quinta-feira, fevereiro 24, 2011

Another Year, de Mike Leigh

Um filme muito bom de Mike Leigh - forte e emotivo, sobre a solidão e a felicidade do quotidiano, mostrados através do contraste entre a vida simples e realizada de uma família feliz e os seus amigos solitários e disfuncionais. E consegue fazê-lo sem lamechices nem moralismos. Os actores estão excelentes.

Beyond Sleep, de Willem Frederik Hermans

Este foi um dos livros de autores holandeses que não conhecia e que comprei em Amesterdão. Gostei muito - muito bem escrito, num tom irónico e corrosivo, consegue criar de forma extremamente vívida a personalidade do narrador, com quem, mau-grado as suas ideias preconcebidas e a mentalidade crescentemente paranóica, não conseguimos deixar de empatizar e simpatizar, tanto mais quanto mais alienado se torna. O tom é propositadamente casual e simples, reforçando assim a construção da personagem e as descrições das suas desventuras e da Natureza aparentemente idílica mas implacavelmente hostil onde se move. E, em jeito de tragicomédia, o autor trata de forma profunda o tema da ambição intelectual e do medo e frustração da mediocridade, tecendo de passagem uma crítica mordaz às instituições académicas e à crítica literária. Muito bom.

domingo, fevereiro 20, 2011

You Will Meet a Tall Dark Stranger, de Woody Allen

Mais um filme "menor" de Woody Allen, no género dos que tem realizado regularmente nos últimos anos. Como habitualmente, mesmo os filmes "menores" de Woody Allen são agradáveis de ver, engraçados e irónicos. A história, mais uma vez, é engenhosa e foca os temas que lhe são caros - o sentido (ou ausência dele) da vida, as consequências mais ou menos inesperadas das nossas escolhas, o absurdo da existência e o seu fascínio. Continua um mestre do diálogo, e os actores são bem escolhidos - neste filme, realce para Gemma Jones e Pauline Collins, que estão uma delícia.

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Museu do Oriente



No último fim-de-semana, visitei finalmente o Museu do Oriente. Gostei bastante; a colecção não é uma grande mas parece-me bastante boa. Gostei particularmente das peças japonesas e de Timor-Leste (estas muito poucas mas muito interessantes); as imagens dos biombos japoneses, os desenhos chineses, os inúmeros deuses e cenas mitológicas indianas mereciam mais tempo para descobrir e apreciar detalhes. Em relação à exposição em si, achei a iluminação demasiado fraca e algumas obras, como os biombos, mereciam um espaço maior para serem mais bem apreciadas. Nas exposições temporárias, gostei muito dos desenhos de Graça Morais.

Bons complementos da exposição, e que ajudam a atrair público, são o restaurante com vista sobre a doca, onde se come bem e que não é caro, e a loja do museu. E sabe bem fazer turismo em Lisboa de vez em quando.

Ficam algumas imagens das peças de que mais gostei.







Black Swan, de Darren Aronofsky

Um bom filme, que vale sobretudo pela excelente interpretação de Natalie Portman, pela beleza de várias sequências, muito bem filmadas, pela música e por um certo ambiente claustrofóbico. Achei no entanto o argumento um tanto simplista e previsível, de uma “psicologia” demasiado óbvia, um cruzamento de Showgirls de Paul Verhoeven com Repulsion de Roman Polanski.

quinta-feira, janeiro 27, 2011

The Story of a Marriage, de Andrew Sean Greer

Um livro interessante, de um autor americano relativamente jovem que não conhecia. A história está bem contada, o ambiente dos anos 50 muito bem recriado - fez-me lembrar o filme Far From Heaven, de Todd Haynes. Está muito bem escrito, nomeadamente os vários volte-faces (twists) da narrativa, que reflectem os erros que as personagens vão fazendo ao longo da história sobre as intenções e sentimentos umas das outras.

domingo, janeiro 16, 2011

Dois livros melancólicos

Por coincidência, dois amigos que não se conhecem falaram-me, com um dia de intervalo, do mesmo livro, Night Train to Lisbon, do autor suiço Pascal Mercier, e um deles emprestou-mo. É um bom romance, de um tom melancólico repassado de nostalgia, que inicialmente me lembrou os livros de Carlos Ruiz Zafon, mas bastante melhor. Trata da nostalgia pelas oportunidades perdidas, pelo que "podia ter sido", e do que significa verdeiramente o sentirmo-nos realizados com a vida. O facto da viagem emocional e física do protagonista ter lugar em Lisboa torna o livro particularmente interessante para nós, portugueses, já que é sempre curioso ler como pessoas de outras nacionalidades nos vêem. De certa forma, essa torna-se também a maior fraqueza do livro, pois as personagens e os ambientes recriados não "soam" nada portugueses. Mas é um livro interessante e agradável de ler.

