quinta-feira, outubro 19, 2006

Cadernos de Guerra, de Jean-Paul Sartre

Não sei por que acaso, mas tive este livro durante anos sem o ler, e só agora, depois de reler as memórias de Simone de Beauvoir e de ler as cartas de Beauvoir a Sartre e a Algren e As Palavras é que finalmente o li. Gostei muito - embora haja algumas partes um pouco maçadoras, como aquelas em que ele se alonga sobre conceitos filosóficos, a sua auto-análise e as reflexões sobre a guerra (ou melhor, o estar em guerra durante a espera que foi a drôle de guerre, antes do ataque alemão à Bélgica, Holanda e França), são muito interessantes. O estar em guerra mas não fazer guerra lembrou-me um outro retrato dessa mesma situação que vi recentemente no filme Jarhead - como pessoas de culturas diferentes reagem de forma diferente a situações que se repetem ao longo dos tempos. Mas sobretudo gosto sempre da forma como Sartre (e Beauvoir) procuravam compreender-se, a si próprios e ao mundo em que viviam, mesmo que muitas vezes não concorde com as suas opiniões. Próximo livro de Sartre a ler: as cartas ao Castor!

quarta-feira, outubro 18, 2006

The Undercover Economist, de Tim Harford

É o segundo livro sobre Economia para leigos que leio em poucos tempo (depois de Freakonomics). Gostei bastante mais deste - mais bem escrito, mais abrangente; sem ser aborrecido, parte de situações concretas do quotidiano para explicar os mecanismos gerais da Economia. Há uma defesa acérrima e entusiástica do mercado livre, por vezes ideias com que não concordo, mas no geral é muito claro e útil para entender melhor o mundo em que vivemos, o que é sempre bom.

domingo, outubro 15, 2006

Um Sol pálido e frio....



Li há dias numa carta de um leitor do Público uma definição do novo semanário Sol que achei perfeita: "um misto do Expresso com o 24 Horas e o Tal & Qual"... De facto, é isso mesmo - artigos curtos e superficiais, um visual péssimo, umas brejeirices para aligeirar (ainda mais...) e piscar o olho ao tuga, mais uns nomes sonantes para encher o olho - os manos Portas, cujo principal interesse deve ser o de serem manos e de partidos opostos, o Professor Marcelo, que devia ser amordaçado durante pelo menos um ano para ver se recupera a inteligência gasta em tantas opiniões, etc.

Não, ainda não é desta que temos um semanário de jeito, mas de resto outra coisa não seria de esperar do grande escritor Saraiva, que já presidira à imparável deterioração do Expresso.

sábado, outubro 14, 2006

Taxas moderadoras? - ou para onde vamos?


Discordo totalmente das chamadas "taxas moderadoras" para os internamentos, que não passam de mais um subterfúgio para poupar (e extorquir...) uns cêntimos, e são mais uma machadada no conceito do Serviço Nacional de Saúde que, ao contrário do que as pessoas adoram dizer, é dos serviços públicos que melhor funciona em Portugal.

Para já, a ideia de "taxa moderadora" aplicada a um internamento é ridícula. As taxas moderadoras surgiram nas Urgências hospitalares com o objectivo de moderar, precisamente, a afluência de falsas-urgências, pois as pessoas sabiam que eram mais rapidamente e mais bem atendidas do que se fossem esperar para os Centros de Saúde (na Urgência, além de serem vistas por médicos muitas vezes mais diferenciados, despachavam logo os exames complementares e saíam medicadas). Era vulgar, por exemplo, quando eu fazia bancos no Hospital de S.José, aparecerem pessoas às 3 da manhã com motivos como falta de vista, constipações, insónias ou mesmo pedindo clisteres, e acrescentando com um ar matreiro: "Já sei que a esta hora me despacho num instante!". Depois, o conceito foi alargado a consultas e exames complementares. Mas por muito que se "elastifique" o conceito, é impossível "moderar" os internamentos taxando os doentes, tendo em conta que não são eles que decidem se são internados nem quando têm alta. E o detalhe de "a partir dos 14 dias de internamento passa a ser considerada doença muito grave e não pagam" então, é o máximo. Suponho que por esta lógica um enfarte, cujo tempo de internamento raramente excede uma semana, ou uma cirurgia oncológica, não são muito graves.

