
E que fica no fim de tudo? Um bom filme, visualmente muito belo (paisagens, actores e actrizes, cenas em que a postura estáctica e artística das personagens no cenário aliada à lentidão do ritmo evoca tableaux vivants), uma história clássica e convencional - o amor contrariado / impossível, semelhante a dezenas de outras histórias de outros filmes, em que o que separava os amantes era a fortuna, a classe social, a raça. O ritmo deliberadamente lento da narrativa reflecte a melancolia da história e a forma convencional em que é contada, que provavelmente é intencional para exprimir mais claramente a normalidade da história como conto de amor impossível (já que por exemplo em Ride With the Devil, um filme muito bom com uma perspectiva pouco vulgar da Guerra da Secessão, Ang Lee era bem mais subtil e sombrio na sua narrativa). Em termos emocionais, fica o travo de melancolia que associo sempre ao desperdício, à felicidade e oportunidades perdidas devido a preconceitos.
Os actores estão excelentes, sobretudo Heath Ledger, e conseguem criar um clima de erotismo entre os dois. Acredito que muita gente se sinta desconfortável ao ver o filme, porque ainda é raro sermos confrontados com manifestações de afecto e sexualidade entre homens e a falta de familiaridade gera desconforto e desconfiança, sobretudo alimentada por séculos de preconceito de origem judaico-cristã. Gostava muito que toda esta questão nem sequer se pusesse... Mas não vivemos no planeta Zorg.

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