domingo, agosto 30, 2009

Inglourious Basterds, de Quentin Tarantino



Um filme muito divertido, não o melhor que vi de Tarantino, mas mesmo assim uma delícia para ver, sobretudo nos tempos que vão correndo, em que poucos filmes interessantes têm aparecido. O enredo rocambolesco faz lembrar a banda desenhada de Cuto ou de Blake e Mortimer, e transmite um prazer do género dos filmes de Indiana Jones nos anos 80, cuja ingenuidade é neste caso substituídapor um espírito satírico e violento - mais adaptado aos anos 00... Esteticamente é magnífico, as cenas são muito bem filmadas, e as interpretações estão óptimas, destacando-se o magnífico trabalho de Christoph Waltz no vilão nazi, que domina completamente o filme, e sendo o pior o de Brad Pitt, cujo overacting sulista resulta pouco convincente. Quentin Tarantino continua com um inegável talento de pegar nos ingredientes dos filmes B e trash e transformá-los em arte; acho apenas que por vezes se alonga demasiado em certas cenas, forçando demasiado algumas notas - uma certa auto-indulgência que também se nota em Death Proof e que beneficiaria de um editing mais exigente. Mas n conjunto é um óptimo filme.

quarta-feira, agosto 26, 2009

Corfu, de Robert Dessaix

Gostei deste livro, que acho interessante em vários aspectos. Para começar, é uma leitura agradável e o enredo é engraçado, no género comédia romântica. Mas o que me tocou foram dois aspectos - primeiro, o tema da vida como viagem, tão bem ilustrado pelo poema de Cavafis Ítaca, e da procura da amizade perfeita; segundo, a experiência dos locais como incluindo as memórias das outras pessoas que os visitaram e do que lemos e sonhámos sobre eles.

Com efeito, quando visitamos um local, experimentamo-lo no contexto do nosso imaginário - tal como a Corfu de Dessaix é permeada pela presença dos Durrells e de Sissi, também a "minha" Paris é habitada pelo grupo de Sartre, pelas ersonagens de Zola ou mesmo pelas de Dumas, tal como Londres pelos Bloomsburyites ou Nova Iorque pelas personagens dos filmes de Woody Allen. O nosso imaginário histórico, literário, cinematográfico, musical, etc etc, enriquece e influencia imenso a forma como experimentamos e vivemos os locais que visitamos.

Quanto à vida como uma viagem, muitos livros, desde a Odisseia, tratam esse tema, e este não diz propriamente nada de novo. Mas o autor escreve com sensibilidade e inteligência, discorre sobre as peças de Tchékov de forma inteligente e que dá vontade de as ver de novo (e como lamento nunca ter visto O Tio Vânia!), cita os poemas de Safo e de Cavafis a propósito e faz-nos senti-los, e as suas evocações da procura da amizade perfeita tocam-me particularmente, pois foi sempre um dos objectivos / sonhos da minha vida. É sempre bom ler passagens como esta: "... veio-me à mente uma frase de Emerson, à minha mente seca como o pó, analítica, uma expressão que me fascinara quando a lera pela primeira vez: "inimigos magníficos". Segundo Emerson, era o que os amigos (no sentido de seres que enriquecem a nossa vida) deviam ser uns para os outros. De repente a expressão fazia algum sentido, um sentido um tanto bizarro: o amigo como invasor a quem admiramos, a quem desejamos (pois a capitulação é doce), mas a quem resistimos, a quem afastamos continuamente. Era tão menos sentimentalista, muito mais dinâmico do que "almas gémeas", "amigos íntimos" e todas as outras palavras que eu tentara escolher entretanto." Ou: "Acho que vou falar de um "amigo especial", suponho que é o que quer dizer uma "alma gémea", aquele género de amigo que Montaigne amou há quatrocentos anos (o seu nome era La Boétie), alguém que foi por ele amado pela única razão de "ele ser ele e eu ser eu"."

