Mostrar mensagens com a etiqueta Costumes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Costumes. Mostrar todas as mensagens

domingo, janeiro 09, 2011

Prosperity Without Growth, de Tim Jackson

Um excelente livro, cuja leitura é extremamente apropriada nos tempos que correm. Há muito que me interrogava sobre se o crescimento económico é indispensável ao bem estar humano; intuitivamente achava que não, mas não tenho os conhecimentos necessários para responder à questão do ponto de vista da economia sustentável. Fiquei satisfeito por saber que tinha razão - pelo menos na óptica de Tim Jackson, mas sempre é alguém com melhores credenciais económicas do que eu. Não concordo com tudo o o autor diz no livro, e tenho algumas dúvidas sobre algumas das contas (tanto as económicas, sendo a Economia uma ciência tão imprecisa, como as ecológicas, sendo a Ecologia ainda mais imprevisível), mas trata-se de detalhes e estou 100% de acordo com a mensagem (e a tese) do livro. Esta pode ser resumida na passagem: "Prosperity consists in our ability to flourish as human beings - within the ecological limits of a finite planet. The challenge for our society is to create the conditions under which this is possible. It is the most urgent task of our times."

Quanto às soluções, se algumas das ideias me parecem um tanto irrealistas, mais uma vez estou de acordo com a orientação geral: "1) establishing the limits, 2) fixing the economic model, 3) changing the social logic". Sobretudo a parte de acabar com a lógica da sociedade de consumo, que nos fecha naquilo a que Jackson chama "the iron cage of consummerism", e que só pode ser uma receita para o desastre e a infelicidade. E concordo que nesse ponto - como aliás nos outros - a influência dos governos - através de políticas, incentivos, investimentos, publicidade, etc - é fundamental. E já agora a de uma sociedade civil mais educada (estou a pensar nas classes médias e altas da sociedade ocidental) que, em vez de comodamente continuarem a alimentar os valores da sociedade de consumo deveriam questioná-los e alterar o seu comportamento em conformidade, com isso influenciando não só a educação e formação das gerações seguintes como enviando diferentes sinais ao resto do mundo que a vê como modelo / objectivo a atingir. Infelizmente, não é fácil que a maioria das pessoas se aperceba disto. Tal como não me parece que a crise financeira de 2008, que o autor esperava ser uma oportunidade para mudar os dogmas económicos que têm regido os governos nas últimas décadas, tenha funcionado dessa forma. De qualquer forma, um livro muito importante e com muita matéria para fazer pensar.

sexta-feira, agosto 27, 2010

100 Cidades de Todo o Mundo Contra a Lapidação



Amanhã vai ter lugar a iniciativa 100 Cities Around the World Against Stoning, um protesto organizado pela sociedade civil contra a lapidação no Irão de uma mulher de 43 anos, Sakineh Ashtiani, condenada pelo crime de adultério. A causa é meritória; a pena de morte é quanto a mim errada em qualquer circunstância, e neste caso ainda agravada pelo método bárbaro que, não só provoca sofrimento prolongado e gratuito, como sobretudo representa a defesa de um regresso ao passado no que ele tem de pior - práticas bárbaras implementadas para fortalecer um regime politico-religioso obscurantista e belicoso.

Nunca fui o género de pessoa de participar em manifestações ou protestos públicos, por inércia, por feitio... Acho no entanto importantes estas iniociativas da sociedade civil e acredito que têm resultados mais cedo ou mais tarde, por chamarem a atenção para este tipo de situações e criarem um clima de pressão internacional que já tem sido útil em muitos casos semelhantes. Desta vez estou particularmente envolvido porque a participação portuguesa se deve a uma iniciativa de um grande amigo meu, que organizou tudo com a colaboração de contactos/amigos da sua rede de facebook (com especial ajuda dos elementos do blog jugular), de modo que tenho assistido de perto a todo o processo.

E hoje fiquei verdadeiramente estarrecido com os comentários de leitores à notícia sobre o evento no site da TSF. O meu amigo já me tinha mostrado comentários e mails recebidos na página do grupo da organização do protesto no facebook e no blog jugular, em que os organizadores eram acusados desde de terem intenções políticas ocultas a serem ferozes sionistas. E no site da TSF podem ler-se comentários como estas pérolas:

"Cada País tem a sua cultura, as suas regras e as suas leis. Esta senhora ao cometer este crime já sabia de antemão o que a esperava. Condeno sim a intromissão nos assuntos internos do Irão."

"Já visitei o Irão e posso-vos dizer que é um país maravilhoso. Estas leis podem parecer bárbaras no Ocidente mas por lá resultam e mantém a dignidade e disciplina."

"Vergonha é o mundo Ocidental Capitalista querer impor os seus modos de vida priviligiando a traição, vaidade e arrogância. Deixem o Irão em paz...depois queixem-se..."


Há mais, mas para exemplo chega. Perplexo, interrogo-me: mas será que estas pessoas acreditam realmente no que dizem? Concordarão com a lapidação? Com o direito de praticar a barbárie "porque é a cultura deles"? É indiferença? Relativismo cultural e political correctness levados às últimas consequências? Não me custaria a perceber que não se envolvessem no assunto e que este lhes fosse indiferente, mas manifestarem-se a favor da lapidação?

Outra crítica frequente é a de que há muitos casos de atentados aos direitos humanos, que este é só mais um e porque não se manifestam contra os outros. Este tipo de crítica sempre me irritou - pois, há muitos outros casos, mas isso em nada diminui este, e cada caso serve como alerta e precedente para outros, e se Sakineh é só mais uma das vítimas da barbárie, se o protesto internacional servir para ajudar a salvá-la, isso será um passo em frente que ajudará os próximos casos. E de qualquer forma, não se está a falar dos outros casos, mas deste, e em que é que a existência dos outros desculpa este?