Mas o que acho mais grave é a continuação do ataque insidioso ao Serviço Nacional de Saúde, à sombra da muito propalada ideia de que "é inviável", de que "o Estado não pode suportar os gastos". Eu acho que pode, e que deve. É para isso que existe o Estado, que existem os impostos, para nos garantir algumas necessidades básicas, como a Saúde e a Segurança. E por mais voltas que dêm ao assunto, trata-se no fim de contas de uma questão de prioridades. Claro que é preciso gerir bem o dinheiro, para evitar desperdícios, que existem. Mas a solução não é acabar com o sistema, que funciona. Qual é a alternativa? Um sistema de saúde privado, assegurado pelos seguros? Para isso é que não há dinheiro, como se vê aliás nos Estados Unidos - excelentes cuidados de saúde para quem é rico e pode pagar os prémios principescos das seguradoras, e uma miséria para os restantes. Li há pouco num livro uma proposta de um sistema alternativo - uma conta-poupança obrigatória (em vez dos descontos para a saúde) que seria gerida pelo própsio, e um seguro para as "despesas-catástrofe", aquelas que seriam demasiado grandes e que esgotariam a conta de imediato (aliás, para as quais a conta não chegaria). Só que vejo aí dois problemas: primeiro, a esmagadora maioria das pessoas não tem capacidade técnica nem hipótese de obter a informação necessária a fazer as suas escolhas no âmbito dos cuidados de saúde (ao contrário do que dizem os optimistas, não basta procurar na internet, e isso assumindo que toda a gente tem internet), segundo, o conceito de "despesas-catástrofe" é muito ambíguo, e com os preços actuais dos cuidados de saúde não seria muito difícil ultrapassar qualquer conta-poupança razoável.

Portanto, gostaria muito que não dessem cabo do nosso sistema de Saúde, que com todos os defeitos que tem ainda é dos bons serviços públicos que temos. E que não digam que não é viável - o sistema no Canadá é público, e funciona muito melhor do que o dos Estados Unidos. E sobretudo, detesto ouvir a retórica economicista que pretende justificar opções políticas com motivos técnicos.

domingo, outubro 08, 2006

Duas Exposições

Enquanto estive em Nova Iorque, vi duas excelentes exposições:



No Limits, Just Edges: Jackson Pollock Paintings on Paper - Há muito tempo que Jackson Pollock é o meu pintor americano favorito, penso que desde a minha primeira ida aos Estados Unidos e a descoberta das suas telas "ao vivo". Por pouco perdi esta exposição (vi-a no último dia), o que teria sido uma pena. Além de vários desenhos magníficos, mostra a evolução do pintor ao longo de 25 anos, o que é sempre extremamente interessante, sobretudo quando, como no caso, se dá a passagem do figurativo ao abstracto. (Lembro-me de ver há uns anos uma exposição de Mondrian no CCB que também abarcava esta evolução, e que me fez apreciá-lo mais.)

Como brinde, tive a exposição que estava na rampa espiral, que não me teria atraído só por si mas que foi uma agradável descoberta: o trabalho do atelier de arquitectura de Zaha Hadid, que eu não conhecia, com maquetas e fotografias espectaculares, e admiravelmente exposto, em que o interesse pela obra vai crescendo à medida em que se avança pela espiral. E o edifício de Frank Lloyd Wright é sempre um prazer de redescobrir.



Cézanne to Picasso: Ambroise Vollard, Patron of the Avant-Garde - Esta vi-a por acaso; reparámos nos cartazes ao passar em frente do Metropolitan e uma amiga (que aprecia mais os impressionistas que os expressionistas abstractos e que estava um tanto céptica quanto à de Pollock - depois rendeu-se, devo dizer em seu abono!) teve vontade de ver e entrámos. Foi uma sorte, porque a exposição é excelente. Muitas obras dos melhores pintores dos fins do século XIX e princípios do XX passaram pelas mãos de Vollard, e a exposição apresentava uma colecção notável, sobretudo de Cézanne, Gauguin e Picasso, com alguns quadros muito bons de Renoir, Degas e outros. Os retratos de Vollard deixam-nos verdes de inveja - que sorte ser retratado daquela forma por aqueles pintores! Sobretudo os de Cézanne e Picasso, que são soberbos. Gostei também especialmente dos livrinhos de poemas de Verlaine ilustrados por Rouault. E claro, aproveitei para rever as galerias de impressionistas e de Rodin do Metropolitan, que são talvez as melhores do mundo, mesmo incluindo o Musée d'Orsay.

