domingo, março 08, 2009

Slumdog Millionaire, de Danny Boyle, e outros filmes sobre a Índia e o Ocidente

Slumdog Millionaire é um filme agradável e bem disposto, soberbamente filmado por Danny Boyle, muito bem interpretado, que padece no entanto de um argumento algo simplista / simplório que transmite uma visão um bocado paternalista e "turística" da Índia. Compreendo os argumentos das críticas negativas de Salman Rushdie, mas sou muito menos severo - o filme é um bom entertainment, sai-se bem disposto da sala de cinema, e mostra pelo caminho bastante sobre a vida dos pobres na Índia (houve uma altura que pensei que ia abordar o problema dos transplantes selvagens - deformação profissional? - mas ficou-se pela exploração da mendicidade e da prostituição).

A Índia é um país que me provoca um misto de atracção e repulsa - gosto da sua cultura e de muita da sua estética, mas a miséria e as multidões assustam-me e duvido que algum dia tenha a coragem de lá ir. A propósito da cultura indiana, dos seus valores e do contraste e interacção com os valores ocidentais, que são temas que sempre me interessaram, relembro outros três filmes, qualquer deles quanto a mim superior a Slumdog Millionaire:

Outsourced (Despachado para a Índia), de John Jeffcoat, é um filme muito engraçado sobre um americano que vai gerir um call-center na Índia. Foca os temas da globalização, do choque cultural, e apresenta uma visão afectuosa e não paternalista nem turística da cultura indiana. É divertido e deixa-nos bem dispostos e a gostar e respeitar a Índia.

The Namesake (não me lembro do título em Português), de Mira Nair, é sobre duas gerações de indianos, em que a primeira emigra de Calcutá para os Estados Unidos e a segunda passa pelos problemas de integração / desenraizamento cultural. É uma história bem contada, optimista mas sem lamechices, que novamente apresenta os indianos e a sua cultura como algo tão real e humano como os ocidentais.

Por fim, Bend it Like Beckham (Joga como Beckham), de Gurinder Chadha, é uma divertida comédia passada no meio dos imigrantes indianos em Londres; mais uma vez abordam-se os choques culturais entre as tradições indianas e a vida ocidental, desta vez através de uma rapariga que sonha ser futebolista. O filme é muito engraçado e consegue fazer humor com os valores e as personagens indianos sem ser paternalista nem trocista.

Num ano em que Slumdog Millionaire ganhou o Oscar de melhor filme, penso que vale a pena rever estes filmes (e outros, certamente) e ler livros como A Suitable Boy, de Vikram Seth (e certamente outros...).

In South American Way, ou Regresso aos Trópicos



Desde pequeno que sou muito exigente com a temperatura da água do mar, sempre achei a água do Algarve fria (salvo em raras ocasiões) e a da zona de Lisboa gelada; como para mim o prazer da praia esteve sempre sobretudo ligado aos banhos de mar e cada vez gosto menos de calor, o meu gosto pela praia tem diminuído progressivamente.

Este Inverno, depois de não ter ido à praia em 2008, decidi voltar a uma praia com água verdadeiramente boa, e planear uma semana de férias nos trópicos, onde não ia há mais de 10 anos. Pensei inicialmente em Cabo Verde, mas a pobreza da oferta em relação ao preço fez-me desistir; investiguei as hipóteses de outros destinos, lugares onde uma vez ou outra tive vontade de ir - Martinica, Maurícia, Senegal, Mombaça, até Miami ou Key West... Não considerei inicialmente o Brasil, porque nunca tive vontade de lá ir - nunca me senti atraído pela cultura brasileira, o sotaque irrita-me, a insegurança das cidades repele-me, e o facto de se ter tornado um destino de férias particularmente popular entre os portugueses também não me atrai nada (talvez por um pouco de snobismo, mas a verdade é que um dos encantos de sair de férias é precisamente afastar-me do que vejo todos os dias). Mas, depois de considerar os preços, as profilaxias de doenças, e sobretudo os voos complicados com ligações que implicam imensas perdas de tempo, acabei por concluir que o melhor era "deixar de frescura" (ler com sotaque brasileiro!) e ir mas era ao Brasil, onde não faltam praias tropicais, com voos directos e sem necessidade de tomar comprimidos para a malária nem levar vacinas. Depois de analisar várias opções e de ouvir a opinião de vários conhecidos que já estiveram no Brasil a praia eleita foi a Baía dos Golfinhos, nos arredores de Natal, no Nordeste.



Foi uma boa escolha - a praia é muito bonita, o hotel era confortável, e o mar verdadeiramente cinco estrelas, com a temperatura ideal e a ondulação suficiente para proporcionar o prazer imenso de nos sentirmos embalados pelas ondas sem impedir de nadar. Foram uns dias de descanso e calma perfeitos - a modorra do calor aliviada por longos banhos de mar - literalmente horas na água - onde frequentemente pares de golfinhos se aproximavam a poucas dezenas de metros, leitura e boa comida.



