mesma eterna discussão.
E agora vem o pequeno pormenor que me levou a publicar este post. Há quanto tempo este problema dura? Dois meses? Seis? Um ano? Errado! Desde Setembro de 2002! Exactamente: mais de 7 anos e meio, e as perspectivas de solução permanecem exactamente as mesmas.
Acho que esta situação é um excelente exemplo de como as coisas (não) funcionam em Portugal. Alguém falou em produtividade? Pois.
quinta-feira, outubro 08, 2009
Autárquicas em Oeiras
As sondagens sobre as eleições autárquicas em Oeiras prevêem uma confortável vitória de Isaltino, apesar de ter sido condenado a 7 anos de prisão - o que por este tipo de crimes é bastante raro no nosso país, o que significa que as provas contra ele eram esmagadoras. Infelizmente, isto não me surpreende, e acho que estes resulatdos se devem a duas razões:1) A ideia generalizada e enraizada na nossa população de que os políticos são corruptos por definição - logo, todos roubam, portanto mais vale eleger os que "fazem", já que qualquer outro seria igualmente ladrão.
2) O facto de a nossa população não considerar este tipo de crimes moralmente condenável - a maioria das pessoas acha perfeitamente normal que os políticos (ou qualquer outras pessoas) "aproveitem" as oportunidades e enriqueçam pelo suborno e a fuga aos impostos; no fundo sentem inveja e gostariam de poder fazer o mesmo. Enriquecer pelo trabalho honesto é tão trabalhoso...
Portanto, não me admira o sucesso eleitoral de pessoas como Isaltino, Valentim Loureiro ou Fátima Felgueiras. Representam o que os portugueses admiram e invejam: os chicos-espertos que vencem na vida sem grande esforço e escapando à legalidade/autoridade, que é vista como uma espécie de pai severo que sabe bem enganar.
Infelizmente para mim, não partilho dessas opiniões. Não acho que um político seja necessariamente corrupto, se muitos são isso não é desculpa, e deveriam ser punidos precisamente para desencorajar outros de o serem. E tenho a careta convicção de que a honestidade é uma virtude e que devemos ser éticos e cooperar de forma limpa - pagando impostos, sendo competenetes, etc - para construirmos uma sociedade civilizada e melhor. Azar meu, pois lá terei novamente um presidente da câmara que obviamente não partilha destas ideias tão aborrecidas...
sábado, agosto 08, 2009
A doação de sangue dos homossexuais

Nos últimos dias houve muitos post na "blogosfera" e no Facebook sobre esta questão, a propósito de uma entrevista do director do Instituto de Sangue: é ou não um discriminação considerar que ser homosseual é uma contra-indicação a ser doador de sangue? O argumento principal a favor dacontra-indicação é qe dar sangue não é em si um direito, mas sim receber sangue "seguro". O que é verdade, decerto. Mas eu concordo que o estabelecer que "ser homossexual" em si é uma contra-indicação está errado e é uma forma de discriminação que deveria desaparecer. É óbvio que é fundamental assegurar o mais possível que o sangue administrado está live de doenças transmissíveis, e concordo que se recusem os dadores com comportamentos de risco. Mas mesmo admitindo que s homossexuais - ou os "men who have sex with men" na teminologia anglo-saxónica politicamente correcta actualmente utilizada - tenham maior frequência de comportamentos de risco, isso não é obrigatório. E quanto a mim, a razão principal para eliminar essa fraseologia é precisamente a de que conduz a um reforço da ideia-feita de que homossexualidade = promiscuidade e a uma visão negativa dos homossexuais, que forçosamente contrbui para a homofobia que já
é tão prevalente na nossa sociedade e que penso ser fundamental eliminar. Mesmo que a selecção dos dadores continue da mesma forma - ou seja, que os homens que têm sexo com homens contnuem a ser recusados caso a caso porque os responsáveis pela selecção não os considerem suficientemente seguros - não deveser assumido que são recusados por "serem homossexuais". Mesmo porque os inquéritos são muito pouc fiáveis, pois as pessoas - homo ou heterossexuais - podem sempre mentir sobre os seus hábitos. E quando se diz que é "só" um questão de palavras, está a ser-se hipócrita, porque as palavras são muito importantes.
