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domingo, dezembro 12, 2010

Brasileiras confusas



Outro dia, em conversa com um amigo a propósito de indecisões, recordámos uma personagem da telenovela O Casarão, aliás a melhor que me lembro de ter visto; Lina, interpretada por Renata Sorrah, que era uma mulher "moderna" e que passava grande parte do tempo dizendo "estou tão confusa...".

Por associação de ideias, lembrei-me de outras manifestações de confusão de mulheres brasileiras, e achei que é uma injustiça a arte poética dessa grande actriz que era (é?, nunca mais ouvi falar dela) Bruna Lombardi, pelo que aqui publico esta pérola literária da sua autoria:

Eu não sabia o que fazer, e abri a blusa.
Mais tarde eu ia dizer: foi sem pensar.
Ele me achou desnorteada, confusa,
Como acharia qualquer mulher que abre a blusa
E faz tudo que eu fiz só pra agradar.

Minha cabeca não era mesmo muito certa.
Mulher esperta eu nunca fui, mas deveria
Saber me colocar no meu lugar.
Não adiantava nada, eu era assim desatinada,
O tipo de mulher que faz as coisas sem pensar...

Você agora, me ouvindo contar essas histórias,
Talvez me ache também um pouco confusa.
E eu, que faco tudo pra agradar,
Já sem saber o que fazer, abro minha blusa,
Como faria qualquer mulher confusa em meu lugar!

Mas a confusão feminina brasileira vem de longe, como o prova esta outra pequena jóia poética de Cecília Meireles (que pode assim ser considerada uma precursora da bela Bruna), que recordo dos livros de Português dos tempos de escola:

Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo!


domingo, janeiro 03, 2010

terça-feira, outubro 27, 2009

Requiem por uma vítima obscura



Não é ela na fotografia, mas podia ser, já que é uma sua irmã, fotografada mais ou menos com a idade que ela teria qando morreu. Que eu saiba, não deixou nenhuma fotografia - naquele tempo, no Portugal rural, as pessoas eram raramente fotografadas. Era a mais velha de três irmãs, de uma aldeia das Beiras, de uma família rural remediada; casou aos 27 anos com um homem 15 anos mais velho de uma aldeia próxima e de uma família mais opulenta que dizem que a adorava, teve três filhos, dos quais viu morrer o segundo com menos de um ano, e morreu com 34 anos. Falo da minha bisavó, uma das inúmeras vítimas europeias da pandemia de gripe de 1918, a "pneumónica", como sempre se lhe referiram na minha família. Não foi uma das vítimas célebres, como Apollinaire, Schiele, Souza-Cardoso, ou mesmo a vidente de Fátima Jacinta, mas uma das muitas anónimas; no entanto, a sua morte influenciou de forma fundamental a posterior evolução da minha família. Suponho que todas as famílias terão algum morto nessa pandemia. Faz hoje 91 anos que morreu, em 27 de Outubro de 1918, e apeteceu-me recordá-la, talvez por causa de todo o alarido que se tem feito à volta da pandemia de 2009, cuja mortalidade e impacto seguramente nada terão a ver com a da pneumónica.

sábado, outubro 24, 2009

Nostalgia pelo optimismo...



Este parágrafo, que retirei da biografia de Keynes de Robert Skidelsky, resume de forma excelente as causas do meu fascínio por esta época, uma espécie de idade de ouro em que tudo parecia possível:

Leonard Woolf, returning from seven years in Ceylon, strongly felt the exhilaration of life in 1911, when it seemed as if the world was on the brink of becoming civilised. It was a wonderfully sunny summer. In politics it looked 'as if militarism, imperialism, and antisemitism were on th run'. The revolution of te motor car and aeroplane had started; Freud, Rutherford and Einstein had begun their work. 'Equally exciting things were happening in the arts. On the stage the hattering impact of Ibsen was still belatedly powerful and we felt that Ibsen had a worthy successor in Shaw as a revolutionary... In painting we were in the middle of the revolution of Cézanne, Matisse, and Picasso... And to crown all, night after night we flocked to Covent Garden, entranced by a new art, a revelation to us benighted British, the Russian ballet in the great days of Diaghilev and Nijinsky.' Bloomsbury felt no premonition of disaster, only a joyful sense of awakening after the long Victorian night.