Não posso dizer que tenha ficado a conhecer o Brasil: fui directamente do aeroporto (das piores burocracias que já encontrei para entrar num país) para o hotel, a maioria das pessoas que vi eram turistas (portugueses, argentinos e noruegueses), e os brasileiros que encontrei resumiram-se praticamente aos funcionários do hotel e aos vendedores das lojas e criados dos restaurantes - todos nordestinos, pequenos e escuros, afáveis no trato e com o sotaque que já ouvimos muitas vezes nas novelas. São claramente muito pobres, e prejudicados pela alta dos preços trazida pelo turismo, embora este provavelmente os beneficie com empregos. Pipa é uma aldeia com uma rua e muitos becos, repleta de lojas e restaurantes, com um verniz de cor e movimento, mas no caminho do aeroporto passámos por outras aldeias que eram francamente miseráveis. Tal como no México, onde me surpreendi ao encontrar em cada aldeiazinha paupérrima, de casas de madeira, uma igreja das Testemunhas de Jeová, também aqui se nota a implantação da igreja, neste caso as evangélicas, e foram várias as jovens lojistas que estavam a ler a Bíblia nos intervalos do trabalho.



Enfim, foram uns dias muito bons, passados de papo para o ar (literalmente), que me trouxeram de volta a maravilhosa sensação quase esquecida de nadar em águas tropicais e que quebraram o preconceito anti-ida-ao-Brasil... Talvez ainda volte, quiçá a Salvador, que é a única cidade cuja cultura e ambiente tenho curiosidade em conhecer.

segunda-feira, março 02, 2009

Just One of Those Things, por Ella Fitzgerald

Uma das minhas músicas favoritas na voz da magnífica Ella Fitzgerald. Quem pode deixar de se sentir melhor ao ouvi-la?





As Dorothy Parker once said
To her boyfriend, "fare thee well"
As Columbus announced
When he knew he was bounced,
"it was swell, Isabel, swell"

As Abelard said to Eloise,
"don't forget to drop a line to me, please"
As Juliet cried, in her Romeo's ear,
"Romeo, why not face the fact, my dear"

It was just one of those things
Just one of those crazy flings
One of those bells that now and then rings
Just one of those things

It was just one of those nights
Just one of those fabulous flights
A trip to the moon on gossamer wings
Just one of those things




If we'd thought a bit, of the end of it
When we started painting the town
We'd have been aware that our love affair
Was too hot, not to cool down

So good-bye, dear, and amen
Here's hoping we meet now and then
It was great fun
But it was just one of those things

If we'd thought a bit, of the end of it
When we started painting the town
We'd have been aware that our love affair
Was too hot, not to cool down

So good-bye, dear, and amen
Here's hoping we meet now and then
It was great fun
But it was just one of those things

Just one of those things

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

A doença que não tem nome...



Deparei com uma citação de Betty Friedan (uma autora feminista que desconhecia), que achei perfeita como descrição do "problem that has no name" que afecta de forma tão generalizada a nossa sociedade actual:

the ubiquitous malaise, tension, and anxiousness that results from the gap between the expectations of a fulfilling life and the realities of a stifling existence

(Although Friedan was referring to the malaise of housewives during the 1950s, the unnamed problem she noted is far more widespread in the general population of contemporary societies)

Retirado da secção Book Reviews do New England Journal of Medicine desta semana.

terça-feira, fevereiro 24, 2009

Sartre e Beauvoir - A História de uma Relação, de Hazel Rowley



Desde muito novo que tenho uma enorme admiração por Jean-Paul Sartre e por Simone de Beauvoir; li Memórias de uma Menina Bem Comportada no 11º ou 12º ano e senti uma sintonia imediata com o tom e os sentimentos da autora, e A Idade da Razão marcou a minha passagem á idade adulta (é sem dúvida um dos livros da minha vida, se eu fizesse essa lista). Ao longo dos anos, fui lendo muitos dos seus livros´- romances, memórias, correspondência - e desenvolvi uma forte admiração por eles, como escritores e como pessoas.

Foi por isso com muito prazer que li Sartre e Beauvoir, um livro contando a história do seu relacionamento de 50 anos - a perspectiva é quase sempre a de Simone de Beavoir, o que é natural, pois foi ela quem escreveu mais sobre as suas vidas, de modo que o grosso do testemunho é o seu. Sempre me fascinou a relação dos dois, e de certa forma sempre sonhei em ter uma relação assim - de confiança e compromisso, acima de e incluindo relacionamentos paralelos - talvez porque sempre achei que o amor e companheirismo estão muito além de simples e passageiros entusiasmos, sexuais ou não (aquilo a que eles chamavam as relações contingentes). Sim, é certo que cometeram muitos erros em relação a outras pessoas, que tiveram muitos momentos difíceis, mas isso só confirma que eram humanos, e uma das suas grandes qualidades foi precisamente a de reconhecerem esses erros e de os discutirem. E talvez seja devido ao meu carácter, ao meu gosto pela discussão, pela análise, pela intriga, que eu me sinta tão identificado com eles, como também com o grupo de Bloomsbury, que teve igualmente a coragem de romper com a família e os modelos convencionais. Para mim, foi esse o espírito cultural do século XX que transformou o mundo em que vivemos, que contribuiu para a liberdade de que hoje gozamos na sociedade ocidental, e estas pessoas foram fulcrais para essa mudança, para vivermos hoje de uma forma que nos parece adquirida desde sempre.

