Having always been an atheist and being fortunate to live in a country where religion is mostly a non issue, I sometimes tend to forget how pernicious the influence of religion, and especially of religious conmen, can be. But then I am reminded.
There is this kid in our dialysis unit, he got HIV infection through vertical transmission, a couple of very foolish parents who never got him adequately treated and that eventually died of AIDS related diseases for lack of treating themselves. He stopped going to follow-up appointments in his teens and then showed up at 22 with full blown AIDS, with tuberculosis and HIV associated nephropathy that left him on dialysis. He was always a very sweet kid, and we all in the dialysis unit, full mostly of old people, cherished him dearly. He was never particularly responsible, and we always had a hard time making him go to medical appointments and take regularly his medications.
Then, last year, he became involved with a religious group, one of those Evangelical sects that started to bloom in Lisbon suburbs when we had a wave of Brazilian immigration in the 1990s. He was reading and studying "theology". We didn't care much, after all nobody cares much about religion and he seemed happy with it. Until, a few weeks ago, he stopped going to dialysis and left a message saying he was going to a religious retreat to get cured. We were obviously very concerned, but couldn't talk him out of it, and as an adult we couldn't stop him from doing what he wanted. We waited then, hoping he would come back when he would start feeling unwell.
After a couple of weeks, he showed up, looking emaciated, swollen and stinking of uremia. But he was convinced he was cured, and he wanted us to run some blood tests to confirm it. We told him we doubted it, and we did the blood tests to show him. As expected, the tests showed urea over 400 mg/dl and creatinine about 16 mg/dl. He couldn't believe it, he just looked at the results and cried, because he was so absolutely convinced he should have been cured by his faith. We tried to talk him into restarting dialysis, but he left saying he would think about it.
Another week went by, and then he was brought into the ER in acute pulmonary edema - when the retained fluids get into the lungs and cause respiratory distress - and he suffered a respiratory and cardiac stop, and was ressuscitated in the ER after 14 minutes in apnea, which is quite a while, but a young body can endure a lot. We dialysed him, and he woke up the next day, fortunately with no apparent neurologic deficits.
And the we heard his pastor had told them that we - the dialysis doctors, the dialysis nurses and his aunt, who is also a doctor - were the cause of his not being cured: our scepticism weakened his faith, and that was why he was still ill. How can you argue with that? It's the religious logic: if your prayers didn't work, it was because your faith was not strong enough. And we are the bad guys. I really don't know what will happen next, for the moment he seems really grateful to us for having saved him, but we have yet to see how he will feel after the crisis.
He's a grown up man, and responsible for his choices, but it's really infuriating to think of these pastors taking advantage of immaturity and despair and putting people's lives in danger. Let's just hope this kid sees what's really good for him; will he?
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sexta-feira, julho 10, 2015
domingo, maio 13, 2012
The Crisis of Islam - Holy War and Unholy Terror, by Bernard Lewis
Like What Went Wrong?, by the same author, this is an interesting and informative book about the causes of islamic fundamentalism and terrorism. Elegantly written, it depicts in a clear and intelligible way the tenets of Islamism and how they have been used - and distorted - by the fundamentalists to comply with their agenda. Like other religions, Islamism can be and is used and interpreted according to the wishes of the interpreter. So, you could argue that Islamism is no worse than Christianity, with its long list of religious wars and atrocities. And in that way it isn't, actually I usually say that Islamism, being seven centuries "younger" than Christianity, is now where we were in the Middle Ages. The big difference, and by no way negligible, is that we're not living in the Middle Ages, but right now, in the 21st century, and right now Christianity, apart from the right wing evangelicals in the United States and the pernicious influence of Catholicism in Africa - and those are certainly big problems - is not much of a threat, and the former christian countries are christian mostly in name only. In my opinion, only real education and probably economic improvement will free the Muslim peoples from their present stagnation and backwardness, and religion will go then the same way it did in the West. But I'm sure it's not easy, and maybe it will take a long time. I don't know how the West should deal with this problem, there are no easy recipes, but I believe we must defend our way of life, with no misguided feelings of guilt or condescension, keeping in mind that these peoples are as human as we are, so with basically the same goals and yearnings in life. And they are indisputably much farther from those objectives than we are.