Infelizmente, esta verdadeira "bolha" de esperança rebentou irremdiavelmente com a 1ª Guerra Mundial, e os horrores do século que se lhe seguiram - as ditaduras, a 2ª Guerra Mundial, o medo do nuclear, etc. Conseguiremos alguma vez recuperar aquele optimismo? Duvido muito...

quarta-feira, setembro 16, 2009

Setembro, e a rentrée



Setembro e a rentrée é uma época sempre algo stressante... O trânsito aumenta brutalmente, e o ano lectivo recomeça, com todas as ansiedades que isso me provoca - será que desta vez o Abdallah vai às aulas? E a Crazy Kitty decidirá equipar-se para as aulas de Educação Física? Quantos telefonemas, e-mails e notificações não vou receber das escolas este ano? Apesar de tudo, por enquanto tudo parece correr sobre rodas, o Verão correu notavelmente bem, a disposição dos infantes para a retoma escolar parece ser a melhor - o Abdallah pronto 20 minutos antes da hora, lavado e pequeno-almoçado, cadernos e livros etiquetados, etc. Enfim, quiçá ter suportado muitos dos problemas das maluquices adolescentes antes do tempo me poupe nos próximos meses... A verdade é que não consigo deixar de gostar dos meus torrõezinhos de açúcar, por muito doidos que sejam. Como dizia o outro, alea jacta est! Agora é ver como as coisas evoluem.

sábado, julho 25, 2009

Velhice



“Last scene of all, That ends this strange eventful history, Is second childishness and mere oblivion, Sans teeth, sans eyes, sans taste, sans everything”

William Shakespeare in As You Like It

ntem chguei a casa triste, com aqiele género de aperto no coração de quando algo nos impressiona e deprime e temos consciência de que não podemos fazer nada. O rosto cadavérico e os olhos de uma tristeza resignada da D.Zulmira quando nos apertámos as mãos, ela sentada no carro que a levaria ao hospital, e eu a dizer "até à próxima" com um sorriso que tentava ser encorajador, perseguem-me até agora, e por isso apeteceu-me escrever sobre ela.

Conheço-a há uns 4 anos, e tornou-se minha doente há 3, depois de alguns conflitos entre as filhas e a sua então médica assistente. (Apesar da minha fama de mau feitio, ou talvez por causa disso, recebo muitas vezes doentes que se incompatibilizam com outros médicos.) Preparei-me para uma relação difícil com uma doente opiniosa e filhas intrometidas (habitualmente, nestes casos as famílias são o pior; apesar de geralmente bem intencionadas, as boas intenções e frequentemente os sentimentos de culpa são fatais para a sensatez), mas felizmente tudo correu pelo melhor. A doente era uma professora primária reformada de 82 anos, ainda com uma excelente cabeça, sempre muito aprumada e determinada, que proibiu as filhas de irem à consulta com ela para não estragarem a relação com o novo médico assitente - sábia resolução, que só por si mostrou que tinha muito mais juízo do que elas. Nunca foi uma doente dócil: sempre inquisitiva e determinada, ferozmente independente e lutando contra os inevitáveis efeitos da idade e da doença, nessa altura ainda pouco visíveis. Sempre encorajei a sua independência e curiosidade, embora desde o início previsse que passaria um mau bocado a fazê-la aceitar o declínio que seria inevitável, e esperava secretamente que tivesse a sorte de sofrer algum acidente rapidamente fatal antes de isso acontecer. Lembro-me de conversar com ela durante os tratamentos, de como ela se destacava dos outros pela sua postura sempre educada, muito direita no seu 1.50m de altura e cabelo em carrapito, a ler ou a escrever num caderno onde anotava pensamentos, ideias e projectos. Muito obsessiva, discutia cada comprimido até ficar convencida, altura em que reconhecia a sua utilidade e cumpria escrupulosamente.

