domingo, novembro 29, 2009

The Father and Son Road Show, de Sherman Alexie



Nunca tinha encontrado um poema que falasse de diálise...

The Father and Son Road Show


The doctor tells me my father's story,
How he'll die if he stops dialysis.
"First confusion, followed by lethargy,
Then toxins shut off the brain." I hate this

Doctor and his certainty, though I wish
I could hate my father and his weakness.
Of course, I'm lying. Most days, I would kiss
This doctor as he tends the sugar-soaked mess

My father has made of his life. I confess
To loving my father, a gentle man
Whose brutal thirsts have left us all bereft,
And so bereft, I'm to give a command

Performance—a road show, a song and dance—
And convince my father to continue
Dialysis, no matter how he's planned
To die or not die. I don't have a clue

How to begin this time, though I've rescued
My endless father endlessly, traveled
Two thousand miles to buy him a shoe
To fit his amputated foot. Unraveled

By the simple act of living, marveled
By the mundane, my father mowed the lawn
Like van Gogh painted and spread free gravel
On the driveway like God created dawn.

God, how often I woke to find him gone,
Fleeing the children he loved and could not feed,
As if leaving made magic, a spell-song
That conjured fruit, milk, bread, fish, egg, and seed.

Come back, come back, I child-cried, I need
My father to return. Now, a father
Of two open mouths (and souls) who need me,
I'm a primitive: I hunt and gather;

I build totems and pyramids; I'm fur
And claw; I believe animals can talk;
I know the world is flat; I'm the cur
Raised by wolves; I worship corn, leaf, and stalk;

A child of the sun, I've learned to walk
Upright but still run on all fours; afraid
Of the dark and fire, in love with rock
And fire, I huddle alone in caves

And pray to my ten thousand gods; I pray
To my father's ten thousand gods; I pray
To my sons' twenty thousand gods; and I pray
For protection, courage, and strength to stay

With my father as he chooses the way
This machine will help him live or not live,
As father and father-son separate,
Loose, broken, dissolved by dialysis.

Lovely Green Eyes, de Arnošt Lustig

Os livros sobre o Holocausto deixam-me sempre algo desconfortável, porque continuo a achar de tal modo inimaginável o que aconteceu. Não gostei muito deste livro - tem boas descrições do horror dos campos, mas as personagens parecem-me excessivamente tipificadas, como os alemães, ou superficialmente esboçadas, como os checos. No entanto, resta sempre a sensação de que aquilo aconteceu mesmo, a pessoas reais, e neste caso o autor passou por Teresienstadt e Auschwitz, de modo que sabe bem do que fala, e provavelmente por isso as descrições são tão reais, tal como a noção do tempo, de que geralmente não nos apercebemos - como a esperança de vida era curta e a intensidade das experiências fazia os curtos períodos de tempo parecerem intermináveis.

domingo, novembro 15, 2009

Dois filmes no fim-de-semana

New York I Love You é um filme simpático, com algumas partes muito boas e boas interpretações e outras um bocado chochas. No conjunto, gostei menos do que de Paris Je t'Aime, mas vale a pena ver.


The International, de Tom Tykwer (só depois vi que era o mesmo realizador do óptimo Run, Lola, Run), é um thriller razoável, adaptado à realidade actual - os maus são os bancos multinacionais - com algumas boas sequências de acção e muitos planos turísticos de cidades como Istambul, Nova Iorque e Milão. Clive Owen, Naomi Watts e Armin Müller-Stahl estão muito bem, como sempre, ele forçando um pouco a nota do herói solitário e atormentado (algumas deixas do guião são um pouco excessivas, como quando ele diz a Naomi Watts: "Comes a time when you have to know which bridges to cross and which to burn. I'm the one you burn." - seguido de um prolongado close up do rosto másculo e profundo do herói...). Mas é um filme agradável de ver.

quinta-feira, novembro 12, 2009

Aubade, de Phlip Larkin



I work all day, and get half drunk at night.
Waking at four to soundless dark, I stare.
In time the curtain edges will grow light.
Till then I see what's really always there:
Unresting death, a whole day nearer now,
Making all thought impossible but how
And where and when I shall myself die.
Arid interrogation: yet the dread
Of dying, and being dead,
Flashes afresh to hold and horrify.
The mind blanks at the glare. Not in remorse
- The good not used, the love not given, time
Torn off unused - nor wretchedly because
An only life can take so long to climb
Clear of its wrong beginnings, and may never:
But at the total emptiness forever,
The sure extinction that we travel to
And shall be lost in always. Not to be here,
Not to be anywhere,
And soon; nothing more terrible, nothing more true.