sexta-feira, agosto 21, 2009

Quiet Summer days



Dias algo estranhos, estes últimos. Em parte entorpecido pelo calor, a quantidade de trabalho e a solidão doméstica - pouco habituado a viver sozinho, não sei lidar muito bm com isso, fico sempre algo melancólico, embora desta vez até me tenha sabido bem. Pouco tempo para ler, e vontade de voltar a ler mais não-ficção. Alguns rasgos de insight que me entristeceram mas me apaziguaram. E reencontrei uma pessoa no Facebook com quem perdera o contacto há décadas, o que foi bom, mas também me despertou alguma sensação de estranheza - o que sou eu sem os últimos 30 anos? É quase como se me revisse numa vida diferente.

De qualquer forma, no conjunto sinto-me bem. Apaziguado e morno, mas é uma melhoria. Será que vou acabar por me converter a um conceito de felicidade como contentment, tiédeur? Muitas vezes tenho pensado que talvez fosse melhor, mas não quadra com o meu carácter... Como dizia uma personagem interpretada por Fanny Ardant em La Vie Est un Roman (filme que marcou um dia crucial da minha vida, embora na altura eu não me apercebesse, e de que só essa cena me ficou): "J'aime le feu, le glace, pas cette constante tiédeur que vous voulez pour nous." (a frase pode não ter sido esta, mas a ideia era)

quinta-feira, agosto 20, 2009

The Dwarf, de Pär Lagerkvist

Um outro autor sueco, que eu desconhecia ter ganho o prémio Nobel até o ter descoberto em Estocolmo. Um livro estranho e inquietante, passado numa corte italiana imaginária do Renascimento, onde o Príncipe poderia ser Ludovico Sforza, a cidade Milão, a princesa Beatriz d'Este, mestre Bernardo Leonardo da Vinci. Ou não, uma vez que o que se transmite é uma espécie de ensaio sobre a inveja, o desejo e a frustração de um ser que se defende da inferioridade por uma pseudo-misantropia que esconde e disfarça (mal) uma ânsia meio ingénua meio implacável de ser como os outros, de compreender e pertencer ao género humano. Pelo menos essa é a impressão que me fica deste livro, escrito com uma crueza forte numa linguagem aparentemente de conto de fadas. Muito bom.

sábado, agosto 08, 2009

A doação de sangue dos homossexuais



Nos últimos dias houve muitos post na "blogosfera" e no Facebook sobre esta questão, a propósito de uma entrevista do director do Instituto de Sangue: é ou não um discriminação considerar que ser homosseual é uma contra-indicação a ser doador de sangue? O argumento principal a favor dacontra-indicação é qe dar sangue não é em si um direito, mas sim receber sangue "seguro". O que é verdade, decerto. Mas eu concordo que o estabelecer que "ser homossexual" em si é uma contra-indicação está errado e é uma forma de discriminação que deveria desaparecer. É óbvio que é fundamental assegurar o mais possível que o sangue administrado está live de doenças transmissíveis, e concordo que se recusem os dadores com comportamentos de risco. Mas mesmo admitindo que s homossexuais - ou os "men who have sex with men" na teminologia anglo-saxónica politicamente correcta actualmente utilizada - tenham maior frequência de comportamentos de risco, isso não é obrigatório. E quanto a mim, a razão principal para eliminar essa fraseologia é precisamente a de que conduz a um reforço da ideia-feita de que homossexualidade = promiscuidade e a uma visão negativa dos homossexuais, que forçosamente contrbui para a homofobia que já
é tão prevalente na nossa sociedade e que penso ser fundamental eliminar. Mesmo que a selecção dos dadores continue da mesma forma - ou seja, que os homens que têm sexo com homens contnuem a ser recusados caso a caso porque os responsáveis pela selecção não os considerem suficientemente seguros - não deveser assumido que são recusados por "serem homossexuais". Mesmo porque os inquéritos são muito pouc fiáveis, pois as pessoas - homo ou heterossexuais - podem sempre mentir sobre os seus hábitos. E quando se diz que é "só" um questão de palavras, está a ser-se hipócrita, porque as palavras são muito importantes.