Enfim, com tudo isto, o resultado foi ficar convencido a, ao contrário do que é o meu hábito e a minha tendência, ir ao Largo Camões amanhã às 18:00. Ao fim e ao cabo, é o mínimo que posso fazer, não só pela infeliz Sakineh e outras como ela, mas para apoiar o meu amigo e os outros que desinteressadamente dedicam o seu tempo e esforços para tentar melhorar um pouco o mundo e ainda têm que ouvir semelhantes atoardas.

(O cartaz de Ana Vidigal está belíssimo.)

quarta-feira, maio 19, 2010

Uma história portuguesa

Actualmente, graças aos grandes avanços tecnológicos das últimas décadas, existem múltiplos aparelhos utilizados no tratamento e prolongamento da vida dos doentes – ventiladores, monitores, desfibrilhadores, máquinas de diálise, pacemakers, etc, etc. O manuseio desta tecnologia exige conhecimentos específicos, e não só os médicos se especializam cada vez mais como também os enfermeiros precisam de formação específica para trabalhar em unidades especializadas, sejam de Cuidados Intensivos, Neurocirurgia, Hemodiálise, Obstetrícia, etc.

Sabendo isto, consideremos agora que existe uma máquina que permite realizar uma técnica que é indispensável para os cuidados médicos em certas circunstâncias. Chamemos-lhe uma máquina de fazer laranjada, indispensável nas ocasiões em que um doente não pode sobreviver sem ela, em que nem sequer limonada serve. Num certo hospital central, essa máquina foi adquirida pelo serviço que habitualmente confecciona os sumos necessários à sobrevivência dos doentes, embora os que estejam na condição crítica em que precisam da laranjada estejam, dado o seu estado de gravidade, internados em unidades de outros serviços, dedicados especialmente aos cuidados críticos / intensivos. Os médicos e enfermeiros do serviço “dono” da máquina deslocam-se com ela quando necessário às unidades de doentes críticos, programam a máquina e deixam-na a fazer laranjada continuamente, aos cuidados dos enfermeiros dessas unidades, e assim se salvam vidas.

Tudo muito simples e linear… se não estivéssemos em Portugal. Neste hospital de que falo, há um problema que persiste e que tem complicado muito as coisas – nomeadamente a minha actividade de modesto médico prescritor de laranjada. É que, se em várias unidades o processo tem decorrido sem problemas – os enfermeiros locais dispuseram-se a aprender o fabrico da laranjada, que aliás não é nada complicado – noutras, e por azar aquelas em que mais frequentemente os doentes precisam do precioso suco, os enfermeiros recusam-se a realizar a técnica, alegando falta de pessoal e de formação. Ao longo do tempo, várias vezes foi proposto pelo serviço “dono” da máquina fornecer a formação necessária – que é bem simples, pois fazer a laranjada é bem mais fácil do que operar muitas das outras máquinas já utilizadas nessas unidades, como os ventiladores – mas os chefes de enfermagem dessas unidades sempre se têm escusado, alegando vários pretextos – obras, a gripe A, etc… Entretanto, e para não deixar morrer os doentes que dela precisam por falta de laranjada, os enfermeiros do serviço “dono” da máquina têm-se disponibilizado para ficar nas unidades longas horas a vigiar o fabrico do sumo, o que está fora das suas obrigações.

Cartas e mails têm sido trocadas entre os directores dos vários serviços e a direcção clínica do hospital, mas até agora nada se resolveu, e de cada vez que algum doente nessas unidades “problemáticas” precisa de laranjada, lá volta a mesma eterna discussão.

E agora vem o pequeno pormenor que me levou a publicar este post. Há quanto tempo este problema dura? Dois meses? Seis? Um ano? Errado! Desde Setembro de 2002! Exactamente: mais de 7 anos e meio, e as perspectivas de solução permanecem exactamente as mesmas.

Acho que esta situação é um excelente exemplo de como as coisas (não) funcionam em Portugal. Alguém falou em produtividade? Pois.

sábado, março 20, 2010

O resort



Nas minhas recentes férias na Bahia, fiquei pela primeira vez hospedado num resort de praia completo (já tinha ficado em vários hotéis de praia, com piscina e comodidades semelhantes, mas nunca num empreendimento com esta dimensão e tão... típico). Fora-me aconselhado por vários colegas e, embora o conceito não me atraísse particularmente, a relação qualidade / preço e a vantagem do regime "tudo incluido" para umas férias de aboboranço na praia (e tendo em conta que não desejava ter de ir muitas vezes à cidade) convenceram-me.

Não lamento a decisão: as ditas vantagens confirmaram-se, a praia era uma delícia, a comida muito boa, descansei imenso e aboborei qb, de modo que as férias corresponderam inteiramente ao que eu desejava. Mas, decididamente, este tipo de resort não é o meu alojamento ideal.

Para lá entrar, passava-se por três controlos, para afastar com segurança a pobreza da região, de modo que os nossos pertences ficavam perfeitamente resguardados, podendo os hóspedes esquecr os seus blackberries ou câmaras digitais nas espreguiçadeiras, que cedo lhes seriam entregues por um dos múltiplos empregados. Aliás, no check in era-nos aplicada uma pulseirinha de plástico que servia como livre-trânsito para utilizar as instalações, bares, etc. O complexo era de grandes dimensões, com centenas de quartos e os correspondentes ocupantes - muitos brasileiros, portugueses e italianos, a maioria com a sua próspera barriguita, e muitas criancinhas. Podia-se comer a qualquer hora, entre os vários restaurantes e cafetarias (todos com nomes de romances de Jorge Amado) - das 5 às 7, o café continental, das 7 às 11, o café buffet, das 11 às 13, o buffet de piscina, das 13 às 16, o almoço buffet, das 16 às 19, o lanche buffet, das 19 às 23, o jantar buffet, das 23 às 5, a ceia buffet... Além do bar molhado da piscina e do bar do lobby. Não vim mais gordo, porque o calor dos trópicos convidava a comer sobretudo saladas e fruta, e os doces de coco regionais são demasiado enjoativos, mas ainda comi saborosos pratos baianos como vatapá e xinxim de galinha, e os mojitos e as margaritas sabiam muito bem.