This is a special way of being afraid
No trick dispels. Religion used to try,
That vast moth-eaten musical brocade
Created to pretend we never die,
And specious stuff that says no rational being
Can fear a thing it cannot feel, not seeing
that this is what we fear - no sight, no sound,
No touch or taste or smell, nothing to think with,
Nothing to love or link with,
The anaesthetic from which none come round.

And so it stays just on the edge of vision,
A small unfocused blur, a standing chill
That slows each impulse down to indecision
Most things may never happen: this one will,
And realisation of it rages out
In furnace fear when we are caught without
People or drink. Courage is no good:
It means not scaring others. Being brave
Lets no-one off the grave.
Death is no different whined at than withstood.

Slowly light strengthens, and the room takes shape.
It stands plain as a wardrobe, what we know,
Have always known, know that we can't escape
Yet can't accept. One side will have to go.
Meanwhile telephones crouch, getting ready to ring
In locked-up offices, and all the uncaring
Intricate rented world begins to rouse.
The sky is white as clay, with no sun.
Work has to be done.
Postmen like doctors go from house to house.

No Saints or Angels, de Ivan Klíma

Um romance interessante, muito bom, que se passa em Praga mas poderia passar-se aqui em Lisboa ou em qualquer outra cidade ocidental. Trata dos sentimentos de desmotivação e falta de esperança e de sentido da via tão comuns na nossa sociedade actual; as referências e os pormenores são locais - a ocupação nazi, o comunismo, o pós-comunismo - mas os problemas e os sentimentos focados são universais. Por motivos óbvios, tocou-me particulrmente o problema da filha adolescente e toxicodepndente. Apesar do tom gloomy que permeia todo o livro, termina com uma nota de optimismo, sem respostas definitivas mas com uma mensagem de esperança.

quarta-feira, novembro 04, 2009

Begin Again - A Poem of Hope, by Susan Coolidge



Every day is a fresh beginning,
Every day is the world made new;
You who are weary of sorrow and sinning,
Here is a beautiful hope for you-
A hope for me and a hope for you.

All the past things are past and over,
The tasks are done and the tears are shed;
Yesterday’s errors let yesterday cover;
Yesterday’s wounds, which smarted and bled,
Are healed with the healing which night has shed.

Yesterday now is a part of forever,
Bound up in a sheaf, which God holds tight;
With glad days, and sad days and bad days which never
Shall visit us more with their bloom and their blight,
Their fullness of sunshine or sorrowful night.
Let them go, since we cannot relieve them,
Cannot undo and cannot atone;
God in His mercy, receive, forgive them;
Only the new days are our own,
Today is ours, and today alone.

Here are the skies all burnished brightly,
Here is the spent earth all reborn,
Here are the tired limbs springing lightly
To face the sun and to share the morn,
In the chrism of dew and the cool of dawn.

Every day is a fresh beginning;
Listen, my soul, to the glad refrain,
And, spite of old sorrow and older sinning,
And puzzles forecasted and possible pain
Take heart with the day, and begin again.

domingo, novembro 01, 2009

Prague Tales, de Jan Neruda

Mais uma excelente descoberta literária das minhas viagens! Nunca tinha ouvido falar de Jan Neruda antes de ir a Praga, e descobri que não só dá o nome a uma das ruas mais turísticas da cidade (onde morou) como é a origem do pseudónimo literário de Pablo Neruda.

Não tinha à partida grandes expectativas, mas o livro é delicioso e conquistou-me completamente; não imaginava que houvesse contos tão bons antes de Maupassant ou de Chekov. Muito bem escrito, com um óptimo sentido de humor, personagens muito humanas e reais, e uma capacidade de mestre de recriar o ambiente do "Little Quarter", pitoresco e humano. Estou muito satisfeito com estas aquisições livrescas checas!

