domingo, março 21, 2010

The History of the Decline and Fall of the Roman Empire, de Edward Gibbon



Terminei a leitura dese clássico de Gibbon com pena. Como outras longas obras que me dão especial prazer, gostaria que continuasse indefinidamente, pelo puro prazer da degustação da leitur. De facto, uma das maiores qualidades deste livro é a elegância da linguagem, que o torna uma verdadeira delícia de ler. Devorei a primeira parte rapidamente, até ao século VI, que é a mais interessante, depois deixei alongarem-se os mil anos até à tomada de Constantinopla pelos Turcos - de certa forma, um ritmo adequado à longa decadência do Império Bizantino. Este livro literalmente monumental - vários milhares de páginas - publicado entre 1776 e 1787 - nada perdeu da sua actualidade, e é simultaneamente um registo de uma certa forma de escrever própria do elegante século XVIII (outro magnífico testemunho desse estilo são as Memórias de Saint-Simon) e de uma forma de pensar radicalmente nova para a sua época, e por isso tão actual ainda hoje.

Como diz Italo Calvino no seu excelente ensaio Porquê Ler os Clássicos?, "A única razão que se pode aduzir é que ler os clássicos é melhor do que não ler os clássicos."

sábado, março 20, 2010

O resort



Nas minhas recentes férias na Bahia, fiquei pela primeira vez hospedado num resort de praia completo (já tinha ficado em vários hotéis de praia, com piscina e comodidades semelhantes, mas nunca num empreendimento com esta dimensão e tão... típico). Fora-me aconselhado por vários colegas e, embora o conceito não me atraísse particularmente, a relação qualidade / preço e a vantagem do regime "tudo incluido" para umas férias de aboboranço na praia (e tendo em conta que não desejava ter de ir muitas vezes à cidade) convenceram-me.

Não lamento a decisão: as ditas vantagens confirmaram-se, a praia era uma delícia, a comida muito boa, descansei imenso e aboborei qb, de modo que as férias corresponderam inteiramente ao que eu desejava. Mas, decididamente, este tipo de resort não é o meu alojamento ideal.

Para lá entrar, passava-se por três controlos, para afastar com segurança a pobreza da região, de modo que os nossos pertences ficavam perfeitamente resguardados, podendo os hóspedes esquecr os seus blackberries ou câmaras digitais nas espreguiçadeiras, que cedo lhes seriam entregues por um dos múltiplos empregados. Aliás, no check in era-nos aplicada uma pulseirinha de plástico que servia como livre-trânsito para utilizar as instalações, bares, etc. O complexo era de grandes dimensões, com centenas de quartos e os correspondentes ocupantes - muitos brasileiros, portugueses e italianos, a maioria com a sua próspera barriguita, e muitas criancinhas. Podia-se comer a qualquer hora, entre os vários restaurantes e cafetarias (todos com nomes de romances de Jorge Amado) - das 5 às 7, o café continental, das 7 às 11, o café buffet, das 11 às 13, o buffet de piscina, das 13 às 16, o almoço buffet, das 16 às 19, o lanche buffet, das 19 às 23, o jantar buffet, das 23 às 5, a ceia buffet... Além do bar molhado da piscina e do bar do lobby. Não vim mais gordo, porque o calor dos trópicos convidava a comer sobretudo saladas e fruta, e os doces de coco regionais são demasiado enjoativos, mas ainda comi saborosos pratos baianos como vatapá e xinxim de galinha, e os mojitos e as margaritas sabiam muito bem.

Mas o crème de la crème era a animação da piscina. A toda a hora havia uns frenéticos animadores, dando aulas de samba, de capoeira, de ritmo, de relaxamento, etc. Apesar da variedade dos temas, a actividade dos participantes era sempre muito parecida: de pé na piscina, braços erguidos ondulando de um lado para o outro. Já os animadores mexiam-se como se possuídos por um poltergeist - um negro pulava e saracoteava-se qual bicha louca como um boneco com molas nos pés, uma negra, a "Tia Tempestade", deixaria a Madonna verde de inveja; mas o máximo foi uma mulata de cabelo pintado de louro e calças negras artisticamente crivadas de buracos que deu uma aula de "relaxamento intensivo". Por entre música New Age (a eterna Enya) e frases omo "...porque o todo é o um, e o colectivo é o individual...", "agora formem um círculo... sempre de mãos dadas...", acabando por "abram os olhos, e vão ver um clarão, e voltarão a entrar no ventre materno"!!! Enfim, epifanias à parte, a zona da piscina era geralmente demasiado barulhenta para ler, embora a água fosse deliciosamente quente.

