quinta-feira, novembro 01, 2007

Dr. Mabuse

Vi recentemente Dr. Mabuse der Spieler e Das Testament des Dr. Mabuse - ambos muito bons, com excelente ambiente e um vilão maquiavélico e inquietante. Depois de ver Spione e M, além do magnífico Metropolis, vou admirando cada vez mais a genialidade de Fritz Lang - de facto, os seus filmes eram verdadeiramente vanguardistas, tanto nos temas como na realização; de certa forma a maior parte dos grandes géneros do cinema das décadas seguintes já lá estavam, e consegue o feito não desprezível de ser ver com agrado e empolgamento 80 anos depois. E demonstra como para se ser um génio do cinema não é necessário ser chato.

Prospero's Cell, de Lawrence Durrell

Depois de The Corfu Trilogy, li a evocação de Corfu pelo Durrell "original", o escritor, que figura de forma caricata no livro de Gerald. Apesar de um estilo completamente diferente, a nostalgia e o afecto pela ilha são muito semelhantes. Durrell escreve sempre bem, sabe ser poético e irónico, e transmite sempre um entusiasmo pela vida que é uma das características da sua escrita que sempre mais me atraiu. Gostei mais de Bitter Lemons of Cyprus, sobre outra ilha e outro tempo, menos inocente e idílico, mas que me tocou mais, mas apreciei bastante Prospero's Cell - e já tenho outro livrinho de Lawrence Durrell sobre as ilhas gregas na calha.

London Calling


Que bem me sabe ouvir London Calling, dos Clash, que comprei há dias na Fnac, aproveitando estar em nice price (tal como mais alguns cds). Sobretudo porque a energia que transmitem se veio somar à do projecto de voltar em breve a Londres; e como só a ideia de quebrar a rotina - que tem sido verdadeiramente pesada - é revigorante! Sim, London Calling, literalmente!

quarta-feira, outubro 17, 2007

Parallel Lines, dos Blondie


Ouvi este disco vezes sem conta na minha adolescência, depois foi uma das vítimas do fim do vinil. Há uns tempos que andava com vontade de o ouvir de novo, inutilmente o tenho procurado na Fnac; ontem um chat buddy enviou-mo no msn, e que delícia ouvir novamente a voz de Debbie Harry em temas como Sunday Girl, Just Go Away, 11:59, One Way or Another, etc, tão bons como há 20 anos! É incrível como as letras me vieram imediatamente à memória. Tenho estado a ouvi-lo (em repeat, como no programa da Radar) desde ontem.

E como brinde, ainda recebi uma série de músicas de bandas da época que não conhecia, como Cranes, Revillos e Passions, e de outras que não ouvia há séculos, como Shakespeare's Sister, Eurythmics, Tourists. Alegrias da internet!

Black Coffee Blues, de Henry Rollins

Nunca tinha ouvido falar de Henry Rollins até um amigo me emprestar este livro; trata-se de um artista punk americano multifacetado - cantor rock, poeta, performer, escritor. O livro tem vários textos interessantes, por vezes Rollins consegue ser forte e intenso num estilo de desespero e existencialismo americanos que evoca influências de Jim Morrison (frequentes) a Raymond Carver (nas melhores partes). Achei no entanto em geral o livro de um homem imaturo e auto-centrado, que poderia ser escrito por um adolescente em crise de crescimento em fase de desencanto com o mundo
à procura de si próprio - todo aquele gloom angustiado e desesperançado dá vontade de dizer: "Snap out of it!", "Grow up!". (Como tinha 30 anos quando escreveu Black Coffee Blues, talvez tenha crescido e não tenha cedido à tentação de se fixar numa pose que lhe deu notoriedade:)

Mas é certo que tem bons momentos, curtos textos que nos tocam e impressionam, e os textos finais, como Exhaustion Blues, Monster (uma vívida e realista evocação da depressão) e I Know You, são muito bons.

I know you
You were too short
You had bad skin
You couldn't talk to them very well
Words didn't seem to work
They lied when they came out of your mouth
You tried so hard to understand them
You wanted to be part of what was happening
You saw them having fun
Seemed like such a mystery
Almost magic
Made you think that there was something wrong with you
You would look in the mirror trying to find it
You thought that you were ugly
And that everybody was looking at you
So you learned to be invisible
To look down
To avoid conversation
[...]
You had to be strong tokeep yourself alive
You know yourself very well now
You don't trust people
You know them too well
You try to find a special person
Someone you can be with
Someone you can touch
Someone you can talk to
Someone you won't feel so strange around
You found that they don't really exist
You feel closer to people on movie screens
Yeah, I think I know you
You spend a lot of time daydreaming
People have made comment to that effect
Telling you that you're self involved and self centered
But they don't know, do they
About the long night shifts alone
About the years of keeping yourself company
All the nights you wrapped your arms around yourself
So you could imagine someone holding you
[...]
For you life is a long trip
Terrifying and wonderful
Birds sing to you at night
The rain and the sun
The changing seasons are true friends
Solitude is a hard won ally
Faithful and patient
Yes I think I know you


sábado, outubro 13, 2007

Take me out of here...


