domingo, outubro 18, 2009

I Served the King of England, de Bohumil Hrabal

Depois da óptima eperiência com os livros suecos, resolvi fazer o mesmo em Praga, e escolhi uma amostra de livros de autores checos (em inglês, claro) numa das muitas boas livrarias da cidade. Até agora só conhecia Kafka (que aliás escrevia em alemão) e Kundera. Comecei por I Serve the King of England, de Bohumil Hrabal, e só espero que os próximos tenham a mesma qualidade. Gostei muito deste livro: escrito na primeira pessoa, as memórias fictícias de um criado de hotel aspirante a milionário passadas no período dos anos 30 aos anos 50, consegue mostrar, através da perspectiva de um homem de uma ingenuidade a tocar a tolice, a forma como aquele período histórico fundamental foi vivido pelos Checos. Todas as referências que entretanto vi sobre Bohumil Hrabal enfatizam a dificuldade da sua tradução, por ser tão enraizadamente checo na escrita e no humor. E de facto, sente-se ao longo de todo o livro um espírito muito especial, de um humor picaresco e irreverente, de um carácter resistente, acomodatício e casmurro, a que estive especialmente atento depois de ter visitado Praga e lido o divertido Xenophobe Guide to the Czechs (esta série é um delícia!). Tão diferente do espírito sério e nostálgico dos autores escandinavos!

O livro é muito bom, divertido de ler, inteligente e ajuda sem dúvida a compreender a Chéquia (à falta de melhor termo para a República Checa, este está a tornar-se aceite) através da viagem de auto-descoberta do narrador. E tem cenas verdadeiramente hilariantes, como a parte do campo de detenção dos milionários sob o comunismo.

(A foto é do Hotel Paris, onde se passa parte da acção. É óptimo reconhecer e visualizar os sítios dos romances!)

domingo, outubro 11, 2009

Viagem a Praga



Estive cinco dias em Praga, que me souberam magnificamente. Há muito tempo que tencionava lá ir, todos os meus amigos e conhecidos que a conheciam lhe teciam sempre rasgados elogios, de modo que fui com alguma expectativa. Que não foi frustrada, apesar de de uma forma um pouco diferente do que imaginava. Mas não é esse - a surpresa - um dos prazeres de viajar?



A cidade é de facto muito bonita, o centro histórico é magnífico, repleto de edifícios belíssimos de diferentes estilos arquitectónicos e com uma disposição que pouco mudou desde a Idade Média / Renascimento, ao contrário da maioria das outras grandes cidades europeias. É esse arranjo arquitectural, combinado com a beleza dos edifícios, que constitui o maior encanto de Praga - ruas cheias de curvas e contra-curvas, pátios, arcadas, recantos; a cada passo depara-se com uma perspectiva diferente de fachadas, janelas góticas, tabuletas renascentistas, espirais de igrejas, etc.



Houve dois aspectos que me desiludiram, provavelmente devido às expectativas alimentadas pelos relatos dos amigos. Um foi a atitude pouco amigável ou mesmo francamente antipática da maioria dos checos - sempre com ar enfadado, indolente e nada prestáveis. Claro que encontrámos muitos simpáticos e amigáveis, mas em geral, diria que são 80/20 de antipáticos/simpáticos. O segundo aspecto foi a multidão de turistas; já sabia que Praga era agora um destino turístico muito popular, mas não imaginava quanto, sobretudo tendo em conta que fui em Outubro. Acho que só vi mais turistas por metro quadrado em Veneza! Talvez por isso, aquele famoso ambiente de nostalgia, magia, mistério, que é tão associado a Praga no nosso imaginário, não existe de todo (ao contrário de Veneza, onde tive a surpresa contrária - apesar das multidões de turistas, a cidade mantém um ambiente único e mágico). Mas talvez indo no Inverno seja diferente.