The Twin, de Gerbrand Bakker, foi um dos livros de autores holandeses que comprei em Amesterdão. Gostei bastante - mais uma vez, o tom é melancólico mas afectuoso, e o trata igualmente da nostalgia por uma vida diferente, do que nos faz escolher a vida que levamos e dos catalisadores que nos provocam o desejo e nos fazem descobrir a capacidade de a mudar.

domingo, janeiro 09, 2011

Prosperity Without Growth, de Tim Jackson

Um excelente livro, cuja leitura é extremamente apropriada nos tempos que correm. Há muito que me interrogava sobre se o crescimento económico é indispensável ao bem estar humano; intuitivamente achava que não, mas não tenho os conhecimentos necessários para responder à questão do ponto de vista da economia sustentável. Fiquei satisfeito por saber que tinha razão - pelo menos na óptica de Tim Jackson, mas sempre é alguém com melhores credenciais económicas do que eu. Não concordo com tudo o o autor diz no livro, e tenho algumas dúvidas sobre algumas das contas (tanto as económicas, sendo a Economia uma ciência tão imprecisa, como as ecológicas, sendo a Ecologia ainda mais imprevisível), mas trata-se de detalhes e estou 100% de acordo com a mensagem (e a tese) do livro. Esta pode ser resumida na passagem: "Prosperity consists in our ability to flourish as human beings - within the ecological limits of a finite planet. The challenge for our society is to create the conditions under which this is possible. It is the most urgent task of our times."

Quanto às soluções, se algumas das ideias me parecem um tanto irrealistas, mais uma vez estou de acordo com a orientação geral: "1) establishing the limits, 2) fixing the economic model, 3) changing the social logic". Sobretudo a parte de acabar com a lógica da sociedade de consumo, que nos fecha naquilo a que Jackson chama "the iron cage of consummerism", e que só pode ser uma receita para o desastre e a infelicidade. E concordo que nesse ponto - como aliás nos outros - a influência dos governos - através de políticas, incentivos, investimentos, publicidade, etc - é fundamental. E já agora a de uma sociedade civil mais educada (estou a pensar nas classes médias e altas da sociedade ocidental) que, em vez de comodamente continuarem a alimentar os valores da sociedade de consumo deveriam questioná-los e alterar o seu comportamento em conformidade, com isso influenciando não só a educação e formação das gerações seguintes como enviando diferentes sinais ao resto do mundo que a vê como modelo / objectivo a atingir. Infelizmente, não é fácil que a maioria das pessoas se aperceba disto. Tal como não me parece que a crise financeira de 2008, que o autor esperava ser uma oportunidade para mudar os dogmas económicos que têm regido os governos nas últimas décadas, tenha funcionado dessa forma. De qualquer forma, um livro muito importante e com muita matéria para fazer pensar.

sexta-feira, dezembro 31, 2010

Postwar, de Tony Judt

Da primeira à última página, um livro soberbo. Uma excelente história da Europa desde o fim da 2ª Guerra Mundial até 2004, apresentando uma visão de conjunto (Europa Ocidental e Oriental), descrevendo e analisando os acontecimentos de forma lúcida e sensata, fazendo-nos compreender os mundo em que vivemos e a essência da nossa civilização. Além disso, uma escrita de uma elegância, clareza e espírito que nada deixa a desejar em relação à escrita das biografias de Lytton Strachey ou dos ensaios de Virginia Woolf ou mesmo da história de Gibbon, o que não é pequeno elogio. Uma verdadeira obra-prima. Tenho lido artigos de Judt na New York Review of Books, sempre com prazer, e ler esta sua obra major foi uma delícia.