Resumindo, embora este tipo de resort não me atraia, aproveitei e diverti-me, como viajante optimista que sou (e não, não participei em nenhuma animação da piscina!).

Manuscrito Encontrado em Saragoça, de Jan Potocki

Um livro delicioso, que foi uma excelente descoberta. É uma espécie de Mil e Uma Noites gótico, com histórias dentro de histórias, aventuras rocambolescas e labirintos que se entrecruzam, desde as montanhas de Granada até ao Egipto de Cleópatra, mistérios, tesouros, odaliscas, enforcados e fantasmas, com o cuidado de tudo se desvendar no final. Decididamente, estes romancistas do início do século XIX teriam muito que ensinar aos escritores de pulp fiction histórica da actualidade (tipo Dan Brown)! Gostei imenso.

Mais entrevistas da Paris Review!

Depois de ler a colectânea recentemente publicada de entrevistas literárias da Paris Review, fui ao site da revista e tenho lido outras entrevistas; foi uma óptima descoberta! Nos últimos dias li as entrevistas a:

Lilian Hellman - Descobri Lilian Hellman há muitos anos, quando vi o filme Julia, de Fred Zinnemann, baseado num capítulo de um dos seus livros de memórias. Gostei muito do filme, de modo que encomendei o livro, Pentimento, a Book of Portraits, depois li várias peças e outros livros de memórias. Gosto bastante da sua escrita, do seu tom, e de algumas peças (sobretudo The Children's Hour e The Little Foxes; mais tarde vi o filme com a magnífica interpretação de Bette Davis, é muito bom). A entrevista confirmou a ideia que eu tinha dela - uma mulher determinada e opinionated, não muito simpática, que gostava de construir a sua imagem, da qual fazia parte a sua ligação com Dashiell Hammett, de quem fala inúmeras vezes. Mas gostei das suas declarações sobre o período de McCarthy, e acho que era uma boa escritora, e uma mulher "com coluna vertebral".


Henry Miller - Em miúdo, li Sexus às escondidas, pela curiosidade pelo título, que sugeria algo proibido, mas achei-o incrivelmente chato (ainda acho, aliás); só muito mais tarde tive vontade de voltar a ler Henry Miller, quando, apaixonado pelo Quarteto de Alexandria, descobri que ele fora amigo de Lawrence Durrell. Li primeiro a correspondência entre os dois, publicada em 1962, depois Trópico de Cancer, que é muito bom, e O Colosso de Maroussi, de que também gostei muito; achei Trópico de Capricórnio algo repetitivo e não voltei a ler nada dele. A entrevista mostra-o como o imagino - um homem com imensa vitalidade e determinação, algo irregular como escritor, mas com a qualidade da franqueza e um amor pela vida contagiante. Não é dos mes escritores favoritos, acho as suas ideias algo ingénuas e datadas, mas penso que vale a pena ser lido.

Dorothy Parker - O nome era-me familiar há muito; a sua pessoa começou a tomar forma quando li sobre ela em Pentimento, de Lilian Hellman; mais tarde li uma colectânea dos seus contos e poesia de que gostei imenso, e vi o filme Mrs. Parker and the Vicious Circle, onde é interpretada por Janet Jason-Leigh (excelente interpretação, num biopic simultaneamente melancólico e divertido, como ela própria era). Tem alguns contos excelentes, tal como alguns poemas, e inúmeras frases célebres que fizeram a sua reputação de wit (ou, como ela diz depeciativamente, de wisecrack). A entrevista revela uma mulher inteligente, mas imensamente amarga e desiludida com a vida. Achei curioso ela referir E.M. Forster como um dos seus escritores favoritos. Foi sem dúvida uma personalidade, muito representativa do seu tempo, corajosa e independente, mas que obviamente foi prejudicada pela sua depressão crónica. Qiçá teria sido mais feliz na era do Prozac.

Isak Dinesen / Karen Blixen - Como muita gente, conheci Karen Blixen devido ao filme Out of Africa. Li inicialmente os seus contos, de que gostei muito, depois as suas memórias de África, que achei excelentes, embora por vezes me irritasse o seu discurso aristocrático (como quando usava tantas vezes os pronomes possessivos, "os meus cães", "os meus kikuyus", "a minha quinta"). Foi o meu primeiro contacto com a literatura dinamarquesa (se exceptuar Andersen), e encantou-me o seu tom algo sombrio e misterioso, a forma como as suas histórias se desenrolam de forma tão perfeita e ao mesmo tempo imprevisível. A entrevista mostra-a como ela sempre se mostrou, aristocrática e algo distante, mas dotada de um inegável fascínio e de uma sensibilidade muito especial.