Mas o crème de la crème era a animação da piscina. A toda a hora havia uns frenéticos animadores, dando aulas de samba, de capoeira, de ritmo, de relaxamento, etc. Apesar da variedade dos temas, a actividade dos participantes era sempre muito parecida: de pé na piscina, braços erguidos ondulando de um lado para o outro. Já os animadores mexiam-se como se possuídos por um poltergeist - um negro pulava e saracoteava-se qual bicha louca como um boneco com molas nos pés, uma negra, a "Tia Tempestade", deixaria a Madonna verde de inveja; mas o máximo foi uma mulata de cabelo pintado de louro e calças negras artisticamente crivadas de buracos que deu uma aula de "relaxamento intensivo". Por entre música New Age (a eterna Enya) e frases omo "...porque o todo é o um, e o colectivo é o individual...", "agora formem um círculo... sempre de mãos dadas...", acabando por "abram os olhos, e vão ver um clarão, e voltarão a entrar no ventre materno"!!! Enfim, epifanias à parte, a zona da piscina era geralmente demasiado barulhenta para ler, embora a água fosse deliciosamente quente.

Resumindo, embora este tipo de resort não me atraia, aproveitei e diverti-me, como viajante optimista que sou (e não, não participei em nenhuma animação da piscina!).

sábado, agosto 08, 2009

A doação de sangue dos homossexuais



Nos últimos dias houve muitos post na "blogosfera" e no Facebook sobre esta questão, a propósito de uma entrevista do director do Instituto de Sangue: é ou não um discriminação considerar que ser homosseual é uma contra-indicação a ser doador de sangue? O argumento principal a favor dacontra-indicação é qe dar sangue não é em si um direito, mas sim receber sangue "seguro". O que é verdade, decerto. Mas eu concordo que o estabelecer que "ser homossexual" em si é uma contra-indicação está errado e é uma forma de discriminação que deveria desaparecer. É óbvio que é fundamental assegurar o mais possível que o sangue administrado está live de doenças transmissíveis, e concordo que se recusem os dadores com comportamentos de risco. Mas mesmo admitindo que s homossexuais - ou os "men who have sex with men" na teminologia anglo-saxónica politicamente correcta actualmente utilizada - tenham maior frequência de comportamentos de risco, isso não é obrigatório. E quanto a mim, a razão principal para eliminar essa fraseologia é precisamente a de que conduz a um reforço da ideia-feita de que homossexualidade = promiscuidade e a uma visão negativa dos homossexuais, que forçosamente contrbui para a homofobia que já
é tão prevalente na nossa sociedade e que penso ser fundamental eliminar. Mesmo que a selecção dos dadores continue da mesma forma - ou seja, que os homens que têm sexo com homens contnuem a ser recusados caso a caso porque os responsáveis pela selecção não os considerem suficientemente seguros - não deveser assumido que são recusados por "serem homossexuais". Mesmo porque os inquéritos são muito pouc fiáveis, pois as pessoas - homo ou heterossexuais - podem sempre mentir sobre os seus hábitos. E quando se diz que é "só" um questão de palavras, está a ser-se hipócrita, porque as palavras são muito importantes.

Quanto à tão badalada entrevista, é um manancial de disparates que só podem desacreditar quem os profere. Olim tem o direito às suas opiniões, mas pelo que diz estas são completamente homofóbicas e disparatadas, e é por isso que subscrevi a causa do facebook pedindo a sua demissão. Só pela pérola dos homens violados já merecia!

Enfim, as questões de linguagem são importantes,e tudo o que contribua para o fim da homofobia e a aceitação da homossexualidade como algo perfeitamente natural parece-me fundamental. Queremos ou não ser civilizados? E a verdadeira civilização passa pela implementação da felicidade das pessoas.

Poupanças à portuguesa

Há dias, pr volta das 23:00, saía eu do Media Markt em Alfragide, e dei com uma fila imensa de carros parados. Surpreendido pela insólita situação - àquela hora, em Agosto - pensei se teria havido algum acidente que tivesse cortado a estrada. Mas mais à frente percebi a verdadeira causa! É que ali fica a famosa bomba da gasolina mais barata, e todos aqueles carros estavam em fila para abastecer os seus depósitos por uma pechincha! Pois é, como podiam os donos daqueles Toyotas e BMWs resstir a comprar gasolina sem chumbo 95 a 1.119 € o litro? Vale bem a pena, estar uma meia hora à espera numa noite de Verão! Sempre se poupam uns 2 € por depósito! Sem comentários...

segunda-feira, julho 06, 2009

Nostalgias desnecessárias

Nos últimos anos, tem-se assistido a um onda de nostalgia em relação a bandas e música dos anos 80 e 70 que atingiu proporções disparatadas, indo ressuscitar cadáveres que mais valia manterem-se bem enterrados no esquecimento... É patético assistir ao retorno de bandas como os Duran Duran, os Spandau Ballet, os Village People ou os Boney M - já eram maus naquela altura, mas pelo menos eram novidade e inseriam-se na cultura da época; agora são apenas maus e ridículos. O êxito do Mamma Mia vem na mesma onda; se é certo que a música dos Abba teve o seu tempo, e algumas canções são divertidas de ouvir, a dose de as ouvir todas de seguida é claramente excessiva, como constatei ao ver o video do filme, que é horrível.

Em Portugal, também se segue a mesma moda, e toca de passar na rádio os patéticos discos dos Heróis do Mar, agora rotulados de clássicos... Porque não os Jáfumega ou os delírios de Adelaide Ferreira? Pelo menos esses fazem rir bastante mais! O cúmulo do revivalismo idiota foi o disco de homenagem ao Carlos Paião, com versões das suas músicas por bandas actuais. É verdadeiramente confrangedor - por mais voltas que lhes dêm, são mesmo más.

