segunda-feira, setembro 18, 2006

Gore Vidal - A Biography, de Fred Kaplan

Terminei recentemente de ler a extensa (800 páginas em paperback...) biografia de Gore Vidal por Fred Kaplan. Tratando-se de uma personalidade que admiro bastante, e tendo já lido a memória de 1995 Palimpsest, tinha algumas reservas, mas também muita curiosidade. No final, fiquei satisfeito - globalmente, penso que a biografia de Kaplan lhe faz justiça, suficientemente detalhada sem se tornar maçadoramente exaustiva e bastante equilibrada na descrição - sem julgamentos morais - das suas capacidades, defeitos e qualidades (utilizar o termo "virtudes" aplicado a Gore Vidal parecer-me-ia absurdo!). Fiquei com pena que acabe em 1999 (à data da publicação), já que depois disso houve o caso do diálogo com Timothy McVeigh, que não acompanhei na altura e sobre o qual gostava de me esclarecer; de resto, vou lendo algumas entrevistas de Vidal e acompanhei pelos media a morte de Howard Austen, a venda de La Rondinaia e a mudança para Los Angeles.

Já falei de Gore Vidal a propósito de Washington DC e de The Golden Age. O primeiro livro dele que li foi Juliano, penso que em 1990, e lembro-me de gostar, embora não me impressionasse especialmente. Depois li alguns dos romances do que veio a ser o ciclo Narratives of the Empire, que achei sempre muito interessantes, e li o hilariante Myra Breckinridge (e a sua continuação Myron) alguns anos depois; passei aos ensaios e a Palimpsest, e foi então que me rendi a Vidal, que actualmente aprecio mais como ensaísta que como romancista - eu e muitos outros, o que aparentemente desagrada ao próprio Gore. Continuo a apreciar Gore Vidal, e a admirar o seu espírito arguto e humor sarcástico, e a coragem que teve em abordar certos assuntos nos seus escritos e expor opiniões abertamente quando essa prática ainda estava longe de ser inócua para quem a realizava, e pela coerência e independência com que sempre se recusou a ser rotulado ou "engavetado", assumindo-se antes de tudo como um escritor e um intelectual, e não um escritor isto ou um activista aquilo. Por tudo isso, mesmo que actualmente, com mais de 80 anos e fisicamente incapacitado, se repita um tanto nas suas declarações, continua a merecer amplamente o nosso respeito e admiração - de certa forma, é graças a pessoas como ele que se foi vencendo a intolerância, mesmo que muito continue por fazer.

domingo, setembro 17, 2006

Kind of in a sentimental mood...


Good times for a change
see, the luck I've had
can make a good man
turn bad

So please please please
let me, let me, let me
let me get what I want
this time

Haven't had a dream in a long time
see, the life I've had
can make a good man bad

So for once in my life
let me get what I want
Lord knows it would be the first time
Lord knows it would be the first time


The Smiths - Please, Please, Please Let Get What I Want

sábado, setembro 16, 2006

A propósito de Prime, de Ben Younger

O filme Prime (Terapia de Amor em Português) é uma comediazinha romântica, bem disposta, que vale sobretudo pelas actrizes - Meryl Streep excelente e Uma Thurman belíssima - e por alguns momentos hilariantes. No entanto, o assunto - a relação de uma mulher de 37 anos com um rapaz de 23, focada nos problemas da diferença de idades - fez-me pensar num caso análogo, passado com uma amiga minha. Aos 30 e poucos anos, iniciou um caso com um rapaz de 20 e poucos; além das suas próprias dúvidas sobre o futuro de uma relação com uma tão grande diferença de idades, questões como filhos, compatibilidades de amigos, envelhecimento dela antes do dele, etc, enfrentou muitas críticas de pessoas que a rodeavam. Mas - tal como no filme - ele fazia-a imensamente feliz (e vice-versa), e estava a viver a relação que de longe a satisfizera mais até ao momento. E, ao contrário das previsões de tantos "urubus" - e ao contrário do desenlace do filme - passados quase 10 anos eles continuam juntos e felizes. E mesmo que um dia se desentendam e separem, quantas relações resultam em 10 anos de felicidade? Falo nisto apenas para salientar que as coisas nem sempre são tão lineares como se pensa à primeira vista, e porque - talvez influenciado por este caso da vida real dos meus amigos - tive pena que o filme optasse pelo final convencional - o episódio com a mulher mais velha como um rito de passagem no crescimento do jovem macho, encarado com simpatia mas claramente como uma etapa passageira.

sexta-feira, setembro 15, 2006

Between the Woods and the Water, de Patrick Leigh Fermor

Como acho que já disse mais do que uma vez a propósito de outros livros, gosto muito de ler relatos de viagens. Sobretudo quando são tão deliciosamente suculentos como os de Patrick Leigh Fermor - terminei há dias Between the Woods and the Water, a continuação de A Time of Gifts, que li há uns anos.