quinta-feira, outubro 05, 2006

New York



Alguns dias em Nova Iorque - um "banho" de ciência, cultura, gastronomia, passeio e compras. Fisicamente cansativo, mas mental e emocionalmente relaxante. Nova Iorque é sempre divertido e estimulante, a cidade por excelência, em que se se pode fazer tudo e encontrar de tudo a praticamente qualquer hora, aquilo que, juntamente com o anonimato e o cosmopolitismo, representa para mim a verdadeira civilização urbana. Soube-me bem andar quilómetros, quer pelas avenidas quer pela Greenwich Village (a minha zona favorita de Manhattan), servir de cicerone a uma amiga que ia lá pela primeira vez, revisitar museus (fui pela primeira vez ao American Museum of Natural History, de que gostei imenso, e visitei o MoMA renovado), perder-me nas salas da labiríntica Barnes & Noble, ouvir blues ao vivo num bar da Village, comer em restaurantes de diferentes nacionalidades cada dia. Se facto, sair da rotina é das melhores actividades da vida.

terça-feira, outubro 03, 2006

Leisure



What is this life if, full of care,
We have no time to stand and stare?

No time to stand beneath the boughs
And stare as long as sheep or cows.

No time to see, when woods we pass,
Where squirrels hide their nuts in grass.

No time to see, in broad daylight,
Streams full of stars, like skies at night.

No time to turn at Beauty’s glance,
And watch her feet, how they can dance.

No time to wait till her mouth can
Enrich that smile her eyes began.

A poor life this if, full of care,
We have no time to stand and stare.


W.H. Davies

segunda-feira, outubro 02, 2006

Cria Cuervos



Como é mesmo aquele provérbio espanhol?

Cria corvos, e eles depois quando crescem arrancam-te os olhos

segunda-feira, setembro 18, 2006

Gore Vidal - A Biography, de Fred Kaplan

Terminei recentemente de ler a extensa (800 páginas em paperback...) biografia de Gore Vidal por Fred Kaplan. Tratando-se de uma personalidade que admiro bastante, e tendo já lido a memória de 1995 Palimpsest, tinha algumas reservas, mas também muita curiosidade. No final, fiquei satisfeito - globalmente, penso que a biografia de Kaplan lhe faz justiça, suficientemente detalhada sem se tornar maçadoramente exaustiva e bastante equilibrada na descrição - sem julgamentos morais - das suas capacidades, defeitos e qualidades (utilizar o termo "virtudes" aplicado a Gore Vidal parecer-me-ia absurdo!). Fiquei com pena que acabe em 1999 (à data da publicação), já que depois disso houve o caso do diálogo com Timothy McVeigh, que não acompanhei na altura e sobre o qual gostava de me esclarecer; de resto, vou lendo algumas entrevistas de Vidal e acompanhei pelos media a morte de Howard Austen, a venda de La Rondinaia e a mudança para Los Angeles.

Já falei de Gore Vidal a propósito de Washington DC e de The Golden Age. O primeiro livro dele que li foi Juliano, penso que em 1990, e lembro-me de gostar, embora não me impressionasse especialmente. Depois li alguns dos romances do que veio a ser o ciclo Narratives of the Empire, que achei sempre muito interessantes, e li o hilariante Myra Breckinridge (e a sua continuação Myron) alguns anos depois; passei aos ensaios e a Palimpsest, e foi então que me rendi a Vidal, que actualmente aprecio mais como ensaísta que como romancista - eu e muitos outros, o que aparentemente desagrada ao próprio Gore. Continuo a apreciar Gore Vidal, e a admirar o seu espírito arguto e humor sarcástico, e a coragem que teve em abordar certos assuntos nos seus escritos e expor opiniões abertamente quando essa prática ainda estava longe de ser inócua para quem a realizava, e pela coerência e independência com que sempre se recusou a ser rotulado ou "engavetado", assumindo-se antes de tudo como um escritor e um intelectual, e não um escritor isto ou um activista aquilo. Por tudo isso, mesmo que actualmente, com mais de 80 anos e fisicamente incapacitado, se repita um tanto nas suas declarações, continua a merecer amplamente o nosso respeito e admiração - de certa forma, é graças a pessoas como ele que se foi vencendo a intolerância, mesmo que muito continue por fazer.

domingo, setembro 17, 2006

Kind of in a sentimental mood...