E no entanto há tanta boa música feita nos anos 80! Chega perfeitamente, porque a boa música não cansa nem fica datada. Para lavar os ouvidos, deixo apenas dois exemplos, muito eighties, mas no seu melhor.




sábado, maio 23, 2009

Efeitos laterais de séries como o ER...



Foi publicado recentemente um estudo numa revista científica (a referência é Resuscitation. 2008;79:490-498), que vi referido na newsletter do Medscape e que achei interessante: trata-se de um inquérito à população sobre qual acham que é a percentagem de sobrevivência após paragem cardíaca e reanimação. E o resultado foi:

The average estimate of predicted survival after cardiac arrest with full return to prior baseline functional status was 54%.

Ora o verdadeiro número é cerca de 10%. Devo dizer que o resultado não me surpreende, é apenas mais um dos muitos conceitos errados, geralmente excessivamente optimistas, que as pessoas têm em relação às potencialidades da Medicina.

O estudo apresentava outros dados interessantes, como a referência a outros dois estudos: em resposta à mesma questão, um universo de alunos do 4º ano de Medicina achava que era 42%, e outro de médicos que não trabalham em urgência respondeu 24%...

A conclusão a tirar é que é urgente aumentar o grau de informação, o que impediria muitas expectativas frustradas e muitas tentativas fúteis de prolongamento da vida, que além de serem imensamente dispendiosas apenas geram sofrimento para os doentes / vítimas e frustração para os profissionais envolvidos.

quinta-feira, maio 07, 2009

The trouble with Tamiflu... e com o exagero dos media a trabalhar para a Roche!



Melhor do que o poderia dizer, deixo o link de uma notícia do Guardian sobre toda esta patetice da gripe suína. Por acaso, o abundante stock de Tamiflu produzido por altura da gripe das aves - essa gripe que provavelmente foi a que menos matou na história documentada das gripes... - estava a terminar o prazo...

domingo, abril 12, 2009

Facebook


Por sugestão de um amigo, criei um perfil no Facebook. Inicialmente tive alguma resistência, pois não me parecia especialmente interessante. Mas lá acabei por aderir, e até tem uma certa graça. Hoje em dia, a internet proporciona múltiplas possibilidades de socialização - os chats, o messenger, os sites de encontros, etc, além da excelente forma de comunicação que é o e-mail, que veio de certa forma fazer reviver a comunicação escrita. Não tenho grande vocação, nem disponibilidade, para socializar online, de modo que duvido que a minha lista de amigos no facebook cresça por aí além. Mas é divertido; por enquanto serve-me sobretudo para fazer quizes mais ou menos tolos e preencher mapas de viagens.

sábado, abril 11, 2009

A Doença como Metáfora e A Sida e as Suas Metáforas, de Susan Sontag

Muito interessantes, estes ensaios de Susan Sontag sobre a doença como metáforas, sobre a forma como as doenças são encaradas e demonizadas. O primeiro, focado na tuberculose e no cancro, é de longe o melhor, o segundo uma extensão ao caso da sida. A autora demonstra como estas doenças, por muito terríveis que possam ser, são apenas isso - doenças. Não são maldições, nem castigos, nem "privilégios" - no sentido de tornarem as pessoas melhores ou " mais interessantes", como se pensava no século XIX em relação à tuberculose e na primeira metade do século XX em relação às doenças mentais. E mostra com lucidez como o impacto devastador que têm sobre a nossa sociedade tem muito mais a ver com a forma como são encaradas e mitificadas do que propriamente com os seus efeitos directos. A comparação da visão da tuberculose no século XIX e com a do cancro no século XX está muito bem apresentada, e o olhar igualmente lúcido sobre a sida, numa altura (1988) em que esta era ainda uma doença intratável (a grande viragem do tratamento anti-retroviral foi em 1996) é elucidativo e de certa forma tranquiilizador - por haver alguém que saiba expor e desmascarar os mitos da doença ( e do medo da doença) tão bem.

Como médico, o assunto interessa-me particularmente, e também me fez relembrar a minha "relação" pessoal com as doenças - como muitas almas livrescas e algo românticas, também eu tinha na juventude uma visão irrealisticamente idealizada das doenças mentais, como algo que tornava as pessoas mais "interessantes" - as neuroses, as psicoses - tomando como exemplo personagens como Sílvia Nogaret de O Príncipe das Trevas de Durrell. Só quando comecei a lidar ao vivo com a doença mental, primeiro nas enfermarias do Hospital Miguel Bomabarda na Faculdade, depois com alguém que me era muito próximo, me apercebi da verdadeira natureza destas doenças - tais como as físicas, doenças, causa de sofrimento terrível, talvez ainda pior porque levando ao desmoronamento da personalidade, da ideia de nós próprios. Como diz a personagem de Settembrini a Hans Castorp, a certa altura de A Montanha Mágica, a doença em nada "enriquece" nem torna "interessante" quem dela sofre. Causam sofrimento, e geralmente provocam uma degradação de quem sofre; não há nada de romântico nas doenças.

Algumas passagens que considero especalmente significativas:

Além do mais, existe uma particular predilecção dos tempos modernos pelas explicações psicológicas da doença, como de tudo o resto. "Psicologizar" dá uma aparência de controlo das experiências e dos acontecimentos (como as doenças graves) sobre os quais as pessoas de facto pouco ou nenhum controlo têm. Tal realidade tem que ter uma explicação. (O seu real significado é; ou é um símbolo de; ou deve ser interpretada como sendo.) [...] Grande parte da popularidade e do poder de persuasão da psicologia vem-lhe do facto de ser um espiritualismo sublimado: um modo secular, ostensivamente científico, de afirmar o primado do "espírito" sobre a matéria.

Nada é mais repressivo do que atribuir um significado a uma doença sendo tal significado invariavelmente moralista.