Já não me lembro bem de quando ouvi falar de P. Leigh Fermor pela primeira vez, talvez na biografia de Bruce Chatwin, de quem foi amigo e de alguma forma um dos mentores. Depois, lembro-me de várias vezes ver A Time of Gifts no catálogo da editora Folio, onde durante alguns anos encomendei livros, e por fim comprei-o, numa época em que li vários volumes de memórias / viagens. Gostei imenso, e a continuação não lhe fica atrás. Espero bem que Leigh Fermor consiga publicar em breve a terceira e última parte! (Pois ele ainda vive, com 91 anos.)

Estes dois livros são o relato (escrito muitos anos depois e ainda inacabado) de uma viagem feita pelo autor na sua juventude - em 1933, uma espécie de enfant terrible da upper middle class inglesa, aventurou-se no projecto de viajar a pé até Constantinopla, atravessando a Europa ao longo dos eixos dos rios Reno e Danúbio), munido de um saco-cama emprestado por outro viajante famoso (Robert Byron, o autor de The Road to Oxiana) e uma bagagem reduzida ao mínimo, como uma espécie de vagabundo educado. A viagem durou quase dois anos, ao longo de uma Europa num momento particularmente significativo - pouco antes da 2ª Guerra Mundial, que iria transformar radicalmente toda a zona percorrida, que por isso mesmo ganha contornos simultaneamente nostálgicos e fantásticos, pois é de um outro mundo, entretanto desaparecido, que se fala. E a descrição de Patrick Leigh Fermor é fascinante - enriquecida pelos anos entretanto passados, em que PLF, um autodidacta inesgotavelmente curioso, acumulou conhecimentos enciclopédicos sobre tudo, desde botânica e zoologia a antropologia e etnologia (não admira que fosse uma das inspirações de Chatwin!), mas sobretudo a História europeia, o que torna o livro repleto de detalhes curiosos e interessantes áo longo de toda a narrativa. Por outro lado, o humor e optimismo da juventude (tinha 18 anos) tornam-se contagiantes.

O livro termina num tom nostálgico e inesperadamente melancólico, numa nota em que o autor informa que a zona onde se passa a parte final já não existe, submersa pela construção de uma gigantesca barragem no Danúbio pelas socialistas Roménia / Bulgária / Jugoslávia, assim destruindo uma paisagem fulcral na história da Europa desde o tempo dos Romanos. Não é uma diatribe sentenciosa contra o progresso, antes uma reflexão sobre a saudade e a nostalgia por um passado desaparecido.

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"Mas conheceu realmente uma pessoa chamada Quioáqui?"

em A Ruína do Anjo, de Yukio Mishima


Às vezes, uma frase, uma percepção, faz-me sentir inesperadamente atormentado por esta dúvida... Será que tudo foi real, que existiu mesmo? Às vezes, o enfraquecer da memória angustia-me.

quinta-feira, setembro 14, 2006

Coldplay


Acho que os Coldplay têm melhorado notavelmente ao longo do tempo. Lembro-me de ouvir há uns anos Yellow e Trouble, e de as achar umas músicas bonitas mas um tanto xaroposas, de acordo aliás com o visual do grupo, uns rapazes muito imberbes e deslavados. Mais tarde, já apreciei mais In My Place e outras músicas desse álbum. Finalmente, com X&Y, acho que atingiram a maturidade e fizeram um grande disco - forte, belo, lírico sem ser piegas (só não gosto do início de Fix You, em que o falsetto de Chris Martin está um pouco excessivo). E é engraçado como a imagem da banda também melhorou, até estão mais bonitos, com um ar mais adulto. Não me impressiona especialmente a sua faceta "benemérita", e são terrivelmente clean, mas também acho que não é preciso ser infeliz e torturado para fazer e ainda bem que os rapazes são felizes e bem intencionados (e além de tudo, Chris Martin tem a sorte de ser casado com a bela Gwyneth Paltrow). A beleza da sua música é mais apolínea que dionisíaca, do género de nos fazer sentir bem, o que é necessário à vida, e é sempre bom conseguir esse tipo de beleza sem ser piroso nem sentimental no mau sentido. Concluindo: acho que o exemplar de X&Y que ofereci há meses à minha filha passará uns tempos largos na minha secretária.