A Viagem do Elefante, de José Saramago



A Viagem do Elefante é um livro engraçado e bem disposto, que se lê praticamente de um fôlego. Como de costume, José Saramago é um verdadeiro mestre do uso das palavras e da Língua Portuguesa, que maneja como poucos. Ler a sua prosa é um puro prazer só pela leitura em si, e há que reconhecer que a idade avançada em nada diminuiu o seu vigor. A história é interessante e está bem contada, as personagens, como sempre nos livros de Saramago, parecem-se todas e falam todas da mesma maneira, mas é de facto a perícia da escrita que se destaca e delicia. Não sei se o autor gostaria desta apreciação... Nunca foi dos meus escritores preferidos, sempre achei que a maioria dos seus livros, sempre soberbamente escritos, começavam com uma boa ideia, e original, mas que depois esta se perdia numa certa pretensão de profundidade (que contribui para as personagens serem todas iguais e falarem todas com a mesma voz - a do autor) e se ficava geralmente no final com a sensação de que o passo era maior que a perna. Neste livro, talvez devido à propositada leveza do tema, isso não acontece.

(Acrescento que, apesar desta crítica se aplicar à maior parte dos livros de José Saramago que li, há três aos quais não se aplica, e que considero excelentes do princípio ao fim: Levantado do Chão, Memorial do Convento e Ensaio Sobre a Cegueira.)

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Nostalgia musical

Ultimamente, uma música dos Talking Heads não me tem saído da cabeça, Air, a primeira música dos Talking Heads que me lembro de ter ouvido. Tinha 14 anos, alguém me ofereceu o álbum Fear of Music, que eu desconhecia completamente, e lembro-me do fascínio que senti quando a agulha tocou no vinil e um som que me pareceu então extra-terrestre invadiu a sala, tão diferente da música que eu habitualmente ouvia nessa época - a descobrir o rock dos Pink Floyd e Led Zeppelin, o rock'n'roll dos anos 50, as músicas dos anos 60 a partir de Bob Dylan, e da "contemporânea" pouco mais que Kate Bush, Police e Dire Straits (refiro-me ao que ouvia em repeat, dos discos que comprava; obviamente ouvia os hits do tempo na rádio).

Mas este disco dos Talking Heads foi uma verdadeira descoberta - fortuita, como quase todas as melhores são - e lembro-me de o ouvir vezes sem conta. Curiosamente, só muitos anos depois apreciei os discos posteriores da banda; talvez devido à impressão tão forte que Fear of Music exerceu sobre mim, achei o que ia aparecendo deles mais fraco.

Procurei no youtube, e encontrei esta versão ao vivo de Air e Cities em 1979 - o som é fraco, mas o video de uma interpretação de Air por David Byrne num concerto, com muito melhor qualidade, está muito mais longe do som que eu ouvi e me fascinou naquela época.

domingo, fevereiro 08, 2009

One Art, de Elizabeth Bishop



One Art

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

--Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.




A arte de aceitar as perdas foi uma das conquistas mais inestimáveis que fiz na vida... Facilita tanto as coisas! (E o poema é lindo)

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

The Quiet Girl, de Peter Høeg

O primeiro livro que li de Peter Høeg foi The History of Danish Dreams, há muitos anos, comprado em Londres por uma amiga, e gostei muito – da escrita, mágica e melancólica, e do ambiente, nebuloso e meio fantástico. Não conhecia a Escandinávia, e muito pouco da literatura dinamarquesa (apenas Karen Blixen e Hans Christian Andersen), e este livro evocava uma terra onírica de brumas e lendas. Li depois Miss Smilla’s Sense of Snow, um thriller excelente, com o mesmo estilo de escrita e uma história muito engenhosa e que nos mantém suspensos do princípio ao fim (fizeram a partir dele um filme muito fracote, com Julia Ormond no papel de Smilla). Muito mais tarde, li The Borderliners, de que gostei menos, por achar a história demasiado rebuscada, e fiquei com menos interesse por ler outros livros dele.

Recentemente, no entanto, a minha ida a Copenhaga, de que gostei imenso (e que me pareceu uma cidade tão serena e bem disposta, diferente do que seria de esperar a partir da escrita melancólica de Andersen, Blixen e Høeg), deu-me vontade de voltar a ler alguma coisa da sua literatura, e comprei lá o último livro dele, The Quiet Girl.

Mais uma vez, a escrita é melancólica, e a história muito complexa, uma combinação de thriller com realismo fantástico e reflexões sobre a arte, a vida e as relações humanas. Além de ter de se tomar atenção aos pormenores para não perder o fio à meada que está verdadeiramente emaranhada, a minha falta de conhecimentos musicais impediu-me de apreciar / compreender as inúmeras referências à linguagem musical, e as permanentes reflexões profundas das personagens tornam-se por vezes cansativas e um bocado irritantes. Apesar de todos estes defeitos, é um thriller engenhoso, capaz de nos agarrar até ao fim – mesmo que este se revele um tanto decepcionante – e bem escrito, e a organização da narrativa, em fragmentos que se vão revelando em diferentes momentos cronológicos, agradou ao apreciador de puzzles que sou. Não é um grande livro, mas é interessante; no entanto, ainda está muito longe de me transmitir algo próximo da sensação que Copenhaga me transmitiu, que espero um dia encontrar em algum outro autor, pois para mim ler sobre os lugares enriquece-os imenso (tal como conhecê-los enriquece a leitura sobre eles). Pelo menos, foi agradável visualizar muitos dos sítios onde se passa a acção – por exemplo, quando estacionavam o carro atrás da Bolsa, eu revi mentalmente o magnífico edifício da Bolsa, com o seu campanário formado pelas caudas entrelaçadas de quatro dragões.

domingo, fevereiro 01, 2009

Déjà vu (a influência dos genes?)