O meu objectivo era o de aliviar o sofrimento inútil - exactamente como Nietzsche o formulou, numa passagem de Aurora que li recentemente: Reflexões sobre a doença - Tranquilizar a imaginação do enfermo, a fim de que pelo menos não sofra mais com os seus pensamentos sobre a doença do que com a própria doença - eis o que, na minha opinião, já seria alguma coisa! Seria mesmo uma grande coisa!

(A desconfiança em relação à medicina eficaz, científica, por oferecer tratamentos meramente específicos de determinada doença, e muitas vezes tóxicos, é uma suposição errada recorrente entre pessoas que se consideram esclarecidas.) Esta escolha desastrosa coninua a ser feita por pessoas com cancro, uma doença que muitas vezes a cirurgia e os medicamentos podem curar. [...] Mas submeter um corpo emaciado à purificação de uma dieta macrobiótica é tão útil na cura da sida como fazer uma sangria, o tratamento médico "holístico" por excelência na época de Donne.

Um cenário moderno constante: o apocalipse espreita... e nunca acontece. Aparentemente vivemos a um passo de um dos modernos tipos de apocalipse. [...] O apocalipse tornou-se num acontecimento que está e não está a acontecer.


É sempre bom, e instrutivo, lermos as reflexões de pessoas lúcidas e inteligentes.

quinta-feira, maio 01, 2008

Portugal e os seus BMWs - um detalhe

Houve um pormenor curioso em que reparei nesta viagem a Espanha. Na auto-estrada para o Algarve, no feriado de 25 de Abril, passei e fui ultrapassado por uma verdadeira multidão de BMWs; aliás, por muitos carros potentes e caros, como Audis ou Mercedes, mas decididamente os BMWs predominavam por uma grande margem. Dezenas não é exagero. Assim que entrei em Espanha, nada de BMWs. Como a quantidade deles que vira no trajecto de Lisboa ao Algarve me despertara a atenção, fui reparando nas marcas de automóveis por que ia passando e, mesmo que obviamente não tenha visto todos e me tenham escapado vários, nos 4 dias que estive em Espanha e em que passei por Sevilha, Granada e Córdova vi um total de... quatro BMWs, um dos quais era português!

Que concluir deste fenómeno? Mesmo considerando que o território percorrido em Espanha não seja uma amostra perfeitamente representativa do país, nem a A2 de Portugal, a diferença observada é mais um dado ilustrativo do que em Portugal se entende por qualidade de vida e como essa noção está indissoluvelmente, ligada à de status. Como a maioria dos portugueses adora pavonear o seu carro!

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Mais uma do politicamente correcto...

Agora emagreceram o boneco Michelin!

Antes:



Agora:

domingo, dezembro 23, 2007

sexta-feira, dezembro 21, 2007

The Costs of Living, de Barry Schwartz

Um livro interessante, que gostei de ler, embora em várias passagens me tenha irritado um pouco. A tese central - de que a mentalidade da economia de mercado, o chamado imperialismo económico, está progressivamente a invadir todos os campos da nossa vida e a corrompê-los - é válida, está bem apresentada, e globalmente o autor faz uma descrição muito correcta e perspicaz da nossa sociedade. Chama a atenção para o facto muito importante de que o imperialismo económico não é uma inevitabilidade biológica, e que é o predomínio actual da mentalidade "de mercado" que assim o faz pensar.

Há dois aspectos no livro, no entanto, que me desagradaram. O primeiro é um certo tom... lamentoso, saudosista, que frepassa todo o texto, ou boa parte dele. Logo n início, o autor deplora a sorte de um casal conhecido, de profissionais bem sucedidos economicamente e na sua carreira, mas que no entanto vive infeliz, pressionado pelo esforço de manter uma vida e um "sucesso" a que se sentem social e culturalmente obrigados mas que não os satisfaz nem realiza. E passa daí a expor como a superabundância de escolhas nos torna inseguros e infelizes - contrapondo com antigamente em que a maior parte dos aspectos da nossa vida não precisavam de ser escolhidos pois estavam determinados à partida. Ora esse é um raciocínio falacioso - é verdade que ainda não aprendemos a gerir a multiplicidade de escolhas e decisões que a liberdade actual nos proporciona, mas a resposta é aprender a geri-la e não deixar de a ter. Estou certo de que um casal correspondente de há 30 ou 50 anos tinha outros problemas - a mulher obrigada a estar em casa e dependente economicamente do marido, o homem a seguir a profissão imposta pela tradição familiar, eventualmente a forçar-se a disfarçar uma possível homossexualidade, por exemplo... Pelo menos os problemas do casal da actualidade dependem deles próprios e podem sempre aprender a fazer as escolhas que os farão verdadeiramente felizes e realizados.

O segundo aspecto que me desagradou é o das soluções propostas pelo autor (um problema aliás muito frequente neste tipo de livros - acertam no diagnóstico dos problemas mas apresentam soluções irrealistas e desajustadas; pergunto-me porque insistem em propor soluções?), com um ênfase particular no recurso à religião e à vida "espartilhada" numa comunidade. Discordo absolutamente de que impormo-nos regras ou recorrermos à perda da livre-escolha (seja em coisas tão importantes como a profissão que escolhemos ou tão insignificantes como o que comemos à 6ª feira) seja a solução. O individualismo e a liberdade pessoal são de facto uma conquista e a base da nossa civilização, e não é por acaso que esta, com todos os defeitos que possa ter, é a mais bem sucedida actualmente e a que proporciona maior bem estar (e por favor não me venham com a felicidade dos povos do 3º Mundo ou dos países muçulmanos, basta ver a direcção dos fluxos de emigração).