Good times for a change
see, the luck I've had
can make a good man
turn bad

So please please please
let me, let me, let me
let me get what I want
this time

Haven't had a dream in a long time
see, the life I've had
can make a good man bad

So for once in my life
let me get what I want
Lord knows it would be the first time
Lord knows it would be the first time


The Smiths - Please, Please, Please Let Get What I Want

sábado, setembro 16, 2006

A propósito de Prime, de Ben Younger

O filme Prime (Terapia de Amor em Português) é uma comediazinha romântica, bem disposta, que vale sobretudo pelas actrizes - Meryl Streep excelente e Uma Thurman belíssima - e por alguns momentos hilariantes. No entanto, o assunto - a relação de uma mulher de 37 anos com um rapaz de 23, focada nos problemas da diferença de idades - fez-me pensar num caso análogo, passado com uma amiga minha. Aos 30 e poucos anos, iniciou um caso com um rapaz de 20 e poucos; além das suas próprias dúvidas sobre o futuro de uma relação com uma tão grande diferença de idades, questões como filhos, compatibilidades de amigos, envelhecimento dela antes do dele, etc, enfrentou muitas críticas de pessoas que a rodeavam. Mas - tal como no filme - ele fazia-a imensamente feliz (e vice-versa), e estava a viver a relação que de longe a satisfizera mais até ao momento. E, ao contrário das previsões de tantos "urubus" - e ao contrário do desenlace do filme - passados quase 10 anos eles continuam juntos e felizes. E mesmo que um dia se desentendam e separem, quantas relações resultam em 10 anos de felicidade? Falo nisto apenas para salientar que as coisas nem sempre são tão lineares como se pensa à primeira vista, e porque - talvez influenciado por este caso da vida real dos meus amigos - tive pena que o filme optasse pelo final convencional - o episódio com a mulher mais velha como um rito de passagem no crescimento do jovem macho, encarado com simpatia mas claramente como uma etapa passageira.

sexta-feira, setembro 15, 2006

Between the Woods and the Water, de Patrick Leigh Fermor

Como acho que já disse mais do que uma vez a propósito de outros livros, gosto muito de ler relatos de viagens. Sobretudo quando são tão deliciosamente suculentos como os de Patrick Leigh Fermor - terminei há dias Between the Woods and the Water, a continuação de A Time of Gifts, que li há uns anos.

Já não me lembro bem de quando ouvi falar de P. Leigh Fermor pela primeira vez, talvez na biografia de Bruce Chatwin, de quem foi amigo e de alguma forma um dos mentores. Depois, lembro-me de várias vezes ver A Time of Gifts no catálogo da editora Folio, onde durante alguns anos encomendei livros, e por fim comprei-o, numa época em que li vários volumes de memórias / viagens. Gostei imenso, e a continuação não lhe fica atrás. Espero bem que Leigh Fermor consiga publicar em breve a terceira e última parte! (Pois ele ainda vive, com 91 anos.)

Estes dois livros são o relato (escrito muitos anos depois e ainda inacabado) de uma viagem feita pelo autor na sua juventude - em 1933, uma espécie de enfant terrible da upper middle class inglesa, aventurou-se no projecto de viajar a pé até Constantinopla, atravessando a Europa ao longo dos eixos dos rios Reno e Danúbio), munido de um saco-cama emprestado por outro viajante famoso (Robert Byron, o autor de The Road to Oxiana) e uma bagagem reduzida ao mínimo, como uma espécie de vagabundo educado. A viagem durou quase dois anos, ao longo de uma Europa num momento particularmente significativo - pouco antes da 2ª Guerra Mundial, que iria transformar radicalmente toda a zona percorrida, que por isso mesmo ganha contornos simultaneamente nostálgicos e fantásticos, pois é de um outro mundo, entretanto desaparecido, que se fala. E a descrição de Patrick Leigh Fermor é fascinante - enriquecida pelos anos entretanto passados, em que PLF, um autodidacta inesgotavelmente curioso, acumulou conhecimentos enciclopédicos sobre tudo, desde botânica e zoologia a antropologia e etnologia (não admira que fosse uma das inspirações de Chatwin!), mas sobretudo a História europeia, o que torna o livro repleto de detalhes curiosos e interessantes áo longo de toda a narrativa. Por outro lado, o humor e optimismo da juventude (tinha 18 anos) tornam-se contagiantes.