Durante cerca de 2 anos, manteve-se muito bem, suportando entretanto com notável força de espírito a doença e morte do marido; as filhas iam aparecendo por vezes, muito mais obsessivas do que a mãe (chegavam a acordá-la às 3 da manhã para lhe dar comprimidos!), mas nunca precisei de me aborrecer com elas. Mas, de há 1 ano para cá, a esperada e temida decadência começou, desencadeada por uma crise de colangite litiásica. O equilíbrio que até aos 84 anos fora tão estável começou a desmoronar-se. Outras doenças intercorrentes, pouco graves em si, foram-se sucedendo, e cada uma era como uma machadada que a deixava mais frágil, mais incapacitada, mais desmemoriada. Angustiava-me vê-la pedir-me para repetir a medicação todas as semanas, porque a esquecia, ver que no caderno passava a escrever apenas sobre as suas queixas físicas e medicamentos, agarrando-se tenazmente à vida e à independência que sentia fugir-lhe de dia para dia. Não podia passar por ela sem que me retivesse pelo menos meia hora com as mesmas queixas, no fundo apelos a que eu fizesse o milagre de a manter como era antes. Cheguei váris vezes a evitá-la, fingindo que não estava lá, em dias em que tinha menos tempo ou paciência, e depois sentia-me terrivelmente desconfortável pela minha cobardia. As filhastambém se tornaram mais insistentes, mas com elas foi fácil lidar: expliquei claramente o que se passava e o que havia a esperar - decadência progressiva até à morte.

E ontem estava pior do que nunca, como murmurou, numa apatia tão pouco característica da sua personalidade, "já estou como um fantasma". Quando me despedi dela, ambos sabíamos que não devemos tornar a ver-nos. Ou, se ainda recuperar desta vez, voltará mais fraca, e será apenas para prolongar esta situação por mais uns dias, umas semanas, eventualmente uns meses, já que apesar de tudo tinha uma constituição robusta e estas pessoas são por vezes de uma resistência espantosa (e só nas novelas é que os médicos sabem o tempo de vida que resta aos doentes com uma exactidão ao dia ou à semana).

Gosto muito da minha profissão, mas há alturas em que pode ser muito deprimente.

domingo, julho 12, 2009

Uma citação de Natália Correia



Não Antero meu santo não me mato.
Antes me zango até ficar um cacto.
Quem me tocar (maldito) que se pique!


Tantas vezes me identifico com estas palavras!

Um amigo ofereceu-me a fotobiografia de Natália Correia. Fiquei a conhecer bem melhor a personagem e a sua obra, e se já a respeitava e por ela sentia alguma admiração, o meu respeito aumentou, sobretudo pela qualidade da sua escrita, por vezes barroca e excessiva, mas com poemas de grande beleza e sobretudo com uma força anímica e uma energia invulgares. Lembro-me em miúdo de a achar uma figura um tanto caricatural e divertida, e de facto era uma mulher com um certo excesso de energia e paixão que a levou a dizewr e fazer muitas coisas com as quais não concordo e de que não gosto, com alguma tendência ao exagero, mas é inegável que foi uma personagem, corajosa, inteligente, brilhante e marcante. De certa forma, imagino-a mais integrada na sociedade romântica, uma outra George Sand. Mas deixou-nos pérolas inesquecíveis, uma das quais, cujo impacto delicioso bem recordo na altura, é o poema que em minutos escreveu na Assembleia durante os debates da lei de despenalização do aborto:

"O Acto Sexual é para fazer filhos" - disse ele
Já que o coito - diz Morgado -
Tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração! -
uma vez. E se a função
faz o órgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.

domingo, junho 21, 2009

Calor

Estava eu tão bem em Estocolmo, com os seus deliciosos 15ºC (OK, os dias de chuva eram dispensáveis), depois dos já um pouco excessivos 4ºC de mínima no Árctico (mas mesmo assim agradavelmente rvivificantes), e fui catapultado para os horrendos 35ºC de Lisboa... Nunca gostei do calor excessivo, e com a idade tenho-me tornado cada vez mais intolerante - tudo o que ultrapasse os 25ºC é demais para mim. E, apesar dessa maravilhosa invenção que é o ar condicionado - no carro, em casa, nos cafés, lojas e centros comerciais, é insuficiente, porque é preciso sair de casa para nos deslocarmos entre esses sítios... Os minutos até o ar condicionado arrefecer o carro - que deve estar a mais de 40ºC quando se entra - são um inferno. Aqui fica o meu lamento do costume: "Nunca mais acaba o Verão!". Eu devia mesmo era viver na Escandinávia.