Take me out tonight
Where there's music and there's people
Who are young and alive
Driving in your car
I never never want to go home
Because I haven't got one anymore

Take me out tonight
Because I want to see people
And I want to see life
Driving in your car
Oh please don't drop me home
Because it's not my home, it's their home
And I'm welcome no more

in Smiths - There is a Light That Never Goes Out

domingo, outubro 07, 2007

The Tipping Point, de Malcolm Gladwell

É um livro bastante interessante, mais pelo tratamento dos exemplos que apresenta do que pela teoria subjacente. Aliás, como muitos dos livros que expoem e defendem uma teoria, este também sofre do defeito de querer encaixar tudo nessa teoria, acabando por apresentar algumas ideias pouco convincentes e forçadas. Mas globalmente é engraçado, dá algumas ideias perspicazes sobre o tema das modas (fads é o termo em inglês mais adequado, mas que não sei traduzir bem), levando-nos a apercebermo-nos de certos pormenores e tendências que geralmente não notamos e como tal ajuda a compreender o mundo em que vivemos, mesmo que muitas vezes, como diz a crítica do New York Times, que achei muito boa, se limite a ser "common sense dressed up as science".

Religião nos hospitais

Ultimamente tem-se falado muito da assistência religiosa nos hospitais, e hoje saiu uma extensa peça sobre o assunto no Público. Uma vez que também eu trabalho num hospital, tive vontade de acrescentar a minha opinião, embora geralmente evite falar das questões de que toda a gente fala ao mesmo tempo - sempre me irritaram estas ondas passageiras desencadeadas por uma ou duas pedradas, em que as pessoas do costume dão as opiniões que delas se espera e depois fica tudo mais ou menos na mesma. Desta vez, o que me levou a manifestar-me é a imensa hipocrisia que rodeia a questão. É ver "autoridades" do campo da Igreja, da Medicina, do Governo, etc, a falarem da enorme importância do apoio espiritual aos doentes e do papel das confissões religiosas.

Ora a minha experiência pessoal, que já vai em quase 20 anos, passnado por vários dos principais hospitais da Grande Lisboa, tem-me mostrado uma realidade bem diferente. Em todos estes anos de prática clínica, que incluiu a assistência a centenas de doentes crónicos, na maioria idosos, e infelizmente dezenas de moribundos, não me lembro de uma única vez (uma única) em que algum deles manifestasse o desejo de assistência espiritual ou conforto religioso. Os únicos casos em que contactei com membros de alguma confissão religiosa a aparecerem foram as Testemunhas de Jeová, por diversas vezes, mas sempre nao solicitados (excepto num caso, em que foram chamados pela mãe de um doente menor), e sempre para lembrar que os doentes em causa não podiam receber transfusões de sangue e não para lhes prestar apoio espiritual. Nos meus primeiros anos de prática ainda vi por vezes os capelães de dois hospitais passarem pela enfermaria perguntando aos enfermeiros-chefes se alguém precisava deles, mas foi tudo.

Isto não quer obviamente dizer que os doentes hospitalizados se sintam felizes e confiantes, muito pelo contrário. Mas o que eles pedem é a presença e companhia das famílias e dos amigos, muito limitadas pelas escassas horas de visita, e atenção do pessoal de saúde. Nos serviços em que trabalho actualmente há o cuidado de facilitar ao máximo o acesso aos familiares, sobretudo dos doentes mais graves e moribundos, nomeadamente tentando que não morram abandonados. Penso que seria muito mais importante e útil para os doentes, e isso seria ir verdadeiramente ao encontro das suas necessidades e desejos, investir nesse aspecto, em vez de pagar a capelães católicos ou de outra confissão, o que acho completamente errado. Obviamente, se alguém mostrar vontade de receber apoio espitual / religioso, seja qual for a confissão, deve-lhe ser facultado o acesso do ministro da religião correspondente, mas o pagamento deste e a organização desse apoio deve ser da exclusiva responsabilidade da igreja em causa. O papel do hospital deve ser apenas o de permitir e facilitar o acesso, uma vez que se o doente exprime essa necessidade a sua satisfação é seguramente importante para ele. Mas uma vez mais afirmo que seria muito mais importante facilitar e alargar o tempo de acesso às famílias - só que essas não têm bispos nem fazem notícia.