Há dias, quando estava a guardar uma pasta de documentos numa gaveta da cómoda do meu quarto, tive uma sensação de déjà vu. E o que vi foi uma outra cómoda, num outro quarto, igualmente repleta de coisas, desde a óbvia roupa a documentos e fotografias, tal com a minha está. Era uma cómoda antiga, pesada, alta (cerca de 1,50 m), de madeira pintada de tinta castanha num dos acessos de bricolage da minha avó. Estava no quarto do meu avô, e ele guardava ali de tudo um pouco. Lembro-mede como me deliciava bisbilhotá-la, desde o topo, onde se acumulavam resmas de livros de Camilo Castelo Branco em velhas edições, até às gavetas, onde descobri velhas escrituras de hortas e fotografias da minha mãe e tios em crianças. O quarto do meu avô - como aliás toda a casa dos meus avós - era uma inesgotável fonte de deliciosas descobertas quando eu era criança, desde a sala que só era aberta para as grandes ocasiões, como os jantares de Natal, até aos armários da cozinha ou às arcas do sótão.

O facto de os meus avós terem cada um o seu quarto parecia-me inicialmente justificado por viverem numa casa tão grande, só mais tarde me apercebi que era uma consequência da longa guerra que foram os seus 60 anos de casamento. A minha avó governava toda a acasa, e o meu avô vivia praticamente confinado ao seu quarto - o que não significava de modo algum que fosse a parte mais fraca, mas fora o equilíbrio a que tinham chegado. Por motivos diferentes, também eu tenho vivido confinado no meu quarto numa casa grande. E, tal como as coisas do meu avô estavam todas guardadas numa cómoda (aliás, eram duas, do mesmo género) no seu quarto, também as minhas estão numa, que embora bem diferente, comprada na moderna Ikea, acaba por cumprir as mesmas funções. E foi essa a sensação que tive no momento em que estava a guardar numa gaveta a pasta de documentos, junto ao carregador do telemóvel, ao passaporte e outras utilidades - é assim que a história se repete em diferentes gerações? São os meus módulos de gavetas da Ikea a nova versão da velha e pesada cómoda do meu avô? Um avô de que herdei outra característica - a de dormir de janela aberta todo o an, faça frio, chuva ou sol.

segunda-feira, janeiro 26, 2009

3 filmes

Outros três filmes que vi recentemente:

Os Três Macacos, de Nuri Bilge Ceylan - um filme duro e um bocado pesado, mas com uma boa história e muito bem filmado, visualmente muito belo, com uma excelente interpretação da actriz principal. Uma história banal que assume dimensões de grande dramatismo, dilemas morais e o sofrimento causado por situações sentidas e percebidas mas não expressas (o que suponho é a razão do título, uma alusão à imagem dos três macacos: um não vê, um não ouve e o terceiro não fala).


O Labirinto do Fauno, de Guillermo del Toro - um filme bonito sobre a infância e o refúgio na fantasia; o ambiente está muito bem criado, com a chuva persistente e a velha casa de província, com frinchas, portas rangentes e os raios de luz no pó da adega, que me fez lembrar muito a casa dos meus avós; gostei menos da estética da figura do fauno.


Sonhar com Xangai, de Wang Xiaoshuai - conheço muito pouco do cinema chinês, mas este filme deu-me vontade de conhecer mais. Suave e melancólico, o retrato de um quotidiano triste e duro, em que as pessoas aspiram a uma vida melhor que sentem que finalmente parece estar ao seu alcance, mas atingi-la não é fácil. Esteticamente é muito bonito, pareceu-me bem interpretado (na medida em que se pode avaliar, com uma língua tão diferente das que conheço) e com momentos de grande tensão dramática.

Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen

Mais um óptimo filme de Woody Allen, bem mais alegre que os últimos, um verdadeiro feel good movie. Woody Allen é sempre um mestre do diálogo e as histórias são sempre boas. Neste filme aborda de forma divertida e inteligente - como é seu hábito - um dos seus temas preferidos - a variedade e a loucura das relações humanas, sempre meio absurdas, mas como já dizia no final de Annie Hall, we still need the eggs! Os actores estão excelentes - Rebecca Hall é uma revelação, Scarlet Johansson mostra como tem talento quando é bem dirigida (ao contrário por exemplo do que acontece em The Black Dahlia) e Javier Bardem e Penélope Cruz estão soberbos, com um registo histriónico que cria um ambiente impagável de Woody Allen meets Almodóvar. Muito bom, e uma verdadeira injecção de boa disposiçao para a semana.

domingo, janeiro 25, 2009

1808, de Laurentino Gomes

Este livro do jornalista brasileiro Laurentino Gomes é uma boa obra de divulgação histórica: bem documentado, bem escrito, fácil de ler e muito interessante. As descrições das principais personagens - nomeadamente de D. João VI e de D. Carlota Joaquina - estão excelentes, tal como as da vida quotidiana e sociedade no Brasil e em Portugal, e uma série de detalhes curiosos tornam a leitura divertida. E trata-se de um período da História dos dois países de importância fundamental, e extremamente curioso pelo seu carácter único - a mudança de uma corte europeia, mesmo provinciana e beata como a portuguesa, para uma colónia tropical. Não deixa de ser um pouco deprimente reconhecer já há 200 anos uma série de defeitos tão tristemente portugueses - o provincianismo, a mesquinhez, a mediocridade - mas também se termina o livro com um respeito pela astúcia e política de D. João VI maior do que o que lhe é habitualmente prestado. Ao fim e ao cabo, escapou a Napoleão, conservou a coroa, rapou os cofres de Portugal à ida e os do Brasil à volta, e contribuiu para que o Brasil se tornasse uma nação unida e independente, o que afinal de contas não foi pouca coisa para um príncipe medroso e indeciso.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Under Pressure