Quanto à tão badalada entrevista, é um manancial de disparates que só podem desacreditar quem os profere. Olim tem o direito às suas opiniões, mas pelo que diz estas são completamente homofóbicas e disparatadas, e é por isso que subscrevi a causa do facebook pedindo a sua demissão. Só pela pérola dos homens violados já merecia!

Enfim, as questões de linguagem são importantes,e tudo o que contribua para o fim da homofobia e a aceitação da homossexualidade como algo perfeitamente natural parece-me fundamental. Queremos ou não ser civilizados? E a verdadeira civilização passa pela implementação da felicidade das pessoas.

Documents Concerning Rubashov the Gambler, de Carl-Johan Vallgren

Mais um livro de um autor sueco que comprei em Estocolmo. É interessante, mas ficou aquém das minhas expectativas depois de ler as críticas na contracapa, ao contrário dos outros, que as excederam. O chamado realismo fantástico é utilizado soberbamente por muitos autores, de Gabriel García Márquez a Salman Rushdie, passando por José Saramago, e o tema da imortalidade / viagens no tempo, muitas vezes tratado em livros de ficção científica, deu origem a muitos livros facsinantes. Este livro toma como ponto de partida a imortalidade da personagem principal, o jogador Rubashov, para tratar o tema do Mal ao longo do século XX, que de facto foi particularmente pródigo em situações arrepiantes - Rubashov testemunha / vive a 1ª Guerra Mundial, o extermínio dos kulaks, os programas eugénicos nazis, o Holocausto, a Guerra Fria, o terrorismo do IRA, a guerra dos Balcãs. O livro é interessante, Vallgren escreve bem, mas esforça-se demasiado por transmitir a sua ideia - fica-se com a sensação a partir do meio que já disse o que tinha a dizer e que há mutas páginas supérfluas. E nos últimos capítulos, certifica-se de que percebemos bem a mensagem, em passaens como: "Loss is perhapsthe only constant in humankind's existence, corruption its godmother, and Rubashov had to experience this as few others. [...] Joseph Rubashov symbolises all the widows, widowers, orphans, the abandoned, deceived, mourning, terrified, all those tormented, bullied, expelled, enslaved, prosecuted, totured; but he has a uniquely dual role, as he also represents: all the survivors, those whose fate has often been many times worse than those they survived. He is a case study in the mechanisms of suicide, he symbolises the wretchedest of the wretched: those who want to die, but cannot."

Preferiria um pouco mais de subtileza e menos explicações... Mas mesmo assim, um bom livro.

Poupanças à portuguesa

Há dias, pr volta das 23:00, saía eu do Media Markt em Alfragide, e dei com uma fila imensa de carros parados. Surpreendido pela insólita situação - àquela hora, em Agosto - pensei se teria havido algum acidente que tivesse cortado a estrada. Mas mais à frente percebi a verdadeira causa! É que ali fica a famosa bomba da gasolina mais barata, e todos aqueles carros estavam em fila para abastecer os seus depósitos por uma pechincha! Pois é, como podiam os donos daqueles Toyotas e BMWs resstir a comprar gasolina sem chumbo 95 a 1.119 € o litro? Vale bem a pena, estar uma meia hora à espera numa noite de Verão! Sempre se poupam uns 2 € por depósito! Sem comentários...

domingo, agosto 02, 2009

Into the Wild, de Sean Penn



Um filme muito belo, sobre o desejo de liberdade e de comunhã com a Natureza, nese caso com um resultado trágico, mas realista - a Natureza é certamente bela, mas igualmente implacável, e não basta ser um jovem talentoso, culto e bem intencionado da classe média para conseguir sobreviver sozinho. Mas o filme é excelente - esteticamente muito belo, com óptimas interpretações, um grande afecto pelas personagens e uma banda sonora magnífica, com as canções e a voz de Eddie Vedder. Gostei muito.

quarta-feira, julho 29, 2009

Because I could not stop for Death, by Emily Dickinson



Because I could not stop for Death,
He kindly stopped for me;
The carriage held but just ourselves
And Immortality.
We slowly drove, he knew no haste,
And I had put away
My labor, and my leisure too,
For his civility.