Planet Terror, de Robert Rodriguez

Depois do excelente Death Proof, vi agora Planet Terror, o outro filme da dupla Grindhouse, e excedeu as minhas expectativas. Se Death Proof era irónico e divertido, cheio de diálogos engenhosos, este é o verdadeiro pulp trash, tão excessivo que é hilariante do princípio ao fim. Começa logo com um trailer impagável, e depois está lá tudo, servido por um argumento arrevezado repleto de complicadas armas biológicas/químicas (com um palavreado científico completamente disparatado), e uma verdadeira orgia de zombies vorazes, boazonas em perigo com grandes planos gratuitos de seios opulentos e pernas voluptuosas, tarados sangrentos, sangue literalmente às litradas, e até o assassino do Bin Laden. O filme é de facto muito divertido, extremamente bem feito, entretenimento puro e de boa qualidade. Uma delícia.

sábado, outubro 06, 2007

Proibição de fumar nos hospitais

Disseram-me que vem aí a proibição definitiva de fumar em hospitais, centros de saúde e outros estabelecimentos relacionados (mais uma vez, porque suponho que já é proibido), desta vez com multas e controlo a sério. Já prevejo o habitual coro indignado, mas só posso aplaudir a decisão. De facto, os argumentos utilizados contra estas medidas são patéticos - a dependência, a privação, etc. Trata-se pura e simplesmente de uma questão de hábito. Ninguém morre nem tem síndrome de privação por não poder fumar umas horas - neste caso as horas de trabalho. Aliás, nunca vi nem vi descrita nenhuma morte por privação de nicotina! Também houve queixas por não se poder fumar nos aviões (tantas horas, nas viagens longas!), e as pessoas habituaram-se. E mesmo para quem se sinta desconfortável por não poder consumir a sua nicotina (o que só acontece aos fumadores mesmo maciços) por esse tempo pode sempre utilizar um patch cutâneo. Quanto a mim, estas medidas só pecam por tardias. (E eu não sou nada apologista da cruzada contra o tabaco, a começar porque eu próprio sou fumador, mas acho que é simplesmente uma questão de bom senso.)

Prémios Ig Nobel


Já foram atribuídos os prémios IgNobel deste ano... É sempre divertido e instrutivo ver os trabalhos vencedores! Por ser da minha área, destaco o da Medicina, sobre os efeitos laterais de engolir espadas, mas gostei também particularmente do da Paz, com a "bomba gay" - uma combinação de químicos que faria os soldados desatarem aos beijos em vez de lutar... Fica o link: http://www.improb.com/ig/ig-pastwinners.html.

domingo, setembro 30, 2007

The Corfu Trilogy, de Gerald Durrell


The Corfu Trilogy inclui três livros: My Family And Other Animals (o mais famoso e sem dúvida o melhor), Birds, Beasts and Relatives e The Garden of the Gods, em que Gerald Durrell conta a sua infância encantada em Corfu nos anos 30. O meu desejo de o ler tinha a ver com o facto de Gerald ser irmão de um dos meus escritores favoritos, Lawrence Durrell, que é um dos retratados no livro, aliás de forma muito irónica e afectuosa, como os outros membros da família. Mas os livros valem por si, são uma evocação terna do tempo mágico de uma infância vivida num lugar e tempo privilegiados, com episódios narrados com um humor irónico, elegante e divertido (muito na linha do humor de Lawrence, que tem alguns livros cómicos que são muito divertidos: Stiff Upper Lip, Esprit de Corps e Sauve Qui Peut). Enfim, um livro que se saboreia e nos faz ficar bem dispostos, e que me dá imensa vontade de voltar à Grécia.

The Town, de William Faulkner

O segundo romance da trilogia Snopes é um pouco mais negro que o primeiro (The Hamlet); narra a ascensão social e a conquista de Jefferson por Flem Snopes, que no processo vai snopesianamente eliminando os outros membros, incómodos, da família. Os Snopes são uma espécie de erva-daninha indestrutível, que desponta em qualquer interstício e cresce aproveitando tudo, seja as fraquezas dos outros ou as suas próprias. Faulkner mostra um certo respeito por este género de gente, mas também despreza - a saga dos Snopes nunca é uma tragédia grandiosa como por exemplo as dos Sutpen ou dos Compson, a sua história é contada num tom ora melancólico ora irónico, e Faulkner sabe muito bem combinar estes dois registos, o humor e o drama, numa escrita sempre soberba. Eula Varner, a sua Helena de Tróia, é uma personagem quanto a mim muito menos bem conseguida que as dos Snopes (excelentes, todos) ou as dos Stevens.

sábado, setembro 29, 2007

Melancholia

Banquo - It will be rain tonight.
First Murderer - Let it come down.