domingo, abril 08, 2007
Um comentário interessante sobre um tema preocupante
Encontrei recentemente no Medscape um comentário de Gil Gaudia que achei interessante, sobre o problema muito actual do regresso em força do fundamentalismo religioso a que estamos a assistir, e que está perigosamente a imiscuir-se no terreno científico. Está bem escrito e chama em tom irónico a atenção para o problema de uma forma muio perspicaz. O título é About Intercessory Prayer: The Scientific Study of Miracles, e transcrevo alguns excertos (a tradução é minha, utilizei propiciatória como tradução de intercessory, penso que exprime o significado pretendido)."Em Março de 2005, o meu artigo Searching in the Darkness: About Prayer and Medical Cures foi publicado como comentário no Medscape General Medicine. Fui motivado a escrevê-lo após ter visto que havia 15 artigos listados no Medscape sob o tema de “oração propiciatória”, e nessa altura achei difícil de acreditar que tantos investigadores gastassem tempo e recursos nesse empreendimento. Muitos destes estudos eram destinados a investigar a possibilidade de a oração poder influenciar o resultado de uma variedade de condições médicas, desde infertilidade a cirurgia cardíaca.
Na semana passada coloquei a palavra “oração” no motor de busca do Medscape e, para meu espanto, obtive uma lista de 136 artigos. Incrédulo, recorri ao Google com as palavras “propiciatória”, “oração”, “cura” e “medicina” e obtive 206000 resultados."
"Ao fazer investigação sobre os efeitos da oração, os investigadores médicos estão de facto a tentar estudar a existência de milagres, definidos como eventos extraordinários manifestando a intervenção divina nos assuntos humanos."
"Começo por declarar desde logo que não critico ninguém por rezar por si próprio ou por qualquer outra pessoa se assim o desejar. Nem nego que possa haver alguns benefícios para alguns indivíduos causados pela oração. Esta actividade pode estimular subtis mecanismos psicológicos e fisiológicos que, quando melhor compreendidos, poderão aumentar os benefícios estabelecidos da medicação e da cirurgia, como obviamente acontece nas doenças psiquiátricas. Tal como o efeito placebo, os alegados benefícios da oração podem resultar de sentimentos de bem-estar, optimismo e confiança que resultam de rezar e de práticas semelhantes como meditação ou relaxamento. Concordo que tudo isto pode existir e pode, e possivelmente deve, ser objecto de investigação científica legítima."

"Mas o tema do meu comentário não é a interacção da psicologia e fisiologia. As minhas observações dirigem-se apenas ao que a maioria das pessoas quer dizer quando dizem “Vou rezar por si”, cujo significado implica um pedido para a intervenção de um “poder superior”. O que esta referência à oração significa é que os desejos dos suplicantes serão ouvidos por algum agente e se este for convencido a actuar – o curso dos eventos será mudado para melhor de acordo com a oração. Assim, o significado de “oração propiciatória”, de que trata este comentário, é o estudo da existência de milagres, o que implica o estudo da existência de Deus."
"Há uma incrível ironia em todas as “experiências” anteriores envolvendo a oração propiciatória. Todas elas têm procurado uma evidência do tipo mais trivial que poderia mesmo ser tomada por efeito placebo ou artefacto estatístico, de um alegado Poder de uma magnitude inimaginável. Poder que presumivelmente foi a fonte da espantosa criação de ctenas de biliões de galáxias, que são compostas por centenas de triliões de estrelas, dotadas de singularidades e “buracos negros” possuindo imensa gravidade e esmagando densidades aniquiladoras, todas elas dançando com extraordinária precisão em espectaculares órbitas elípticas sobre uma distância espaço-tempo de 14 biliões de anos-luz; Poder que concebeu sistemas moleculares incrivelmente complexos, compostos de fundações atómicas espantosamente intrincadas, todas operando de acordo com a mecânica da gravidade e de outras forças mal compreendidas que mantêm o núcleo atómico unido enquanto enxames de electrões mantêm o seu equilíbrio à volta de centros incrivelmente densos numa imitação microscópica das maiores galáxias; Poder que orquestrou as leis da propagação da luz e os espectros das cores dispostos em fantasticamente diversos padrões e comprimentos de onda, visíveis e invisíveis.