Quanto à tão badalada entrevista, é um manancial de disparates que só podem desacreditar quem os profere. Olim tem o direito às suas opiniões, mas pelo que diz estas são completamente homofóbicas e disparatadas, e é por isso que subscrevi a causa do facebook pedindo a sua demissão. Só pela pérola dos homens violados já merecia!
Enfim, as questões de linguagem são importantes,e tudo o que contribua para o fim da homofobia e a aceitação da homossexualidade como algo perfeitamente natural parece-me fundamental. Queremos ou não ser civilizados? E a verdadeira civilização passa pela implementação da felicidade das pessoas.
Poupanças à portuguesa
Há dias, pr volta das 23:00, saía eu do Media Markt em Alfragide, e dei com uma fila imensa de carros parados. Surpreendido pela insólita situação - àquela hora, em Agosto - pensei se teria havido algum acidente que tivesse cortado a estrada. Mas mais à frente percebi a verdadeira causa! É que ali fica a famosa bomba da gasolina mais barata, e todos aqueles carros estavam em fila para abastecer os seus depósitos por uma pechincha! Pois é, como podiam os donos daqueles Toyotas e BMWs resstir a comprar gasolina sem chumbo 95 a 1.119 € o litro? Vale bem a pena, estar uma meia hora à espera numa noite de Verão! Sempre se poupam uns 2 € por depósito! Sem comentários...
domingo, julho 05, 2009
Simplex?

Sou um adepto incondicional da simplificação da burocracia, e tenho saudado com entusiasmo os grandes progressos que têm sido feitos nos últimos anos - como o fim do papel selado, a entrega das declarações de IRS pela net, a multiplicação dos notários onde se pode fazer reconhecimentos de assinaturas, por exemplo. Alguns destes serviços não funcionam lá muiito bem - por exemplo, pedi pela net cartões de saúde europeus há2 meses e até agora nada, suponho que se perderam no espaço virtual - mas no conjunto o balanço tem sido inegavelmente positivo.
Infelizmente, provavelmente para não ficarmos demasiado mal habituados a tanta eficiência, apareceu o cartão do cidadão. Teoricamente criado para facilitar, e à partida parecia lógico, pois bastaria tirar um cartão em vez de uma série deles, na prática veio complicar imenso. Há 1 ano, os meus filhos, sempre cuidadosos e arrumados, conseguiram perder todos os respectivos BIs; rumámos à Loja do Cidadão e rapidamente os renovámos, depois de uma passagem igualmente rápida pelo Conservatória do Registo Civil para tirar certidões de nascimento. Há uns 3 anos, quando mudei de casa, precisei de renovar todos os documentos para alterar a morada - passaporte, BI, carta de condução - e lá fui à dita Loja: de uma vez renovei o BI, da seguinte os resantes, sempre rapidamente. Agora, a minha filha, depois de mais uma vez perder o BI, foi tirar o cartão do cidadão. Qual não é o meu espanto quando descubro filas intermináveis, distribuição limitada de senhas logo ao abrir da Loja, que se esgotam imediatamente, tempos de espera infindos. Depois de 3 tentativas infrutíferas, acabo por ir a Setúbal, onde a afluência é menor e lá conseguiu, mesmo assim com senhas e tempo de espera considerável. GRANDE retrocesso!
(Outro mistério burocrático, que penso que antecede o Simplex, é o cartão do utente dos serviços de saúde - em vez de um, passaram a ser precisos dois cartões para o mesmo efeito, já que continua a existir o da ADSE...)
quinta-feira, maio 01, 2008
Portugal e os seus BMWs - um detalhe
Houve um pormenor curioso em que reparei nesta viagem a Espanha. Na auto-estrada para o Algarve, no feriado de 25 de Abril, passei e fui ultrapassado por uma verdadeira multidão de BMWs; aliás, por muitos carros potentes e caros, como Audis ou Mercedes, mas decididamente os BMWs predominavam por uma grande margem. Dezenas não é exagero. Assim que entrei em Espanha, nada de BMWs. Como a quantidade deles que vira no trajecto de Lisboa ao Algarve me despertara a atenção, fui reparando nas marcas de automóveis por que ia passando e, mesmo que obviamente não tenha visto todos e me tenham escapado vários, nos 4 dias que estive em Espanha e em que passei por Sevilha, Granada e Córdova vi um total de... quatro BMWs, um dos quais era português!Que concluir deste fenómeno? Mesmo considerando que o território percorrido em Espanha não seja uma amostra perfeitamente representativa do país, nem a A2 de Portugal, a diferença observada é mais um dado ilustrativo do que em Portugal se entende por qualidade de vida e como essa noção está indissoluvelmente, ligada à de status. Como a maioria dos portugueses adora pavonear o seu carro!
sexta-feira, maio 18, 2007
Tabagismo - essa inesgotável fonte de pérolas oratórias...