domingo, abril 12, 2009

Facebook


Por sugestão de um amigo, criei um perfil no Facebook. Inicialmente tive alguma resistência, pois não me parecia especialmente interessante. Mas lá acabei por aderir, e até tem uma certa graça. Hoje em dia, a internet proporciona múltiplas possibilidades de socialização - os chats, o messenger, os sites de encontros, etc, além da excelente forma de comunicação que é o e-mail, que veio de certa forma fazer reviver a comunicação escrita. Não tenho grande vocação, nem disponibilidade, para socializar online, de modo que duvido que a minha lista de amigos no facebook cresça por aí além. Mas é divertido; por enquanto serve-me sobretudo para fazer quizes mais ou menos tolos e preencher mapas de viagens.

sábado, abril 11, 2009

Postcards from Italy, de Beirut

E como tenho estado a digitalizar as fotos de uma viagem a Roma em 1996, esta música vem mesmo a calhar... Nostálgica e doce.



domingo, março 29, 2009

Nostalgia - a propósito de uma notícia do Guardian

Li há dias uma notícia no Guardian que dizia que David Hockney não terminaria uma série de quatro quadros que estava a pintar sobre as estações do ano, porque as árvores que eram o tema da série tinham sido abatidas. Não sei porquê, mas senti-me solidário com a tristeza do pintor, talvez porque é sempre triste quando algo majestoso e antigo como aquele cnjunto de árvores desaparece, talvez pela beleza dos quadros já pintados e o contratse entre as fotografias do local antes e depois do abate. Ficam as imagens:


O quadro do Verão


O quadro do Inverno


As árvores dos quadros...


...e o local depois do abate.

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

A doença que não tem nome...



Deparei com uma citação de Betty Friedan (uma autora feminista que desconhecia), que achei perfeita como descrição do "problem that has no name" que afecta de forma tão generalizada a nossa sociedade actual:

the ubiquitous malaise, tension, and anxiousness that results from the gap between the expectations of a fulfilling life and the realities of a stifling existence

(Although Friedan was referring to the malaise of housewives during the 1950s, the unnamed problem she noted is far more widespread in the general population of contemporary societies)

Retirado da secção Book Reviews do New England Journal of Medicine desta semana.

domingo, janeiro 18, 2009

La Zizanie, ou a intemporalidade de Caius Detritus...


O ambiente do meu serviço, que era tão bom no início, tem-se deteriorado nos últimos anos, e de forma mais acelerada no´ano que passou, o que é uma pena. Progressivamente, as naturais diferenças de ideias, temperamentos e comportamentos entre os vários membros foram-se acentuando e tornando-se motivo de discórdias e conflitos cada vez mais frequentes, até que agora estamos praticamente agrupados em duas facções em guerra aberta, com um ou outro elemento oscilando entre uma e outra. Tal como no livro de Astérix A Zaragata, este clima foi precipitado pela entrada de um colega há alguns anos, o nosso candidato a Caius Detritus. Mas sinto-me relutante em atribuir-lhe todo o "mérito", ou mesmo a maior parte, já que, se o Detritus de Goscinny e Uderzo possui inteligência, espírito e alguma graça, o nosso é de uma avassaladora mediocridade em todos os aspectos, verdadeira fuinha rasteira, de modo que penso que actuou apenas como catalisador pela sua presença e comportamento, mas os responsáveis somos todos os outros.

Acho que o que aconteceu foi basicamente o efeito do tempo e de uma convivência prolongada. Com a idade, os nossos traços de carácter acentuam-se, e é frequente observarmos que o carácter de um velho é uma caricatura da sua personalidade em novo. Ainda não estamos assim tão velhos, mas isto exprime bem a ideia. Inseguranças acentuam-se e disfarçam-se com assertividades despropositadas, seguranças e convicções tomam o aspecto de arrogâncias, a intolerância e irritabilidade aumenta à medida que a paciência e a boa vontade diminuem. O nosso chefe, que cotinuo a admirar como profissional e que aprecio como pessoa, tem tido grande parte da responsabilidade, pelo seu gosto pelos mezzo-termine (essa excelente expressão que aprendi em Saint-Simon); o sempre nos ter deixado governar-nos a nós próprios e sermos muito autónomos foi para mim uma das suas melhores qualidades, mas obviamente resultava enquanto nos dávamos todos bem, ou pelo menos pacificamente.

De qualquer forma, continuo a gostar muito de parte dos meus colegas (felizmente, da maior parte), do meu trabalho, do serviço e do hospital. Acho que temos de ser menos conflituosos, no entanto, mesmo sendo eu uma das pessoas que menos paciência tem para ménager (outra expressiva palavra muito utilizada por Saint-Simon...) os adversários. Mea culpa? Um pouco, mais pourquoi ménager ceux qui ne me ménagent point? Enfim, isto é apenas um pequeno desabafo sobre uma questão que me tem atazanado ultimamente, em´fase de reorganização de serviço do início do ano.