Simone de Beauvoir - Depois de ler as memórias, vários romances (os melhores são Os Mandarins e A Convidada), O Segundo Sexo e a correspondência com Sartre e outros, a entrevista de Simone deBeauvoir nada acrescenta ao conhecimento e à ideia que tenho dela. Sempre a admirei intensamente, desde que li, aos 17 anos, Memórias de uma Menina Bem Comportada, e continuo a admirá-la (tal como a Sartre), com todas as suas qualidades e imperfeições; foi alguém que viveu a sua vida plenamente e conscientemente, com uma curiosidade e atenção pelo mundo inesgotáveis e uma lucidez invejável.

quinta-feira, março 18, 2010

Férias na Bahia



Este ano fui novamente para a praia no Brasil, desta vez para Guarajuba, perto da Praia do Forte, na Bahia. Não sou um grande adepto de praia, mas adoro o mar de água quente, pelo que vale a pena fazer a longa viagem até aos trópicos; não sou da mesma forma um grande admirador do Brasil, mas é o destino de praia tropical mais acessível (voos directos), de modo que, depois de Pipa há um ano, fui novamente para o Brsail.

Mais uma vez, cumpriu as minhas expectativas - água deliciosamente quente, permitindo ficar literalmente horas no mar, de onde passava para a piscina do hotel, boa comida, descanso, alguma leitura, a doce sonolência do calor dos trópicos... Foram umas excelentes férias, em boa companhia, e quando regressei sentia-me verdadeiramente regenerado. Sabe imensamente bem sair do Inverno por uns dias!

São Salvador da Bahia era uma das poucas cidades brasileiras que tinha curiosidade em conhecer. O sítio é belíssimo, sobre a Baía de Todos-os-Santos, e o centro histórico muito interessante, com a arquitectura portuguesa do século XVIII nos trópicos, o Farol da Barra, a igreja de S. Francisco, que me surpreendeu pelo esplêndido interior barroco. Mas a pobreza deprimiu-me - é impossível abstrair dos pedintes, das favelas (só no Bairro da Liberdade, visível sobre os montes, moram cerca de 500 000 pessoas), do cheiro a falta de higiene no centro, do aspecto degradado dos edifícios, dos "ilhéus" dos condomínios dos ricos. As ruas à volta do Pelourinho, assim que terminavam as lojas de souvenirs, lembraram-me o cabo Verde da minha infância, com fachadas coloridas e descascadas de lojas a vender artigos de má qualidade. Para chegar ao hotel onde fiquei, passava-se por 3 controles; nunca estive em Israel, masdeve ter-se uma sensação semelhante. E as igrejas evangélicas omnipresentes, como a IURD e semelhantes; contemplando a vista de um ponto alto no centro histórico ouvi uma "missa" em megafones com um pastor desvairado a gritar: "Sai! Sai!", suponho que "exorcizando" algum demónio.

Decididamente, o Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer na luta contra a desigualdade social.

segunda-feira, março 08, 2010

Entrevistas da Paris Review - selecção e tradução de Carlos Vaz Marques

Uma colectâea de entrevistas muito interessantes; é fascinante ler sobre as opiniões e métodos de trabalho de escritores que admiramos expostas por eles próprios. E os escritores cujas entrevistas foram seleccionadas - com excepção de Saul Bellow, de quem nunca li nada, e de Graham Greene, de quem li alguns livros mas que não me impressionaram especialmente; quanto a Boris Pasternak, conheço-o pouco, apenas li Doutor Jivago há muitos anos e lembro-me mal, mas fiquei com vontade de o reler, parece-me aliás que a sua obra principal é poética - são todos autores de obras que li e que aprecio, em diferentes graus, é certo, mas o suficiente para me despertar a curiosidade e o interesse de ler o que têm a dizer.