Esta é a minha versão favorita de Under Pressure, dos Queen e David Bowie, que vi na transmissão do espectáculo de homenagem a Freddie Mercury, nos anos 90. Escolhi-a para estrear a publicação de videos no blog! Espero que resulte.

terça-feira, janeiro 20, 2009

Finalmente, Bush fora da presidência!


Descontando todos os exageros da obamania, hoje é um dia de optimismo, pela mudança que finalmente acontece nos Estados Unidos. Barack Obama não é um messias, mas pelo menos terminou a era Bush, e as coisas só podem melhorar. Não há soluções milagrosas nem simples para os problemas americanos e mundiais, mas seguramente hoje estamos melhor do que ontem. Boa sorte para Obama, que bem precisa, com a carga de expectativas a seu respeito, e para nós todos, que também já merecemos!

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Juliano

Terminei o primeiro volume de The History of the Decline and Fall of the Roman Empire, de Edward Gibbon, que há anos desejava ler, e que encomendei pela Amazon - essa tão útil loja virtual. São três volumes de mais de mil páginas cada, mas cada uma é uma delícia de ler, pela extrema elegância da escrita e, claro, pela história, que está incrivelmente bem narrada e detalhada. Compreende-se ao lê-la a imensa influência que este livro exerceu ao longo dos anos sobre toda uma intelligentsia europeia, entre a qual se destaca o grupo de Bloomsbury, através de cujos elementos primeiro ouvi falar dele e me deu vontade de o ler. Não só no estilo, elegante e racional, mas nas ideias e abordagem à história da Europa e do Cristianismo em particular. É verdadeiramente um livro excepcional. Nos últimos tempos, tenho lido algumas obras dos séculos XVIII-XIX, e tenho ficado algo impressionado com a sua erudição e extensão, expressa numa linguagem extremamente cuidada e agradável, em que a forma da escrita se torna o veículo ideal para dar prazer ao leitor, que no final de milhares (literalmente) de páginas fica com pena de estar a terminar. Depois lembro-me que estas obras eram o fruto de uma elite muito limitada, que dispunha de meios materiais e sobretudo de uma quantidade de tempo que nos é difícil imaginar hoje - um ritmo de vida tão radicalmente diferente do actual.

O final deste volume é dominado pela personagem de Juliano, o Apóstata, que é um imperador que sempre me fascinou. Li há muitos anos o romance Juliano, de Gore Vidal (o primeiro livro deste autor que li) que emprestei a alguém que não mo devolveu e que não pude por isso reler. Acredito em geral que personalidades isoladas não alteram significativamente o curso da História, mesmo tendo em conta os exemplos de Napoleão, de Júlio César ou de Hitler. Mas não deixa de ser curioso imaginar como teria sido a evolução do Cristianismo se Juliano tivesse vivido mais tempo; é de supor que a sua influência teria podido ser não inferior à de Constantino, mas em direcção oposta - pelo menos, as suas qualidades e carisma pessoal não eram seguramente menores. E o Cristianismo do século IV é particularmente irritante, com as suas estéreis e sangrentas querelas do homoousion e homoiousion, uma primeira premonição de tantas que se seguiriam - a questão das imagens, a Reforma e a Contra-Reforma, as Guerras da Religião em França, a Inquisição, etc... E a posição muito crítica de Gibbon em relação à religião cristã, sempre subentendida num discurso muito elegante e diplomático, tão característico do Iluminismo, é admirável.

Como exemplo da linguagem do livro, transcrevo um pequeno excerto (mas poderia ser qualquer outro, todo o livro é assim): "We shall conclude this chapter by a melancholy truth, which obtrudes itself on the reluctant mind; that even admitting, without hesitation or enquiry, all that history has recorded, or devotion has feigned, on the subject of martyrdoms, it must still be acknowledged, that the Christians, in the course of their intestine dissentions, have inflicted far greater severities on each other, than they had experienced from the zeal of infidels. [...] The church of Rome defended by violence the empire which she had acquired by fraud; a system of peace and benevolence was soon disgraced by proscriptions, wars, massacres, and the institution of the holy office. [...] If we are obliged to submit our belief to the authority of Grotius, it must be allowed, that the number of Protestants, who were executed in a single provinve and a single reign, far exceeded that of the primitive martyrs in the space of three centuries, and of the Roman empire."

domingo, janeiro 18, 2009

La Zizanie, ou a intemporalidade de Caius Detritus...