Geralmente não me sinto nada estimulado a escrever sobre os assuntos do dia, evitando aumantar assim os coros rituais que os ditos assuntos provocam em jornais, restantes media e blogs. Mas tanta inanidade tem sido escrita a propósito das leis anti-tabagismo que não resisto a comentar. Acho que o que me decidiu foi uma pérola da Fernanda Câncio, essa nova sacerdotisa da imprensa bem-pensante, digna descendente da Clara Pinto Correia e do seu estilo ai-que-gira-que-eu-sou-e-que-graça-que-eu-tenho-a-dizer-tolices-e-sou-tãão-esperta, estilo que foi cultivado por melhores cabeças, como a do Miguel Esteves Cardoso no tempo em que ainda tinha uma. Mas voltando à questão, dizia Fernanda Câncio no seu post, composto naquela escrita sem maiúsculas que deve achar que a torna muito original quando se limita a diminuir a sua legibilidade, por entre imensas queixase lamúrias contra os fumadores, esses assassinos que a tinham feito já inalar kilos de carcinogénios, que nem em sua casa estava a salvo das suas faltas de respeito, porque toda a gente sabe que os fumadores não respeitam sequer a santidade da casa de cada um e a pobre-e-tão-espirituosa escriba convidava os amigos para inocentes e saudáveis tertúlias e os malvados toca de puxar pelo cigarro e agredir os infelizes pulmões da desgraçada-mas-tãão-esperta jornalista.
De facto, o exagero, a falta de senso e a vontade de se mostrar original e/ou esperto são uma combinação fatal, e todo este debate à volta dos cigarros está repleto de intervenções deste género, de um lado e do outro. (Já agora, não sei se os amigos da Fernanda Câncio são todos assim tão grunhos, o que é estranho numa rapariga tão-mas-tão-gira-e-sofisticada-e-esperta, mas desde sempre as pessoas não costumam fumar nas casas onde os anfitriões não gostam... Já para não perguntar que raio de amizades são essas em que ela não pode dizer-lhes simplesmente que não fumem! Mas isso é o menos) Mas como é entediante este discurso dos mártires da nicotina! Aliás, é um discurso que tem o seu equivalente nos outros mártires, dos quais o expoente máximo é o Miguel Sousa Tavares, com inanidades igualmente delirantes. Mas o espectro é vastíssimo, passando pelo Eduardo Prado Coelho, que filosoficamente "sempre aceitou tacitamente o seu papel defumador passivo" ou por Mega Ferreira que poeticamente lembra que "a maioria da cultura está associada ás espirais azuis do fumo de um cigarro"...
No meio de tanta tolice, praticam-se algumas tolices mais perigosas, como as de pretender apagar os cigarros de fotografias de figuras históricas ou de passar a classificar cenas de filmes em que aparecem cigarros com a mesma severidade aplicada a cenas de violência ou pornográficas.
Às vezes interrogo-me - será que sou eu que estou errado? Ou são de facto as pessoas que gostam de complicar o que não é assim tão complicado como o fazem parecer? Por um lado, os detractores do tabaco têm tantos motivos verdadeiros e sensatos para apoiar a restrição ao tabagismo, porque hão-de recorrer a tanta patetice? Sobretudo a essa arma perigosa da intolerância, que é rotular o tabagismo como algo de moralmente errado, feio e condenável. É um péssimo princípio, e gostaria que esses apóstolos da virtude se lembrassem de que um dia mais tarde um hábito que eles cultivem poderá vir a ser alvo da mesma campanha.