O livro termina num tom nostálgico e inesperadamente melancólico, numa nota em que o autor informa que a zona onde se passa a parte final já não existe, submersa pela construção de uma gigantesca barragem no Danúbio pelas socialistas Roménia / Bulgária / Jugoslávia, assim destruindo uma paisagem fulcral na história da Europa desde o tempo dos Romanos. Não é uma diatribe sentenciosa contra o progresso, antes uma reflexão sobre a saudade e a nostalgia por um passado desaparecido.

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"Mas conheceu realmente uma pessoa chamada Quioáqui?"

em A Ruína do Anjo, de Yukio Mishima


Às vezes, uma frase, uma percepção, faz-me sentir inesperadamente atormentado por esta dúvida... Será que tudo foi real, que existiu mesmo? Às vezes, o enfraquecer da memória angustia-me.

quinta-feira, setembro 14, 2006

Coldplay


Acho que os Coldplay têm melhorado notavelmente ao longo do tempo. Lembro-me de ouvir há uns anos Yellow e Trouble, e de as achar umas músicas bonitas mas um tanto xaroposas, de acordo aliás com o visual do grupo, uns rapazes muito imberbes e deslavados. Mais tarde, já apreciei mais In My Place e outras músicas desse álbum. Finalmente, com X&Y, acho que atingiram a maturidade e fizeram um grande disco - forte, belo, lírico sem ser piegas (só não gosto do início de Fix You, em que o falsetto de Chris Martin está um pouco excessivo). E é engraçado como a imagem da banda também melhorou, até estão mais bonitos, com um ar mais adulto. Não me impressiona especialmente a sua faceta "benemérita", e são terrivelmente clean, mas também acho que não é preciso ser infeliz e torturado para fazer e ainda bem que os rapazes são felizes e bem intencionados (e além de tudo, Chris Martin tem a sorte de ser casado com a bela Gwyneth Paltrow). A beleza da sua música é mais apolínea que dionisíaca, do género de nos fazer sentir bem, o que é necessário à vida, e é sempre bom conseguir esse tipo de beleza sem ser piroso nem sentimental no mau sentido. Concluindo: acho que o exemplar de X&Y que ofereci há meses à minha filha passará uns tempos largos na minha secretária.

quarta-feira, setembro 13, 2006

Chuva


Finalmente, o regresso da chuva anunciando o fim do Verão. Soube bem voltar a sentir a frescura e cheirar a terra molhada. No fim de contas, não foi um Verão de todo mau... Os períodos de férias foram agradáveis, o tempo em geral bom, mesmo o calor foi bem tolerado, sobrevivi às crianças em casa. No entanto, a morte do meu cão recobriu tudo de uma certa melancolia. Tenho saudades dele, sinto a falta dos nossos passeios matinais e nocturnos; de manhã sobra-me tempo e à noite sinto sempre que falta qualquer coisa. Sinto a falta dele.

Freakonomics, de Steven Levitt e Stephen Dubner

Li recentemente Freakonomics, um dos "livros-sensação" do ano passado. É interessante, mas como quase todos os "livros-sensação" oferece bastante menos do que promete; eu pelo menos esperava melhor. Os autores utilizam títulos muito bombásticos e titilantes, mas depois o conteúdo acaba por se revelar apenas o bom-senso que eles próprios começam por menosprezar. Também o apresentar Levitt como uma espécie de enfant terrible é uma manobra de marketing demasiado óbvia, ou o pretender que o livro trata de "tudo" é um pouco excessivo, já que basicamente desenvolve que os incentivos são aquilo que move o comportamento humano - e a Economia, e que o que importa é perceber quais são os incentivos e não assumir que seja apenas a sede de lucro.

No entanto, globalmente gostei, apesar destes (para mim) defeitos de forma que têm muito a ver com um certo "americanismo" publicitário para ajudar a vender livros nestes tempos em que o que as pessoas querem é entertainment de preferência titilante. Mas o livro fala de assuntos sérios e mostra alguns lados óbvios mas habitualmente negligenciados da realidade, o que só por si, e por cultivar algum cepticismo em relação às noções superficiais que a maioria das pessoas tem do mundo, já vale a pena. De resto, o tom dos autores, muito auto-elogioso, é por vezes um bocado irritante.

terça-feira, setembro 12, 2006

O Milagre Segundo Salomé, de José Rodrigues Miguéis


O Milagre Segundo Salomé foi uma agradável surpresa. Tinha lido pouco de José Rodrigues Miguéis - A Escola do Paraíso há muitos anos, de que me lembro mal mas de que não gostei muito, e Uma Aventura Inquietante há alguns anos, de que gostei mas achei um livro menor. De modo que foi por acaso que comecei a ler este - no final das férias, quando se me acabaram os meus livros - o que muitas vezes produz bons resultados (serendipidade!).