quarta-feira, setembro 13, 2006

Chuva


Finalmente, o regresso da chuva anunciando o fim do Verão. Soube bem voltar a sentir a frescura e cheirar a terra molhada. No fim de contas, não foi um Verão de todo mau... Os períodos de férias foram agradáveis, o tempo em geral bom, mesmo o calor foi bem tolerado, sobrevivi às crianças em casa. No entanto, a morte do meu cão recobriu tudo de uma certa melancolia. Tenho saudades dele, sinto a falta dos nossos passeios matinais e nocturnos; de manhã sobra-me tempo e à noite sinto sempre que falta qualquer coisa. Sinto a falta dele.

Freakonomics, de Steven Levitt e Stephen Dubner

Li recentemente Freakonomics, um dos "livros-sensação" do ano passado. É interessante, mas como quase todos os "livros-sensação" oferece bastante menos do que promete; eu pelo menos esperava melhor. Os autores utilizam títulos muito bombásticos e titilantes, mas depois o conteúdo acaba por se revelar apenas o bom-senso que eles próprios começam por menosprezar. Também o apresentar Levitt como uma espécie de enfant terrible é uma manobra de marketing demasiado óbvia, ou o pretender que o livro trata de "tudo" é um pouco excessivo, já que basicamente desenvolve que os incentivos são aquilo que move o comportamento humano - e a Economia, e que o que importa é perceber quais são os incentivos e não assumir que seja apenas a sede de lucro.

No entanto, globalmente gostei, apesar destes (para mim) defeitos de forma que têm muito a ver com um certo "americanismo" publicitário para ajudar a vender livros nestes tempos em que o que as pessoas querem é entertainment de preferência titilante. Mas o livro fala de assuntos sérios e mostra alguns lados óbvios mas habitualmente negligenciados da realidade, o que só por si, e por cultivar algum cepticismo em relação às noções superficiais que a maioria das pessoas tem do mundo, já vale a pena. De resto, o tom dos autores, muito auto-elogioso, é por vezes um bocado irritante.

terça-feira, setembro 12, 2006

O Milagre Segundo Salomé, de José Rodrigues Miguéis


O Milagre Segundo Salomé foi uma agradável surpresa. Tinha lido pouco de José Rodrigues Miguéis - A Escola do Paraíso há muitos anos, de que me lembro mal mas de que não gostei muito, e Uma Aventura Inquietante há alguns anos, de que gostei mas achei um livro menor. De modo que foi por acaso que comecei a ler este - no final das férias, quando se me acabaram os meus livros - o que muitas vezes produz bons resultados (serendipidade!).

Inicialmente, irritou-me pela linguagem, muito barroca, com excessiva utilização de arcaísmos, regionalismos, etc, expressões que geralmente pretendem dar um cunho "castiço" ou genuíno" a um texto, mas que geralmente apenas o sobrecarregam inutilmente e lhe retiram autenticidade, pois é difícil empatizar com um texto que soa algo artificial. No entanto, é engraçado como esse defeito vai diminuindo ao longo do livro, como se o autor se fosse entregando mais à narrativa, envolvendo-se nela, e esquecendo progressivamente os artifícios de estilo (claro que poderia dar-se o caso de simplesmente nos irmos habituando à linguagem, mas não me parece, mesmo porque reparei nisto durante a leitura).