We passed the school, where children strove
At recess, in the ring;
We passed the fields of gazing grain,
We passed the setting sun.

Or rather, he passed us;
The dews grew quivering and chill,
For only gossamer my gown,
My tippet only tulle.

We paused before a house that seemed
A swelling of the ground;
The roof was scarcely visible,
The cornice but a mound.

Since then 'tis centuries, and yet each
Feels shorter than the day
I first surmised the horses' heads
Were toward eternity.

Do not go gentle into that good night, by Dylan Thomas



Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.
Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.

domingo, julho 26, 2009

Martin Birck's Youth, de Hjalmar Söderberg

Um livrinho muito belo, do qual fui gostando mais à medida que avançava na sua leitura. À primeira vista facilmente catalogável como um livro "rich in fin-de-siècle themes: melancholy, eroticism and decadence abound", como diz na recensão da contra-capa, é na verdade muito actual, pois foca uma questão intemporal - o contraste entre o que desejamos inicialmente e o que nos tornamos na realidade, a procura de um "sentido da vida", quase universal na juventude, e qual o sentido dessa procura.

O tom é suave e elegante, um misto de melancolia e nostalgia (fin-de-siècle?); acompanhamos a personagem principal, não especialmente simpática mas muito real nas suas aspirações e sensibilidade muito características de uma classe média culta ("...the melancholy with which life punishes the man who thinks more about beauty and ugliness and good and evil than about his daily bread."), desde uma infância protegida e despreocupada até à estagnação a que se entrega voluntariamente - por comodismo e nihilismo - aos 30 anos. Passamos pela fase em que ele espera que o sentido da vida se lhe revele de alguma forma - "He read and he thought. In books and in his own thoughts he looked for that which young people so often seek, only to forget in their old age that they have ever worried about it: a belief to live for, a star to steer by, a coherence to things, a meaning and an aim." - que no entanto lhe escapa - "In those days the thousands of unfulfilled desires he carried within himself were like many shimmering hopes and half-made promises, for long years of emptiness and disappointment had not yet ground them into sharp knives that pierced and tore at the soul."

A certa altura, chega à conclusão que apenas algumas pessoas têm a determinação para se dedicarem exclusivamente a um objectivo e eventualmente o atingirem, pois a maioria gosta de apreciar a vida pelo caminho, e a saída que encontra é um contentment com o quotidiano nimbado de nihilismo e indiferença.

Na velha imagem da vida como uma viagem, em que há os que só se preocupam com chegar a um destino e os que preferem ir apreciando o caminho, tenho vindo a inclinar-me também para a segunda tendência, mas penso que não é necessário cair no nihilismo e indiferença de Martin Brick, confortáveis justificativos para a mediocridade comodista em que se refugia. Acho que se podem pensar destinos a médio e longo prazo, lutar por eles, enquanto se aprecia o trajecto da melhor forma possível. Talvez não sejam destinos grandiosos nem gloriosos, mas só temos esta vida, e a melhor forma de a viver não será tentarmos ser felizes e criar alguma felicidade à nossa volta? Alguns de nós teremos a capacidade e a oportunidade de o fazer em maior escala, tanto melhor.

sábado, julho 25, 2009

Velhice



“Last scene of all, That ends this strange eventful history, Is second childishness and mere oblivion, Sans teeth, sans eyes, sans taste, sans everything”

William Shakespeare in As You Like It

ntem chguei a casa triste, com aqiele género de aperto no coração de quando algo nos impressiona e deprime e temos consciência de que não podemos fazer nada. O rosto cadavérico e os olhos de uma tristeza resignada da D.Zulmira quando nos apertámos as mãos, ela sentada no carro que a levaria ao hospital, e eu a dizer "até à próxima" com um sorriso que tentava ser encorajador, perseguem-me até agora, e por isso apeteceu-me escrever sobre ela.