(A casa dos Dois Sóis foi onde ele morou na rua que agora se chama Nerudova.)



terça-feira, outubro 27, 2009

Requiem por uma vítima obscura



Não é ela na fotografia, mas podia ser, já que é uma sua irmã, fotografada mais ou menos com a idade que ela teria qando morreu. Que eu saiba, não deixou nenhuma fotografia - naquele tempo, no Portugal rural, as pessoas eram raramente fotografadas. Era a mais velha de três irmãs, de uma aldeia das Beiras, de uma família rural remediada; casou aos 27 anos com um homem 15 anos mais velho de uma aldeia próxima e de uma família mais opulenta que dizem que a adorava, teve três filhos, dos quais viu morrer o segundo com menos de um ano, e morreu com 34 anos. Falo da minha bisavó, uma das inúmeras vítimas europeias da pandemia de gripe de 1918, a "pneumónica", como sempre se lhe referiram na minha família. Não foi uma das vítimas célebres, como Apollinaire, Schiele, Souza-Cardoso, ou mesmo a vidente de Fátima Jacinta, mas uma das muitas anónimas; no entanto, a sua morte influenciou de forma fundamental a posterior evolução da minha família. Suponho que todas as famílias terão algum morto nessa pandemia. Faz hoje 91 anos que morreu, em 27 de Outubro de 1918, e apeteceu-me recordá-la, talvez por causa de todo o alarido que se tem feito à volta da pandemia de 2009, cuja mortalidade e impacto seguramente nada terão a ver com a da pneumónica.

sábado, outubro 24, 2009

Nostalgia pelo optimismo...



Este parágrafo, que retirei da biografia de Keynes de Robert Skidelsky, resume de forma excelente as causas do meu fascínio por esta época, uma espécie de idade de ouro em que tudo parecia possível:

Leonard Woolf, returning from seven years in Ceylon, strongly felt the exhilaration of life in 1911, when it seemed as if the world was on the brink of becoming civilised. It was a wonderfully sunny summer. In politics it looked 'as if militarism, imperialism, and antisemitism were on th run'. The revolution of te motor car and aeroplane had started; Freud, Rutherford and Einstein had begun their work. 'Equally exciting things were happening in the arts. On the stage the hattering impact of Ibsen was still belatedly powerful and we felt that Ibsen had a worthy successor in Shaw as a revolutionary... In painting we were in the middle of the revolution of Cézanne, Matisse, and Picasso... And to crown all, night after night we flocked to Covent Garden, entranced by a new art, a revelation to us benighted British, the Russian ballet in the great days of Diaghilev and Nijinsky.' Bloomsbury felt no premonition of disaster, only a joyful sense of awakening after the long Victorian night.

Infelizmente, esta verdadeira "bolha" de esperança rebentou irremdiavelmente com a 1ª Guerra Mundial, e os horrores do século que se lhe seguiram - as ditaduras, a 2ª Guerra Mundial, o medo do nuclear, etc. Conseguiremos alguma vez recuperar aquele optimismo? Duvido muito...

domingo, outubro 18, 2009

I Served the King of England, de Bohumil Hrabal

Depois da óptima eperiência com os livros suecos, resolvi fazer o mesmo em Praga, e escolhi uma amostra de livros de autores checos (em inglês, claro) numa das muitas boas livrarias da cidade. Até agora só conhecia Kafka (que aliás escrevia em alemão) e Kundera. Comecei por I Serve the King of England, de Bohumil Hrabal, e só espero que os próximos tenham a mesma qualidade. Gostei muito deste livro: escrito na primeira pessoa, as memórias fictícias de um criado de hotel aspirante a milionário passadas no período dos anos 30 aos anos 50, consegue mostrar, através da perspectiva de um homem de uma ingenuidade a tocar a tolice, a forma como aquele período histórico fundamental foi vivido pelos Checos. Todas as referências que entretanto vi sobre Bohumil Hrabal enfatizam a dificuldade da sua tradução, por ser tão enraizadamente checo na escrita e no humor. E de facto, sente-se ao longo de todo o livro um espírito muito especial, de um humor picaresco e irreverente, de um carácter resistente, acomodatício e casmurro, a que estive especialmente atento depois de ter visitado Praga e lido o divertido Xenophobe Guide to the Czechs (esta série é um delícia!). Tão diferente do espírito sério e nostálgico dos autores escandinavos!