Entretanto, os investigadores procuram evidência desta incrível imensidade procurando uma diferença dificilmente discernível entre o fluxo arterial de alguns doentes cardiovasculares por quem se rezou e outros infelizes por quem não se rezou... uma diferença na pressão arterial entre um grupo de hipertensos por quem se rezou e outro grupo por quem não se rezou. É como se se pedisse a um compositor com uma capacidade e compreensão musical um quadrilião de vezes superior à de Ludwig von Beethoven que demonstrasse essa capacidade escrevendo as notas de “Three Blind Mice” (ou do “Malhão Malhão”).
Que mesquinho e insultuoso para qualquer divindade que estes investigadores clamam investigar quando o mais que podem pedir a quem criou sistemas biológicos desde algas a Sequoia giganticus e amibas a cérebros humanos “deixa ver se consegues fertilizar este óvulo numa placa de Petri com uma mão atada atrás das costas”."
"Por exemplo, uma experiência muito simples, cujos resultados deixariam pouca ou nenhuma dúvida sobre a eficácia da oração propiciatória poderia envolver a regeneração de um membro amputado. Tudo o que seria necessário seria uma amostra adequada de amputados como sujeitos e um número razoável de crentes que sinceramente rezassem por eles. Estes não deveriam ser difíceis de encontrar. Os investigadores poderiam usar tantas universidades e pessoas quanto possível – todos os crentes sinceros do país se necessário a rezar todos os dias por um ano para que pelo menos um amputado tivesse um membro regenerado e no final desse ano examinar todos os milhares de amputados procurando sinais de membros em regeneração.
Quando desta forma se demonstrasse a regeneração de um único membro então poderíamos ver evidência inequívoca do poder da oração. Este seria um teste real a apresentar perante o objecto imovível, a força irresistível, a omnisciência última, a supremacia omnipotente e omnisciente de que todos os crentes num ser sobrenatural dotam o Arquitecto Supremo. O criador de todo o Universo não deveria ter problemas em recriar um membro."
"Oração propiciatória é um pedido a Deus para mudar de ideias sobre o seu plano já estabelecido para o universo e fazê-lo correr de outra forma. Evidentemente isto implica que os planos de uma divindade perfeita, que teriam por definição de ser perfeitos, devessem agora ser alterados a pedido de um ser imperfeito. Esta é uma razão suficientemente lógica para refutar a possibilidade do efeito da oração propiciatória, uma vez que os seres perfeitos não podem ser influenciados por
falíveis mortais. No entanto, os crentes no poder dos deuses, santos e anjos acham que estes agentes são capazes de alterar ou suspender as bem estabelecidas leis do universo a seu belprazer ou a pedido de um crente através da oração."
Por fim, a conclusão:
"É desanimador ver o número de profissionais supostamente educados e inteligentes que estão envolvidos no processo fútil de tentar investigar o que não pode ser parte do universo físico e portanto não aberto ao exame científico. Como citado no meu artigo anteriro sobre o mesmo assunto, Erasmo de Roterdão descreveu estas pessoas como “procurando na completa escuridão aquilo que de qualquer forma não existe”. Não é o papel dos cientistas desperdiçar o seu tempo e dinheiro (e seguramente não o dinheiro dos contribuintes quando a investigação é financiada pelo NCCAM) investigar “aquilo que não existe de qualquer forma”. De facto na minha opinião aqueles que o fazem deveriam ser considerados “pseudo-cientistas”.