Last but not least, houve o componente "de férias", lúdico, de estar longe do quotidiano e em boa companhia, e o prazer de estar com o meu amigo companheiro de viagem que nos últimos meses raramente via foi um grande contributo para o bem estar. Como é agradável conversar, comer fiambre fumado e salsichas grelhadas, beber Urquell (a melhor cerveja checa que provei), subir a torres (mesmo com vertigens...), tirar montes de fotografias, discutir as particularidades locais, falar de tolices ou simplesmente aboborar nas esplanadas... Foi uma injecção de boa disposição, e fico já com apetite para a próxima.

quinta-feira, outubro 08, 2009

Portraits and Observations - The Essays of Truman Capote

Truman Capote escrevia muito bem, tinha um sentido de humor acerado e satírico, e este livro reúne os seus ensaios, que o mostram no seu melhor e no seu pior. O melhor, por exemplo, The Muses are Heard, uma reportagem deliciosa sobre uma tournée de Porgy and Bess na Rússia em 1955, ou Handcarved Coffins, uma história negra sobre crimes em série. O pior, como o texto sobre um cruzeiro no Mediterrâneo, em que se limita a enumerar os seus "amigos" ricos e famosos, e outros textos em que o que se destaca é o seu snobismo e auto-indulgência - como anedotas repetidas e atribuídas a diferentes pessoas ou a ele próprio. No conjunto, um livro interessante e agradável de ler, como a maioria da prosa de Capote; no entanto não se consegue levá-lo tão a sério como ele gostaria e pretendia.

Autárquicas em Oeiras

As sondagens sobre as eleições autárquicas em Oeiras prevêem uma confortável vitória de Isaltino, apesar de ter sido condenado a 7 anos de prisão - o que por este tipo de crimes é bastante raro no nosso país, o que significa que as provas contra ele eram esmagadoras. Infelizmente, isto não me surpreende, e acho que estes resulatdos se devem a duas razões:

1) A ideia generalizada e enraizada na nossa população de que os políticos são corruptos por definição - logo, todos roubam, portanto mais vale eleger os que "fazem", já que qualquer outro seria igualmente ladrão.

2) O facto de a nossa população não considerar este tipo de crimes moralmente condenável - a maioria das pessoas acha perfeitamente normal que os políticos (ou qualquer outras pessoas) "aproveitem" as oportunidades e enriqueçam pelo suborno e a fuga aos impostos; no fundo sentem inveja e gostariam de poder fazer o mesmo. Enriquecer pelo trabalho honesto é tão trabalhoso...

Portanto, não me admira o sucesso eleitoral de pessoas como Isaltino, Valentim Loureiro ou Fátima Felgueiras. Representam o que os portugueses admiram e invejam: os chicos-espertos que vencem na vida sem grande esforço e escapando à legalidade/autoridade, que é vista como uma espécie de pai severo que sabe bem enganar.

Infelizmente para mim, não partilho dessas opiniões. Não acho que um político seja necessariamente corrupto, se muitos são isso não é desculpa, e deveriam ser punidos precisamente para desencorajar outros de o serem. E tenho a careta convicção de que a honestidade é uma virtude e que devemos ser éticos e cooperar de forma limpa - pagando impostos, sendo competenetes, etc - para construirmos uma sociedade civilizada e melhor. Azar meu, pois lá terei novamente um presidente da câmara que obviamente não partilha destas ideias tão aborrecidas...