Qual a solução então? Não sei, e não sei sequer se existe. Pessoalmente, acho que, como bom herdeiro do Iluminismo, a educação, a informação e a cultura são a resposta - quanto mais informadas as pessoas estiverem mais perceberão que a felicidade não está num consumismo selvagem nem na competição a todo o custo. Não acho que sejamos todos basicamente "bons selvagens" nem uns egoístas inveterados como defendem os extremistas do darwinismo social - mesmo porque, sob o ponto de vista evolutivo, a capacidade de cooperação contribuiu tanto como o egoísmo para o sucesso da nossa espécie. Acredito que um maior conhecimento desenvolve também o sentido da importância de uma moral, que não tem de e não deve ser religiosa. Ao fim e ao cabo, a maioria das pessoas é normal, ou seja, razoavelmente decente.

domingo, outubro 07, 2007

Religião nos hospitais

Ultimamente tem-se falado muito da assistência religiosa nos hospitais, e hoje saiu uma extensa peça sobre o assunto no Público. Uma vez que também eu trabalho num hospital, tive vontade de acrescentar a minha opinião, embora geralmente evite falar das questões de que toda a gente fala ao mesmo tempo - sempre me irritaram estas ondas passageiras desencadeadas por uma ou duas pedradas, em que as pessoas do costume dão as opiniões que delas se espera e depois fica tudo mais ou menos na mesma. Desta vez, o que me levou a manifestar-me é a imensa hipocrisia que rodeia a questão. É ver "autoridades" do campo da Igreja, da Medicina, do Governo, etc, a falarem da enorme importância do apoio espiritual aos doentes e do papel das confissões religiosas.

Ora a minha experiência pessoal, que já vai em quase 20 anos, passnado por vários dos principais hospitais da Grande Lisboa, tem-me mostrado uma realidade bem diferente. Em todos estes anos de prática clínica, que incluiu a assistência a centenas de doentes crónicos, na maioria idosos, e infelizmente dezenas de moribundos, não me lembro de uma única vez (uma única) em que algum deles manifestasse o desejo de assistência espiritual ou conforto religioso. Os únicos casos em que contactei com membros de alguma confissão religiosa a aparecerem foram as Testemunhas de Jeová, por diversas vezes, mas sempre nao solicitados (excepto num caso, em que foram chamados pela mãe de um doente menor), e sempre para lembrar que os doentes em causa não podiam receber transfusões de sangue e não para lhes prestar apoio espiritual. Nos meus primeiros anos de prática ainda vi por vezes os capelães de dois hospitais passarem pela enfermaria perguntando aos enfermeiros-chefes se alguém precisava deles, mas foi tudo.

Isto não quer obviamente dizer que os doentes hospitalizados se sintam felizes e confiantes, muito pelo contrário. Mas o que eles pedem é a presença e companhia das famílias e dos amigos, muito limitadas pelas escassas horas de visita, e atenção do pessoal de saúde. Nos serviços em que trabalho actualmente há o cuidado de facilitar ao máximo o acesso aos familiares, sobretudo dos doentes mais graves e moribundos, nomeadamente tentando que não morram abandonados. Penso que seria muito mais importante e útil para os doentes, e isso seria ir verdadeiramente ao encontro das suas necessidades e desejos, investir nesse aspecto, em vez de pagar a capelães católicos ou de outra confissão, o que acho completamente errado. Obviamente, se alguém mostrar vontade de receber apoio espitual / religioso, seja qual for a confissão, deve-lhe ser facultado o acesso do ministro da religião correspondente, mas o pagamento deste e a organização desse apoio deve ser da exclusiva responsabilidade da igreja em causa. O papel do hospital deve ser apenas o de permitir e facilitar o acesso, uma vez que se o doente exprime essa necessidade a sua satisfação é seguramente importante para ele. Mas uma vez mais afirmo que seria muito mais importante facilitar e alargar o tempo de acesso às famílias - só que essas não têm bispos nem fazem notícia.

sábado, agosto 25, 2007

Hannah Arendt e o julgamento de Eichmann


Outro livro muito interessante que li recentemente foi Eichmann and the Holocaust, constituído por excertos de Eichmann in Jerusalem. Há muito tempo que tinha vontade de ler o famoso livro de Hannah Arendt, e quando vi este livrinho na Fnac enquanto comprava leitura para as férias não hesitei, só depois me apercebi de que não era a obra completa. De qualquer forma, o texto é extraordinariamente bom, certamente representativo, e já encomendei o livro integral na Amazon.

Nunca tinha lido nada de Hannah Arendt; escreve muito bem, com uma clareza, lucidez e elegância extraordinárias. Não admira que o livro tenha sido tão mal recebido pelo Estado de Israel e pelas comunidades judaicas em geral - não só é muito crítica sobre a forma como o julgamento de Eichmann foi conduzido como aborda muito clara e explicitamente o papel da sociedade em geral e dos líderes das comunidades judaicas em particular durante a perseguição. E, ao negar o estatuto de monstro a Eichmann (a famosa banalidade do mal, expressão cunhada por ela precisamente neste texto), levantou questões extremamente perturbadoras e desconfortáveis para todos nós (pois seria obviamente muito mais reconfortante pensar que tudo aquilo acontecera por uma aberração de alguns monstros invulgares, em vez de ser o resultado de uma conjuntura particular de acontecimentos, ideologias e muitas pessoas normais que agindo de forma prosaica e legalista realizaram um crime de proporções inéditas na história da Humanidade).

Pois como Hannah Arendt diz: "O problema com Eichmann era precisamente haver tantos como ele, e não serem nem pervertidos nem sádicos, mas terrivel e aterrorizadoramente normais. Do ponto de vista das nossas instituições legais e dos nossos valores morais, esta normalidade era muito mais assutadora do que todas as atrocidades juntas, pois implicava - como fora dito repetidamente em Nuremberga pelos réus e os seus defensores - que este novo tipo de criminoso, que é de facto hostis generis humani, comete os seus crimes em circunstâncias que lhe tornam virtualmente impossível saber ou aperceber-se de estar a agir mal." E desta forma Eichmann é retratado como um mesquinho funcionário, meticulosamente eficiente e tacanhamente ambicioso (o que mais lamenta é não ter sido promovido ao posto imediatamente superior, apesar de ser tão eficiente), com um discurso (reflexo do seu pensamento) repleto de pretensiosas e vazias frases-feitas, um perfeito exemplar de uma baixa clase-média de funcionários de colarinho mesquinhos e possidónios. "Aquilo em que ele acreditou fervorosamente até ao fim era no sucesso, o valor principal da 'boa sociedade' como ele a conhecia. [...] A sua consciência fora efectivamente aplacada quando notara o zelo e prontidão com que por todo o lado a boa sociedade reagia como ele. Não necessitara de 'tapar os ouvidos à voz da consciência', como o julgamento afirma, não porque não a tivesse mas porque a sua consciência falava com uma 'voz respeitável', com a voz da sociedade respeitável á sua volta."