Conheço-a há uns 4 anos, e tornou-se minha doente há 3, depois de alguns conflitos entre as filhas e a sua então médica assistente. (Apesar da minha fama de mau feitio, ou talvez por causa disso, recebo muitas vezes doentes que se incompatibilizam com outros médicos.) Preparei-me para uma relação difícil com uma doente opiniosa e filhas intrometidas (habitualmente, nestes casos as famílias são o pior; apesar de geralmente bem intencionadas, as boas intenções e frequentemente os sentimentos de culpa são fatais para a sensatez), mas felizmente tudo correu pelo melhor. A doente era uma professora primária reformada de 82 anos, ainda com uma excelente cabeça, sempre muito aprumada e determinada, que proibiu as filhas de irem à consulta com ela para não estragarem a relação com o novo médico assitente - sábia resolução, que só por si mostrou que tinha muito mais juízo do que elas. Nunca foi uma doente dócil: sempre inquisitiva e determinada, ferozmente independente e lutando contra os inevitáveis efeitos da idade e da doença, nessa altura ainda pouco visíveis. Sempre encorajei a sua independência e curiosidade, embora desde o início previsse que passaria um mau bocado a fazê-la aceitar o declínio que seria inevitável, e esperava secretamente que tivesse a sorte de sofrer algum acidente rapidamente fatal antes de isso acontecer. Lembro-me de conversar com ela durante os tratamentos, de como ela se destacava dos outros pela sua postura sempre educada, muito direita no seu 1.50m de altura e cabelo em carrapito, a ler ou a escrever num caderno onde anotava pensamentos, ideias e projectos. Muito obsessiva, discutia cada comprimido até ficar convencida, altura em que reconhecia a sua utilidade e cumpria escrupulosamente.

Durante cerca de 2 anos, manteve-se muito bem, suportando entretanto com notável força de espírito a doença e morte do marido; as filhas iam aparecendo por vezes, muito mais obsessivas do que a mãe (chegavam a acordá-la às 3 da manhã para lhe dar comprimidos!), mas nunca precisei de me aborrecer com elas. Mas, de há 1 ano para cá, a esperada e temida decadência começou, desencadeada por uma crise de colangite litiásica. O equilíbrio que até aos 84 anos fora tão estável começou a desmoronar-se. Outras doenças intercorrentes, pouco graves em si, foram-se sucedendo, e cada uma era como uma machadada que a deixava mais frágil, mais incapacitada, mais desmemoriada. Angustiava-me vê-la pedir-me para repetir a medicação todas as semanas, porque a esquecia, ver que no caderno passava a escrever apenas sobre as suas queixas físicas e medicamentos, agarrando-se tenazmente à vida e à independência que sentia fugir-lhe de dia para dia. Não podia passar por ela sem que me retivesse pelo menos meia hora com as mesmas queixas, no fundo apelos a que eu fizesse o milagre de a manter como era antes. Cheguei váris vezes a evitá-la, fingindo que não estava lá, em dias em que tinha menos tempo ou paciência, e depois sentia-me terrivelmente desconfortável pela minha cobardia. As filhastambém se tornaram mais insistentes, mas com elas foi fácil lidar: expliquei claramente o que se passava e o que havia a esperar - decadência progressiva até à morte.