quarta-feira, setembro 16, 2009

Setembro, e a rentrée



Setembro e a rentrée é uma época sempre algo stressante... O trânsito aumenta brutalmente, e o ano lectivo recomeça, com todas as ansiedades que isso me provoca - será que desta vez o Abdallah vai às aulas? E a Crazy Kitty decidirá equipar-se para as aulas de Educação Física? Quantos telefonemas, e-mails e notificações não vou receber das escolas este ano? Apesar de tudo, por enquanto tudo parece correr sobre rodas, o Verão correu notavelmente bem, a disposição dos infantes para a retoma escolar parece ser a melhor - o Abdallah pronto 20 minutos antes da hora, lavado e pequeno-almoçado, cadernos e livros etiquetados, etc. Enfim, quiçá ter suportado muitos dos problemas das maluquices adolescentes antes do tempo me poupe nos próximos meses... A verdade é que não consigo deixar de gostar dos meus torrõezinhos de açúcar, por muito doidos que sejam. Como dizia o outro, alea jacta est! Agora é ver como as coisas evoluem.

segunda-feira, setembro 14, 2009

Growth of the Soil, de Knut Hamsun

Terminei a minha série de livros escandinavos com um autor norueguês, a respeito do qual sentia bastante curiosidade. Foi um autor muito influente no princípio do século XX, e ainda este ano tinha encontrado referências à sua importância literária nos livros de Canetti e de Amos Oz, e tornou-se depois um escritor "maldito" pelo apoio que deu ao nazismo. Para quem gosta de explorar os escritores como eu, torna-se muitas vezes difícil separar o autor da sua obra, mas há imensos casos de livros excelentes escritos por pessoas que seguramente não gostaria de ter conhecido e cujas opiniões e vidas não aprovo. Neste caso, gostei bastante do livro, um épico sobre a colonização dos espaços selvagens da Noruega, um hino ao trabalho e à vida rurais e aos camponeses, tratados como uma espécie de heróis mitológicos do nosso tempo. As personagens são muito reais, embora o autor revele uma certa misoginia - as mulheres são sempre apresentadas como mais calculistas e mesquinhas e menos "puras" que os homens. A história flui suave e firmemente, como a sucessão das estações, dos trabalhos agrícolas e da vida familiar. Fez-me lembrar alguns livros que li há muitos anos, como O Don Tranquilo ou Terra Bendita. Está muito bem escrito, transmitindo uma grande ternura e admiração pela beleza da vida rural e da relação daqueles pioneiros com a natureza que desbravam e respeitam. E acho que visualizei melhor o romance depois de ter passado pelo norte da Noruega e visto as pequenas casas de madeira pintadas de encarnado contra as montanhas, como na fotografia da capa do livro.

domingo, agosto 30, 2009

Inglourious Basterds, de Quentin Tarantino



Um filme muito divertido, não o melhor que vi de Tarantino, mas mesmo assim uma delícia para ver, sobretudo nos tempos que vão correndo, em que poucos filmes interessantes têm aparecido. O enredo rocambolesco faz lembrar a banda desenhada de Cuto ou de Blake e Mortimer, e transmite um prazer do género dos filmes de Indiana Jones nos anos 80, cuja ingenuidade é neste caso substituídapor um espírito satírico e violento - mais adaptado aos anos 00... Esteticamente é magnífico, as cenas são muito bem filmadas, e as interpretações estão óptimas, destacando-se o magnífico trabalho de Christoph Waltz no vilão nazi, que domina completamente o filme, e sendo o pior o de Brad Pitt, cujo overacting sulista resulta pouco convincente. Quentin Tarantino continua com um inegável talento de pegar nos ingredientes dos filmes B e trash e transformá-los em arte; acho apenas que por vezes se alonga demasiado em certas cenas, forçando demasiado algumas notas - uma certa auto-indulgência que também se nota em Death Proof e que beneficiaria de um editing mais exigente. Mas n conjunto é um óptimo filme.

quarta-feira, agosto 26, 2009

Corfu, de Robert Dessaix

Gostei deste livro, que acho interessante em vários aspectos. Para começar, é uma leitura agradável e o enredo é engraçado, no género comédia romântica. Mas o que me tocou foram dois aspectos - primeiro, o tema da vida como viagem, tão bem ilustrado pelo poema de Cavafis Ítaca, e da procura da amizade perfeita; segundo, a experiência dos locais como incluindo as memórias das outras pessoas que os visitaram e do que lemos e sonhámos sobre eles.