Abordando os restantes autores: gosto muito dos livros de E.M. Forster, cujas declarações sobre como imagina os livros antes de os escrever achei interssantes. A entrevista de William Faulkner é belíssima, como a sua escrita e os seus livros. A de Ernest Hemingway surpreendeu-me agradavelmente, já que é um autor com o qual a minha relação tem variado ao longo dos anos e conforme os livros - gostei imenso de Fiesta, Por Quem os Sinos Dobram e O Jardim do Paraíso; Across the River and into the Trees aborreeu-me profundamente e não empatizei nada com O Velho e o Mar, além de não apreciar aquilo que conhecia da personalidade do escritor. Mas gostei da entrevista, mesmo transmitindo um grande desejo e controlar a sua imagem sem parecer fazê-lo; mas tem frases como: "Leia aquilo que escrevo pelo prazer de o ler. Tudo o que lá encontrar corresponderá àquilo que você mesmo levou consigo para a leitura."

Truman Capote é sempre um conversador delicioso, e é engraçado ler a sua entrevista anterior à escrita de In Cold Blood, particularmente porque li recentemente uma colectânea dos seus contos. Mesmo que por vezes se torne um pouc irritante, escrevia sempre muito bem, e esta entrevista é um bom momento.

Lawrence Durrell é um dos meus escritores favoritos (embora sejam tantos que seja difícil fazer uma lista...) A sua entrevista está plena da vitalidade e do amor pela vida e pela escrita que enchem os seus livros, e é feta no seu momento áureo, na altura da publicação do final do Quarteto de Alexandria.

A de Jorge Luis Borges é excelente, graças à qualidade e interesse de tudo o que ele diz. Sempre o achei um escritor fascinante, e revela nas suas declarações uma personalidade não menos interessnate que a sua escrita.

Quanto a Jack Krouac, cuja entrevista termina o livro, foi um escritor que me fascinou quando adolescente (li Pela Estrada Fora aos 15 anos de um fôlego, e adorei), e que depois me desiludiu pela sua evolção (ou involução...), mas a entrevista é uma excelente peça de época, bem ilustrativa dos delírios anfetamínicos em que a escrita beatnick terminou.

No conjunto, o livro lê-se deliciosamente, e vem reforçar aquilo que eu penso em relação à actividade literária - e artística em geral: os escritores criam a sua obra com base na sua experiência e sensibilidade, e aquilo que lemos toca-nos mais ou menos e tem um significado consoante a nossa experiência e sensibilidade enquanto leitores - toda a verdadeira arte tem a ver com essa interacção emissor / receptor e deixa de pertencer exclusivamente ao artista a partir do momento em que é produzida / exposta.

domingo, março 07, 2010

District 9, de Neill Blomkamp

Um bom filme, que me surpreendeu agradavelmente. Aparentemente na tradição dos filmes de série B dos anos 50, apresenta uma prspectiva diferente, que o permite ler como uma sátira social (reforçada por se passar em Joanesburgo), e está soberbamente realizado e com excelentes efeitos especiais.

sábado, março 06, 2010

Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton



Um bom filme, como seria de esperar de Tim Burton, mas em que a estética do realizador se sobrepõe à história - aliás, não é uma adaptação da história de Alice in Wonderland nem de Through the Looking Glass, de Lewis Carroll, mas uma fantasia baseada no mundo e nas personagens do livro, e muito mais pobre que qualquer das duas histórias. Burton pegou no tema e fez um filme com a sua estética característica, exuberante e gótica, como trataria outra história qualquer. Talvez por ser um grande apreciador dos livros, acho esta abordagem um tanto fácil e auto-indulgente... De qualquer forma, o filme vale pelas imagens e é uma boa peça de entertainment, mas está muito longe (abaixo, quero dizer) do material que o inspirou, de outros filmes de Tim Burton, e de outros trabalhos de Johnny Depp ou Helena Bonham Carter.

quinta-feira, março 04, 2010

O Tigre Branco, de Aravind Adiga

Muito bom, este livro. Escrito com um humor negro e corrosivo, explica melhor o actual estado da Índia e as particularidades do seu desenvolvimento, da sua democracia e problemas sociais do que muitos artigos e reportagens - aliás, sempre achei que a (boa) literatura nos ajuda a compreender o mundo de uma forma abrangente sem ser didáctica. Obviamente, podem-se criticar muitos aspectos, principalmente o discurso do narrador, seguramente impossível numa pessoa com o background que lhe é atribuído pelo autor, mas penso que o importante é a forma como nos transmite a imagem vívida de todo um quadro social. Extremamente bem escrito, impressiona, diverte e revolta-nos ao longo da leitura. Tinham-mo aconselhado há já bastante tempo, e estou satisfeito por finalmente ter seguido o conselho de o ler. Passo a palavra, e aconselho-o vivamente.

domingo, fevereiro 21, 2010

A Single Man, de Tom Ford

Um excelente filme, com uma boa história e muito bem realizado e interpretado. Por vezes é um pouco sentimental em demasia, acentuado pela banda sonora e os efeitos de cor, mas no geral transmite uma sensação de tristeza imensa sem pieguices. Esteticamente é belíssimo, com uma fotografia magnífica e guarda-roupa por vezes um pouco bonito de mais. Colin Firth está excelente, e o filme vive muito da sua interpretação; Julianne Moore óptima como sempre, e Matthew Goode muito bom.