Feita esta ressalva, achei o livro muito bom. Pinta um retrato inteligente, irónico e implacável da decadência da Primeira República, que tristemente se aplica à situação actual como uma luva - como Portugal muda pouco! - e por onde se percebe como o cenário era propício ao aparecimento de ditadores, sebastiões e... milagres. Os interlúdios em que o autor se alarga nestas descrições são por vezes palavrosos, mas compensam pelo conteúdo, como no impagável - e sinistro - retrato do grande capitalista, e sobretudo na espectacular descrição jornalística do Milagre, que acho tão perfeita que não resisto a transcrevê-la:

(Para situar a descrição: Salomé é uma jovem prostituta romântica e sentimental que vive por conta de um milionário; atravessando uma crise de consciência - existencial - vai em peregrinação nostálgica à sua terra natal, um fim de mundo nas Beiras onde guardava ovelhas. Pára nos montes nos arredores da aldeia, e vagueia um pouco ao fim da tarde, em estado de grande perturbação emocional, elegantemente vestida de seda branca, capa de cetim azul, estola de raposas prateadas e chapéu parisiense de lantejoulas; avista uns pastorinhos com os quais se comove e choca-se porque eles fogem dela, e regressa perturbada ao carro, chamada por golpes de buzina, enquanto estala uma tempestade.)

"Caso é que - rezam solícitos correspondentes - a treze de Abril e sexta-feira, ao sol-pôr, estando pesados e plúmbeos os céus, três crianças cujos nomes são de uma «bíblica» simplicidade: Jaquina, Maria e Manel, andavam a apascentar umas ovelhas no cerro de Lapa d'Ursos, sobranceiro ao lugarejo de Meca, quando, um pouco acima delas, no alto das rochas e sob as ramarias dum velho sobreiro que ali vingou crescer e afrontar os séculos e os temporais, se aperceberam de um clarão sobrenatural. Erguendo os olhos, avistaram uma figura de radiosa beleza, na qual sem hesitar reconheceram a benta imagem da Senhora das Dores, padroeira da freguesia, fervorosamente adorada na região.
Tinha na fronte a coroa cravejada de jóias, delas tão conhecida; o manto azul flutuava de manso na brisa do entardecer, e a túnica tinha a alvura das pombas da Aleluia. As névoas do ar, em torno dela, eram como arminhos leves ou revoadas de querubins; e toda ela irradiava auréolas. Ficaram a contemplá-la, medusadas de assombro. E logo - diz a Jaquina, pelas outras confirmada - a inefável imagem lhes estendeu os braços e disse: «Filhos, vinde a mim e orai!» A tais palavras, que eram pura música celestial, os três pastorinhos, vencidos de pavor, deitaram encosta abaixo, em direcção à aldeia, clamando pelas gentes, que viessem ver a Aparecida!
[...] Um pormenor que muito impressionou as gentes; os meninos afirmam ter ouvido, no momento da Aparição, o som repetido de trombetas anunciadoras da mística visita."

E o texto prossegue neste tom, com os efeitos provocados pelo milagre, as repercussões locais, depois nacionais, a atitude da Igreja, etc. Acho esta passagem soberba - de facto, no Portugal miserável e atrasado da época, de que outra forma poderiam interpretar o que viam os três brutinhos das berças? Acho uma das melhores explicações apresentadas até hoje para o milagre de Fátima... perdão, de Meca!

segunda-feira, setembro 11, 2006

Costa Vicentina


Uns dias de férias na Costa Vicentina, onde estão as praias mais bonitas de Portugal. Tive sorte com o tempo - excelente, incluindo a água do mar, que estava a uma temperatura divinal. Há muitos anos que não percorria aquelas paragens, e a viagem foi algo nostálgica, devido a uma outra pelos mesmos sítios, no Verão de 1989. Felizmente, a costa pareceu-me na mesma, exceptuando Porto Covo, que achei muito transformada pelo turismo. Mas nada se compararmos com a costa sul do Algarve - a partir de Sagres é uma autêntica desgraça - começa logo por uns mamarrachos de betão na Ponta de Sagres, de finalidade duvidosa e estética execrável, e que soube depois que estão lá plantados há mais de 10 anos. Lagos, de que tanto gostava na minha adolescência - Verões de acampamentos com amigos - está horrível: a cidade caótica e os arredores irreconhecíveis, onde era campo agora são casas, prédios, arruamentos, completamente incaracterístico e feio. E apesar de tudo, o mar lá continua tão azul e luminoso como sempre.

quarta-feira, agosto 30, 2006

Faltas de senso


Li há dias, num editorial de uma revista médica, uma passagem em que a decisão da OMS de não contratar fumadores era referida como "um estímulo para as pessoas deixarem de fumar". Isso lembrou-me a recente polémica na comunicação social sobre uma empresa europeia tomar a mesma decisão, e de tal ser não ser considerado um caso de discriminação, uma vez que não estava listado nos motivos de discriminação. A minha reacção perante este assunto é de tristeza - de facto, o politicamente correcto, neste caso o "saudavelmente" correcto, está a deixar tudo louco. Porque o que eu acho assustador não é que o discriminar alguém para um emprego por ser fumador não seja incluído na lista das discriminações, mas que se ponha sequer a questão.