William Shakespeare, Macbeth

Não sei se é da chuva, do princípio do Outono, de ouvir Nina Simone cantar Little Girl Blue... Sinto-me melancólico.

domingo, setembro 23, 2007

Mémoires de Saint-Simon

Há uns três anos, penso que durante a minha última estadia em Paris, comprei um volume com excertos das famosas Mémoires de Saint-Simon; já as vira citadas tantas vezes que há muito tinha curiosidade de as ler. Gostei imenso; sempre gostei particularmente de ler memórias e biografias, e gosto de História e do período da França do Grand Siècle; além de ser uma imensa fonte de informação sobre a vida quotidiana na Corte, os retratos de Saint-Simon são perspicazes e implacáveis, e a escrita é num francês saboroso e elegante, muito superior, por exemplo, ao de Mademoiselle de Montpensier nas suas Mémoires. Há uns meses, descobri um site com a transcrição integral das Memórias de Saint-Simon, e tenho estado a lê-las lentamente, divertindo-me com os intermináveis mexericos e intrigas da Corte de Luís XIV. Como a obra é enorme, não vou esperar por terminá-la para falar dela, pois poderá ser dentro de muito tempo. Os retratos são particularmente fascinantes, sobretudo os das personalidades importantes - começam geralmente com elogios rasgados e acaba pelas críticas mais ferozes e contundentes. Também é muito interessante ver os moeurs da época, em relação à vida quotidiana - higiene, divertimentos, sexo, etc. Apercebemo-nos também do triste estado a que a nobreza fora reduzida pelos reinados de Luís XIII e Luís XIV - um punhado de tontos dependentes do rei e lutando por cargos honoríficos e pensões, disputando lugares de chefes de guarda-roupa como se fossem de primeiro-ministro. Não admira que tenha acontecido a vassourada da Revolução.

sábado, setembro 22, 2007

Desejo de Papel, de John Buchan

Este livro, em que o dinheiro é tratado como a encarnação do desejo humano - representando a satisfação potencial dos desejos humanos e acabando por se transformar ele próprio no principal objecto do desjo - é bastante interessante, sobretudo por uma série de informação que veicula sobre a história do dinheiro. A escrita é um tanto entediante, e muitas das ideias do autor parecem-me um tanto rebuscadas e expostas de forma complicada. Mas aprendi várias coisas que desconhecia sobre a história do dinheiro, e tem muitas passagens interessantes. Fez-me reflectir na minha própria relação com o dinheiro, que tanto mudou ao longo dos anos - de franca avareza na adolescência até uma atitude bastante desprendida actualmente. É útil ter dinheiro, mas uma vez assegurado um nível de conforto razoável, a sua importância diminui consideravelmente.

domingo, setembro 16, 2007

Liliom, de Fritz Lang

Mais um filme de Fritz Lang na Cinemateca, o único falado em francês. É uma comédia leve e divertida, com vários momentos hilariantes e, como sempre em Lang, uma realização cuidada com planos excelentes. A história em si é um pouco pobre, com um final moralizador muito tonto - e muito datado.

Fábrica do Braço de Prata

Estive ontem à noite neste espaço que abriu há alguns meses, iniciativa das livrarias Eterno Retorno e Ler Devagar. É uma excelente ideia, de que Lisboa está muito necessitada: um espaço agradável, amplo, onde se pode ler, beber um copo, conversar, ver um filme, exposições, concertos, debates. Ontem estava a decorrer uma sessão de jazz um bocado cacofónico para o meu gosto, mas o edifício é tão grande que se podia estar noutras salas sem ouvir a música, e ainda assisti a parte do documentário I'm Your Man sobre Leonard Cohen. A frequência abundava numa certa fauna de sobreviventes da geração francófila de 60 e seus seguidores, com os quais me identifico muito pouco. No entanto, mesmo se muita da cultura produzida naquela época está datada e quanto a mim ficou sensatamente para trás, e se a pose dos seus adeptos me irritou
um pouco no passado (pois agora acho-a apenas um tanto ou quanto patética), muito do que sobrou, devidamente metabolizado pelo tempo, é válido, sobretudo esta atitude de prazer no saborear da cultura - música, literatura, cinema. É decididamente um sítio a visitar e a frequentar. E soube-me bem ouvir a música do Leonard Cohen, mesmo se interpretada pelo algo lamechas Rufus Wainwright.