domingo, dezembro 26, 2010

City Boy, de Edmund White

City Boy é uma memória inteligente e bem escrita de uma certa Nova Iorque nos anos 60 e 70, da vida boémia do período de libertação sexual (liberdade e libertinagem) que se seguiu ao conservadorismo dos anos 50 e precedeu a epidemia de SIDA nos anos 80. White, que viveu intensamente essa época, descreve-a com franqueza e sem moralismos, com uma certa nostalgia mas também com espírito crítico e humor. Evocando os hábitos e aventuras sexuais a par do seu desenvolvimento como escritor e dos seus contactos com o mundo artístico e literário do tempo, o livro está recheado de pequenos retratos de pessoas conhecidas (como Susan Sontag, Robert Mapplethorpe, James Merrill, Jasper Johns, Peggy Gugenheim) e muitas outras menos conhecidas, cujo conjunto reconstitui um ambiente de forma extremamente vívida, o que é o que torna mais interessante a leitura de memórias. Li pouco de Edmund White (gostei muito de um livro de contos, Esfolado Vivo, e pouco do seu famoso A Boy's Own Story), mas este livro deixou-me mais interessado em ler mais alguma coisa dele. E também tenho vontade de ler a memória de Patti Smith publicada este ano.

O Idiota, de Fiódor Dostoievski

É sempre um imenso prazer ler Dostoievski, e O Idiota é um dos seus grandes livros - e não só no tamanho. Tratando de muitos dos temas habituais no autor - o conflito entre o bem e o mal, a política e a religião, a hipocrisia e a franqueza, a procura da "verdadeira alma russa", os impulsos inconscientes -, o prazer da leitura deriva sobretudo da força da escrita. As personagens fortes, atormentadas e contraditórias, as cenas exaltadas e tempestuosas, os episódios humorísticos, as esplêndidas descrições das interrogações das personagens, mesmo as descrições das crises de epilepsia de Michkin. Não admira a enorme influência que teve sobre os escritores das primeiras décadas do século XX. Tenho estado a reler os seus livros, e estou ansioso por chegar a Os Possessos, de que tanto gostei há muitos anos, foi o livro que me fez apaixonar pela sua escrita.

quarta-feira, dezembro 22, 2010

A History of Reading, de Alberto Manguel

Um livro muito interessante e agradável, que me ofereceram nos meus anos. Um bom título alternativo seria The Joys of Reading, pois é sobretudo disso que trata. O autor é evidentemente um leitor apaixonado, e analisa o modo de ler e a influência da leitura através dos tempos, sem uma ordem cronológica estrita, citando múltiplos autores de várias culturas, abordando temas como a importância da leitura no desenvolvimento e libertação do espírito, a importância das traduções, as literaturas "de género", a leitura como instrumento de aprendizagem ou de puro prazer. Esse prazer da leitura é particularmente bem expresso nesta passagem:

We read to find the end, for the story's sake. We read not to reach it, for the sake of the reading itself. We read searchingly, like trackers, oblivious of our surroundings. We read distractedly, skipping pages. We read contemptuously, admiringly, negligently, angrily, passionately, enviously, longingly. We read in gusts of sudden pleasure, without knowing what brought the pleasure along. "What in the world is this emotion?" asks Rebecca West after reading King Lear. "What is the bearing of supremely great works of art on my life which makes me feel so glad?" We don't know: we read ignorantly. We read in slow, long motions, as if drifting in space, weightless. We read full of prejudice, malignantly. We read generously, making excuses for the text, filling gaps, mending faults. And sometimes, when the stars are kind, we read with an intake of breath, with a shudder, as if someone or something had "walked over our grave", as if a memory had suddenly been rescued from a place deep within us - the recognition of something we never knew was there, or of something we vaguely felt as a flicker or a shadow, whose ghostly form rises and passes back into us before we can see what it is, leaving us older and wiser.


Como leitor apaixonado que também sempre fui (há quem me chame "papa-livros"...) sinto-me imensamente identificado com isto.