Por outro lado, os defensores do tabagismo também recorrem a argumentos perfeitamente idiotas para defender o que não tem defesa razoável, socorrendo-se de comparações absurdas e perdendo completamente a razão. É claro que fumar faz mal, que é um hábito que deve ser desencorajado, e a proibição de fumar em espaços públicos fechados é perfeitamente razoável e exequível - já estive em grandes cidades repletas de fumadores com essas leis (no ano passado em Glasgow, Nova Iorque e San Francisco), e não me pareceu que as pessoas andassem oprimidas, a lei era cumprida e o ambiente nos bares era bem mais agradável. Será que já se esqueceram todos que há alguns anos se pdia fumar nos comboios e aviões? O tabaco é um hábito, que em tempos não existiu, depois apareceu e teve o seu período áureo e que poderá desaparecer, como desapareceram as escarradeiras (imagino o Miguel de Sousa Tavares, no século XIX, a vociferar dizendo que os pobres escarradores se iam sufocar em escarros retidos...) ou o rapé. Desencorajá-lo é bom, e restringir as oportunidades para fumar é uma excelente forma de o fazer. Mas não vamos fingir que nunca existiu nem rotulá-lo de coisa nefanda! Mas, como diz o epigrama utilizado pelo Asimov num livro, "contra a estupidez os próprios deuses lutam em vão".
quarta-feira, maio 16, 2007
...e a imprensa nacional, ou a falta de senso em Portugal

Em relação com o meu post anterior, não posso deixar de comentar as repercussões na imprensa portuguesa mainstream – neste caso no Diário de Notícias – deste mesmo número do New England Journal of Medicine. A partir de um número da revista médica mais conceituada do mundo, em que havia 3 artigos originais (de investigação clínica), 2 artigos de perspectiva, 2 editoriais e uma carta ao editor (e uma entrevista áudio na versão web) sobre o assunto do HPV (incluindo resultados das vacinas e os problemas levantados pela aplicação das recomendações de incluir uma vacina do HPV nos programas de vacinação obrigatória), o nosso ilustre DN publicou um artigo com o emocionante título: Sexo Oral Aumenta Probabilidades de Cancro! Palavras para quê? Só vem confirmar que o DN se transformou de facto no Correio da Manhã II (para quê? já havia um...), e reforçar a minha opção de voltar ao Público à 6ª feira e talvez guardar a Visão para ler ao fim-de-semana (em relação aos meu dilemas com a imprensa de que já falei)....
(No mesmo número do NEJM havia um artigo e um editorial sobre a prática da morte medicamente assistida na Holanda, mostrando que a eutanásia diminuiu e os cuidados paliativos de doentes terminais melhoraram desde a legalização da eutanásia e morte medicamente assistida. Mas isso também é um assunto sensaborão para a nossa imprensa!)
quinta-feira, maio 10, 2007
O Reino da Estupidez, de Jorge de Sena
Depois de ler recentemente a correspondência de Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner Andresen fiquei com vontade de conhecer melhor a obra de Jorge de Sena. Conheço alguma da sua poesia, de que gosto moderadamente - acho muitos dos poemas demasiado palavrosos, mas os não muito grandes acho muito bons. E descobri por acaso que tinha na estante O Reino da Estupidez, herdado no espólio de um avô anarquista e que não me lembrava nada de ter.Não gostei muito do livro - uma colecção de ensaios, como de esperar pelo nome, muito maldizentes de Portugal e dos seus "intelectuais". O tom, tal como nas cartas a Sophia, é sempre amargo, desencantado, mordaz, de uma ironia triste e depressiva - que belo precursor de Vasco Pulido Valente! E apesar de no geral ter razão, preferiria um tom que sendo sarcástico e corrosivo - o que aprecio - fosse menos pomposo e arrogante. Sobretudo os primeiros ensaios (cronologicamente) são muito extensos e maçadores - um crime em Literatura. Mas os da última fase estão muito bem escritos e como tal atingem muito melhor o alvo.
Continuo a querer ler mais da prosa de Sena, que continuo a admirar - a poesia, e bastariam as traduções de Emily Dickinson e de Cavafy para o colocar muito alto na minha consideração. E acho que, se houvesse um prémio para os detractores inteligentes de Portugal, ganharia a medalha de prata ( a de ouro teria de ser para o Eça, pela elegância, humor e acutilância), com o poema A Portugal, impressionante de tão violento:
Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.
Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.
Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:
eu te pertenço. ƒÉs cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não.
segunda-feira, março 05, 2007
Jornais
Nunca fui um grande leitor de jornais, sempre me limitei a ler os títulos, percorrer as páginas na diagonal, lendo sobretudo artigos de opinião, crónicas, por vezes críticas. Gosto de estar informado, mas nunca senti uma grande necessidade de saber muitos pormenores e sempre achei aborrecidos os detalhes dos artigos políticos e económicos. No entanto, gosto de dar uma vista de olhos diária a um jornal, e de me sentar com um numa esplanada ou café ao fim-de-semana, quando tenho mais tempo. Ora infelizmente o nosso panorama jornalístico é verdadeiramente pobre, em quantidade mas sobretudo em qualidade, e já há muito tempo, e na minha opinião tem vindo a piorar progressivamente nos últimos anos. Há muito tempo, costumava ler o Expresso ao fim-de-semana, mas deixei de o fazer há anos, saturado dos editoriais de José António Saraiva, que se tinham tornado verdadeiramente insuportáveis; um dia pensei: "nunca mais compro esta porcaria" e assim foi. Confesso que ainda não o li desde a saída de J.A. Saraiva. Em contrapartida, comprei o 2º número do Sol e achei-o péssimo, e umas espreitadelas ocasionais a números posteriores não me fizeram melhorar nada essa impressão. Leio a Visão regularmente, mas sempre a achei um tanto frívola e desinteressante, uma espécie de versão empobrecida do pior da Time. Restam os diários. Durante anos, o Público era o que eu lia com mais frequência, comprava-o aos fins-de-semana e lia-o diariamente na net. Mas está a acontecer o mesmo que com o Expresso: a qualidade tem vindo a diminuir, os colunistas melhores a debandar, os que ficam a repetirem-se (mesmo as diatribes do Vasco Pulido Valente, que me davam tanto gosto ler, estão a tornar-se enfastiantes
de tão repetitivas e previsíveis). A recente reestruturação foi a machadada final (até o logotipo perderam!) - este domingo tive o mesmo pensamento que anos atrás com o Expresso. Nem sequer o fim da insuportável Xis nos livrou de Laurinda Alves! Por coincidência (e porque o Público de facto não tinha nada que ler), comprei também o Diário de Notícias, que leio ocasionalmente na net e não compro há anos (graças aos tempos do inenarrável Luís Delgado), e agradou-me bastante mais. Acho que vou experimentar mudar de jornal... apesar de ter uma grande resistência a comprar uma publicação onde escreve o João César das Neves. Quanto ao Público, talvez mantenha a 6ª feira, para ler o Ípsilon, que amalgamou o Mil Folhas e o Y, que eram bons suplementos. Enfim, que panorama jornalístico tão pouco estimulante.
terça-feira, fevereiro 13, 2007
O resultado

Uma palavra apenas para me congratular do resultado do referendo sobre a despenalização do aborto. Como um amigo disse, "sabe bem acordarmos num país um pouco menos atrasado"... e um pouco menos hipócrita, acrescento eu. Mais uma vez, no entanto, a fraca afluência às urnas demonstra que a questão devia ter sido resolvida na Assembleia (já que obviamente não mobiliza a maioria da população, além de todos os outros motivos) e que o povo português é comodista e pouco participativo, preferindo sempre queixar-se de tudo mas nada fazer quando tem oportunidade.
Agora falta resolver os pormenores logísticos, a questão da comparticipação, etc. Mas estou certo de que, tal como aconteceu em 1984, em que também antes da lei parecia que cairia o Carmo e a Trindade caso fosse promulgada, tudo se fará sem barulho nem problemas. Porque, como de costume, o seixo já caiu no charco, os corifeus já se manifestaram como era suposto fazê-lo e o momento mediático passou. As questões práticas serão resolvidas, como de costume, sem ondas, pelas pessoas práticas que trabalham sem dramas nem fanfarras. Ainda bem.