domingo, setembro 09, 2007

Spione, de Fritz Lang


Apesar de datar de 1928, este filme vê-se com o mesmo agrado que se tivesse sido produzido agora, mesmo sendo mudo e durando mais de 3 horas. É um excelente filme de acção, muito bem realizado, com uma série de sequências que certamente influenciaram os filmes de Alfred Hitchcock. Mais uma vez constato a actualidade dos clássicos do cinema mudo e de Fritz Lang (de quem um outro filme mudo, mais antigo, Die Spinnen, vi com igual praze, um verdadeiro antepassado dos filmes de Indiana Jones). É curioso como nos bons filmes mudos não se sente a falta dos diálogos, engenhosamente substituídos pelas imagens e pela mímica exagerada dos actores, que tem precisamente essa função.

Lamento, no entanto, que a Cinemateca tenha deixado de passar acompanhamento musical, que fazia parte dos filmes mudos originalmente. O primeiro filme mudo que lá vi, há cerca de 2 anos, Greed, de Von Stroheim, era acompanhado ao piano, ao vivo, mas decerto seria mais barato e comportável uma banda sonora gravada, como no caso de Sunrise, de Murnau, que vi no Nimas, ou de vários que vi em dvd. Senti especialmente a falta da música em Nosferatu, de Murnau, por exemplo. Mas de qualquer forma é uma sorte conseguir ver estes velhos clássicos que tanto acrescentam ao conhecimento e apreciação do bom cinema.

sábado, setembro 08, 2007

O Véu Pintado, de John Curran


The Painted Veil é um bom melodrama, muito bonito, com excelente fotografia numa paisagem muito bela, boas interpretações dos sempre bons Edward Norton e Naomi Watts, que recriam de forma convincente a relação entre as suas personagens, e um ambiente melancólico ao som do piano de Erik Satie. Li o romance de Somerset Maugham há muitos anos, e não me lembrava nada da história, apenas me tinha ficado o título e um poema de Dante na introdução, cuja sonoridade musical nunca esqueci, e que reproduzo:

Deh, quando tu sarai tornato al mondo,
E riposato della lunga via,
Seguitò il terzo spirito al secondo,
Ricorditi di me, che son la Pia!
Siena mi fè; disfecemi Maremma:
Salsi colui che innnanellata pria
Disposando m'avea com la sua gemma.


(Disse a terceira sombra à segunda: - Por quem és, quando ao Mundo regressares, já da longa jornada repousado, lembra-te de mim, a quem chamaram Pia; Siena me fez, Maremma me desfez: bem o sabe aquele de quem, esposa prometida, a jóia nupcial me cingiu o dedo.)

sexta-feira, setembro 07, 2007

Detour, de Edgra J. Ulmer

Detour, de 1945, é um film noir perfeito - um homem duro e sensível perseguido pelo destino, uma pérfida mulher fatal má como as cobras, diálogos incisivos, um ambiente sombrio filmado a preto e branco. E um bom exemplo (como aliás há muitos) de como se consegue fazer um bom filme com recursos escassos. Um bom recomeço para mim da temporada da Cinemateca!

quarta-feira, setembro 05, 2007

Odisseia, de Homero

Depois da Ilíada li a tradução de Frederico Lourenço da Odisseia. Foi igualmente um imenso prazer, embora Homero e gerações de literatos que me perdoem mas preferiria que o poema se alongasse mais na viagem e menos na parte passada em Ítaca até à matança dos pretendentes. Mais uma vez achei a tradução saborosa e empolgante (embora goste mais da expressão "Aqueus de belas cnémides" usada na Ilíada do que das "belas joelheiras", mas é um pequeno pormenor). Mas não vou tecer comentários eruditos que seriam despropositados e pretensiosos, apenas digo que o prazer da sua leitura no século XXI dc confirma a imortalidade da obra.