Com efeito, quando visitamos um local, experimentamo-lo no contexto do nosso imaginário - tal como a Corfu de Dessaix é permeada pela presença dos Durrells e de Sissi, também a "minha" Paris é habitada pelo grupo de Sartre, pelas ersonagens de Zola ou mesmo pelas de Dumas, tal como Londres pelos Bloomsburyites ou Nova Iorque pelas personagens dos filmes de Woody Allen. O nosso imaginário histórico, literário, cinematográfico, musical, etc etc, enriquece e influencia imenso a forma como experimentamos e vivemos os locais que visitamos.

Quanto à vida como uma viagem, muitos livros, desde a Odisseia, tratam esse tema, e este não diz propriamente nada de novo. Mas o autor escreve com sensibilidade e inteligência, discorre sobre as peças de Tchékov de forma inteligente e que dá vontade de as ver de novo (e como lamento nunca ter visto O Tio Vânia!), cita os poemas de Safo e de Cavafis a propósito e faz-nos senti-los, e as suas evocações da procura da amizade perfeita tocam-me particularmente, pois foi sempre um dos objectivos / sonhos da minha vida. É sempre bom ler passagens como esta: "... veio-me à mente uma frase de Emerson, à minha mente seca como o pó, analítica, uma expressão que me fascinara quando a lera pela primeira vez: "inimigos magníficos". Segundo Emerson, era o que os amigos (no sentido de seres que enriquecem a nossa vida) deviam ser uns para os outros. De repente a expressão fazia algum sentido, um sentido um tanto bizarro: o amigo como invasor a quem admiramos, a quem desejamos (pois a capitulação é doce), mas a quem resistimos, a quem afastamos continuamente. Era tão menos sentimentalista, muito mais dinâmico do que "almas gémeas", "amigos íntimos" e todas as outras palavras que eu tentara escolher entretanto." Ou: "Acho que vou falar de um "amigo especial", suponho que é o que quer dizer uma "alma gémea", aquele género de amigo que Montaigne amou há quatrocentos anos (o seu nome era La Boétie), alguém que foi por ele amado pela única razão de "ele ser ele e eu ser eu"."

sexta-feira, agosto 21, 2009

Quiet Summer days



Dias algo estranhos, estes últimos. Em parte entorpecido pelo calor, a quantidade de trabalho e a solidão doméstica - pouco habituado a viver sozinho, não sei lidar muito bm com isso, fico sempre algo melancólico, embora desta vez até me tenha sabido bem. Pouco tempo para ler, e vontade de voltar a ler mais não-ficção. Alguns rasgos de insight que me entristeceram mas me apaziguaram. E reencontrei uma pessoa no Facebook com quem perdera o contacto há décadas, o que foi bom, mas também me despertou alguma sensação de estranheza - o que sou eu sem os últimos 30 anos? É quase como se me revisse numa vida diferente.

De qualquer forma, no conjunto sinto-me bem. Apaziguado e morno, mas é uma melhoria. Será que vou acabar por me converter a um conceito de felicidade como contentment, tiédeur? Muitas vezes tenho pensado que talvez fosse melhor, mas não quadra com o meu carácter... Como dizia uma personagem interpretada por Fanny Ardant em La Vie Est un Roman (filme que marcou um dia crucial da minha vida, embora na altura eu não me apercebesse, e de que só essa cena me ficou): "J'aime le feu, le glace, pas cette constante tiédeur que vous voulez pour nous." (a frase pode não ter sido esta, mas a ideia era)