E para terminar - o nosso Detritus é mesmo asqueroso!

domingo, janeiro 04, 2009

Gripe


Há uns 5 ou 6 anos que não tinha uma gripe, mas há duas semanas o vírus atacou-me e juntei-me aos números da tão falada epidemia. Já não me lembrava da sensação; como de costume, fui tomado nos primeiros dias por uma prostração e astenia intensas, e passei dois dias praticamente imóvel na cama, os processos físicos e mentais todos suspensos enquanto o sistema imunitário lutava contra o atacante a um nível subliminar. Depois, os dias de recuperação, ainda não completa, em que o mal estar e o cansaço se tornam irritantes e exasperantes por dominarem a nossa vontade. Mas aqueles dias iniciais, em que as forças desaparecem completamente, provocam uma estranha volúpia de incapacidade, um quase death wish, em que sabe bem abandonarmo-nos à fraqueza e ao oblívio. Raramente estou doente, e nunca tive nenhuma doença verdadeiramente grave, mas já houve algumas vezes em que me senti assim - gripes, uma laringite - e nessas alturas a morte parece doce e desejável. Já assisti incontáveis vezes a essa reacção em doentes internados, e acho que é um excelente mecanismo de defesa do corpo e da mente perante o fim - é como se se "desligasse", terminando o sofrimento e morrendo sem angústia. Claro que a minha doença foi apenas uma amostra, mas ajuda a compreender o que se sente nessas alturas. E não é uma má sensação.

segunda-feira, novembro 17, 2008

Outono


Gosto do Outono. Gosto das folhas secas a cair e espalhadas pelo chão, do cheiro da terra molhada depois das primeiras chuvas. Mas sobretudo gosto do regresso do frio, das manhãs límpidas e húmidas em que uma neblina suave cobre o rio, revelando ao desvanecer-se um azul limpo e claro. Lisboa tem uma luz espectacular, seja de manhãzinha ou ao fim da tarde, quando as casas e as igrejas ficam douradas por uma luz quente e avermelhada. É um verdadeiro repouso para os sentidos, depois da luz forte e do calor opressivo do Verão. Não que este Verão tenha sido muito quente, foi felizmente misericordiosamente benigno. Que me perdoem os frustrados adeptos da praia e do calor, mas o frio sabe-me muito melhor.

quinta-feira, novembro 13, 2008

A propósito de uma citação de Chateaubriand

Estou a ler Mémoires d'Outre-Tombe, de Chateaubriand, e deparei a certa altura com este parágrafo, que transcrevo: Ceux qui me traitent
d'hypocrite et d'ambitieux me connaissent peu: je ne réussirai jamais
dans le monde, précisément parce qu'il me manque une passion et un
vice, l'ambition et l'hypocrisie. La première serait tout au plus chez
moi de l'amour-propre piqué; je pourrais désirer quelquefois être
ministre ou roi pour me rire de mes ennemis; mais au bout de
vingt-quatre heures je jetterais mon portefeuille et ma couronne par
la fenêtre.