Férias encurtadas


Mais uma vez rumei ao Alentejo para uns dias de turismo rural, o que habitualmente é repousante, combinando passeio, boa comida, descanso à beira de uma piscina e leitura. Infelizmente, pela primeira vez estive num péssimo sítio - instalações deficientes, comida péssima, dona antipática; de tal forma que não resisti mais de 3 dias. Enfim, fica uma história com alguns pormenores rocambolescos para contar aos amigos, e o cão, alma simples, sempre se divertiu com outros cães e muito espaço para brincar. Restam-me uns dias de férias em casa - pelo menos estou confortável - e espero ter mais sorte para a próxima.

sábado, agosto 25, 2007

Hannah Arendt e o julgamento de Eichmann


Outro livro muito interessante que li recentemente foi Eichmann and the Holocaust, constituído por excertos de Eichmann in Jerusalem. Há muito tempo que tinha vontade de ler o famoso livro de Hannah Arendt, e quando vi este livrinho na Fnac enquanto comprava leitura para as férias não hesitei, só depois me apercebi de que não era a obra completa. De qualquer forma, o texto é extraordinariamente bom, certamente representativo, e já encomendei o livro integral na Amazon.

Nunca tinha lido nada de Hannah Arendt; escreve muito bem, com uma clareza, lucidez e elegância extraordinárias. Não admira que o livro tenha sido tão mal recebido pelo Estado de Israel e pelas comunidades judaicas em geral - não só é muito crítica sobre a forma como o julgamento de Eichmann foi conduzido como aborda muito clara e explicitamente o papel da sociedade em geral e dos líderes das comunidades judaicas em particular durante a perseguição. E, ao negar o estatuto de monstro a Eichmann (a famosa banalidade do mal, expressão cunhada por ela precisamente neste texto), levantou questões extremamente perturbadoras e desconfortáveis para todos nós (pois seria obviamente muito mais reconfortante pensar que tudo aquilo acontecera por uma aberração de alguns monstros invulgares, em vez de ser o resultado de uma conjuntura particular de acontecimentos, ideologias e muitas pessoas normais que agindo de forma prosaica e legalista realizaram um crime de proporções inéditas na história da Humanidade).

Pois como Hannah Arendt diz: "O problema com Eichmann era precisamente haver tantos como ele, e não serem nem pervertidos nem sádicos, mas terrivel e aterrorizadoramente normais. Do ponto de vista das nossas instituições legais e dos nossos valores morais, esta normalidade era muito mais assutadora do que todas as atrocidades juntas, pois implicava - como fora dito repetidamente em Nuremberga pelos réus e os seus defensores - que este novo tipo de criminoso, que é de facto hostis generis humani, comete os seus crimes em circunstâncias que lhe tornam virtualmente impossível saber ou aperceber-se de estar a agir mal." E desta forma Eichmann é retratado como um mesquinho funcionário, meticulosamente eficiente e tacanhamente ambicioso (o que mais lamenta é não ter sido promovido ao posto imediatamente superior, apesar de ser tão eficiente), com um discurso (reflexo do seu pensamento) repleto de pretensiosas e vazias frases-feitas, um perfeito exemplar de uma baixa clase-média de funcionários de colarinho mesquinhos e possidónios. "Aquilo em que ele acreditou fervorosamente até ao fim era no sucesso, o valor principal da 'boa sociedade' como ele a conhecia. [...] A sua consciência fora efectivamente aplacada quando notara o zelo e prontidão com que por todo o lado a boa sociedade reagia como ele. Não necessitara de 'tapar os ouvidos à voz da consciência', como o julgamento afirma, não porque não a tivesse mas porque a sua consciência falava com uma 'voz respeitável', com a voz da sociedade respeitável á sua volta."

Mais impressionante ainda que este retrato de Eichmann (impressionante precisamente por ser tão prosaico, como já foi dito) é a excelente descrição da atitude dos outros intervenientes. Os perpetradores das atrocidades, também quase todos eles 'pessoas respeitáveis' (como se vê pelas suas declarações em Entrevistas de Nuremberga), para quem "...o problema não era tanto ultrapassar a sua consciência como vencer a piedade animal que afecta todos os homens normais em presença do sofrimento físico. O truque usado por Himmler - que aparentemente era fortemente afectado por estas reacções instintivas - era muito simples e provavelmente muito eficaz; consistia em voltar estes instintos ao contrário, ou seja, em direcção a si próprio. De modo que em vez de dizer: Que coisas horríveis fiz às pessoas!, os assassinos poderiam dizer: Que coisas horríveis tive de suportar no cumprimento do meu dever, quão pesada foi a carga sobre os meus ombros!" Ou os numerosos colaboradores activos, que depois afirmaram terem sido sempre secretamente adversários do regime mas submeterem-se às suas ordens e cometerem crimes para "parecerem nazis" ou para impedirem que os "verdadeiros nazis" cometessem crimes ainda piores, chegando a criar o admirável conceito de "emigração interior" para justificar a sua não-emigração de facto, como se tivessem fugido para algum ignoto recesso das suas mentes, em que um bom exemplo foi "...apresentado [...] num tribunal polaco pelo antigo Gauleiter Arthur Greiser de Warthegau: apenas a sua 'alma oficial' tinha cometido os crimes pelos quais foi enforcado em 1946, a sua'alma privada' fora sempre contra eles."