O ambiente do meu serviço, que era tão bom no início, tem-se deteriorado nos últimos anos, e de forma mais acelerada no´ano que passou, o que é uma pena. Progressivamente, as naturais diferenças de ideias, temperamentos e comportamentos entre os vários membros foram-se acentuando e tornando-se motivo de discórdias e conflitos cada vez mais frequentes, até que agora estamos praticamente agrupados em duas facções em guerra aberta, com um ou outro elemento oscilando entre uma e outra. Tal como no livro de Astérix A Zaragata, este clima foi precipitado pela entrada de um colega há alguns anos, o nosso candidato a Caius Detritus. Mas sinto-me relutante em atribuir-lhe todo o "mérito", ou mesmo a maior parte, já que, se o Detritus de Goscinny e Uderzo possui inteligência, espírito e alguma graça, o nosso é de uma avassaladora mediocridade em todos os aspectos, verdadeira fuinha rasteira, de modo que penso que actuou apenas como catalisador pela sua presença e comportamento, mas os responsáveis somos todos os outros.

Acho que o que aconteceu foi basicamente o efeito do tempo e de uma convivência prolongada. Com a idade, os nossos traços de carácter acentuam-se, e é frequente observarmos que o carácter de um velho é uma caricatura da sua personalidade em novo. Ainda não estamos assim tão velhos, mas isto exprime bem a ideia. Inseguranças acentuam-se e disfarçam-se com assertividades despropositadas, seguranças e convicções tomam o aspecto de arrogâncias, a intolerância e irritabilidade aumenta à medida que a paciência e a boa vontade diminuem. O nosso chefe, que cotinuo a admirar como profissional e que aprecio como pessoa, tem tido grande parte da responsabilidade, pelo seu gosto pelos mezzo-termine (essa excelente expressão que aprendi em Saint-Simon); o sempre nos ter deixado governar-nos a nós próprios e sermos muito autónomos foi para mim uma das suas melhores qualidades, mas obviamente resultava enquanto nos dávamos todos bem, ou pelo menos pacificamente.

De qualquer forma, continuo a gostar muito de parte dos meus colegas (felizmente, da maior parte), do meu trabalho, do serviço e do hospital. Acho que temos de ser menos conflituosos, no entanto, mesmo sendo eu uma das pessoas que menos paciência tem para ménager (outra expressiva palavra muito utilizada por Saint-Simon...) os adversários. Mea culpa? Um pouco, mais pourquoi ménager ceux qui ne me ménagent point? Enfim, isto é apenas um pequeno desabafo sobre uma questão que me tem atazanado ultimamente, em´fase de reorganização de serviço do início do ano.

E para terminar - o nosso Detritus é mesmo asqueroso!

quarta-feira, janeiro 14, 2009

O Açucareiro, de Naguib Mahfouz


O último volume da Trilogia do Cairo, de Naguib Mahfouz, cujo título é o nome de outro bairro do Cairo, neste caso es-Sukaryyia, termina a saga familiar iniciada em Entre os Dois Palácios. Gostei muito, embora o final me deixasse algo em suspenso, com vontade de que a história continuasse. O que é bom sinal, pois só me acontece com livros de que gosto bastante. Já falei da trilogia a propósito de O Palácio do Desejo, e a minha opinião mantém-se a mesma. Ler faz-nos de facto viajar por lugares e culturas, e é um dos maiores prazeres da vida.

terça-feira, janeiro 06, 2009

Eneida, de Virgílio


Há bastante tempo que procurava uma boa tradução da Eneida, e fiquei com mais vontade ainda depois de ler as traduções de Frederico Lourenço da Ilíada e da Odisseia. Encontrei finalmente uma tradução de Agostinho da Silva, num volume que inclui as Geórgicas e as Bucólicas (que ainda não li). Gostei muito; é um tipo de linguagem muito diferente, mais erudita e mais difícil, mas parece-me muito bom, na medida em que posso apreciar, já que nada sei de latim nem seria capaz de ler o original. Mas o tom e a linguagem evocam o género de epopeia como Os Lusíadas, denso e arcaico, adequado aos mitos de que fala. Desde a infância que a mitologia greco-romana me fascinou, e é bom poder continuar a descobri-la passados todos estes anos. É destes clássicos que descende a nossa literatura e cultura europeias, e como um verdadeiro clássico, não perde actualidade nem interesse com o tempo.

domingo, janeiro 04, 2009

Die Nibelungen, de Fritz Lang

Tal como com os livros, também com os filmes vale a pena ver os clássicos. Já há algum tempo que não via filmes mudos, e estes Die Nibelungen - A Morte de Siegfried e A Vingança de Kriemhild - foram uma verdadeira delícia. A característica dos verdadeiros clássicos é não perderem qualidade nem interesse com o tempo, e estes filmes cumprem-na perfeitamente, vêem-se com prazer mais de 80 anos depois da sua produção. Como em Metropolis ou Dr. Mabuse , Fritz Lang é um mestre da narrativa, "agarrando" o espectador do princípio ao fim. A história, um épico de violência e paixão, vale por si mesma, e presta-se a várias leituras a posteriori - as virtudes e a loucura germânicas, os presságios da loucura auto-destrutiva nazi da década seguinte (o filme é de 1924) - mas para mim o maior valor dos filmes é sem dúvida a estética. Cada plano é de uma beleza fascinante, desde as imagens de Siegfried na floresta, que parecem gravuras, até às imagens da implacável Kriemhild com uma magnífica coroa bárbara e um manto que parece desenhado por Klimt. Os décors são todos soberbos, desde a corte dos Burgundos ao castelo de Brunhild ou à corte bárbara de Attila, e mais uma vez, cada plano, com os motivos geométricos e a colocação das personagens, poderia ser um quadro. Verdadeiramente magnífico.