E ontem estava pior do que nunca, como murmurou, numa apatia tão pouco característica da sua personalidade, "já estou como um fantasma". Quando me despedi dela, ambos sabíamos que não devemos tornar a ver-nos. Ou, se ainda recuperar desta vez, voltará mais fraca, e será apenas para prolongar esta situação por mais uns dias, umas semanas, eventualmente uns meses, já que apesar de tudo tinha uma constituição robusta e estas pessoas são por vezes de uma resistência espantosa (e só nas novelas é que os médicos sabem o tempo de vida que resta aos doentes com uma exactidão ao dia ou à semana).

Gosto muito da minha profissão, mas há alturas em que pode ser muito deprimente.

sexta-feira, julho 24, 2009

A Morte de Artur, de Thomas Malory

Estou a reler A Morte de Artur, com o mesmo prazer de sempre. Li pela primeira vez esta história em criança, num livro de uma colecção brasileira, que se chamava O Rei Artur e os Seus Cavaleiros, que adorei. Depois disso, li várias versões, incluindo a versão "feminina/feminista" de Marion Zimmer Bradley, As Brumas de Avalon, que é muito interessante, mas nada como o original, ou o que mais se aproxima dele. Artur, Morgana a Fada, Merlim, os cavaleiros e as suas aventuras maravilhosas, a espada Excalibur...

segunda-feira, julho 20, 2009

Revolutionary Road, de Sam Mendes



Um filme intenso, com uma excelente interpretação de Kate Winslet (não consigo gostar do Leonardo DiCaprio....). O argumento é muito bom, e a questão que levanta muito interessante - até que ponto somos capazes de realizar os nossos sonhos?
Quantas vezes não fazemos nada para evitar o insucesso? O que significa exactamente sentirmo-nos diferentes?

Milk, de Gus Van Sant


Um excelente biopic de Gus Van Sant, com óptimas interpretações, sobretudo de Sean Penn. Um pouco hagiográfico, mas sem cair no melodrama nem na pieguice, capaz de nos fazer empatizar com apersonagem principal e a sua luta, que está muito bem retratada - um bom exemplo de activismo político positivo e eficaz. Sean Penn está magnífico, é um dos melhores actores da sua geração, como já mostra desde Taps, com pontos altos como Dead Man Walking e Mystic River. Gostei muito.

domingo, julho 19, 2009

Universal Mind, dos The Doors

E já que hoje estou numa onda de nostalgia, apeteceu-me ouvir o Universal Mind, a minha música preferida dos Doors. Já disse aqui o que ela me evoca. Foi bom constatar que continua tão bela como sempre, a voz de Jim Morrison nunca soou mais pungente.

Tom Waits

Descobri Tom Waits aos 18 anos, graças à minha namorada, e foi uma revelação - de repente dava com uma música, um som, uma voz, umas palavras, que eram tão... perfeitas? Eu nessa época cultivava a angústia existencial, saía de uma adolescência infeliz, e estava a descobrir um mundo afectivo completamente diferente e a entrar nuam das fases mais felizes da minha vida. Acho que não estava habituado à felicidade, e aprendera a gostar do meu eu deprimido e angustiado; de certa forma, música como a de Tom Waits e de Billie Holiday (que descobri na mesma altura) foram o ideal para me acompanhar nessa transição. Passaram anos e anos, e estou muito diferente actualmente, mas a minha paixão pela música do Tom Waits (e da Billie Holiday também) não diminuiu nem um pouco. É certo que já não me provoca delírios emocionais, mas continua a falar-me ao coração.