Um dos pontos levantados por Hannah Arendt e que acho extremamente importante é o facto de todos na época, incluindo as vítimas, terem aceite a existência de distinções entre os judeus, o conceito de "judeus importantes", o tratamento de excepção a grupos como os condecorados da 1ª Guerra: "Para aqueles que não desejavam fechar os olhos deve ter sido claro desde o início que 'era prática geral permitir algumas excepções de modo a poder manter a regra geral com maior facilidade. [...] O que era moralmente tão desastroso na aceitação destas categorias privilegiadas era que toda a pessoa que queria uma 'excepção' para o seu caso implicitamente reconhecia a regra. [...] Mesmo após o final da guerra, Kastner orgulhava-se do seu sucesso em salvar 'Judeus proeminentes', uma categoria oficialmente introduzida pelos Nazis em 1942, como se também na sua opinião fosse evidente que um judeu famoso tinha mais direito a permanecer vivo do que um judeu vulgar." E termina o assunto desta forma: "Na Alemanha actual, esta noção de judeus 'proeminentes' ainda não foi esquecida. Enquanto os veteranos e outros grupos privilegiados já não são mencionados, o destino de judeus 'famosos' ainda é deplorado a expensas de todos os outros. Não são poucas as pessoas, especialmente entre a élite cultural, que ainda publicamente lamentam o facto de a Alemanha ter mandado Einstein embora, sem perceberem que foi um crime muito pior matar o pequeno Hans Cohn da loja da esquina, mesmo que não fosse um génio."

Penso que o problema mais desconfortável de todos relacionado com toda a história das atrocidades nazis é o medo que temos de nós próprios - se num dado momento foi possível cometer tais crimes de forma organizada e burocrática num Estado europeu moderno, com a colaboração activa ou a tolerância passiva de todo um povo (de vários, desde a ocupação dos países europeus), será que a nossa atitude teria sido diferente? Até que ponto o nosso comportamento se teria mantido íntegro? Teríamos fugido, colaborado, "emigrado interiormente", resistido?

São algumas das muitas questões abordadas, agora resta-me ler o livro completo. Certamente falarei disto novamente.

Bug, de William Friedkin

Bug é uma peça de teatro filmada que provoca uma certa ambivalência. Inicialmente, o filme é lento e mesmo entediante, mas por outro lado vai criando um clima de desconforto e expectativa que depois cresce numa espiral de loucura e violência na segunda parte. Não sei se o realizador teve a intenção de propor vários níveis de interpretação da história (ou seja, até que ponto pretende que aceitemos como credíveis os delírios das personagens, ou que tomemos a história como uma metáfora do mundo moderno), mas parece-me que sim, por certos pormenores (que achei muito dispensáveis) como os flashes dos insectos a circular ou a eclodir. De qualquer forma, é uma história intensa de loucura, com boas interpretações e um excelente retrato da esquizofrenia paranóide; ao longo do filme lembrei-me muitas vezes de Repulsion, de Polanski, que é um dos melhores retratos em filme da esquizofrenia, e de Safe, de Todd Haynes, pela escalada inexorável do absurdo irracional e angustiante. Ou seja, não é um filme que se goste de ver, pois causa desconforto, mas por isso mesmo é interessante e com várias cenas excelentes (sobretudo o ambiente final de irrealidade do quarto forrado de alumínio).

Paranóia, de D.J. Caruso

Disturbia, de D.J. Caruso, é um filme divertido e bem conseguido, um thriller para adolescentes que teve a boa ideia de abandonar os clichés satirizados em Scary Movie e ir buscar uma boa ideia a um clássico (Rear Window), aadaptá-la aos dias de hoje, temperar com humor e suspense qb, sem recorrer a grandes twists nem personagens complexas. O resultado é um filme que se vê com agrado e em que se entra muito bem, e que mesmo sendo muito previsível ainda faz dar um ou dois saltos na cadeira.

quinta-feira, agosto 16, 2007

Algumas leituras de férias

Nunca tinha lido nada de Don DeLillo, e devo dizer que Falling Man não me agradou especialmente. É razoavelmente interessante, sobretudo nas descrições do dia do 11 de Setembro e do estado de espírito de confusão e estupefacção / choque que se lhe seguiu, mas a evolução das personagens é pouco credível, o desenvolvimento da história pouco interessante, as partes do terrorista enxertadas à pressão, e sobretudo a escrita e a estrutura do romance são pretensiosos e entediantes, fizeram-me lembrar uma Anne Tyler com pretensões a Ian McEwan. Decididamente, o 11 de Setembro e os seus efeitos mereciam um tratamento literário melhor.