quarta-feira, fevereiro 07, 2007
A campanha
Tenho de reconhecer que esta campanha para o referendo conseguiu surpreender-me. Era esperada a posição da maior parte das pessoas - algumas excepções, que me supreenderam agradavelmente, como José Miguel Júdice, Paula Teixeira da Cruz e até Margarida Rebelo Pinto, confirmam a regra - mas o que me espantou foi o encarniçamento, o empenhamento da campanha pelo não. Cartazes, panfletos, tempos de antena, tanto empenho e denodo! Fico genuinamente espantado - como é possível que tantas pessoas, muitas delas inteligentes, vão a tais extremos, gastem tanto dinheiro, para defender que mulheres que abortam até às 10 semanas de gestação sejam penalizadas? Já desconto a posição da Igreja, previsível e de acordo com o que dela se espera, tontas como Alexandra Teté, que só mesmo desta forma conseguem protagonismo, ou mesmo os argumentos arrevezados e risíveis do Professor Martelo, que há muito se tornou numa caricatura de si próprio, tão bem desmascarada pelos Gatos Fedorentos, mas que infelizmente ainda muitos levam a sério, apesar de parecer num processo acelerado de senilidade. Mas ainda sobra muita gente, gente que constrói uma teia de mentiras preconceituosas e desinformação, produzindo novos argumentos falaciosos de cada vez que um é rechaçado, qual Hidra de Lerna insidiosa e persistente. Sempre me há-de deixar perplexo este gosto na infelicidade dos outros. Espero bem que esta vergonhosa questão acabe com a vitória do sim, mas conhecendo o triste país em que vivemos, receio muito que esta não aconteça. Pela minha parte, vou dar o meu contributo.
domingo, janeiro 28, 2007
O Processo, ou justiça à portuguesa

Tenho evitado escrever sobre o tão badalado caso Esmeralda tal como evitei por algum tempo manifestar-me sobre o referendo à despenalização do aborto – porque me irrita a maneira como as questões hoje em dia são discutidas nos media. Seja qual for o assunto – da despenalização do aborto aos voos da CIA, do caso Casa Pia ao livro de Carolina Salgado, das buscas na redacção de um jornal à adopção por homossexuais – as coisas funcionam invariavelmente da mesma forma: é como se um seixo caísse numa poça, provocando regulares e previsíveis ondas concêntricas (na forma de declarações, artigos de informação nem sempre muito informativa, colunas de opinião, trocas de galhardetes, debates televisivos, opiniões do Professor Martelo..., em que cada um ocupa um lugar bem determinado e diz exactamente aquilo que se espera dele, como numa peça de teatro inúmeras vezes representada em que os papéis parecem já mais representados por hábito do que por convicção), cuja intensidade se vai esbatendo até se desvanecer a agitação e ficar tudo como antes. É tudo tão previsível, e tão estereotipado, faz-nos sempre lembrar como vivemos num país de opereta.
Mas, tal como no caso do referendo, em que a indignação contra a hipocrisia levou a melhor sobre a minha contenção, também neste caso da menina entre famílias me apetece dar a minha opinião, porque se trata de assunto que me toca particularmente, pois também eu já passei pelos retorcidos labirintos das adopções.
E mais uma vez, o que ressalta deste caso é muito menos a “razão” de uma parte ou da outra do que a ineficácia e injustiça do nosso sistema judicial e a impunidade total dos juízes, que se comportam como se fossem uma casta à parte com poderes de direito divino (como tal, indiscutíveis). Porque, quer se favoreça o pai biológico ou a família que quer adoptar, é inaceitável que um processo de que depende a vida de uma criança pequena demore anos. E depois há os habituais elementos bizarros tão característicos da nossa “justiça”, neste caso aplicados ao capítulo particular que respeita crianças / adopções / família.
Em primeiro lugar, é o descrédito generalizado de que o sistema goza junto das pessoas que leva a que um casal que deseja adoptar recorra a “portas travessas” para o fazer. Com efeito, este casal não obteve a criança por vias oficiais, mas directamente da mãe, com uma declaração desta “cozinhada” por eles em que renunciava a quaisquer direitos sobre a filha e permitia a sua adopção por eles, e só depois tentou oficializar a situação. O problema começa logo aqui – desde que a lei obriga a que seja investigada a paternidade de qualquer criança registada sem nome de pai (tendo desaparecido a figura do pai incógnito) por se considerar ter um pai um direito fundamental da criança, esta criança nunca poderia ser adoptada por ninguém enquanto a questão da sua filiação não estivesse resolvida, já que o pai teria um direito à tutela igual ao da mãe e poderia querer exercê-lo (como aconteceu). O casal errou aqui – por ingenuidade apenas? por chico-espertice à portuguesa? provavelmente por uma combinação das duas.