Não tenciono negar os malefícios do tabagismo. Mas quando se selecciona alguém para um emprego, parece-me que o que interessa é a sua capacidade para exercer determinadas funções, ou o perfil para ocupar um lugar, e não se se fuma à noite em casa ou com os amigos, ou se se gosta de ver filmes de terror, de usar cuecas cor-de-rosa, de comer pastéis de nata ou de praticar jogos sexuais com algemas. Qualquer empregador tem obviamente o direito de proibir que se fume no local de trabalho - aliás, eu defendo que não se deve permitir fumar nos locais de trabalho, nem em espaços públicos fechados em geral, incluindo bares, restaurantes e discotecas. Mas daí a pretender proibir que se fume de todo, nomeadamente em casa de cada um, sob pena de se ser excluído de um emprego, vai uma grande distância. Que se pretende? O policiamento dos bons costumes? A ditadura do comportamento saudável?

Outra medida indicada no mesmo editorial era a penalização dos seguros de saúde para fumadores e a bonificação para quem praticasse um comportamento saudável. Em Portugal, onde os seguros de saúde estão ainda muito pouco difundidos, esta medida não teria grande significado, mas parece-me um precedente perigoso. À primeira vista, parece simples e lógico, mas dado o alargamento progressivo dos conceitos de doença / comportamentos influenciadores da saúde, não será difícil assistir à mesma falta de senso que gerou a ideia da exclusão de fumadores de empregos dar origem a um policiamento da nossa vida privada que considero intolerável - do género o que se come, se se faz ou não exercício, os costumes sexuais, etc. É isso que as pessoas desejam?

Por fim, resta-me a esperança que algumas sobras de bom senso impeçam a concretização deste tipo de medidas... É que convém que os nossos governantes se lembrem de que lançariam largos milhares de pessoas no desemprego... A começar pelo nosso primeiro-ministro.

domingo, agosto 27, 2006

Messy Room


Whosever room this is should be ashamed!
His underwear is hanging on the lamp.
His raincoat is there in the overstuffed chair,
And the chair is becoming quite mucky and damp.
His workbook is wedged in the window,
His sweater's been thrown on the floor.
His scarf and one ski are beneath the TV,
And his pants have been carelessly hung on the door.
His books are all jammed in the closet,
His vest has been left in the hall.
A lizard named Ed is asleep in his bed,
And his smelly old sock has been stuck to the wall.
Whosever room this is should be ashamed!
Donald or Robert or Willie or--
Huh? You say it's mine? Oh, dear,
I knew it looked familiar!

Shel Silverstein

Miami Vice, de Michael Mann

Raramente vi a série Miami Vice nos anos 80, achava-a bastante tonta, com os seus bons e maus, as suas sequências de acção tipo cartoon, os seus carros e lanchas e as suas mulheres espampanantes. Eu era mais adepto de ver Hill Street Blues.

No entanto, gostei do filme. O ambiente é diferente, mais sombrio, de film noir, uma espécie de actualização à estética do século XXI e com um argumento ao género dos filmes negros dos anos 40-50. Está extraordinariamente bem filmado, a banda sonora é excelente, os actores estão bem, embora o underacting de Colin farrell seja por vezes demasiado minimalista (e conseguiram pôr um homem tão atraente com um aspecto tão bimbo!). Gong Li está óptima, embora me pergunte porque está uma chinesa a fazer de cubana... E podiam ter posto os actores a falar espanhol em várias cenas (como quando os latinos falam entre eles) em vez de fazerem como no Allô! Allô! em que a pronúncia indica a língua que se está a falar.