Dois Livros de João Ubaldo Ribeiro

Recentemente, a propósito das minha próximas férias na praia perto de S. Salvador da Bahia, ofereceram-me dois livros de João Ubaldo Ribeiro, to get in the local mood, e já que de autores baianos só conheço o Jorge Amado.

O Albatroz Azul foi o primeiro que li. É interessante, bem disposto, uma história engraçada e bem escrita, na escola de um sentido de humor pícaro muito frequente nos autores sul-americanos.

A Casa dos Budas Ditosos é engraçado como uma variação sobre a luxúria, uma celebração das alegrias do sexo, mais uma vez bem humorada e que se lê rapidamente. Em suma, Ubaldo Ribeiro parece-me um autor leve e agrdável, mas não me toca por aí além.

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

The Spider's House, de Paul Bowles



Já não me lembro como me chegou às mãos O Céu Que Nos Protege, de Paul Bowles, há já muitos anos, mas lembro-me de que gostei imenso desse livro; da história, mas sobretudo do tom, do ritmo, do ambiente admiravelmente transmitido pelo autor. Li desde então vários livros de Bowles, e é sempre bom descobrir mais um.

The Spider's House não é o melhor, mas é muito bom. Mais uma vez passado em Marrocos, onde Bowles viveu grande parte da sua vida e que está presente na maior parte dos seus escritos, o livro foca a época da luta pela independência, em 1955. Crítico em relação aos Franceses e aos Nacionalistas marroquinos, narrado através das perspectivas de um rapaz marroquino de Fez e de um escritor americano desencantado, o livro reflecte um amor incondicional pela cultura tradicional de Marrocos e simultaneamente critica essa atitude de admiração "estética" por parte dos ocidentais - It did not really matter whether they worshipped Allah or carburetors - they were lost in any case. In the end, it was his own preferences which concerned him. He would have liked to prolong the status quo because the décor that went with it suited his personal taste. Como esta frase se aplica hoje em dia a tantas opiniões "politicamente correctas", que traduzem uma certa atitude ocidental de condescendência face ao chamado Terceiro Mundo!

Igualmente actual, explicando de forma simples e concisa muito do terrorismo islâmico, é a frase: He understood why they were willing to risk dying in order to derail a train or burn a cinema or blow up a post office. It was not independence they wanted, it was a satisfaction much more immediate than that: the pleasure of seeing others undergo the humiliation of suffering and dying, and the knowledge they had at least the small amount of power necessary to bring about that humiliation.

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

Regresso a Madrid - fim-de-semana em família



Dois meses depois de ter conhecido a cidade, voltei com os meus filhos para a conhecerem - é perto, de modo que dá para ir num fim-de-semana em tempo de trabalho e de aulas. Esteve um tempo óptimo - sol e não muito frio. Andámos imenso, e foi um prazer juntar a vertente cultural - o Prado, o Museu Thyssen, a arquitectura - e a lúdica - a gastronomia, o Mercado d San Miguel, El Rastro, as compras e os disparates. Eles gostaram muito, e eu também. Quando eram pequenos, fizemos muitas curtas viagen por Portugal, ficando em casas e turismo rural, desde o vale do Douro a Odeceixe. O ano passado começámos a versão internacional em Londres, com muito sucesso.

Próximo destino: Paris!

sexta-feira, janeiro 29, 2010

Joseph Cornell



Descobri a obra de Joseph Cornell em 1993, quando visitei o Art Institute of Chicago - que é um museu soberbo, dos melhores que já visitei. Não o conhecia, e fiquei fascinado com aquelas caixas com representações de uma realidade estranha e onírica, simultaneamente surrealista e realista. O museu tem uma excelente colecção destas obras, maior do que qualquer outra que vi até hoje, mesmo estando atento a todos os trabalhos deste artista em todos os museus de arte moderna que visitei desde então. Não sei o que me atrai exactamente nestas composições de colagens e pequenas peças, mas gosto imenso delas. Considero Joseph Cornell um dos grandes artistas da arte moderna do século XX.







sábado, janeiro 23, 2010

O Laço Branco (Das weisse Band), de Michael Haneker



Gostei muito deste filme, muito belo e bastante perturbador, de uma forma subtil e insidiosa como um veneno de actuação lenta.