Será que os tentáculos do fanatismo politico-religioso e anti-científico envolveram a investigação médica? Parece-me que forças políticas, financeiras e ideológicas estão por trás do aumento da chamada medicina alternativa e que a oração propiciatória vem à cabeça do movimento."
domingo, novembro 19, 2006
Os Arautos do Paintball, ou o marketing modernizado

Há dias, o meu Abdallah apareceu em casa todo entusiasmado (o que não é raro, pois ele é um optimista incurável) com uma notícia da escola (o que já é mais raro, dado que é um gazeteiro rufião): “Foram lá umas pessoas, e vou inscrever-me no karate e poder fazer paintball de graça!!” Abriu a sempre caótica mochila, e num restolhar de papéis amarrotados, cordéis, tampas de garrafas, paus e outras utilidades várias, lá sacou de uns prospectos: “Só tens de preencher a autorização e a inscrição, é aos fins-de-semana e é grátis!” (Não é que eu seja assim tão avarento, mas como um dos argumentos que eu geralmente lhe avanço quando lhe recuso actividades como karting, paintball, laserfight ou outras de que se lembra é o preço, suponho que ele achava que enfatizando bem o grátis era meio caminho andado para me convencer.)
Sempre céptico quanto às grandes facilidades que o meu Abdallah calvinescamente me apresenta, deu uma vista de olhos pelos prospetos, onde se destacavam belas fotos de miúdos em actividades “radicais” várias; depois vi os cabeçalhos: Arautos do Evangelho, e um logotipo ao canto com um desenho em que figurava, salvo erro, uma Nossa Senhora de Fátima e as chaves de S.Pedro. “Pois, pensei, cá está a explicação de tanta facilidade”. A minha resposta foi curta: “Arautos do Evangelho? Nem pensar. São coisas religiosas, não vês?” E apontei-lhe os símbolos e o pequeno texto explicativo sobre o que eram os Arautos do Evangelho (que ele obviamente não lera); ele ainda insistiu (“Mas não temos de lhes dar dinheiro”, “Mas é paintball!”) mas com pouca convicção, porque ele sabe bem que as minhas posições anti-religião são inabaláveis – foi-lhe incutido desde o berço, ao fim e ao cabo era ele que aos 3 anos apontava para as fotografias do Papa João Paulo II no jornal e dizia que era “um homem muito mau”.
Nunca tinha ouvido falar dos Arautos do Evangelho, mas não é nova esta forma da Igreja tentar aliciar os miúdos para as suas fileiras – suponho que a oferta do paintball grátis nos anos 00 é equivalente à táctica, que hoje nos parece ingénua, de pôr jovens no coro da missa a tocar guitarra e a cantar músicas do Bob Dylan e do Simon & Garfunkel com letras piedosas nos anos 70-80.
OK, a Igreja é livre de utilizar as técnicas de marketing que desejar, e só resulta com quem quiser. O que me irrita é a escola, pública e laica, permitir que o seu espaço e o tempo lectivo sejam utilizados para essa propaganda. Tal como me irritou quando, na primária, ele me apareceu um dia com os impressos para a inscrição na catequese, “para fomentar a boa relação entre a escola e a paróquia”. Sou acérrimo defensor da laicidade da escola pública e da sua separação de qualquer confissão religiosa. E acho muito pior esta utilização da escola pela Igreja para fazer propaganda do que o uso do véu islâmico por alunas (ou, já agora, de crucifixos ou turbantes sikh ou ankhs ou cornos diabólicos). Porque se um aluno acha que esses símbolos fazem parte da sua identidade e são importantes para ele, não acho que daí venha mal ao mundo se os usar, é a sua atitude pessoal, que é tão importante para os outros como usar T-shirt encarnada ou uma corrente no cinto. Por isso sempre achei estéril e contra-producente (porque exacerba as convicções de quem quer usar esses símbolos, porque passam a sentir-se perseguidos, e algo que na maior parte dos casos era um simples adereço cultural passa a assumir uma importância muito maior) esse tipo de proibições. Mas sou frontalmente contra a escola pública, como instituição ser utilizada para difundir proselitismos / propagandas religiosos. Sim, e isso inclui os crucifixos na parede, que não têm o mesmo significado que usados ao pescoço de estudantes.
terça-feira, setembro 12, 2006
O Milagre Segundo Salomé, de José Rodrigues Miguéis

O Milagre Segundo Salomé foi uma agradável surpresa. Tinha lido pouco de José Rodrigues Miguéis - A Escola do Paraíso há muitos anos, de que me lembro mal mas de que não gostei muito, e Uma Aventura Inquietante há alguns anos, de que gostei mas achei um livro menor. De modo que foi por acaso que comecei a ler este - no final das férias, quando se me acabaram os meus livros - o que muitas vezes produz bons resultados (serendipidade!).