Sempre gostei muito de História, e acho este tipo de exercícios de especulação sobre a história contrafactual extremamente interessantes quando bem fundamentados, como é o caso de História Virtual, organizado por Niall Ferguson. Abordei a longa introdução com algumas reticências devido à sua extensão (100 páginas!), mas é das partes mais interessantes do livro e ajuda muito na sua compreensão. A revisão sobre as várias teorias e formas de encarar e de escrever a História está excelente e faz reflectir. Quanto aos vários cenários apresentados, o menos interessante pareceu-me o primeiro, o da América britânica, e a conclusão, com a sua "História alternativa", está muito engraçada. Também sempre me fascinou até que ponto o evoluir da História é determinista ou dependente do acaso, e a minha opinião actual é que é um misto de ambos - a tendência geral é determinista, mas com grandes variações a curto / médio prazo dependentes do acaso, nomeadamente de factores relacionados com os indivíduos. No fundo penso que acaba por ser também a posição de Niall Ferguson, ao ler a conclusão - apesar de vários cenários diferentes ao longo do tempo, o curso geral da História não ficava muito diferente. Ou será porque conhecendo a História que foi se torna quase impossível imaginar algo de completamente diferente a longo prazo? Com efeito, se os desvios se sucedessem e potenciassem, a certa altura quase tudo seria possível de imaginar, o que começa a ser inútil para a análise e compreensão do que de facto aconteceu..

Gostei imenso de Norwegian Wood. Haruki Murakami está actualmente muito na moda; eu tinha lido dele há uns anos A Wild Sheep Chase (traduzido recentemente em português como Em Busca do Carneiro Selvagem...) e não tinha gostado muito - escrita interessante, mas não me prendeu especialmente e achei-o no geral um pouco maçador e pretensioso. Mas Norwegian Wood é muito bom, um livro intimista e terno, com personagens e situações extremamente bem construídas e reais, uma história agridoce de nostalgia e crescimento, e uma escrita sóbria e cativante. Depois deste, fico com vontade de ler mais Murakami.

Este é daqueles livros de que não sei como dizer que gostei, porque o gostar aqui não se refere a nenhum prazer estético (nem de qualquer outro tipo, a não ser talvez o de conhecer, de saber, de tentar compreender). O livro é excelente para quem se interesse pela questão do nazismo e das atrocidades nazis, e de como foi possível. E a leitura das entrevistas a vários acusados e testemunhas do Julgamento de Nuremberga é mais um elemento, e não para simplificar. Sinto sempre uma espécie de horror gelado misturado com um fascínio doentio sobre esta questão, porque de facto foi tão horrível que desafia o entendimento. As declarações dos nazis revelam duas tendências comuns a quase todos - o afectarem desconhecimento do que se passava com os judeus (temperado por aquela tão humana mania de acrescentarem: "eu até tinha amigos judeus" ou "sempre ajudei pessoalmente os judeus") e o empurrar as responsabilidades para os ausentes (geralmente Hitler, Himmler e Bormann). E depois é a forma espantosa como descrevem tudo o que aconteceu como normal, banal, burocrático, o que atinge o expoente do horror / absurdo nas declarações de Rudolf Hoess, Julius Streicher e Otto Ohlendorff. Arrepiante.

quarta-feira, agosto 15, 2007

Férias


Acho que nunca passei nenhuma estadia na praia em que fosse tão pouco à praia. Por um lado, o tempo não estava muito quente, por outro cada vez aprecio menos estar muito tempo na praia - o ideal para mim agora é chegar a uma hora de calor, tomar banho e nadar um pouco, secar-me a um sol quente, voltar à água quando recomeço a sentir-me quente, repetir este procedimento duas ou três vezes e ir embora. Quão longe me sinto dos tempos em que passava (com gosto) horas e horas na praia, a ler e a aboborar ao sol!

De qualquer forma, soube-me bem esta estadia no Algarev - prefiro o tempo assim, moderado, li um pouco, dormi imenso, e sobretudo passei muito tempo com o meu cão, que acho que só agora sinto verdadeiramente como o meu cão, com o mesmo género de afecto que tive pelo seu saudoso predecessor.