E não consigo deixar de transcrever uma citação de Virginia Woolf, que já lera no texto original (um ensaio em The Common Reader), e que já então me deliciara:

I have sometimes dreamt that when the Day of Judgement dawns and the great conquerors and lawyers and statesmen come to receive their rewards - their crowns, their laurels, their names carved indelibly upon imperishable marble - the Almighty will turn to Peter and will say, not without a certain envy when He sees us coming with our books under our arms, 'Look, they need no reward. We have nothing to give them. They have loved reading'.

domingo, dezembro 12, 2010

Fim-de-semana em Amesterdão



Aproveitei uma folga de banco para uma curta viagem a Amesterdão, que ainda não conhecia. Soube-me muito bem - é uma cidade muito agradável, bonita e com um ambiente descontraído, muito turística e cosmopolita.



O tempo estava muito frio, o que foi bom, já que em vez de chuva tive neve em abundância, e no último dia a temperatura subiu, permitindo ver a cidade numa luz mais clara e derretendo a neve - o que tornou andar pelas ruas escorregadias algo perigoso, mas consegui não cair nunca (não admira que usassem tanto tamancos!).



O centro da cidade é relativamente pequeno, pelo que pude andar sempre a pé, que é a minha forma preferida de conhecer uma cidade. A neve obrigou-me a comprar um boné e um chapéu-de-chuva, e a entrar em lojas e cafés de 10 em 10 minutos, mas valeu a pena pela beleza tão diferente do que alguma vez vemos em Lisboa. E há imensos cafés muito simpáticos, onde nos podemos recompor com capuccinos ou vinho aquecido...



Gostei particularmente da arquitectura tradicional, as fachadas ao longo dos canais, todas parecidas mas subtilmente diferentes, e algumas bizarramente tortas, com um aspecto quase saído do filme Dr. Caligari.



Apesar da neve, a cidade estava bastante animada e cheia de turistas - e felizmente com poucas bicicletas a circular. O tão famoso Red Light District atrai os previsíveis turistas barulhentos, e as raparigas das montras eram bonitas, mas o tipo de exposição é degradante - não é seguramente uma característica de Amesterdão que me atraia.



Last but not least, gostei imenso do Museu Van Gogh e do Rijksmuseum (este reduzido às obras principais devido a obras), e tive muita pena de não poder ver o Stedelijk, cuja colecção está fechada também por obras - aliás, havia imensas obras por todo o lado.



Brasileiras confusas



Outro dia, em conversa com um amigo a propósito de indecisões, recordámos uma personagem da telenovela O Casarão, aliás a melhor que me lembro de ter visto; Lina, interpretada por Renata Sorrah, que era uma mulher "moderna" e que passava grande parte do tempo dizendo "estou tão confusa...".

Por associação de ideias, lembrei-me de outras manifestações de confusão de mulheres brasileiras, e achei que é uma injustiça a arte poética dessa grande actriz que era (é?, nunca mais ouvi falar dela) Bruna Lombardi, pelo que aqui publico esta pérola literária da sua autoria:

Eu não sabia o que fazer, e abri a blusa.
Mais tarde eu ia dizer: foi sem pensar.
Ele me achou desnorteada, confusa,
Como acharia qualquer mulher que abre a blusa
E faz tudo que eu fiz só pra agradar.

Minha cabeca não era mesmo muito certa.
Mulher esperta eu nunca fui, mas deveria
Saber me colocar no meu lugar.
Não adiantava nada, eu era assim desatinada,
O tipo de mulher que faz as coisas sem pensar...

Você agora, me ouvindo contar essas histórias,
Talvez me ache também um pouco confusa.
E eu, que faco tudo pra agradar,
Já sem saber o que fazer, abro minha blusa,
Como faria qualquer mulher confusa em meu lugar!