Esteticamente é belíssimo, muito bem filmado, com uma fotografia a preto e branco espantosa, interpretações fabulosas, cenários tão bem recriados que me senti regressar à velha casa dos meus avós; de uma austeridade e contenção essenciais para o impacto emocional da história - o ambiente criado no filme é genial, desde os rostos assustadoramente angelicais das crianças, cuja expressão me lembrou The Village of the Damned até às cenas idílicas da corte feita pelo professor à rapariga.

Quanto a esta, suponho que o comentário inicial do narrador (sobre os acontecimentos narrados poderem explicar em parte o que mais tarde se passou no país) sugere que a tese do filme é explicar as origens do fascismo / nazismo num ambiente de moral restritiva e castrante que cria nos elementos mais indefesos / impotentes (representados pelas crianças) o hábito / necessidade de se vingarem infligindo sofrimento aos mais fracos (a criança do solar, o deficiente) ou de forma dissimulada (a corda esticada, o pássaro assassinado, o incêndio no celeiro). Mas será assim tã linear? A moral protestante era igualmente repressiva e austera noutros países - nos escandinavos, por exemplo - e a moral católica, mais permissiva é certo, mas muito mais hipócrita, reinava com igual vigor nos países do sul da Europa, e em lado nenhum se chegou aos excessos do nazismo. Descarto igualmente a hipótese simplista do nazismo ser a consequência de uma geração particularmente perversa de pessoas (as crianças do filme) no poder. Assim, pondo de lado a explicação alegórica sugerida pelo próprio realizador (e que pode ser a sua), o que fica é o desconforto e a angústia da existência do Mal, o Mal com letra maiúscula, em estado bruto e inexplicável, mas que existe eternamente nas sociedades humanas e que circunstâncias particulares (neste caso, a austeridade moral e clima repressivo) fazem florescer e manifestar-se. Aliás, a mesma impressão fica de outro filme bastante mais fraco mas também interessante do mesmo realizador, Funny Games (só vi a versão americana). É uma questão fundamental e angustiante, porque nos lembra como a existência do Mal é inerente à nossa espécie / sociedade, e não conseguimos perceber porquê. E o filme tem o mérito ainda de intercalar a exposição desse Mal com o que há de bom em nós: o namoro do professor, as cenas do filho do pastor que trata do pássaro ou do filho do médico com a irmã, a revolta honestamente assumida do filho da camponesa morta.

Um filme de facto excelente, que nos impressiona emocionalmente e cujas múltiplas leituras possíveis nos fazem pensar.

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Julie & Julia, de Norah Ephron

Julie & Julia é um filme divertido e bem disposto. Trata das virtudes da persistência e da dedicação à procura do atingimento da excelência numa actividade e das consequentes compensações - emocionais e profssionais - mas para mim o assunto que trata que mais me agradou foi a culinária, ou, como o título de um livro referido na história, the joys of cooking. Pessoalmente, descobri the joys of cooking há muitos anos, quando comecei a cozinhar para a minha mulher e uma amiga enquanto elas estudavam para o exame da especialidade, e ainda mais anos mais tarde, quando transformei numa actividade lúdica a interminável tarefa de cozinhar diariamente para os meus filhos. Fi-lo de uma forma parecida com a utilizada por Julie, uma das heroínas do filme: cada dia, os meus filhos e eu escolhíamos uma receita de um livro para o jantar do dia seguinte, depois comprávamos os ingredientes e cozinhávamos a refeição. Percorríamos um a um os livros de receitas arrumados numa bancada da cozinha, cujo número foi aumentado ao longo dos anos, com exemplares da cozinha local comprados em cada cidade ou país que eu visitava ou oferecidos pelos meus amigos. Cedo um dos meus filhos - a Indomitable Crazy Catty - se tornou a minha principal colaboradora, cargo que assume com grande orgulho e alguma arrogância, o que se tornou um laço muito especial entre nós. Por tudo isto, foi um prazer ver este filme em família, revendo-nos no prazer de comer de Julia - particularmente o meu obeso Calvin - e nas aventuras culinárias das protagonistas.