Senti-me identificado com esta passagem. Com efeito, a hipocrisia é-me extremamente difícil, sou constantemente censurado por ser demasiado franco, "desbocado" mesmo; padeço talvez de um espírito crítico demasiado afiado, e não tenho pejo de exprimir as minhas opiniões nem de desmascarar a mediocridade. Em relação à ambição, também me falta, pelo menos aquela que é necessária para ter sucesso (para réussir dans le monde, como diria Saint-Simon). Quando era mais jovem, e comecei a trabalhar, era muito mais ambicioso, achava que tinha capacidade para réussir dans le monde e esperava consegui-lo; mas à medida que fui conhecendo esse "mundo" (no meu caso, o dos colégios de especialidade, universidade, Ordem dos Médicos), este pareceu-me tão ridículo, afectado e medíocre (parochial é um bom adjectivo), como dizia um antigo chefe meu, tão imbuído de um espírito jesuitico-coimbrão, que cedo achei que seria inútil sequer tentar alterá-lo. Mantenho-me assim de certa forma um outsider - faço o que acho correcto, exponho as minhas opiniões sem vergonha, e contento-me com o meu trabalho que me realiza e me faz sentir bem. Lembro-me da primeira - e última - assembleia do colégio da especialidade a que assisti. Senti-me de tal forma deslocado perante o acervo de hipocrisia e politiquices ridículas que decidi nunca mais comparecer. E penso que, infelizmente, este espírito não é exclusivo da classe médica, é uma característica do provincianismo nacional, e está de tal forma arreigado que penso que não desaparecerá nas próximas gerações. Lembro-me de pensar na altura que o motivo porque estas vetustas instituições (neste caso a Ordem dos Médicos e os colégios de especialidade, mas penso que se aplica às instituições portuguesas em geral) nunca mudam é porque as únicas pessoas que têm paciência para fazer parte delas são aquelas que pensam da mesma forma, e portanto vão perpetuando o status quo. Claro que há aqui e ali um espírito mais corajoso e empreendedor, que luta contra a corrente, mas infelizmente eu não tenho a apersistência suficiente para ser um deles. Limito-me a agir na minha esfera imediata de influência, que é bem pequena, e não é com orgulho que o afirmo. De qualquer forma, acho que é melhor que nada.

quinta-feira, setembro 04, 2008

In vino veritas...



Uma passagem de Talvez, de Lilian Hellman, vem-me ao pensamento, qualquer coisa como "aquilo que nos parece muito claro quando estamos embriagados e depois deixa de ser claro quando ficamos sóbrios é porque à partida nunca esteve muito claro". Cito de memória, as palavras não devem ser estas, mas acho que conservei o sentido. E é verdade que na maioria das vezes a embriaguez é um estado muito pouco propício ao raciocínio e às decisões - pelo menos se se deseja que aquele seja lógico e estas sensatas. Mas por vezes há um período, que sucede aos estados sucessivos de exultação e de embotamento, e que corresponde ao dissipar da embriaguez mas que precede a recuperação completa, em que tudo surge com uma extrema clareza e desprendimento, como se estivéssemos a ver os nossos problemas de fora e desapaixonadamente.

E a propósito de Lilian Hellman, outras palavras me perseguem, a citação da Bíblia que ela colocou em epígrafe no início de The Little Foxes: "Take us the foxes, the little foxes, that spoil the vines: for our vines have tender grapes."

quinta-feira, agosto 28, 2008

...


I've been swimming in a sea of anarchy
I've been living on coffee and nicotine


Sheryl Crow

Got a wife and kids in Baltimore Jack
I went out for a ride and I never went back
Like a river that don't know where it's flowin'
I took a wrong turn and I just kept goin'


Bruce Springsteen

Como às vezes gostava de fazer o mesmo...

terça-feira, agosto 26, 2008

Edvard Munch, ou como a arte reflecte as nossas emoções

O que distingue a verdadeira arte, a meu ver, é a capacidade de exprimir as nossas emoções de uma forma completa, de nos fazer pensar "é exactamente assim que me sinto", seja na literatura, na música ou na pintura. E ultimamente, é a pintura de Munch que exprime como me sinto. Mas como gostaria antes que fosse a de Klee!


segunda-feira, agosto 25, 2008

Psicopatias/Sociopatias...

Em The Happiness Hypothesis, de Jonathan Haidt, deparei a certa altura com esta definição de psicopata: "A maioria dos psicopatas não são violentos (embora a maioria dos assassinos e violadores em série sejam psicopatas). São pessoas, na maioria homens, que não têm sentimentos morais, sistemas de integração, nem preocupação pelos outros. Porque não sentem vergonha, inibições ou culpa, é-lhes fácil manipular os outros para obterem dinheiro, sexo e confiança." Pois é. O que é arrepiante é quando reconhecemos nesta descrição alguém que nos é querido, que com o crescimento vai deixando de ser um encantador mesmo que um tanto cansativo Abdallah ou Calvin para se tornar um déspota amoral cada vez mais insuportável. Quando damos por isso, parece que toda a nossa vida está infiltrada e minada, que perdemos o controle e passámos a viver em função de uma relação desgastante e frustrante. Como dizia o imperador Augusto em relação às duas Júlias, sua filha e neta, e ao seu neto Póstumo Agripa, que eram os seus três cancros. Ele nada sabia da biologia do cancro, mas acertou em cheio - um mal consumptivo, que toma conta do organismo e se alimenta dele destruindo-o.