quinta-feira, agosto 20, 2009

The Dwarf, de Pär Lagerkvist

Um outro autor sueco, que eu desconhecia ter ganho o prémio Nobel até o ter descoberto em Estocolmo. Um livro estranho e inquietante, passado numa corte italiana imaginária do Renascimento, onde o Príncipe poderia ser Ludovico Sforza, a cidade Milão, a princesa Beatriz d'Este, mestre Bernardo Leonardo da Vinci. Ou não, uma vez que o que se transmite é uma espécie de ensaio sobre a inveja, o desejo e a frustração de um ser que se defende da inferioridade por uma pseudo-misantropia que esconde e disfarça (mal) uma ânsia meio ingénua meio implacável de ser como os outros, de compreender e pertencer ao género humano. Pelo menos essa é a impressão que me fica deste livro, escrito com uma crueza forte numa linguagem aparentemente de conto de fadas. Muito bom.

sábado, agosto 08, 2009

A doação de sangue dos homossexuais



Nos últimos dias houve muitos post na "blogosfera" e no Facebook sobre esta questão, a propósito de uma entrevista do director do Instituto de Sangue: é ou não um discriminação considerar que ser homosseual é uma contra-indicação a ser doador de sangue? O argumento principal a favor dacontra-indicação é qe dar sangue não é em si um direito, mas sim receber sangue "seguro". O que é verdade, decerto. Mas eu concordo que o estabelecer que "ser homossexual" em si é uma contra-indicação está errado e é uma forma de discriminação que deveria desaparecer. É óbvio que é fundamental assegurar o mais possível que o sangue administrado está live de doenças transmissíveis, e concordo que se recusem os dadores com comportamentos de risco. Mas mesmo admitindo que s homossexuais - ou os "men who have sex with men" na teminologia anglo-saxónica politicamente correcta actualmente utilizada - tenham maior frequência de comportamentos de risco, isso não é obrigatório. E quanto a mim, a razão principal para eliminar essa fraseologia é precisamente a de que conduz a um reforço da ideia-feita de que homossexualidade = promiscuidade e a uma visão negativa dos homossexuais, que forçosamente contrbui para a homofobia que já
é tão prevalente na nossa sociedade e que penso ser fundamental eliminar. Mesmo que a selecção dos dadores continue da mesma forma - ou seja, que os homens que têm sexo com homens contnuem a ser recusados caso a caso porque os responsáveis pela selecção não os considerem suficientemente seguros - não deveser assumido que são recusados por "serem homossexuais". Mesmo porque os inquéritos são muito pouc fiáveis, pois as pessoas - homo ou heterossexuais - podem sempre mentir sobre os seus hábitos. E quando se diz que é "só" um questão de palavras, está a ser-se hipócrita, porque as palavras são muito importantes.

Quanto à tão badalada entrevista, é um manancial de disparates que só podem desacreditar quem os profere. Olim tem o direito às suas opiniões, mas pelo que diz estas são completamente homofóbicas e disparatadas, e é por isso que subscrevi a causa do facebook pedindo a sua demissão. Só pela pérola dos homens violados já merecia!

Enfim, as questões de linguagem são importantes,e tudo o que contribua para o fim da homofobia e a aceitação da homossexualidade como algo perfeitamente natural parece-me fundamental. Queremos ou não ser civilizados? E a verdadeira civilização passa pela implementação da felicidade das pessoas.