O livro é muito bom, divertido de ler, inteligente e ajuda sem dúvida a compreender a Chéquia (à falta de melhor termo para a República Checa, este está a tornar-se aceite) através da viagem de auto-descoberta do narrador. E tem cenas verdadeiramente hilariantes, como a parte do campo de detenção dos milionários sob o comunismo.

(A foto é do Hotel Paris, onde se passa parte da acção. É óptimo reconhecer e visualizar os sítios dos romances!)

domingo, outubro 11, 2009

Viagem a Praga



Estive cinco dias em Praga, que me souberam magnificamente. Há muito tempo que tencionava lá ir, todos os meus amigos e conhecidos que a conheciam lhe teciam sempre rasgados elogios, de modo que fui com alguma expectativa. Que não foi frustrada, apesar de de uma forma um pouco diferente do que imaginava. Mas não é esse - a surpresa - um dos prazeres de viajar?



A cidade é de facto muito bonita, o centro histórico é magnífico, repleto de edifícios belíssimos de diferentes estilos arquitectónicos e com uma disposição que pouco mudou desde a Idade Média / Renascimento, ao contrário da maioria das outras grandes cidades europeias. É esse arranjo arquitectural, combinado com a beleza dos edifícios, que constitui o maior encanto de Praga - ruas cheias de curvas e contra-curvas, pátios, arcadas, recantos; a cada passo depara-se com uma perspectiva diferente de fachadas, janelas góticas, tabuletas renascentistas, espirais de igrejas, etc.



Houve dois aspectos que me desiludiram, provavelmente devido às expectativas alimentadas pelos relatos dos amigos. Um foi a atitude pouco amigável ou mesmo francamente antipática da maioria dos checos - sempre com ar enfadado, indolente e nada prestáveis. Claro que encontrámos muitos simpáticos e amigáveis, mas em geral, diria que são 80/20 de antipáticos/simpáticos. O segundo aspecto foi a multidão de turistas; já sabia que Praga era agora um destino turístico muito popular, mas não imaginava quanto, sobretudo tendo em conta que fui em Outubro. Acho que só vi mais turistas por metro quadrado em Veneza! Talvez por isso, aquele famoso ambiente de nostalgia, magia, mistério, que é tão associado a Praga no nosso imaginário, não existe de todo (ao contrário de Veneza, onde tive a surpresa contrária - apesar das multidões de turistas, a cidade mantém um ambiente único e mágico). Mas talvez indo no Inverno seja diferente.



Last but not least, houve o componente "de férias", lúdico, de estar longe do quotidiano e em boa companhia, e o prazer de estar com o meu amigo companheiro de viagem que nos últimos meses raramente via foi um grande contributo para o bem estar. Como é agradável conversar, comer fiambre fumado e salsichas grelhadas, beber Urquell (a melhor cerveja checa que provei), subir a torres (mesmo com vertigens...), tirar montes de fotografias, discutir as particularidades locais, falar de tolices ou simplesmente aboborar nas esplanadas... Foi uma injecção de boa disposição, e fico já com apetite para a próxima.

quinta-feira, outubro 08, 2009

Portraits and Observations - The Essays of Truman Capote

Truman Capote escrevia muito bem, tinha um sentido de humor acerado e satírico, e este livro reúne os seus ensaios, que o mostram no seu melhor e no seu pior. O melhor, por exemplo, The Muses are Heard, uma reportagem deliciosa sobre uma tournée de Porgy and Bess na Rússia em 1955, ou Handcarved Coffins, uma história negra sobre crimes em série. O pior, como o texto sobre um cruzeiro no Mediterrâneo, em que se limita a enumerar os seus "amigos" ricos e famosos, e outros textos em que o que se destaca é o seu snobismo e auto-indulgência - como anedotas repetidas e atribuídas a diferentes pessoas ou a ele próprio. No conjunto, um livro interessante e agradável de ler, como a maioria da prosa de Capote; no entanto não se consegue levá-lo tão a sério como ele gostaria e pretendia.

Autárquicas em Oeiras

As sondagens sobre as eleições autárquicas em Oeiras prevêem uma confortável vitória de Isaltino, apesar de ter sido condenado a 7 anos de prisão - o que por este tipo de crimes é bastante raro no nosso país, o que significa que as provas contra ele eram esmagadoras. Infelizmente, isto não me surpreende, e acho que estes resulatdos se devem a duas razões:

1) A ideia generalizada e enraizada na nossa população de que os políticos são corruptos por definição - logo, todos roubam, portanto mais vale eleger os que "fazem", já que qualquer outro seria igualmente ladrão.