Mais impressionante ainda que este retrato de Eichmann (impressionante precisamente por ser tão prosaico, como já foi dito) é a excelente descrição da atitude dos outros intervenientes. Os perpetradores das atrocidades, também quase todos eles 'pessoas respeitáveis' (como se vê pelas suas declarações em Entrevistas de Nuremberga), para quem "...o problema não era tanto ultrapassar a sua consciência como vencer a piedade animal que afecta todos os homens normais em presença do sofrimento físico. O truque usado por Himmler - que aparentemente era fortemente afectado por estas reacções instintivas - era muito simples e provavelmente muito eficaz; consistia em voltar estes instintos ao contrário, ou seja, em direcção a si próprio. De modo que em vez de dizer: Que coisas horríveis fiz às pessoas!, os assassinos poderiam dizer: Que coisas horríveis tive de suportar no cumprimento do meu dever, quão pesada foi a carga sobre os meus ombros!" Ou os numerosos colaboradores activos, que depois afirmaram terem sido sempre secretamente adversários do regime mas submeterem-se às suas ordens e cometerem crimes para "parecerem nazis" ou para impedirem que os "verdadeiros nazis" cometessem crimes ainda piores, chegando a criar o admirável conceito de "emigração interior" para justificar a sua não-emigração de facto, como se tivessem fugido para algum ignoto recesso das suas mentes, em que um bom exemplo foi "...apresentado [...] num tribunal polaco pelo antigo Gauleiter Arthur Greiser de Warthegau: apenas a sua 'alma oficial' tinha cometido os crimes pelos quais foi enforcado em 1946, a sua'alma privada' fora sempre contra eles."

Um dos pontos levantados por Hannah Arendt e que acho extremamente importante é o facto de todos na época, incluindo as vítimas, terem aceite a existência de distinções entre os judeus, o conceito de "judeus importantes", o tratamento de excepção a grupos como os condecorados da 1ª Guerra: "Para aqueles que não desejavam fechar os olhos deve ter sido claro desde o início que 'era prática geral permitir algumas excepções de modo a poder manter a regra geral com maior facilidade. [...] O que era moralmente tão desastroso na aceitação destas categorias privilegiadas era que toda a pessoa que queria uma 'excepção' para o seu caso implicitamente reconhecia a regra. [...] Mesmo após o final da guerra, Kastner orgulhava-se do seu sucesso em salvar 'Judeus proeminentes', uma categoria oficialmente introduzida pelos Nazis em 1942, como se também na sua opinião fosse evidente que um judeu famoso tinha mais direito a permanecer vivo do que um judeu vulgar." E termina o assunto desta forma: "Na Alemanha actual, esta noção de judeus 'proeminentes' ainda não foi esquecida. Enquanto os veteranos e outros grupos privilegiados já não são mencionados, o destino de judeus 'famosos' ainda é deplorado a expensas de todos os outros. Não são poucas as pessoas, especialmente entre a élite cultural, que ainda publicamente lamentam o facto de a Alemanha ter mandado Einstein embora, sem perceberem que foi um crime muito pior matar o pequeno Hans Cohn da loja da esquina, mesmo que não fosse um génio."

Penso que o problema mais desconfortável de todos relacionado com toda a história das atrocidades nazis é o medo que temos de nós próprios - se num dado momento foi possível cometer tais crimes de forma organizada e burocrática num Estado europeu moderno, com a colaboração activa ou a tolerância passiva de todo um povo (de vários, desde a ocupação dos países europeus), será que a nossa atitude teria sido diferente? Até que ponto o nosso comportamento se teria mantido íntegro? Teríamos fugido, colaborado, "emigrado interiormente", resistido?

São algumas das muitas questões abordadas, agora resta-me ler o livro completo. Certamente falarei disto novamente.

terça-feira, junho 26, 2007

Queixas de médicos


Recentemente, as queixas de um amigo sobre o atendimento que recebera do médico de família num Centro de Saúde deram-me vontade de escrever um pouco sobre isso. Começo por dizer que sendo médico ouvir queixas a respeito de médicos me causa sempre um certo desconforto, por dois motivos. Em primeiro lugar, por muito que eu deteste generalizações e tenha relutância em amalgamar num grupo homogéneo a "classe médica", que é um termo que me irrita por englobar na mesma designação centenas de pessoas muito diferentes, a verdade é que essa generalização é feita pela maioria das pessoas, de modo que me sinto sempre indirectamente atingido no meu brio profissional. Em segundo lugar, a maioria das críticas e queixas que ouço no dia-a-dia são mais fruto de expectativas descabidas das pessoas ou da má organização / coordenação / concepção dos serviços do que propriamente da actividade directa dos médicos, que são sempre um alvo fácil por serem a "cara" do sistema e também alvo de uma certa hostilidade tradicional por serem considerados como uma classe privilegiada (o que actualemente é cada vez menos verdade).