Gripe


Há uns 5 ou 6 anos que não tinha uma gripe, mas há duas semanas o vírus atacou-me e juntei-me aos números da tão falada epidemia. Já não me lembrava da sensação; como de costume, fui tomado nos primeiros dias por uma prostração e astenia intensas, e passei dois dias praticamente imóvel na cama, os processos físicos e mentais todos suspensos enquanto o sistema imunitário lutava contra o atacante a um nível subliminar. Depois, os dias de recuperação, ainda não completa, em que o mal estar e o cansaço se tornam irritantes e exasperantes por dominarem a nossa vontade. Mas aqueles dias iniciais, em que as forças desaparecem completamente, provocam uma estranha volúpia de incapacidade, um quase death wish, em que sabe bem abandonarmo-nos à fraqueza e ao oblívio. Raramente estou doente, e nunca tive nenhuma doença verdadeiramente grave, mas já houve algumas vezes em que me senti assim - gripes, uma laringite - e nessas alturas a morte parece doce e desejável. Já assisti incontáveis vezes a essa reacção em doentes internados, e acho que é um excelente mecanismo de defesa do corpo e da mente perante o fim - é como se se "desligasse", terminando o sofrimento e morrendo sem angústia. Claro que a minha doença foi apenas uma amostra, mas ajuda a compreender o que se sente nessas alturas. E não é uma má sensação.

domingo, dezembro 28, 2008

A Feiticeira de Florença, de Salman Rushdie

Quando, há cerca de 20 anos, li Os Filhos da Meia-Noite, foi amor à primeira vista; durante anos esperava ansiosamente cada novo livro de Salman Rushdie e, embora gostasse mais de uns do que de outros, senti as minhas expectativas geralmente satisfeitas, até O Chão Que Ela Pisa me ter parecido muito desinteressante. Depois desse, não gostei de Fúria, e Shalimar o Palhaço , recuperando algum vigor, estava muito longe de Rushdie no seu melhor. Assim, foi com um misto de curiosidade e de receio que comecei a ler A Feiticeira de Florença – seria o regresso do meu encantamento por Rushdie ou mais um desencanto? Termos tanto mais apropriados num livro cujo título original é The Enchantress of Florence, e cuja narrativa é feita à moda dos antigos contos das Mil e Uma Noites, desenvolvendo-se lentamente a partir de belas frases repletas de pormenores evocando luz, cor, sensações, riquezas e belezas fabulosas de uma Índia Mogol e de uma Florença renascentista não menos maravilhosa.

Como nos contos das Mil e Uma Noites, que frequentemente começam insidiosamente e de súbito nos mergulham num turbilhão de peripécias, fui lendo capítulo após capítulo à espera desse momento de encantamento. Quando dei por mim a preferir pegar num número de uma revista médica (que nem sequer era o meu bem-amado New England Journal of Medicine!) em vez de no romance de Salman Rushdie, e reparei que este já ia a mais de um terço, resignei-me à ideia de que esse momento não chegaria – como não chegou.

Não é o que o livro seja mau, é simplesmente médio, e um bocado maçador. Os livros de Salman Rushdie utilizam geralmente uma história para expor / criticar uma situação – a Índia dos anos 60-70 em Os Filhos da Meia-Noite, o Paquistão em Vergonha, o fundamentalismo islâmico e o Irão em Os Versículos Satânicos e Harun e o Mar de Histórias, a Caxemira e o novo terrorismo em Shalimar, por exemplo. Mas havia sempre duas características: a história e as personagens eram interessantes e fortes por si próprias, sem um didactismo óbvio, e havia sempre algo de orgânico, visceral, no tom da sua escrita, mesmo em livros de que gostei pouco com Fúria ou O Chão Que Ela Pisa. Neste A Feiticeira de Florença, a história é chocha, as personagens quase todas simultaneamente caricaturais e vagas, os “toques” de "realismo fantástico" parecem pinceladas aqui e ali para dar “pitoresco”, e a sensação geral com que se fica é de aborrecimento. É certo que a intenção de fundo é “boa”, no sentido em que as ideias sobre a tolerância e a religião expressas pela personagem de Akbar são dignas de ser expostas e defendidas (como nestas passagens: "Se nunca tivesse havido um Deus, pensou o imperador, poderia ser mais fácil entender o que era o bem. Esta questão do culto, da renúncia a si próprio peranto o Todo-Poderoso, era uma distracção, uma falsa pista. Onde quer que o bem estivesse, não era na obediência ritual, irracional, perante uma divindade, mas sim, talvez, na descoberta lenta, desajeitada e juncada de erros de um caminho individual ou colectivo." ou "O futuro não seria aquilo que ele esperara, mas sim um lugar seco, hostil, antagonista, onde as pessoas sobreviveriam o melhor que podiam, odiariam os vizinhos, esmagariam os seus lugares de culto e voltariam a matar-se umas às outras no renovado calor da grande disputa a que ele procurara pôr termo para sempre, a disputa acerca de Deus. No futuro era a aridez, e não a civilização, que reinaria."), mas sabe francamente a pouco. Ainda tenho de esperar mais uns anos para voltar a ser “agarrado” por um livro de Rushdie.

sábado, dezembro 13, 2008

Separation




Your absence has gone through me
Like thread through a needle.
Everything I do is stitched with its color.


(Um poema que me tocou particularmente, conciso e elegante como um haiku. Não conhecia William S. Merwin, o autor, descobri-o no site Poem of the Week. Lindo.)