Enfim, no conjunto, um bom filme de acção.

sexta-feira, agosto 25, 2006

Espantoso



Pirateei esta imagem do New England Journal of Medicine: representa um jovem haitiano antes e depois de receber tratamento para a SIDA e a tuberculose. As fotos são de Março e de Setembro do mesmo ano. De facto, uma imagem às vezes vale mesmo por mil palavras!

Neste caso, ideias evocadas: os enormes avanços da Medicina em geral e do tratamento da SIDA em particular, o objectivo de generalizar a terapêutica, a ideia de que a saúde não deve estar dependente do income financeiro - eu acredito firmemente que a saúde, e a dignidade em geral, de cada um é uma mais-valia para todos - , a extraordinária capacidade de recuperação das pessoas, sobretudo dos jovens.

No mesmo número da revista, gostei de um artigo em que se defendia o fim do regime de excepção que a SIDA tem ainda em certos aspectos, e que, como aliás é frequente com estes regimes, é actualmente contra-producente para os próprios doentes - nomeadamente, a história da necessidade de consentimento informado para o teste do HIV, ao contrário de miríades de outros.

segunda-feira, agosto 21, 2006

Velho Amigo


Já falei dele aqui e aqui. Agora, chegou ao fim da sua longa (em termos caninos) vida, e sinto-me triste. Perdi o meu velho amigo de tantos anos - 15 e meio - que me acompanhou por tantas experiências, boas e más. É uma parte da minha vida que termina, por ele e pela ligação que tinha com outras. Já estivera doente há cerca de 1 ano, mas recuperara admiravelmente. Mas desta vez o declínio foi imparável, até eu não suportar vê-lo sofrer. Fui eu que o matei, por fim. RIP, alegre cão.

sábado, agosto 19, 2006

Long Way Round, de Ewan McGregor e Charley Boorman


Sempre gostei de ler relatos de viagens; mais ou menos aventurosas, têm sempre dois elementos muito interessantes: a descrição dos locais e pessoas ao longo do caminho e o ponto de vista, a perspectiva, do viajante / narrador (claro que o interesse tem a ver com a sensibilidade e inteligência deste, e da maior ou menor simpatia que nos inspira). Se, além disso, a escrita for boa, melhor ainda, embora em geral não seja o mais importante. Há livros que me interessam mais por um ou outro destes factores - ou porque gosto particularmente do autor, ou porque o sítio me atrai especialmente, ou porque a viagem cobre um período de tempo/história particularmente interessante, ou uma combinação de todos eles. Assim, vou lendo este tipo de narrativas sempre que posso, sejam as explorações de Richard Burton em África ou a sua peregrinação a Meca e Medina, a viagem de Joshua Slocum à volta do mundo, a viagem do Snark de Jack London, ou a caminhada de Patrick Leigh Fermor através da Europa nos anos 30, ou The Road to Oxiana, ou as narrativas de Chatwin sobre a Patagónia ou a Ásia.

A volta ao mundo de mota de Ewan McGregor e Charley Boorman, contada por eles próprios, é mais uma narrativa de viagens,não das melhores, mas que se lê com agrado. O discurso é simples e fluente, a alternância dos narradores confere-lhe um ritmo mais animado, tem várias cenas divertidas. É engraçado comparar este périplo do século XXI, com equipa de apoio, cobertura dos media em directo, telefones celulares e sistemas de navegação GPS, com as expedições e viagens de outros tempos. O recurso à tecnologia, aliado às frequentes referências a corridas contra o tempo, a esforços de se apressarem e cumprirem os calendários planeados, diminuem um tanto o romantismo, a mística, do viajante / aventureiro / explorador. Mas são apenas sinais dos tempos... Hoje em dia, a maioria das pessoas (nomeadamente as que têm de trabalhar para viver) não têm de facto meses ou anos para deambular pelo mundo a seu bel-prazer, e percebe-se que é complicado dispor de 4 meses para viajar, e compreende-se que o dinheiro dos patrocínios dá jeito. E quanto à tecnologia, também os viajantes do passado utilizaram a que tinham disponível nas suas épocas, fosse mais ou menos sofisticada.

No final, no entanto, o livro fica a saber a pouco. Fica a sensação de que a viagem teria sido bem mais interessante se tivesse demorado mais tempo, permitindo mais espontaneidade e mais experiências e contactos com as pessoas dos países percorridos.

terça-feira, agosto 15, 2006

Leituras de férias

Uns dias de ociosidade são o ideal para ler vários livros de seguida, e esse é um dos meus principais prazeres de férias... Estas não foram excepção!