Depois, é o tempo infindável para resolver qualquer coisa – as notificações, as análises e, por fime pior que o resto, as decisões. Como sempre, enfeitadas, acrescentadas e compostas por muitos recursos e trecursos, considerações e protestos, com processos que somam centenas de páginas por qualquer questiúncula. O que levou a que uma questão que surgiu quando a criança ainda não tinha 2 anos se tenha arrastado até estar com quase 6. O que obviamente altera completamente a situação – até os ferozes defensores de que um embrião conta o mesmo que uma criança de 2 anos reconhecerão que os laços familiares criados em 6 anos são mais fortes do que os estabelecidos até aos 2.
Quanto a pormenores, tão característicos do nosso sistema, cito apenas um exemplo, tirado de um jornal no sábado 27 de Janeiro: um casal foi condenado por maus tratos a um bebé de Viseu que deu entrada no hospital aos 50 dias de idade “em coma, com fracturas do crânio, hemorragias intra-cranianas e da retina e lesões do ânus” a 10 e 4 anos de prisão (o pai e a mãe, respectivamente). Comparem-se as penas com os 6 anos de prisão aplicados ao sargento que tenta adoptar a Esmeralda, e que foi preso preventivamente em vésperas do Natal.
Segue-se o queda do seixo na poça e os círculos ondulatórios do costume, com os vários corifeus sacando apressadamente da sua máscara (fixa e imutável, como no teatro grego) para não perderem a oportunidade de cumprir o seu papel.
Por fim, a única vantagem de todo este triste caso é chamar a atenção para o péssimo funcionamento do sistema judicial, para a inimputabilidade dos juízes (tanto mais chocante quanto maior a sua falta de senso, que não é rara) e para o predomínio (quanto a mim injusto e indevido) que a nossa lei confere aos laços biológicos, que levam à manutenção de tantos casos de maus tratos sobre crianças que por vezes terminam com a morte destas.
Já agora, dou a minha opinião pessoal sobre este caso concreto: não simpatizo com nenhuma das partes (apenas com a criança, coitada, que não tem culpa do que lhe acontece) – os candidatos a pais que quiseram contornar com chico-espertice a legalidade, à maneira dos construtores de habitações clandestinas, e depois persistiram nas suas manobras utilizando para engonhar a situação a mesma chicana processual que agora criticam e de que se reclamam as vítimas; o pai biológico que não o queria ser e que assumiu uma postura de arrependido / convertido; a mãe biológica que renunciou acertadamente a uma criança que não podia criar mas que agora não resistiu à oportunidade de ter o seu momentozinho de celebridade e aproveitar para um ajuste de contas; os juízes insensatos e pomposos que vivem aplicadamente noutro planeta. Todos juntos criaram uma bela embrulhada. Penso que o caso devia ter sido decidido há 4 anos, provavelmente a favor do pai biológico caso assegurassem a capacidade deste para exercer a tutela e para desencorajar as adopções à margem do sistema; agora penso que deveria ser decidido a favor da família de facto (a adoptante) a bem da criança, com direitos ao pai biológico semelhantes aos que tem qualquer outro pai com filhos cuja tutela é concedida ao outro cônjuge.
Como todos estes casos – a Esmeralda, o referendo, o Apito, a Casa Pia, o Sistema Nacional de Saúde a saque, o caos do ensino – me entristecem e me desanimam quanto a viver em Portugal...
quarta-feira, janeiro 24, 2007
Hipocrisias
quinta-feira, janeiro 18, 2007
O meu voto no referendo

(E isto não tem a ver com a questão da despenalização, mas lembrei-me porque era um dos assuntos abordados na entrevista de Zita Seabra que li há dias num jornal que encontrei na sala de espera de um consultório. Mas aquela mulher existe mesmo?? Foi sempre uma caricatura - primeiro da estupidez e casmurrice comunistas, depois da vira-casaquice despudorada, agora de quê? Do capitalismo selvagem neocon? Até a sua fealdade disforme é caricatural. Há pessoas mesmo inacreditáveis! Esta devia estar num freak show.)
terça-feira, janeiro 09, 2007
Críticas e críticos

sábado, dezembro 30, 2006
Assiduidades controladas

Não tencionava escrever sobre este assunto, mas posts como este (de médicos, ainda por cima) fizeram-me mudar de ideias. Vem isto a propósito de mais uma medida zelosa do nosso governo que, como a maior parte das que tem tomado, se destinam a desacreditar os profissionais de uma determinada classe e a ter impacto mediático - do tipo "nós vamos pôr isto na ordem" - e, como todas as outras, são suficientes para deixar as pessoas descontentes mas não para resolver o que quer que seja.