Mas a confusão feminina brasileira vem de longe, como o prova esta outra pequena jóia poética de Cecília Meireles (que pode assim ser considerada uma precursora da bela Bruna), que recordo dos livros de Português dos tempos de escola:

Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo!


terça-feira, novembro 09, 2010

Istambul - Memórias de uma Cidade, de Orhan Pamuk

Mais um livro sobre Istambul, desta vez de Orhan Pamuk, de quem já li O Meu Nome é Vermelho e Neve. Gostei muito - o autor insere as suas memórias pessoais de natural de Istambul com a história da própria cidade, apresentada numa série de pequenos episódios, histórias, pontos de vista de estrangeiros e de escritores nativos, profusamente ilustrada com velhas fotografias a preto e branco e gravuras do século XIX. Istambul é-nos assim descrita como um puzzle, um mosaico, em que o elemento principal é uma tristeza / nostalgia do glorioso passado imperial otomano perdido, de um desejo de ocidentalização sobreposto a uma cultura extremamente rica e original mas decadente, simbolizada pelas yalis e konaks, as velhas mansões de madeira otomanas, que vão desaparecendo em incêndios. Essa tristeza / nostalgia istambulense, hüzün, permeia todo o livro, tal como o amor pela cidade e os contrastes que a definem. Talvez para um habitante de Lisboa, uma cidade também assombrada por um passado glorioso perdido, embora mais longínquo, seja mais fácil compreender a essência do hüzün. Estou satisfeito por ter deixado a leitura deste livro para depois de ter visitado Istambul e visto as ruas de Fener e as casas de madeira arruinadas - as que restam. Muito bom.

segunda-feira, novembro 08, 2010

I Claudius - a série da BBC



Vi esta série da BBC aos 13 anos, ainda na televisão a preto e branco, e foi na altura uma revelação - fiquei fascinado, o mundo romano, que até então conhecia dos livros do Astérix e dos volumes de uma história universal para crianças, ganhou de repente vida, naquela história cheia de intriga, excessos, violência. Li o livro de Robert Graves assim que foi publicado pela Bertrand, depois os 12 Césares de Suetónio que estava na biblioteca do meu pai, muito mais tarde os Anais de Tácito e a História Augusta, entre muitos outros livros e filmes sobre a época romana. Nunca mais tinha visto a série, até agora a rever em dvd. Em alguns aspectos envelheceu um pouco - toda filmada em estúdio, a técnica da caracterização evoluiu imenso desde então, mas globalmente continua excelente. O livro está muito bem adaptado, a série conserva a combinação de humor e horror que torna o livro de Graves tão cativante, e as interpretações, se bem que por vezes um tanto teatrais, são no conjunto soberbas: Derek Jacobi como Cláudio, Siân Phillips como Lívia, John Hurt como Calígula, Patrick Stewart como Sejano, etc. É sempre um prazer rever esta série, é de facto excelente.

sexta-feira, novembro 05, 2010

Aziyadé, de Pierre Loti

Nunca tinha lido de Pierre Loti, mas fiquei com vontade de o fazer, depois de ter estado no Café Pierre Loti em Istambul, de modo que procurei no inesgotável gutenberg project e li online o livrinho Aziyadé, de 1879, sobre a sua estadia nessa cidade. É um texto agradável, de um orientalismo muito à século XIX, repassado de uma nostalgia sensual, e que é engraçado ler conhecendo os lugares evocados - Eyüp, os cemitérios, o Bósforo, o bairro de Pera (actual Beyoglu), Fener, o Corno de Ouro - e imaginá-los no final do período otomano, quando o Império, já em plena decadência, era o sick man of Europe.

domingo, outubro 31, 2010

The Turks Today, de Andrew Mango

Um livro muito bom, de leitura fácil e agradável, e que ajuda muito a compreender o estado actual da Turquia. O autor defende a integração europeia da Turquia, e fá-lo extremamente bem - eu, que sempre fui contra a entrada da Turquia na UE, sinto-me muito menos seguro dessa opinião no final da leitura. Sem dúvida, o conhecimento e a abertura de espírito fazem muito mais pelo progresso e a paz do que os preconceitos e a ignorância... Sobre o revivalismo islâmico, que é o factor que mais nos assusta na Turquia actual, o autor apresenta logo de início uma visão que pretende ser tranquilizadoramente desdramatizante: "The «Sunni renaissance» accompanies and is partly a reaction to the continuing organic secularization of Turkish society, just as Victorian piety developed in counterpoint to the secularization of British society. As in Britain after the industrial revolution, the revival of piety is easing the pain and discomforts of Turkey's modernization. The phenomenon is, arguably, not a sign of a coming clash of civilizations, but a commmon feature in the development of our universal civilization." Será? Há outros factores em jogo, como a situação nos outros países do Médio Oriente e os problemas de (não) integração das minorias islâmicas na Europa (geralmente oriundas de meios rurais, e portanto representativas dos sectores mais atrasados dos seus países). Depois de andar pelos bairros de Besiktas e mesmo de Üsküdar em Istambul, é difícil não ter uma visão mais optimista do futuro civilizacional da Turquia. Enfim, veremos. Mas concordo que o interesse da Europa está mais em aproximar-se da Turquia do que em repeli-la.