Inicialmente, irritou-me pela linguagem, muito barroca, com excessiva utilização de arcaísmos, regionalismos, etc, expressões que geralmente pretendem dar um cunho "castiço" ou genuíno" a um texto, mas que geralmente apenas o sobrecarregam inutilmente e lhe retiram autenticidade, pois é difícil empatizar com um texto que soa algo artificial. No entanto, é engraçado como esse defeito vai diminuindo ao longo do livro, como se o autor se fosse entregando mais à narrativa, envolvendo-se nela, e esquecendo progressivamente os artifícios de estilo (claro que poderia dar-se o caso de simplesmente nos irmos habituando à linguagem, mas não me parece, mesmo porque reparei nisto durante a leitura).
Feita esta ressalva, achei o livro muito bom. Pinta um retrato inteligente, irónico e implacável da decadência da Primeira República, que tristemente se aplica à situação actual como uma luva - como Portugal muda pouco! - e por onde se percebe como o cenário era propício ao aparecimento de ditadores, sebastiões e... milagres. Os interlúdios em que o autor se alarga nestas descrições são por vezes palavrosos, mas compensam pelo conteúdo, como no impagável - e sinistro - retrato do grande capitalista, e sobretudo na espectacular descrição jornalística do Milagre, que acho tão perfeita que não resisto a transcrevê-la:
(Para situar a descrição: Salomé é uma jovem prostituta romântica e sentimental que vive por conta de um milionário; atravessando uma crise de consciência - existencial - vai em peregrinação nostálgica à sua terra natal, um fim de mundo nas Beiras onde guardava ovelhas. Pára nos montes nos arredores da aldeia, e vagueia um pouco ao fim da tarde, em estado de grande perturbação emocional, elegantemente vestida de seda branca, capa de cetim azul, estola de raposas prateadas e chapéu parisiense de lantejoulas; avista uns pastorinhos com os quais se comove e choca-se porque eles fogem dela, e regressa perturbada ao carro, chamada por golpes de buzina, enquanto estala uma tempestade.)
"Caso é que - rezam solícitos correspondentes - a treze de Abril e sexta-feira, ao sol-pôr, estando pesados e plúmbeos os céus, três crianças cujos nomes são de uma «bíblica» simplicidade: Jaquina, Maria e Manel, andavam a apascentar umas ovelhas no cerro de Lapa d'Ursos, sobranceiro ao lugarejo de Meca, quando, um pouco acima delas, no alto das rochas e sob as ramarias dum velho sobreiro que ali vingou crescer e afrontar os séculos e os temporais, se aperceberam de um clarão sobrenatural. Erguendo os olhos, avistaram uma figura de radiosa beleza, na qual sem hesitar reconheceram a benta imagem da Senhora das Dores, padroeira da freguesia, fervorosamente adorada na região.
Tinha na fronte a coroa cravejada de jóias, delas tão conhecida; o manto azul flutuava de manso na brisa do entardecer, e a túnica tinha a alvura das pombas da Aleluia. As névoas do ar, em torno dela, eram como arminhos leves ou revoadas de querubins; e toda ela irradiava auréolas. Ficaram a contemplá-la, medusadas de assombro. E logo - diz a Jaquina, pelas outras confirmada - a inefável imagem lhes estendeu os braços e disse: «Filhos, vinde a mim e orai!» A tais palavras, que eram pura música celestial, os três pastorinhos, vencidos de pavor, deitaram encosta abaixo, em direcção à aldeia, clamando pelas gentes, que viessem ver a Aparecida!
[...] Um pormenor que muito impressionou as gentes; os meninos afirmam ter ouvido, no momento da Aparição, o som repetido de trombetas anunciadoras da mística visita."
E o texto prossegue neste tom, com os efeitos provocados pelo milagre, as
repercussões locais, depois nacionais, a atitude da Igreja, etc. Acho esta passagem soberba - de facto, no Portugal miserável e atrasado da época, de que outra forma poderiam interpretar o que viam os três brutinhos das berças? Acho uma das melhores explicações apresentadas até hoje para o milagre de Fátima... perdão, de Meca!
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