Inicialmente, irritou-me pela linguagem, muito barroca, com excessiva utilização de arcaísmos, regionalismos, etc, expressões que geralmente pretendem dar um cunho "castiço" ou genuíno" a um texto, mas que geralmente apenas o sobrecarregam inutilmente e lhe retiram autenticidade, pois é difícil empatizar com um texto que soa algo artificial. No entanto, é engraçado como esse defeito vai diminuindo ao longo do livro, como se o autor se fosse entregando mais à narrativa, envolvendo-se nela, e esquecendo progressivamente os artifícios de estilo (claro que poderia dar-se o caso de simplesmente nos irmos habituando à linguagem, mas não me parece, mesmo porque reparei nisto durante a leitura).

Feita esta ressalva, achei o livro muito bom. Pinta um retrato inteligente, irónico e implacável da decadência da Primeira República, que tristemente se aplica à situação actual como uma luva - como Portugal muda pouco! - e por onde se percebe como o cenário era propício ao aparecimento de ditadores, sebastiões e... milagres. Os interlúdios em que o autor se alarga nestas descrições são por vezes palavrosos, mas compensam pelo conteúdo, como no impagável - e sinistro - retrato do grande capitalista, e sobretudo na espectacular descrição jornalística do Milagre, que acho tão perfeita que não resisto a transcrevê-la:

(Para situar a descrição: Salomé é uma jovem prostituta romântica e sentimental que vive por conta de um milionário; atravessando uma crise de consciência - existencial - vai em peregrinação nostálgica à sua terra natal, um fim de mundo nas Beiras onde guardava ovelhas. Pára nos montes nos arredores da aldeia, e vagueia um pouco ao fim da tarde, em estado de grande perturbação emocional, elegantemente vestida de seda branca, capa de cetim azul, estola de raposas prateadas e chapéu parisiense de lantejoulas; avista uns pastorinhos com os quais se comove e choca-se porque eles fogem dela, e regressa perturbada ao carro, chamada por golpes de buzina, enquanto estala uma tempestade.)

"Caso é que - rezam solícitos correspondentes - a treze de Abril e sexta-feira, ao sol-pôr, estando pesados e plúmbeos os céus, três crianças cujos nomes são de uma «bíblica» simplicidade: Jaquina, Maria e Manel, andavam a apascentar umas ovelhas no cerro de Lapa d'Ursos, sobranceiro ao lugarejo de Meca, quando, um pouco acima delas, no alto das rochas e sob as ramarias dum velho sobreiro que ali vingou crescer e afrontar os séculos e os temporais, se aperceberam de um clarão sobrenatural. Erguendo os olhos, avistaram uma figura de radiosa beleza, na qual sem hesitar reconheceram a benta imagem da Senhora das Dores, padroeira da freguesia, fervorosamente adorada na região.
Tinha na fronte a coroa cravejada de jóias, delas tão conhecida; o manto azul flutuava de manso na brisa do entardecer, e a túnica tinha a alvura das pombas da Aleluia. As névoas do ar, em torno dela, eram como arminhos leves ou revoadas de querubins; e toda ela irradiava auréolas. Ficaram a contemplá-la, medusadas de assombro. E logo - diz a Jaquina, pelas outras confirmada - a inefável imagem lhes estendeu os braços e disse: «Filhos, vinde a mim e orai!» A tais palavras, que eram pura música celestial, os três pastorinhos, vencidos de pavor, deitaram encosta abaixo, em direcção à aldeia, clamando pelas gentes, que viessem ver a Aparecida!
[...] Um pormenor que muito impressionou as gentes; os meninos afirmam ter ouvido, no momento da Aparição, o som repetido de trombetas anunciadoras da mística visita."