domingo, outubro 17, 2010

5 Dias em Istambul

Istambul revelou-se uma agradável surpresa - apesar da muita vontade de visitar os vestígios da antiga Constantinopla e de conhecer os monumentos da capital otomana, a ideia de multidões, trânsito caótico, revivalismo islâmico e vendedores insistentes, desanimava-me bastante.



Chegado à cidade com estas reservas, rapidamente as perdi. No trajecto do aeroporto até ao hotel em Sultanahmet, encontrei-me numa paisagem urbana praticamente igual à dos arredores de Lisboa, e a visão do Mar de Mármara com numerosos barcos era-me completamente familiar. Ficámos num hotel muito central em Sultanahmet, no coração da velha Constantinopla. É a zona mais bonita da cidade, repleta de mesquitas, velhas casas, cafés e restaurantes, lojas e turistas. Depois de um passeio ao acaso pelas ruas para ter uma ideia do ambiente - semelhante ao de qualquer grande cidade turística, com algumas características particulares à cultura local - e de experimentar um sumo de romã dos vendedores de rua e o primeiro chá de maçã (elma çay, delicioso) num dos muitos cafés de mesinhas baixas e almofadas turcas, começámos por visitar um dos monumentos que mais vontade tinha de conhecer: Santa Sofia.



Visitar Santa Sofia, para um amante de História como eu, depois de ler Gibbon, é um sonho tornado realidade, e não me decepcionou minimamente. Não só a estrutura arquitectónica é bela e impressionante - não por acaso serviu de modelo a todas as grandes mesquitas da cidade - como a vastidão do interior é impressionante ainda hoje, 15 séculos depois da sua construção.



Depois de Santa Sofia, visitámos a Basílica Cisterna, uma vasta floresta de colunas romanas com um ambiente mágico. Seguiu-se o palácio Topkapi, onde se entra depois de passar a Sublime Porta (mais uma vez, quantos ecos históricos!). O tão celebrado tesouro, com as suas sumptuosas peças de joalharia e os montes de esmeraldas do tamanho de ameixas impressionou-me menos do que a graciosidade e conforto dos pavilhões e das salas do Harém, com os seus painéis de azulejos e divãs forrados de tapetes turcos, e as primeiras vistas sobre o Bósforo, o Corno de Ouro e o bairro de Beyoglu.



A Mesquita Azul foi a primeira em que entrei. O exterior é belíssimo, com as suas cúpulas sobrepostas, o interior é grandioso e magnificamente decorado com azulejos; a vastidão do espaço disponível para os homens contrasta com a espécie de armário ao longo da parede fechado por painéis de madeira perfurada destinado às mulheres - testemunho de como o lugar das mulheres na religião islâmica se mantém subalterno e pouco dignificado.



O colorido e animado cais de Eminönü, junto à ponte de Galata que atravessa o Corno de Ouro ligando Sultanahmet a Beyoglu (a antiga Pera), é de onde saem os numerosos ferries, invejáveis para quem, como eu, está habituado aos dilapidados barcos da Transtejo. Vendedores de castanhas, de maçarocas de milho, de sanduíches de peixe, homens apregoando os cruzeiros no Bósforo, multidões de citadinos e turistas. Ao lado, a Mesquita Nova (fim do século XVI), e o espectacular Bazar das Especiarias, com a sua abundância de frutos secos, doces, cafés, lâmpadas, almofadas e, claro, especiarias, e a agradável surpresa de, ao contrário das melgas marroquinas, os vendedores turcos nada insistentes, simpáticos e com sentido de humor. Uma verdadeira orgia de cores e cheiros.