Documents Concerning Rubashov the Gambler, de Carl-Johan Vallgren

Mais um livro de um autor sueco que comprei em Estocolmo. É interessante, mas ficou aquém das minhas expectativas depois de ler as críticas na contracapa, ao contrário dos outros, que as excederam. O chamado realismo fantástico é utilizado soberbamente por muitos autores, de Gabriel García Márquez a Salman Rushdie, passando por José Saramago, e o tema da imortalidade / viagens no tempo, muitas vezes tratado em livros de ficção científica, deu origem a muitos livros facsinantes. Este livro toma como ponto de partida a imortalidade da personagem principal, o jogador Rubashov, para tratar o tema do Mal ao longo do século XX, que de facto foi particularmente pródigo em situações arrepiantes - Rubashov testemunha / vive a 1ª Guerra Mundial, o extermínio dos kulaks, os programas eugénicos nazis, o Holocausto, a Guerra Fria, o terrorismo do IRA, a guerra dos Balcãs. O livro é interessante, Vallgren escreve bem, mas esforça-se demasiado por transmitir a sua ideia - fica-se com a sensação a partir do meio que já disse o que tinha a dizer e que há mutas páginas supérfluas. E nos últimos capítulos, certifica-se de que percebemos bem a mensagem, em passaens como: "Loss is perhapsthe only constant in humankind's existence, corruption its godmother, and Rubashov had to experience this as few others. [...] Joseph Rubashov symbolises all the widows, widowers, orphans, the abandoned, deceived, mourning, terrified, all those tormented, bullied, expelled, enslaved, prosecuted, totured; but he has a uniquely dual role, as he also represents: all the survivors, those whose fate has often been many times worse than those they survived. He is a case study in the mechanisms of suicide, he symbolises the wretchedest of the wretched: those who want to die, but cannot."

Preferiria um pouco mais de subtileza e menos explicações... Mas mesmo assim, um bom livro.

Poupanças à portuguesa

Há dias, pr volta das 23:00, saía eu do Media Markt em Alfragide, e dei com uma fila imensa de carros parados. Surpreendido pela insólita situação - àquela hora, em Agosto - pensei se teria havido algum acidente que tivesse cortado a estrada. Mas mais à frente percebi a verdadeira causa! É que ali fica a famosa bomba da gasolina mais barata, e todos aqueles carros estavam em fila para abastecer os seus depósitos por uma pechincha! Pois é, como podiam os donos daqueles Toyotas e BMWs resstir a comprar gasolina sem chumbo 95 a 1.119 € o litro? Vale bem a pena, estar uma meia hora à espera numa noite de Verão! Sempre se poupam uns 2 € por depósito! Sem comentários...

domingo, agosto 02, 2009

Into the Wild, de Sean Penn



Um filme muito belo, sobre o desejo de liberdade e de comunhã com a Natureza, nese caso com um resultado trágico, mas realista - a Natureza é certamente bela, mas igualmente implacável, e não basta ser um jovem talentoso, culto e bem intencionado da classe média para conseguir sobreviver sozinho. Mas o filme é excelente - esteticamente muito belo, com óptimas interpretações, um grande afecto pelas personagens e uma banda sonora magnífica, com as canções e a voz de Eddie Vedder. Gostei muito.

quarta-feira, julho 29, 2009

Because I could not stop for Death, by Emily Dickinson



Because I could not stop for Death,
He kindly stopped for me;
The carriage held but just ourselves
And Immortality.
We slowly drove, he knew no haste,
And I had put away
My labor, and my leisure too,
For his civility.

We passed the school, where children strove
At recess, in the ring;
We passed the fields of gazing grain,
We passed the setting sun.

Or rather, he passed us;
The dews grew quivering and chill,
For only gossamer my gown,
My tippet only tulle.

We paused before a house that seemed
A swelling of the ground;
The roof was scarcely visible,
The cornice but a mound.

Since then 'tis centuries, and yet each
Feels shorter than the day
I first surmised the horses' heads
Were toward eternity.

Do not go gentle into that good night, by Dylan Thomas



Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.
Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.

domingo, julho 26, 2009

Martin Birck's Youth, de Hjalmar Söderberg

Um livrinho muito belo, do qual fui gostando mais à medida que avançava na sua leitura. À primeira vista facilmente catalogável como um livro "rich in fin-de-siècle themes: melancholy, eroticism and decadence abound", como diz na recensão da contra-capa, é na verdade muito actual, pois foca uma questão intemporal - o contraste entre o que desejamos inicialmente e o que nos tornamos na realidade, a procura de um "sentido da vida", quase universal na juventude, e qual o sentido dessa procura.