Deixo uma das músicas do primeiro álbum que ouvi de Waits, Nighthawks at the Diner. Ainda é dos meus preferidos.

sábado, julho 18, 2009

The Visit of the Royal Physician, de Per Olov Enquist

Este é outro dos livros de autores suecos que comprei em Estocolmo. Gostei muito. Trata de um episódio da História da Dinamarca, no século XVIII, quando o médico alemão do rei louco Cristiano VII tentou aplicar os princípios ideológicos do Iluminismo numa Dinamarca atrasada e absolutista, terminando derrotado pelos conservadores ao fim de dois anos. A história é fascinante, ainda mais por ser verdadeira, e o livro está tremendamente bem escrito - num tom simples, quase de conto de fadas, contrastando com a riqueza dos conteúdo, das personagens e das ideias. O autor trata das questões do poder, da aplicaçõa dos ideiais, do choque entre a ideologia e a prática política, e as personagens são incrivelmente reais e convincentes, desde o rei instável e perturbado destruído por uma educação maquiavélica, a rainha criança que cresce e floresce estimulada pelas circunstâncias, ao médico idealista e atormentado pelo remorso e o devoto humilhado atormentado pelo pecado, passando por várias outras menos importantes. Muito bom.

domingo, julho 12, 2009

Uma citação de Natália Correia



Não Antero meu santo não me mato.
Antes me zango até ficar um cacto.
Quem me tocar (maldito) que se pique!


Tantas vezes me identifico com estas palavras!

Um amigo ofereceu-me a fotobiografia de Natália Correia. Fiquei a conhecer bem melhor a personagem e a sua obra, e se já a respeitava e por ela sentia alguma admiração, o meu respeito aumentou, sobretudo pela qualidade da sua escrita, por vezes barroca e excessiva, mas com poemas de grande beleza e sobretudo com uma força anímica e uma energia invulgares. Lembro-me em miúdo de a achar uma figura um tanto caricatural e divertida, e de facto era uma mulher com um certo excesso de energia e paixão que a levou a dizewr e fazer muitas coisas com as quais não concordo e de que não gosto, com alguma tendência ao exagero, mas é inegável que foi uma personagem, corajosa, inteligente, brilhante e marcante. De certa forma, imagino-a mais integrada na sociedade romântica, uma outra George Sand. Mas deixou-nos pérolas inesquecíveis, uma das quais, cujo impacto delicioso bem recordo na altura, é o poema que em minutos escreveu na Assembleia durante os debates da lei de despenalização do aborto:

"O Acto Sexual é para fazer filhos" - disse ele
Já que o coito - diz Morgado -
Tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração! -
uma vez. E se a função
faz o órgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.

sexta-feira, julho 10, 2009

A propósito da gripe A - um artigo esclarecedor (reformulado)

Até agora não escrevi nada sobre um dos temas do dia, a gripe A e a pandemia, porque estava pouco interessado, pouco informado e nada alarmado. Além disso, aborrece-me escrever sobre o que toda a gente fala, acho que já várias vezes referi a minha aversão aos ecos propagados e repetidos ao infinito... Mas este sempre é um problema de saúde, agora estou mais informado (mas continuo não alarmado), e os meus amigos e conhecidos perguntam-me sempre o que acho, já que sou médico. Como penso que nestes assuntos (e noutros também) a informação de boa qualidade é o mais útil, passo a transmitir alguns pontos publicados num artigo de 18 de Junho no New England Journal of Medicine (a tradução é minha) que me pareceu muito esclarecedor sobre o que caracteriza uma pandemia, e é sempre bom sabermos do que estamos a falar... Inicialmente transcrevi-o integralmente, mas numa releitura concordo com a crítica de um amigo de que é demasiado técnico (ou talvez se tornasse chato devido à tardução) de modo que altero o post, deixando apenas os aspectos que me parecem mais relevantes.

The Signature Features of Influenza Pandemics - Implications for Policy
Mark E. Miller, MD, Cecile Viboud, PhD, Marta Balinska, PhD, Lone Simonsen, PhD
NEJM, June 18, 2009

A ideia básica é analisar as características típicas de uma pandemia de gripe, a partir do que se sabe das 3 pandemias do século XX (A/H1N1 de 1918-1919, A/H2N2 de 1957-1963 e A/H3N2 de 1968-1970), e retirar lições ara a próxima, que aparentemente já começou.