2) O facto de a nossa população não considerar este tipo de crimes moralmente condenável - a maioria das pessoas acha perfeitamente normal que os políticos (ou qualquer outras pessoas) "aproveitem" as oportunidades e enriqueçam pelo suborno e a fuga aos impostos; no fundo sentem inveja e gostariam de poder fazer o mesmo. Enriquecer pelo trabalho honesto é tão trabalhoso...

Portanto, não me admira o sucesso eleitoral de pessoas como Isaltino, Valentim Loureiro ou Fátima Felgueiras. Representam o que os portugueses admiram e invejam: os chicos-espertos que vencem na vida sem grande esforço e escapando à legalidade/autoridade, que é vista como uma espécie de pai severo que sabe bem enganar.

Infelizmente para mim, não partilho dessas opiniões. Não acho que um político seja necessariamente corrupto, se muitos são isso não é desculpa, e deveriam ser punidos precisamente para desencorajar outros de o serem. E tenho a careta convicção de que a honestidade é uma virtude e que devemos ser éticos e cooperar de forma limpa - pagando impostos, sendo competenetes, etc - para construirmos uma sociedade civilizada e melhor. Azar meu, pois lá terei novamente um presidente da câmara que obviamente não partilha destas ideias tão aborrecidas...

quarta-feira, setembro 16, 2009

Setembro, e a rentrée



Setembro e a rentrée é uma época sempre algo stressante... O trânsito aumenta brutalmente, e o ano lectivo recomeça, com todas as ansiedades que isso me provoca - será que desta vez o Abdallah vai às aulas? E a Crazy Kitty decidirá equipar-se para as aulas de Educação Física? Quantos telefonemas, e-mails e notificações não vou receber das escolas este ano? Apesar de tudo, por enquanto tudo parece correr sobre rodas, o Verão correu notavelmente bem, a disposição dos infantes para a retoma escolar parece ser a melhor - o Abdallah pronto 20 minutos antes da hora, lavado e pequeno-almoçado, cadernos e livros etiquetados, etc. Enfim, quiçá ter suportado muitos dos problemas das maluquices adolescentes antes do tempo me poupe nos próximos meses... A verdade é que não consigo deixar de gostar dos meus torrõezinhos de açúcar, por muito doidos que sejam. Como dizia o outro, alea jacta est! Agora é ver como as coisas evoluem.

segunda-feira, setembro 14, 2009

Growth of the Soil, de Knut Hamsun

Terminei a minha série de livros escandinavos com um autor norueguês, a respeito do qual sentia bastante curiosidade. Foi um autor muito influente no princípio do século XX, e ainda este ano tinha encontrado referências à sua importância literária nos livros de Canetti e de Amos Oz, e tornou-se depois um escritor "maldito" pelo apoio que deu ao nazismo. Para quem gosta de explorar os escritores como eu, torna-se muitas vezes difícil separar o autor da sua obra, mas há imensos casos de livros excelentes escritos por pessoas que seguramente não gostaria de ter conhecido e cujas opiniões e vidas não aprovo. Neste caso, gostei bastante do livro, um épico sobre a colonização dos espaços selvagens da Noruega, um hino ao trabalho e à vida rurais e aos camponeses, tratados como uma espécie de heróis mitológicos do nosso tempo. As personagens são muito reais, embora o autor revele uma certa misoginia - as mulheres são sempre apresentadas como mais calculistas e mesquinhas e menos "puras" que os homens. A história flui suave e firmemente, como a sucessão das estações, dos trabalhos agrícolas e da vida familiar. Fez-me lembrar alguns livros que li há muitos anos, como O Don Tranquilo ou Terra Bendita. Está muito bem escrito, transmitindo uma grande ternura e admiração pela beleza da vida rural e da relação daqueles pioneiros com a natureza que desbravam e respeitam. E acho que visualizei melhor o romance depois de ter passado pelo norte da Noruega e visto as pequenas casas de madeira pintadas de encarnado contra as montanhas, como na fotografia da capa do livro.