Comecei por O Capitão Alatriste, de Arturo Pérez-Reverte, um livro levezinho, um romance de capa e espada a homenagear os romances de Dumas. Como sempre, achei a escrita de Pérez-Reverte um bocado chocha, recheada de muitos lugares comuns, e a história é engraçada, mas nada de especial. Arturo Pérez-Reverte tem alguns livros em que o engenho da intriga compensa os seus poucos dotes de escritor - o melhor é de longe O Clube Dumas, seguido de Pele de Tambor e de A Tábua da Flandres. Este foi o primeiro que li dele e o que me fez ler os seguintes, até O Cemitério dos Barcos sem Nome, que achei maçador e pretensioso em excesso.

Bitter Lemons of Cyprus, de Lawrence Durrell, é felizmente bem melhor. Gosto muito dos livros de Durrell, desde que li Justine, que foi verdadeiro amor à primeira vista. Ainda hoje, o Quarteto de Alexandria é das minhas obras favoritas. Ao longo dos anos, fui lendo tudo o que encontro de Durrell; obviamente gosto mais de uns do que de outros, mas em geral não me decepciono. Bitter Lemons é sobre a sua experiência em Chipre nos anos 50. Como sempre, está soberbamente bem escrito, com os seus toques de ironia que por vezes criam cenas hilariantes - como a da compra da casa em Bellapaix - mas sobretudo repassado de ternura e nostalgia pela vivência na ilha. E é muito interessante o relato do início dos problemas na ilha, no período final da dominação britânica, mostrando como a discórdia e a amargura se vão insinuando e crescendo até se chegar a uma situação incontrolável. De certa forma, ajuda a compreender situações como as do Líbano ou da ex-Jugoslávia, além de evidentemente a de Chipre.

Loucuras de Brooklyn, de Paul Auster, é mais um livro de um dos meus autores americanos favoritos, pelo menos dos vivos. Gosto muito dos livros de Auster, das suas histórias rocambolescas, da sua ternura pelas personagens, do seu talento de contador de histórias, de como explora detalhes e pormenores "seguindo-os", ramificando a narrativa, e sobretudo da sua paixão pela serendipidade, do seu optimismo. Além de que escreve muito bem. Tinha gostado bastante do último livro dele que lera, Oracle Night, mas este é optimista e alegre onde o outro era sombrio e misterioso.

Londres, de Virginia Woolf, é um livrinho que se lê de um fôlego; está muito longe do seu melhor mas é sempre agradável ler a sua prosa. Serviu para me abrir o apetite para a sua correspondência com Vita Sacville-West, que comprei em San Francisco e ainda não li.

The Plot Against America, de Philip Roth, é muito bom. Muito inteligente e extremamente bem escrito, é sinistro e arrepiante pela sua credibilidade, porque é impossível deixar de pensar que podia de facto ter sido assim, e como tudo aquilo que tomamos por garantido - a segurança, a sanidade, a normalidade - é tão assustadoramente frágil. Mostra bem como o Mal pode de facto aparecer e crescer em qualquer lugar (e de certa forma foi curioso lê-lo tão pouco depois de Bitter Lemons), e faz-nos olhar com particular cuidado para a evolução da situação na América de hoje, em que a paranóia fanática e anti-muçulmana da actual Administração substituiu o anti-semitismo imaginado no livro de Roth. Nunca tinha lido nada deste escritor, e gostei muito.

Adeus, Tsugumi, de Banana Yoshimoto, é interessante. Há cerca de um ano, li um livro desta autora, Kitchen, e gostei do seu tom, mais do que da história ou das personagens. Tsugumi confirmou essa impressão: a história é banal, trata do tantas vezes abordado tema da passagem à idade adulta, do crescimento, da nostalgia pela adolescência. O que é melhor no livro é o tipo de escrita, suave, leve, detendo-se nos pormenores e momentos, através dos quais conta a narrativa e desenvolve as personagens.