Depois desta "declaração de interesses", acrescento que as queixas concretas do meu amigo eram perfeitamente razoáveis e ele tinha toda a razão. Tinham a ver com aquilo que não deve falhar na actividade dos médicos - falta de respeito pelos pacientes (no caso, atrasos injustificados no atendimento e atitude desinteressada em relação aos seus problemas) e incompetência (mau atendimento e prescrição errada - entendida no sentido lato e não só da medicação). E foi de certa forma por isso que quis escrever: a nossa actividade é complicada e ansiogénica, lidamos com pessoas em sofrimento e vulneráveis, as nossas acções têm sempre potenciais complicações muitas vezes impossíveis de evitar, e somos confrontados tantas vezes com queixas absurdas e injustas que temos de rebater, que me revolta e enfurece ver colegas a falhar em coisas estupidamente simples e básicas por desleixo e falta de respeito, contribuindo para alimentar o clima de suspeição e hostilidade que cada vez mais ensombra a nossa prática profissional.

Com efeito, será assim tão difícil ser-se pontual? É apenas uma questão de organização, e pode fazer o contacto com o paciente começar logo mal. E também não é assim tão complicado estar-se actualizado de forma a não cometer erros grosseiros; é claro que ninguém pode saber tudo, mas é indispensável saber-se o suficiente para resolver os problemas básicos e orientar os mais complexos. E também convém saber comunicar com os doentes de forma a responder às suas questões mais prementes e fazê-los sair do consultório menos inseguros do que lá entraram. Porque se é verdade que existem doentes hostis e desconfiados com quem é muito difícil conseguir um entendimento, na esmagadora maioria dos casos os doentes confiam em nós e os médicos têm (ou deveriam ter) tanta mais informação do que eles sobre as doenças que o controle da conversa está quase sempre do nosso lado.

Sempre defendi que a maioria dos médicos são pessoas sérias e interessadas pelo que fazem. Ao contrário do que em geral se pensa, quem queira apenas ganhar dinheiro tem seguramente outras formas mais fáceis de o fazer, sem necessidade de tirar notas elevadas no liceu, fazer um curso exigente de 6 anos, seguido de exame de candidatura à especialidade, anos de avaliação, exames depois dos 30 anos, e uma prática profissional com as responsabilidades e os riscos que se conhecem. Por isso mesmo também defendo que os médicos têm de estar ao nível dessas responsabilidades; não têm de ser perfeitos nem santos, mas respeito pelos doentes e competência profissional não são opcionais, sobretudo se queremos deixar de ouvir este tipo de queixas, que sendo fundamentadas, nos fragilizam para quando temos de enfrentar os verdadeiros desafios (que incluem as queixas indevidas). E afinal de contas uma atitude correcta não é assim tão difícil.

domingo, junho 17, 2007

Cenas da vida moderna - uma passagem de The Progress Paradox

Não resisto a transcrever uma passagem de The Progress Paradox, que está uma delícia e me fez rir até às lágrimas (tradução minha):

"Devido à profusão de coisas desnecessárias que acumulamos, livros como-fazer tais como Let Go of Clutter e o best-seller Clear Your Clutter with Feng-Shui prometem melhor sono e mesmo melhor sexo às pessoas que têm a coragem de deitar o excesso no lixo. Uma profissão de assistentes apareceu com esta finalidade, dando a "organizador" um novo significado como carreira. Um organizador já não é alguém que se dirige a uma mina ou uma fábrica para instar os trabalhadores a formarem um sindicato, mas alguém contratado à hora para entrar numa casa e atacar a tralha. A Associação Nacional de Organizadores Profissionais, sediada em Norcross, Georgia, tem 1500 membros; oferece um programa de certificação e diz que os seus membros profissionais são capazes de "criar uma redescoberta liberdade e sensação de controle" aos seus clientes controlando as suas coisas. A nova profissão até tem uma estrela mediática, Julia Morgenstern, que se anuncia como "a perita em organização nº 1 da América" e que frequentemente aparece na Oprah. Habitualmente, Oprah envia Morgenstern à casa atafulhada de um espectador, onde a perita em organização nº 1 da América é filmada revelando o seu incrível segredo - avançando pelas salas enfiando tralha em sacos de plástico verdes, que depois leva até à esquina e deixa no contentor do lixo."

Aqui fica portanto o segredo da organização, e uma sugestão para quem não sabe como ganhar a vida!

The Progress Paradox, de Gregg Easterbrook

The Progress Paradox - How Life Gets Better While People Feel Worse é um livro interessante, mais pelas questões que levanta e descreve do que pelas respostas que apresenta, o que aliás é frequente neste género de livros. Mas vale a pena pela primeira metade, que além de abordar uma questão importante, interessante e actual (o culto do mal estar, do catastrofismo, pela sociedade em geral e os media em particular numa é poca em que o mundo ocidental vive mais e melhor do que em qualquer altura da história - e o resto do mundo não vive pior), está escrito de forma inteligente e divertida, constituindo uma leitura agradável e informativa.

E de facto, porque havemos de estar rodeados de anúncios de desgraças e sensações de impending doom? O livro é muito bom a demonstrar o desfasamento entre a realidade e a percepção da mesma transmitida pelos media; apresenta uma série de hipóteses de explicação plausíveis, embora talvez eu acrescentasse algumas mais prosaicas, como a memória curta das pessoas e das sociedades (que aliás explica também a nostalgia de um passado dourado - que nunca existiu - e faz com que só nos lembremos do que desejamos, explicando fenómenos como o enaltecimento de Salazar a que temos assistido, por exemplo), ou o simples facto de as pessoas gostarem de se queixar e de profetizar desgraças desde tempos imemoriais - será para inconscientemente se congratularem com o seu bem estar presente?

Nos capítulos finais, o livro soçobra numa série de boas intenções piedosas e num misto de cristianismo e new age, salpicadas aqui e ali de ingenuidade americana, bastante simplórias. Mas no geral é uma leitura útil e divertida, e é sempre bom lembrar aos arautos da desgraça que vivemos num mundo cheio de confortos e vantagens que nunca eistiram noutras épocas (sim, eu sei que nem toda a gente no mundo vive bem, mas os arautos a que me refiro vivem, e fazem de conta que não).