Pessoalmente, não tenho dúvidas de que sou frontalmente contra a medida de controlo da assiduidade dos médicos nos hospitais com relógios de ponto, sejam mecânicos, electrónicos ou digitais. Acho que se trata de uma medida claramente destinada a humilhar e a complicar a vida das pessoas, sem qualquer vantagem.
Com efeito, quem ganha com este controlo? Os doentes? A produtividade? Não, servem apenas para reforçar a ideia de que os médicos são uns malandros de uns privilegiados, que querem é sair tarde da cama e safar-se para a privada, deixando os pobres utentes à espera horas a fio por consultas e parasitando o dinheiro dos impostos nada fazendo nos hospitais onde lhes pagam.
É claro que há médicos pouco produtivos, atrasados e mandriões. Como em todas as profissões. Mas não será certamente por picarem o ponto que se tornarão melhores. Por outro lado, o descontentamento será generalizado, e o que é certo é que as pessoas trabalham pior se estiverem descontentes e desmotivadas, o que é o que este governo - na linha aliás dos anteriores - tem trabalhado arduamente para conseguir.
Eu não chego às 8 ao hospital, que é a minha hora oficial de entrada. Porque não é necessário. E saio muitas vezes antes da hora oficial de saída, outras vezes depois, conforme o trabalho que tenho. Em alguns serviços, a pontualidade é importante, como nos blocos operatórios, nos turnos de urgência, nos exames complementares ou consultas marcados. E nesses serviços as pessoas são geralmente pontuais, porque é necessário. Porque ao contrário da ideia que o governo gosta de propalar, e que estas medidas acentuam, os cirurgiões querem operar e não o fazem porque têm pouco tempo de bloco, as pessoas entram a horas nas urgências porque também gostam de ser rendidas a horas, e em geral os médicos gostam do que fazem e são pessoas responsáveis - o curso de Medicina, os internatos, os exames, passa-se por tudo isso porque se tem vontade, não porque é um emprego confortável onde se ganha muito dinheiro.
Ou seja, o que eu quero dizer é que o nosso trabalho não é uma tarefa burocrática com horas marcadas; quando estas existem, a organização da estrutura (hospital, centro de saúde) é o que é necessário para esses horários serem cumpridos. Quando não são, é geralmente por má organização - exames ou consultas marcados em excesso para o tempo disponível, ou para horas em que as pessoas estão obrigatoriamente a acabar outras coisas, ou má coordenação com secretariados ou resultados de exames complementares.
Mas é sempre mais fácil assumir poses de autoritarismo virtuoso e fazer leis que se sabe antecipadamente que não vão ser cumpridas. Essa é aliás uma característica muito portuguesa - a plétora de leis incumpríveis, que nos coloca a todos no papel de transgressores, dependentes do livre-arbítrio das pessoas com poder para punir as transgressões. E é tão conveniente acirrar a opinião pública contra os médicos, enquanto se corrói o Sistema Nacional de Saúde! Porque o que o governo se esquece de dizer é que está a pressionar os médicos para diminuirem os horários, e não para os aumentarem, para pagar menos. Como de resto já fez com os enfermeiros. Como se esquece de publictar as restrições orçamentais que impedem que se utilizem melhores meios, se contrate o pessoal necessário, nomeadamente para cumprir as reestruturações ordenadas pelo próprio governo, como é o caso do novo plano de urgências.
E depois vêm estes burocratas virtuosos aplaudir estas medidas! Ah, como detesto a mania portuguesa (e não só) da honestidade por decreto! Que só tem paralelo na chico-espertice portuguesa de rodear as regras e não cumprir as ditas leis.