E a exuberante interpretação de Meryl Streep é fantástica, está no seu melhor; inicialmente pareceu-me overacting, que habitualmente detesto, mas rapidamente se percebe que aquela voz, aqueles gestos e entoações, são de Julia Child (cuja existência confesso que desconhecia inteiramente até ouvir falar deste filme), de tal forma que a certa altura esquecemos que estamos a ver Meryl Streep, o que acho que é um dos maiores elogios que se pode fazer a uma actriz (ou actor, claro). Recomendo; e, como diria Julia Child, na sua magnífica pronúncia do Francês: Bon appétit!

sexta-feira, janeiro 15, 2010

Crónica do Pássaro de Corda, de Haruki Murakami

Haruki Murakami é um escritor que está na moda nos últimos anos. Li por acaso há anos um livro dele, que uma amiga me ofereceu, quando ainda não havia nada traduzido em Português, A Wild Sheep Chase, e não gostei muito - gostei da escrita e do ambiente criado, mas achei a história um tanto surrealista de mais e não me tocou especialmente. Anos depois, quando já era muito traduzido em Portugal e incensado, li Norwegian Wood, de que gostei muito, e fiquei com vontade de ler mais alguma coisa dele. Comprei a Crónica do Pássaro de Corda na Primavera passada, para ler nas férias de Verão, que não fiz, de modo que só agora o li, depois de outras férias que me trouxeram livros de autores suecos e checos que me fizeram adiar os livros comprados antes.

O livro é muito bom; tinha grandes expectativas (vários amigos me tinham dito ser o melhor do autor), não fiquei deslumbrado, mas gostei muito. Sempre gostei de histórias bem contadas, em que o acaso e o mistério jogam um papel preponderante, com ou sem elementos de realismo fantástico ( e este tem-nos, tal como o têm autores que aprecio, desde Kafka a Salman Rushdie, passando por García Márquez e Boris Vian ou Italo Calvino), e sem que haja um "significado" didacticamente subjacente, mas antes um fluir da narrativa, cheio de curvas e encruzilhadas, cuja impressão final é mais emocional do que racional. De certa forma, uma questão de "voz" ou de "tom", como outra amiga apreciadora de Murakami me dizia há tempos. É um tipo de scrita cujos ecos se encontram no melhor de Paul Auster e em sucedâneos menores, como o nosso conterrâneo João Tordo. No caso particular deste livro, há muitas pontas que ficam por deslindar, mas não perde por isso - de certa forma é mais um apelo à nossa imaginação.

Finalizando - lerei seguramente mais livos de Murakami.

Cuentos de Mí Mismo, de Miguel de Unamuno

Li este livro para me familiarizar com a língua, e foi uma agradável surpresa. Sem ser excepcional nem me trazer nada de novo, é uma leitura agradável, com alguns contos muito bons, como La locura del Doctor Montarco ou Y va de cuento. O humanismo individualista de Unamuno está longe de ser revolucionário hoje em dia, nem sei se o terá sido na altura, mas é sempre bom de ler.

"... en que muchos sacrifican el alma al nombre, la realidad a la sombra. No, no quiero que mi personalidad, eso que llaman personalidad los literatos, ahogue a mi persona [...] no quiero sacrificarlo a la idea que de mí mismo tengo, a mí mismo convertido en ideal abstracto, a ese yo cerebral que nos esclaviza..."

segunda-feira, janeiro 04, 2010

A Epidemiologia Emocional da Vacinação para a Gripe H1N1 - do New England Journal of Medicine


Um artigo de opinião interessante, nomeadamente porque em Portugal acontece exactamente a mesma coisa... A psicologia do medo das pessoas em relação às doenças é de facto engraçada.

The Emotional Epidemiology of H1N1 Influenza Vaccination
Danielle Ofri, M.D., Ph.D.

Last spring, when 2009 H1N1 influenza first came to our attention, my patients were in a panic. Our clinic was flooded with calls and walk-in patients, all with the
same question: “When will there be a vaccine?”