Percorremos a Istiqlal Caddesi, uma espécie de Oxford Street em Beyoglu, entrando nas livrarias (onde comprei alguns livros de autores turcos aconselhados pelo empregado) e parando para mais um çay num café onde um homem preparava o café à moda turca, até à Praça Taksim, uma espécie de Martim Moniz hipertrofiado. Uma viagem de metro levou-nos ao distrito financeiro de Levant, uma zona ocidentalizada e incaracterística de arranha-céus e um grande centro comercial moderno onde se entra passando por um detector de metais semelhante aos dos aeroportos - a polícia turca leva a segurança muito a sério, provavelmente em parte devido aos países vizinhos, que incluem o Irão, o Iraque, a Síria, a Geórgia e a Arménia.



Subimos o Corno de Ouro até Eyüp, uma zona sossegada de casas tradicionais e cemitérios à volta de uma mesquita dedicada ao túmulo do porta-estandarte de Maomé. As orações de sexta-feira atraíam multidões de muçulmanos, com tapetes estendidos no pátio da mesquita ampliando o recinto religioso, as mulheres todas de lenço islâmico e muitas de niqab. Um teleférico levou-nos até ao cimo da colina, onde fica o café Pierre Loti, com um interior de divãs e mesinhas baixas e um terraço com uma vista magnífica sobre o Corno de Ouro.


a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"

Fener, o antigo bairro dos cristãos ortodoxos e
judeus, é uma zona sossegada e pobre, com um aspecto quase rural, com galinhas, cordas de roupa estendida, velhas casas de madeira belíssimas a cair de abandono, crianças empreendedoras que nos conduziram à igreja bizantina de Pamakaristos em troca de algumas liras - bem o mereceram, já que eram as pessoas mais bem informadas e com um inglês mais perceptível que ali encontrámos. O bairro de Fatih, onde se concentra a população mais devota e conservadora da cidade, é um pouco opressivo - todas as mulheres veladas, quase todas de niqab, os homens de turbantes, as lojas vendendo os negros chadors e niqabs ou livros de orações e propaganda islâmica.




Depois de Fatih, novamente a animação cosmopolita da zona do Grande Bazar. A mesquita Suleymania estava fechada para obras, só pudemos visitar os magníficos túmulos de Suleimão o Magnífico e da sua consorte Roxelana, uma espécie de Lívia otomana. O labirinto do Grande Bazar, com os seus milhares de lojas, é menos atarente que o Bazar das Especiarias, mas vale a pena visitar, nem que seja pelas numerosas lojas de tapetes.





A subida do Bósforo decepcionou-me; é verdade que há belas casa e palácios, e a Fortaleza da Europa, um castelo do século XV construído antes da conquista de Constantinopla, é muito bonito. Subimos até Kanlica, a terra dos famosos iogurtes, mas gostei muito mais de Besiktas, uma zona animada e completamente ocidentalizada, com miúdos a andar de skate e cafés cheios de jovens de ambos os sexos a jogar gamão e a fumar narguilé, um completo contraste com as mulheres de negro de Fatih. Üsküdar, no lado asiático, é uma zona bastante incaracterística, pouco interessante a não ser pela mesquita (mais uma projectada pelo infatigável Sinan, arquitecto do século XVI responsável por montes de mesquitas em Istambul) e sobretudo pelas vistas sobre Sultanahamet, com o perfil de cúpulas e minaretes que admirámos ao pôr-do-sol.






Cidade de grandes contrastes - as raparigas fumando narguilé em Besiktas e as mulheres de negro em Fatih -, da beleza arquitectónica das mesquitas com as suas cúpulas e minaretes e das casas de madeira mas também de urbanizações tipo J.Pimenta, do canto dos muezzins saindo dos megafones dos minaretes e da música kitsch do pop turco aos berros das lojas de discos, suficientemente ocidentalizada para ser familiar e segura e com sinais de islamismo a cada esquina.



E gatos, gatos por todo o lado, nos pátios das mesquitas, nos cemitérios, nos cafés, brincando com as mercadorias das lojas, instalados nos passeios com a segurança de quem é bem tratado e respeitado por toda a gente.



Fiquei com vontade de voltar, e de conhecer mais da Turquia. Viajar é realmente um dos maiores prazeres da vida.