O tom é suave e elegante, um misto de melancolia e nostalgia (fin-de-siècle?); acompanhamos a personagem principal, não especialmente simpática mas muito real nas suas aspirações e sensibilidade muito características de uma classe média culta ("...the melancholy with which life punishes the man who thinks more about beauty and ugliness and good and evil than about his daily bread."), desde uma infância protegida e despreocupada até à estagnação a que se entrega voluntariamente - por comodismo e nihilismo - aos 30 anos. Passamos pela fase em que ele espera que o sentido da vida se lhe revele de alguma forma - "He read and he thought. In books and in his own thoughts he looked for that which young people so often seek, only to forget in their old age that they have ever worried about it: a belief to live for, a star to steer by, a coherence to things, a meaning and an aim." - que no entanto lhe escapa - "In those days the thousands of unfulfilled desires he carried within himself were like many shimmering hopes and half-made promises, for long years of emptiness and disappointment had not yet ground them into sharp knives that pierced and tore at the soul."

A certa altura, chega à conclusão que apenas algumas pessoas têm a determinação para se dedicarem exclusivamente a um objectivo e eventualmente o atingirem, pois a maioria gosta de apreciar a vida pelo caminho, e a saída que encontra é um contentment com o quotidiano nimbado de nihilismo e indiferença.

Na velha imagem da vida como uma viagem, em que há os que só se preocupam com chegar a um destino e os que preferem ir apreciando o caminho, tenho vindo a inclinar-me também para a segunda tendência, mas penso que não é necessário cair no nihilismo e indiferença de Martin Brick, confortáveis justificativos para a mediocridade comodista em que se refugia. Acho que se podem pensar destinos a médio e longo prazo, lutar por eles, enquanto se aprecia o trajecto da melhor forma possível. Talvez não sejam destinos grandiosos nem gloriosos, mas só temos esta vida, e a melhor forma de a viver não será tentarmos ser felizes e criar alguma felicidade à nossa volta? Alguns de nós teremos a capacidade e a oportunidade de o fazer em maior escala, tanto melhor.

sábado, julho 25, 2009

Velhice



“Last scene of all, That ends this strange eventful history, Is second childishness and mere oblivion, Sans teeth, sans eyes, sans taste, sans everything”

William Shakespeare in As You Like It

ntem chguei a casa triste, com aqiele género de aperto no coração de quando algo nos impressiona e deprime e temos consciência de que não podemos fazer nada. O rosto cadavérico e os olhos de uma tristeza resignada da D.Zulmira quando nos apertámos as mãos, ela sentada no carro que a levaria ao hospital, e eu a dizer "até à próxima" com um sorriso que tentava ser encorajador, perseguem-me até agora, e por isso apeteceu-me escrever sobre ela.

Conheço-a há uns 4 anos, e tornou-se minha doente há 3, depois de alguns conflitos entre as filhas e a sua então médica assistente. (Apesar da minha fama de mau feitio, ou talvez por causa disso, recebo muitas vezes doentes que se incompatibilizam com outros médicos.) Preparei-me para uma relação difícil com uma doente opiniosa e filhas intrometidas (habitualmente, nestes casos as famílias são o pior; apesar de geralmente bem intencionadas, as boas intenções e frequentemente os sentimentos de culpa são fatais para a sensatez), mas felizmente tudo correu pelo melhor. A doente era uma professora primária reformada de 82 anos, ainda com uma excelente cabeça, sempre muito aprumada e determinada, que proibiu as filhas de irem à consulta com ela para não estragarem a relação com o novo médico assitente - sábia resolução, que só por si mostrou que tinha muito mais juízo do que elas. Nunca foi uma doente dócil: sempre inquisitiva e determinada, ferozmente independente e lutando contra os inevitáveis efeitos da idade e da doença, nessa altura ainda pouco visíveis. Sempre encorajei a sua independência e curiosidade, embora desde o início previsse que passaria um mau bocado a fazê-la aceitar o declínio que seria inevitável, e esperava secretamente que tivesse a sorte de sofrer algum acidente rapidamente fatal antes de isso acontecer. Lembro-me de conversar com ela durante os tratamentos, de como ela se destacava dos outros pela sua postura sempre educada, muito direita no seu 1.50m de altura e cabelo em carrapito, a ler ou a escrever num caderno onde anotava pensamentos, ideias e projectos. Muito obsessiva, discutia cada comprimido até ficar convencida, altura em que reconhecia a sua utilidade e cumpria escrupulosamente.

