
Já não me lembro bem de quando ouvi falar de P. Leigh Fermor pela primeira vez, talvez na biografia de Bruce Chatwin, de quem foi amigo e de alguma forma um dos mentores. Depois, lembro-me de várias vezes ver A Time of Gifts no catálogo da editora Folio, onde durante alguns anos encomendei livros, e por fim comprei-o, numa época em que li vários volumes de memórias / viagens. Gostei imenso, e a continuação não lhe fica atrás. Espero bem que Leigh Fermor consiga publicar em breve a terceira e última parte! (Pois ele ainda vive, com 91 anos.)
Estes dois livros são o relato (escrito muitos anos depois e ainda inacabado) de uma viagem feita pelo autor na sua juventude - em 1933, uma espécie de enfant terrible da upper middle class inglesa, aventurou-se no projecto de viajar a pé até Constantinopla, atravessando a Europa ao longo dos eixos dos rios Reno e Danúbio), munido de um saco-cama emprestado por outro viajante famoso (Robert Byron, o autor de The Road to Oxiana) e uma bagagem reduzida ao mínimo, como uma espécie de vagabundo educado. A viagem durou quase dois anos, ao longo de uma Europa num momento particularmente significativo - pouco antes da 2ª Guerra Mundial, que iria transformar radicalmente toda a zona percorrida, que por isso mesmo ganha contornos simultaneamente nostálgicos e fantásticos, pois é de um outro mundo, entretanto desaparecido, que se fala. E a descrição de Patrick Leigh Fermor é fascinante - enriquecida pelos anos entretanto passados, em que PLF, um autodidacta inesgotavelmente curioso, acumulou conhecimentos enciclopédicos sobre tudo, desde botânica e zoologia a antropologia e etnologia (não admira que fosse uma das inspirações de Chatwin!), mas sobretudo a História europeia, o que torna o livro repleto de detalhes curiosos e interessantes áo longo de toda a narrativa. Por outro lado, o humor e optimismo da juventude (tinha 18 anos) tornam-se contagiantes.
O livro termina num tom nostálgico e inesperadamente melancólico, numa nota em que o autor informa que a zona onde se passa a parte final já não existe, submersa pela construção de uma gigantesca barragem no Danúbio pelas socialistas Roménia / Bulgária / Jugoslávia, assim destruindo uma paisagem fulcral na história da Europa desde o tempo dos Romanos. Não é uma diatribe sentenciosa contra o progresso, antes uma reflexão sobre a saudade e a nostalgia por um passado desaparecido.
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