domingo, agosto 30, 2009

Inglourious Basterds, de Quentin Tarantino



Um filme muito divertido, não o melhor que vi de Tarantino, mas mesmo assim uma delícia para ver, sobretudo nos tempos que vão correndo, em que poucos filmes interessantes têm aparecido. O enredo rocambolesco faz lembrar a banda desenhada de Cuto ou de Blake e Mortimer, e transmite um prazer do género dos filmes de Indiana Jones nos anos 80, cuja ingenuidade é neste caso substituídapor um espírito satírico e violento - mais adaptado aos anos 00... Esteticamente é magnífico, as cenas são muito bem filmadas, e as interpretações estão óptimas, destacando-se o magnífico trabalho de Christoph Waltz no vilão nazi, que domina completamente o filme, e sendo o pior o de Brad Pitt, cujo overacting sulista resulta pouco convincente. Quentin Tarantino continua com um inegável talento de pegar nos ingredientes dos filmes B e trash e transformá-los em arte; acho apenas que por vezes se alonga demasiado em certas cenas, forçando demasiado algumas notas - uma certa auto-indulgência que também se nota em Death Proof e que beneficiaria de um editing mais exigente. Mas n conjunto é um óptimo filme.

quarta-feira, agosto 26, 2009

Corfu, de Robert Dessaix

Gostei deste livro, que acho interessante em vários aspectos. Para começar, é uma leitura agradável e o enredo é engraçado, no género comédia romântica. Mas o que me tocou foram dois aspectos - primeiro, o tema da vida como viagem, tão bem ilustrado pelo poema de Cavafis Ítaca, e da procura da amizade perfeita; segundo, a experiência dos locais como incluindo as memórias das outras pessoas que os visitaram e do que lemos e sonhámos sobre eles.

Com efeito, quando visitamos um local, experimentamo-lo no contexto do nosso imaginário - tal como a Corfu de Dessaix é permeada pela presença dos Durrells e de Sissi, também a "minha" Paris é habitada pelo grupo de Sartre, pelas ersonagens de Zola ou mesmo pelas de Dumas, tal como Londres pelos Bloomsburyites ou Nova Iorque pelas personagens dos filmes de Woody Allen. O nosso imaginário histórico, literário, cinematográfico, musical, etc etc, enriquece e influencia imenso a forma como experimentamos e vivemos os locais que visitamos.

Quanto à vida como uma viagem, muitos livros, desde a Odisseia, tratam esse tema, e este não diz propriamente nada de novo. Mas o autor escreve com sensibilidade e inteligência, discorre sobre as peças de Tchékov de forma inteligente e que dá vontade de as ver de novo (e como lamento nunca ter visto O Tio Vânia!), cita os poemas de Safo e de Cavafis a propósito e faz-nos senti-los, e as suas evocações da procura da amizade perfeita tocam-me particularmente, pois foi sempre um dos objectivos / sonhos da minha vida. É sempre bom ler passagens como esta: "... veio-me à mente uma frase de Emerson, à minha mente seca como o pó, analítica, uma expressão que me fascinara quando a lera pela primeira vez: "inimigos magníficos". Segundo Emerson, era o que os amigos (no sentido de seres que enriquecem a nossa vida) deviam ser uns para os outros. De repente a expressão fazia algum sentido, um sentido um tanto bizarro: o amigo como invasor a quem admiramos, a quem desejamos (pois a capitulação é doce), mas a quem resistimos, a quem afastamos continuamente. Era tão menos sentimentalista, muito mais dinâmico do que "almas gémeas", "amigos íntimos" e todas as outras palavras que eu tentara escolher entretanto." Ou: "Acho que vou falar de um "amigo especial", suponho que é o que quer dizer uma "alma gémea", aquele género de amigo que Montaigne amou há quatrocentos anos (o seu nome era La Boétie), alguém que foi por ele amado pela única razão de "ele ser ele e eu ser eu"."

sexta-feira, agosto 21, 2009

Quiet Summer days



Dias algo estranhos, estes últimos. Em parte entorpecido pelo calor, a quantidade de trabalho e a solidão doméstica - pouco habituado a viver sozinho, não sei lidar muito bm com isso, fico sempre algo melancólico, embora desta vez até me tenha sabido bem. Pouco tempo para ler, e vontade de voltar a ler mais não-ficção. Alguns rasgos de insight que me entristeceram mas me apaziguaram. E reencontrei uma pessoa no Facebook com quem perdera o contacto há décadas, o que foi bom, mas também me despertou alguma sensação de estranheza - o que sou eu sem os últimos 30 anos? É quase como se me revisse numa vida diferente.