O primeiro livro de Isabel Allende que li foi A Casa dos Espíritos, num passado já longínquo, e lembro-me de que gostei muito. Depois, gostei menos de cada livro que fui lendo, com a excepção de Paula, que me tocou pela sua intensidade e pelo tema tratado, até ter deixado de a ler depois de O Plano Infinito. Há um ano, ofereceram-me Retrato a Sépia, e li-o para ver se voltava a gostar da autora, mas achei-o ainda pior que os anteriores. Mas, como diz o povo, quando há fome não há ruim pão... de modo que, já com os livros no fim, li Zorro, que estava disponível, levado por um companheiro de férias. Saiu-me um típico romance de capa e espada, completamente folhetinesco, que se lê facilmente - um pouco tipo pastilha elástica para os olhos, ou romance de aeroporto. Fraco, mas consome-se facilmente.

Por fim, um livro que ainda não terminei, e de que estou a gostar bastante. Sempre gostei de relatos de viagens e de experiências pessoais. Quando o terminar, logo falarei de Long Way Round, o relato de Ewan McGregor e Charley Boorman da sua viagem de mota à volta do mundo.

Férias...


Como a maior parte das pessoas, também fui uns dias para a praia. Foi bom, tive a minha "dose" anual de praia, e sinto-me satisfeito com isso. Depois, o prazer de regressar, e de rever Lisboa na sua perspectiva mais bela, que é quando se entre pela ponte. A partir de amanhã, work, work, work! :(

quinta-feira, julho 27, 2006

Shalimar o Palhaço, de Salman Rushdie


Shalimar o Palhaço é um bom livro, embora não dos melhores de Rushdie - quanto a mim, bastante inferior a Os Filhos da Meia-Noite, Vergonha e O Último Suspiro do Mouro, que acho os melhores, sobretudo os dois primeiros, mas muito melhor que os últimos, os falhados Fúria e O Chão Que Ela Pisa. Gosto muito de Rushdie, desde que o li pela primeira vez - precisamente Os Filhos da Meia-Noite, que foi uma revelação. Nos últimos anos, tenho apreciado mais os seus ensaios que os seus romances - Oriente, Ocidente, Pátrias Imaginárias e Pisar o Risco. Sempre achei lamentável que Salman Rushdie tivesse atingido a notoriedade que conheceu por causa da bárbara fatwa de Khomeiny, aliás por um livro que acho longe dos seus melhores. No entanto, após algumas reacções confusas iniciais - e quem não estaria perturbado, sob uma sentença de morte ditada por fundamentalistas muçulmanos? - acho que ele lidou admiravelmente com o assunto e admiro-o por isso.

Mas quanto a Shalimar, o livro tem um começo um bocado lento, algumas personagens fracas (como India e o próprio Shalimar), e umas partes pouco conseguidas, mas outras excelentes, sobretudo as de Caxemira, nomeadamente as da sua destruição progressiva e inexorável causada pela intolerância e o fanatismo. Aliás, Rushdie é habitualmente muito bom a exprimir o horror consequência da intolerância, e fica-se sempre (pelo menos eu fico) com um nó no estômago. Pode ser palavroso e barroco, e é-o muitas vezes, mas é forte e emotivo.

As imagens são de Caxemira, esse paraíso perdido, que é um dos lugares que eu gostaria de visitar, desde que vi pela primeira vez imagens dos barcos-casa nos lagos de Srinagar. Um paraíso destruído pela intolerância absurda, como o Afeganistão, ou o Líbano. Só por não nos permitir esquecer isso, já vale a pena ter sido escrito Shalimar.

terça-feira, julho 25, 2006

Os Invencidos, de William Faulkner


Sempre tive uma ternura especial por este livro, talvez por ser o primeiro que li de Faulkner. Lembro-me de quando o descobri numa Feira do Livro, numa velha edição da Minerva, e de como o comprei e li gulosamente. É dos livros mais fáceis de Faulkner, lê-se como um livro de aventuras, e é uma excelente introdução ao microcosmos do Condado de Yoknapatawpha e às suas famílias - os Sartoris, os Snopes, os McCaslin, os Compson e os Sutpen. Sente-se a Guerra Civil, muito mais que nos grandiosos décors de Gone With the Wind. Depois desse, já não me lembro bem da sequência em que fui lendo os outros romances, mas lembro-me de chegar ao Som e a Fúria, que inicialmente adiara com receio de o achar difícil - toda a gente me dizia que era ilegível - e achá-lo muito bom e perfeitamente compreensível. Gosto imenso de Faulkner!