It was all so new then, and we didn’t have an answer. That lack of answer seemed to fuel anxiety to a fever pitch. A substantial cohort of my patients continued calling,
almost on a weekly basis, to ask about the vaccine. These, of course, were the same
patients who routinely refused the seasonal flu vaccine. Each year we’d go through the same drill: I’d offer them the flu shot. I’d explain the clinical reasoning behind this recommendation. I’d strongly encourage vaccination. “No, thanks,” they’d say. “The vaccine makes me sick.” Or “My brother had a bad reaction.” Or, simply, “I don’t do flu shots.” The irony was painful. No matter how often I trotted out the
statistics of 30,000 to 40,000 annual deaths from influenza, the patients would not be moved. So when they demanded the H1N1 vaccine last spring, I reminded them of their reluctance over the seasonal flu shot. “Oh, that’s different,” they said.
Six months have passed. Flu season is now here. After repeated delays, H1N1 vaccine finally arrived in our clinic earlier this month to the uniform relief of the
medical staff. But my formerly desperate patients were now leery. “It’s not tested,” they said. “Everyone knows there are problems with the vaccine.” “I’m not putting
that in my body.” I was unprepared for this response, but maybe I shouldn’t have been. For weeks now, in the schoolyard of my children’s elementary school, other parents had been sidling up to me, seemingly in need of validation. “You’re not
giving your kids that swine flu shot, are you?” they’d say, their tone nervous, if a bit derisive.

How to explain this dramatic shift in 6 short months? It certainly isn’t related to logic or facts, since few new medical data became available during this period.
It seems to reflect a sort of psychological contagion of myth and suspicion. Just as there are patterns of infection, there seem to be patterns of emotional reaction (“emotional epidemiology”) associated with new illnesses. When 2009 H1N1 influenza
was first detected, it fit a classic pattern that Priscilla Wald recently outlined in her book Contagious1: It was novel and mysterious; it emerged from a teeming third-world city, and it was now making its insidious — and seemingly unstoppable — way toward the “civilized” world. This is the story line for most headline-grabbing illnesses — HIV, Ebola virus, SARS, typhoid. These diseases capture our imagination
and ignite our fears in ways that more prosaic illnesses do not. These dramatic stakes lend themselves quite naturally to thriller books and movies; Dustin Hoffman hasn’t starred in any blockbusters about emphysema or dysentery.
When the inoculum of dramatic illness is first introduced into society, the public psyche rapidly becomes infected. Almost like an IgE-mediated histamine release, there is an immediate flooding of fear, even if the illness — like Ebola — is infinitely less likely to cause death than, say, a run-in with the Second Avenue bus. This immediate fear of the unknown was what had all my patients demanding the as-yet-unproduced H1N1 vaccine last spring. As the novel disease establishes itself within society, a certain amount of emotional tolerance is created. H1N1 infection waxed and waned over the summer, and my patients grew less anxious. There was, of course, no medical basis for this decreased vigilance. Unusual risk groups and atypical seasonality should, in fact, have raised concern. By late summer, the perceived mysteriousness of H1N1 had receded, and the number of messages on my clinic
phone followed suit.

But emotional epidemiology does not remain static. As autumn rolled around, I sensed a peeved expectation from my patients that this swine flu problem should have been solved already. The fact that it wasn’t “solved,” that the medical profession seemed somehow to be dithering, created an uneasy void. Not knowing whether to succumb to panic or to indifference, patients instead grew suspicious. No amount of rational explanation — about the natural variety of influenza strains, about the simple issue of outbreak timing that necessitated a separate H1N1 vaccine — could allay this wariness. Similarly, reassuring fellow parents that I was indeed vaccinating my own children did little to ease their apprehension. When the New York City public school system offered free vaccinations for both students and families, there was an abysmally poor turnout. Less than one quarter of the consent forms sent home in kids’ backpacks were returned.

The dramatic shift in public sentiment over the course of this H1N1 epidemic is both fascinating and frustrating. It is clear that there is a distinct emotional epidemiology and that it bears only a faint connection to the actual disease epidemiology of the virus. We cannot combat H1N1 influenza merely by ensuring adequate supplies of vaccine and oseltamivir. Unless the medical profession confronts the emotional epidemiology of H1N1 with a full-court press, we run the risk
of an uncontrollable epidemic.

There is no doubt that we are far behind the curve in terms of public relations. Our science has not been dithering at all, but our articulation of that science has often seemed that way, from the unfortunate initial appellation of swine flu to our inability to clarify distinctions between vaccineproduction issues and clinical-risk
issues. Suspicion has its own contagion, and we have not been aggressive enough in countering it.

Every practicing clinician is, to some degree, an armchair epidemiologist. We register patterns of disease as they play out among our patients. We are also keen detectives of emotional epidemiology, though we often aren’t aware of this as such. Keeping tabs on the emotional epidemiology as well as the disease epidemiology,
and treating both with equal urgency, are the essential clinical tools for this influenza season.

domingo, janeiro 03, 2010