De qualquer forma, no conjunto sinto-me bem. Apaziguado e morno, mas é uma melhoria. Será que vou acabar por me converter a um conceito de felicidade como contentment, tiédeur? Muitas vezes tenho pensado que talvez fosse melhor, mas não quadra com o meu carácter... Como dizia uma personagem interpretada por Fanny Ardant em La Vie Est un Roman (filme que marcou um dia crucial da minha vida, embora na altura eu não me apercebesse, e de que só essa cena me ficou): "J'aime le feu, le glace, pas cette constante tiédeur que vous voulez pour nous." (a frase pode não ter sido esta, mas a ideia era)

quinta-feira, agosto 20, 2009

The Dwarf, de Pär Lagerkvist

Um outro autor sueco, que eu desconhecia ter ganho o prémio Nobel até o ter descoberto em Estocolmo. Um livro estranho e inquietante, passado numa corte italiana imaginária do Renascimento, onde o Príncipe poderia ser Ludovico Sforza, a cidade Milão, a princesa Beatriz d'Este, mestre Bernardo Leonardo da Vinci. Ou não, uma vez que o que se transmite é uma espécie de ensaio sobre a inveja, o desejo e a frustração de um ser que se defende da inferioridade por uma pseudo-misantropia que esconde e disfarça (mal) uma ânsia meio ingénua meio implacável de ser como os outros, de compreender e pertencer ao género humano. Pelo menos essa é a impressão que me fica deste livro, escrito com uma crueza forte numa linguagem aparentemente de conto de fadas. Muito bom.

sábado, agosto 08, 2009

A doação de sangue dos homossexuais



Nos últimos dias houve muitos post na "blogosfera" e no Facebook sobre esta questão, a propósito de uma entrevista do director do Instituto de Sangue: é ou não um discriminação considerar que ser homosseual é uma contra-indicação a ser doador de sangue? O argumento principal a favor dacontra-indicação é qe dar sangue não é em si um direito, mas sim receber sangue "seguro". O que é verdade, decerto. Mas eu concordo que o estabelecer que "ser homossexual" em si é uma contra-indicação está errado e é uma forma de discriminação que deveria desaparecer. É óbvio que é fundamental assegurar o mais possível que o sangue administrado está live de doenças transmissíveis, e concordo que se recusem os dadores com comportamentos de risco. Mas mesmo admitindo que s homossexuais - ou os "men who have sex with men" na teminologia anglo-saxónica politicamente correcta actualmente utilizada - tenham maior frequência de comportamentos de risco, isso não é obrigatório. E quanto a mim, a razão principal para eliminar essa fraseologia é precisamente a de que conduz a um reforço da ideia-feita de que homossexualidade = promiscuidade e a uma visão negativa dos homossexuais, que forçosamente contrbui para a homofobia que já
é tão prevalente na nossa sociedade e que penso ser fundamental eliminar. Mesmo que a selecção dos dadores continue da mesma forma - ou seja, que os homens que têm sexo com homens contnuem a ser recusados caso a caso porque os responsáveis pela selecção não os considerem suficientemente seguros - não deveser assumido que são recusados por "serem homossexuais". Mesmo porque os inquéritos são muito pouc fiáveis, pois as pessoas - homo ou heterossexuais - podem sempre mentir sobre os seus hábitos. E quando se diz que é "só" um questão de palavras, está a ser-se hipócrita, porque as palavras são muito importantes.

Quanto à tão badalada entrevista, é um manancial de disparates que só podem desacreditar quem os profere. Olim tem o direito às suas opiniões, mas pelo que diz estas são completamente homofóbicas e disparatadas, e é por isso que subscrevi a causa do facebook pedindo a sua demissão. Só pela pérola dos homens violados já merecia!

Enfim, as questões de linguagem são importantes,e tudo o que contribua para o fim da homofobia e a aceitação da homossexualidade como algo perfeitamente natural parece-me fundamental. Queremos ou não ser civilizados? E a verdadeira civilização passa pela implementação da felicidade das pessoas.