O autor apresenta como carcterísticas típicas (signature features) das pandemias:

1 - um desvio no subtipo viral
2 - desvios das maiores taxas de mortalidade para populações mais jovens
3 - sucessivos surtos pandémicos
4 - maior transmissibilidade do que a da gripe sazonal
5 - diferentes impactos em diferentes regiões geográficas.

Dado a primeira destas características ser habitualmente a mais falada, o autor concentra-se nas outras.

A segunda característica - o desvio da mortalidade para grupos etários mais jovens - foi a mais notável das pandemias do século XX. Não se sabe exactamente a razão, mas pensa-se que teria a ver com alguma imunidade prévia dos indivíduos mais velhos, que teriam contactado com tipos de vírus imunologicamente próximos no passado, tornando-os mais resistentes à estirpe quando esta provocou a pandemia. Por outro lado, outros dois factores contribuiram, quase de certeza pelo menos na gripe de 1918 (a de maior mortalidade): o vírus provocar uma "tempestade de citokinas" (citokine storm), que consiste numa activação exagerada do sistema imunitário que acaba por ser mais lesiva para o hospedeiro (e mais forte nos jovens, cujo sistema imunitário é mais activo) e diminuição das defesas respiratórias às infecções bacterianas (provocando pneumonias bacterianas, muitas vezes fatais sobretudo na era pré-antibióticos). O conhecimento inicial de quais as populações em maior risco de mortalidade pode condicionar a optimização das estratégias de controlo.

A terceira característica, um padrão de múltiplos surtos, caracterizou as três pandemias do século XX, cada uma causando aumento da mortalidade por 2 a 5 anos. Esta característica deve ser um incentivo a uma apertada vigilância epidemiológica e colaboração e partilha internacional de dados, para aproveitar as "janelas" entre os surtos para desenvolver lanos preventivos, vacinas e fármacos eficazes.

A quarta característica, o aumento de transmissibilidade da gripe devido à alta susceptibilidade da população, também foi documentado em todas as pandemias prévias, apesar das estimativas dos números reprodutivos - uma medida do número médio de infecções secundárias causadas por cada caso individual - variarem consideravelmente conforme os estudos e as pandemias. Estudos recentes sugerem que durante o primeiro surto ligeiro da pandemia de 1918-1919 o número reprodutivo terá variado entre 2 e 5, contra uma média de 1.3 para a gripe sazonal. O conhecimento destes dados é igualmente importante para o delinear de estratégias preventivas (do género de valer a pena ou não fechar escolas, etc).

Grande heterogeneidade entre regiões em termos de incidência e de mortalidade é também uma característica das pandemias. Esta variabilidade explica-se provavelmente pela complexa heterogeneidade no grau de imunidade das populações locais às estirpes de gripe circulantes, assim como por factores de transmissão como condições geográficas, tecido social, grau de infecciosidade viral e "forcing" sazonal (pequenas variações sazonais na taxa de transmissão efectiva). Os benefícios da partilha de dados sobre todas estas variáveis são incentivos fundamentais à colaboração internacional.

A gripe aviária, ainda recente nas nossas memórias, caracterizava-se por uma elevada taxa de mortalidade (50%), mas a sua transmissão, em parte por isso mesmo (matava mais depressa do que era transmitida) era pouco eficaz. Esta gripe de origem suína até agora tem uma mortalidade documentada de 0.2%, o que está dentro dos valores habituais para a gripe sazonal. No entanto, o risco é o da transmissão maciça - uma pequena pertcentagem de um grande número torna-se um número considerável, e a implementação de meddas de prevenção do contágio - como ficar em casa - podem complicar seriamnete o funcionamento da sociedade.

Por fim, o conhecimento destas características é útil para definir as prioridades de vacinação, tendo em conta as populações em maior risco e a evolução da pandemia.