Durante cerca de 2 anos, manteve-se muito bem, suportando entretanto com notável força de espírito a doença e morte do marido; as filhas iam aparecendo por vezes, muito mais obsessivas do que a mãe (chegavam a acordá-la às 3 da manhã para lhe dar comprimidos!), mas nunca precisei de me aborrecer com elas. Mas, de há 1 ano para cá, a esperada e temida decadência começou, desencadeada por uma crise de colangite litiásica. O equilíbrio que até aos 84 anos fora tão estável começou a desmoronar-se. Outras doenças intercorrentes, pouco graves em si, foram-se sucedendo, e cada uma era como uma machadada que a deixava mais frágil, mais incapacitada, mais desmemoriada. Angustiava-me vê-la pedir-me para repetir a medicação todas as semanas, porque a esquecia, ver que no caderno passava a escrever apenas sobre as suas queixas físicas e medicamentos, agarrando-se tenazmente à vida e à independência que sentia fugir-lhe de dia para dia. Não podia passar por ela sem que me retivesse pelo menos meia hora com as mesmas queixas, no fundo apelos a que eu fizesse o milagre de a manter como era antes. Cheguei váris vezes a evitá-la, fingindo que não estava lá, em dias em que tinha menos tempo ou paciência, e depois sentia-me terrivelmente desconfortável pela minha cobardia. As filhastambém se tornaram mais insistentes, mas com elas foi fácil lidar: expliquei claramente o que se passava e o que havia a esperar - decadência progressiva até à morte.

E ontem estava pior do que nunca, como murmurou, numa apatia tão pouco característica da sua personalidade, "já estou como um fantasma". Quando me despedi dela, ambos sabíamos que não devemos tornar a ver-nos. Ou, se ainda recuperar desta vez, voltará mais fraca, e será apenas para prolongar esta situação por mais uns dias, umas semanas, eventualmente uns meses, já que apesar de tudo tinha uma constituição robusta e estas pessoas são por vezes de uma resistência espantosa (e só nas novelas é que os médicos sabem o tempo de vida que resta aos doentes com uma exactidão ao dia ou à semana).

Gosto muito da minha profissão, mas há alturas em que pode ser muito deprimente.

sexta-feira, julho 24, 2009

A Morte de Artur, de Thomas Malory

Estou a reler A Morte de Artur, com o mesmo prazer de sempre. Li pela primeira vez esta história em criança, num livro de uma colecção brasileira, que se chamava O Rei Artur e os Seus Cavaleiros, que adorei. Depois disso, li várias versões, incluindo a versão "feminina/feminista" de Marion Zimmer Bradley, As Brumas de Avalon, que é muito interessante, mas nada como o original, ou o que mais se aproxima dele. Artur, Morgana a Fada, Merlim, os cavaleiros e as suas aventuras maravilhosas, a espada Excalibur...

segunda-feira, julho 20, 2009

Revolutionary Road, de Sam Mendes



Um filme intenso, com uma excelente interpretação de Kate Winslet (não consigo gostar do Leonardo DiCaprio....). O argumento é muito bom, e a questão que levanta muito interessante - até que ponto somos capazes de realizar os nossos sonhos?
Quantas vezes não fazemos nada para evitar o insucesso? O que significa exactamente sentirmo-nos diferentes?