E o texto prossegue neste tom, com os efeitos provocados pelo milagre, as repercussões locais, depois nacionais, a atitude da Igreja, etc. Acho esta passagem soberba - de facto, no Portugal miserável e atrasado da época, de que outra forma poderiam interpretar o que viam os três brutinhos das berças? Acho uma das melhores explicações apresentadas até hoje para o milagre de Fátima... perdão, de Meca!

segunda-feira, setembro 11, 2006

Costa Vicentina


Uns dias de férias na Costa Vicentina, onde estão as praias mais bonitas de Portugal. Tive sorte com o tempo - excelente, incluindo a água do mar, que estava a uma temperatura divinal. Há muitos anos que não percorria aquelas paragens, e a viagem foi algo nostálgica, devido a uma outra pelos mesmos sítios, no Verão de 1989. Felizmente, a costa pareceu-me na mesma, exceptuando Porto Covo, que achei muito transformada pelo turismo. Mas nada se compararmos com a costa sul do Algarve - a partir de Sagres é uma autêntica desgraça - começa logo por uns mamarrachos de betão na Ponta de Sagres, de finalidade duvidosa e estética execrável, e que soube depois que estão lá plantados há mais de 10 anos. Lagos, de que tanto gostava na minha adolescência - Verões de acampamentos com amigos - está horrível: a cidade caótica e os arredores irreconhecíveis, onde era campo agora são casas, prédios, arruamentos, completamente incaracterístico e feio. E apesar de tudo, o mar lá continua tão azul e luminoso como sempre.

quarta-feira, agosto 30, 2006

Faltas de senso


Li há dias, num editorial de uma revista médica, uma passagem em que a decisão da OMS de não contratar fumadores era referida como "um estímulo para as pessoas deixarem de fumar". Isso lembrou-me a recente polémica na comunicação social sobre uma empresa europeia tomar a mesma decisão, e de tal ser não ser considerado um caso de discriminação, uma vez que não estava listado nos motivos de discriminação. A minha reacção perante este assunto é de tristeza - de facto, o politicamente correcto, neste caso o "saudavelmente" correcto, está a deixar tudo louco. Porque o que eu acho assustador não é que o discriminar alguém para um emprego por ser fumador não seja incluído na lista das discriminações, mas que se ponha sequer a questão.

Não tenciono negar os malefícios do tabagismo. Mas quando se selecciona alguém para um emprego, parece-me que o que interessa é a sua capacidade para exercer determinadas funções, ou o perfil para ocupar um lugar, e não se se fuma à noite em casa ou com os amigos, ou se se gosta de ver filmes de terror, de usar cuecas cor-de-rosa, de comer pastéis de nata ou de praticar jogos sexuais com algemas. Qualquer empregador tem obviamente o direito de proibir que se fume no local de trabalho - aliás, eu defendo que não se deve permitir fumar nos locais de trabalho, nem em espaços públicos fechados em geral, incluindo bares, restaurantes e discotecas. Mas daí a pretender proibir que se fume de todo, nomeadamente em casa de cada um, sob pena de se ser excluído de um emprego, vai uma grande distância. Que se pretende? O policiamento dos bons costumes? A ditadura do comportamento saudável?

Outra medida indicada no mesmo editorial era a penalização dos seguros de saúde para fumadores e a bonificação para quem praticasse um comportamento saudável. Em Portugal, onde os seguros de saúde estão ainda muito pouco difundidos, esta medida não teria grande significado, mas parece-me um precedente perigoso. À primeira vista, parece simples e lógico, mas dado o alargamento progressivo dos conceitos de doença / comportamentos influenciadores da saúde, não será difícil assistir à mesma falta de senso que gerou a ideia da exclusão de fumadores de empregos dar origem a um policiamento da nossa vida privada que considero intolerável - do género o que se come, se se faz ou não exercício, os costumes sexuais, etc. É isso que as pessoas desejam?

Por fim, resta-me a esperança que algumas sobras de bom senso impeçam a concretização deste tipo de medidas... É que convém que os nossos governantes se lembrem de que lançariam largos milhares de pessoas no desemprego... A começar pelo nosso primeiro-ministro.

domingo, agosto 27, 2006

Messy Room


Whosever room this is should be ashamed!
His underwear is hanging on the lamp.
His raincoat is there in the overstuffed chair,
And the chair is becoming quite mucky and damp.
His workbook is wedged in the window,
His sweater's been thrown on the floor.
His scarf and one ski are beneath the TV,
And his pants have been carelessly hung on the door.
His books are all jammed in the closet,
His vest has been left in the hall.
A lizard named Ed is asleep in his bed,
And his smelly old sock has been stuck to the wall.
Whosever room this is should be ashamed!
Donald or Robert or Willie or--
Huh? You say it's mine? Oh, dear,
I knew it looked familiar!

Shel Silverstein