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Paul of Dune, de Brian Herbert e Kevin J. Anderson

Descobri o universo de Dune relativamente tarde, quando o meu entusiasmo juvenil pela ficção científica estava já em declínio. Mais exactamente, foi através do filme de David Lynch, que vi salvo erro num ciclo de cinema da Gulbenkian, em 1984 ou 1985. Gostei da história e do ambiente do filme, de modo que depois li o livro; talvez porque o li depois de ver o filme, acho este uma adaptação muito boa, e sempre fiquei a imaginar o universo e as personagens de Dune com as imagens do filme - os cenários, os vermes, as indumentárias Fremen; e as personagens de Paul, Jessica, Gaius Helen Mohiam ou Irulan sempre terão na minha cabeça os rostos de Kyle MacLachlan, Francesca Annis, Sian Phillips e Virginia Madsen. Como gosto sempre de conhecer o seguimento das histórias que aprecio, fui encomendando e lendo nos anos seguintes os outros livros da saga - estupidamente esqueci-me do último, que nunca cheguei a ler (também sinal de que o interesse foi esmorecendo).

Há algumas semanas - muitos anos depois de ter lido Heretics of Dune, o último volume da série que li - quando, tomado por um apetite de ficção, fui à Fnac comprar livros, deparei na prateleira dos paperbacks em língua inglesa com este Paul of Dune, um dos vários livros acrescentados à série pelo filho de Frank Herbert com a colaboração de Kevin J. Anderson (este último, pelo que percebi, escreve livros baseados em outras séries, como a de Star Wars); tive curiosidade de mergulhar novamente no universo de Dune e nas aventuras de Paul Atreides e comprei-o.

Não fiquei decepcionado; é um livro de aventuras bem estruturado, que segue fielmente o universo criado por Frank Herbert. O meu interesse pela série tinha esmorecido em grande parte porque achei - e ainda acho - que a certa altura o autor complicara demasiado as histórias e começara a repetir-se de alguma forma, levando-se demasiado a sério, ou seja, sendo demasiado ambicioso no simbolismo e grandiosidade, ultrapassando largamente a sua capacidade (lembro-me de pensar, quando lia Heretics of Dune: "mas será que estas personagens não conseguem falar ou pensar sem ser como se estivessem a citar Shakespeare ou tratados de Filosofia?"). Isso não diminui, no entanto, a excelência do primeiro livro, Dune, nem o mérito de ter criado um verdadeiro universo ficcional de imensa riqueza, desde a ecologia à linguística; como li algures, F. Herbert está para a ficção científica como Tolkien para a fantasia.

Acho que ainda vou colmatar o meu esquecimento de Chapterhouse: Dune e talvez ler outros acrescentos de Brian Herbert e Kevin Anderson, que isto de leituras, como dizia alguém que me era muito próximo, não é só ler Kafka!

domingo, dezembro 07, 2008

Copenhaga



Há férias que nos deixam uma impressão particularmente forte de felicidade, por vezes sem nenhuma razão especial. Esta curta viagem a Copenhaga foi uma delas; apesar de se tratar de um sítio completamente diferente, senti-me tão feliz como na luminosa Granada. Penso que foi uma conjuntura de diversos factores particularmente afortunada - a cidade muito bonita na suave luz outonal, o frio cortante mas limpo e revigorante, o ambiente civilizado e acolhedor, a companhia (claro!)...

Nunca tinha estado em nenhum país escandinavo, e foi uma agradável surpresa. Esperava talvez que tudo fosse demasiado arranjadinho, mas o que me ficou foi uma impressão de civilização no seu melhor sentido e de grande qualidade de vida, uma população socialmente muito homogénea, um sítio onde deve ser agradável viver, mesmo com o frio e a falta de luz no Inverno.

Gostei da arquitectura sóbria mas colorida, dos velhos edifícios em tijolo vermelho, dos barcos ao longo dos cais, das esplanadas com mantas para aquecer as pernas, das bancas com os enfeites de Natal, do cheiro a amêndoas torradas e a especiarias, das velas por todo o lado (não admira que tenha havido tantos incêndios em Copenhaga ao longo dos séculos...), dos campanários das igrejas, da combinação de linhas e cores dos telhados vermelhor, pretos e verdes vistos do cimo da Rundtärn. A língua é feia e difícil de compreender, mas a palavra hygge vai sempre ficar-me na memória como traduzindo um conceito muito especial que senti durante a estadia.

Até me soube bem ir ao Tivoli - eu, que sempre detestei parques de diversões - pela beleza das iluminações e das bancas de Natal. Um passeio a Christiania deprimiu-me - um ar tão decadente, desleixado e desconfortável; que estranhas são as pessoas que vivem numa cidade tão agradável e criam voluntariamente para si uma espécie de bairro da lata. E provavelmente quando estiverem doentes ou verdadeiramente indigentes, saem de lá e beneficiam dos sistemas sociais "burgueses". Ainda fui uma tarde a Malmö, um passeio prejudicado pela chuva - a Suécia foi-me menos hospitaleira - e gostei bastante menos do que de Copenhaga, embora também tivesse umas belas praças. De qualquer forma, fiquei com vontade de visitar Estocolmo e a Noruega.

Pois é, viajar é um dos maiores prazeres da vida, e permite-nos a experiência de passar de sítios como Marraquexe para outros como Copenhaga.