terça-feira, janeiro 30, 2007

Vermeer, a propósito de Girl With a Pearl Earring


Li recentemente o livrinho de Tracy Chevalier Girl With a Pearl Earring; já tinha visto o filme há cerca de 2 anos. É uma história engraçada, a partir de uma boa ideia e bem desenvolvida. O filme é bastante superior ao livro, em parte porque a escrita é estilisticamente pobre, e mais ainda porque o desenrolar da história está intimamente ligado com os quadros, desde a preparação das cores à sua finalização, de modo que é extremamente visual, pelo que o cinema a transmite melhor do que a escrita. Aliás, o filme é muito bonito, com uma bela fotografia, uma recriação dos quadros de Vermeer esteticamente perfeita e uma Scarlett Johansson magnífica no seu melhor papel.

Mas a principal qualidade, tanto do filme como do livro, é fazerem-me rever as obras de Vermeer. Foi sempre um dos meus pintores preferidos, com as suas cenas tranquilas retratando o quotidiano da burguesia dos Países Baixos no seu século de ouro, em cores puras banhadas numa luz suave e de uma serenidade muito bela. Não há a paixão sombria de Rembrandt, nem o excesso barroco e voluptuoso de Rubens ou o espírito festivo de Hals, mas imagens quase fotográficas das pessoas médias, nem deuses mitológicos nem santos cristãos nem reis e rainhas; apenas burgueses abastados, uma classe relativamente nova e que teve em Vermeer o pintor perfeito para a retratar de forma simultaneamente verdadeira e lisonjeira, em actividades simples e dignas como a tocar música, a ler uma carta, a beber em sociedade ou a arranjar-se ao espelho.

Só lamento nunca ter tido oportunidade de ver estes quadros ao vivo, o que me faz sonhar com uma viagem à Holanda.

domingo, janeiro 28, 2007

O Processo, ou justiça à portuguesa



Tenho evitado escrever sobre o tão badalado caso Esmeralda tal como evitei por algum tempo manifestar-me sobre o referendo à despenalização do aborto – porque me irrita a maneira como as questões hoje em dia são discutidas nos media. Seja qual for o assunto – da despenalização do aborto aos voos da CIA, do caso Casa Pia ao livro de Carolina Salgado, das buscas na redacção de um jornal à adopção por homossexuais – as coisas funcionam invariavelmente da mesma forma: é como se um seixo caísse numa poça, provocando regulares e previsíveis ondas concêntricas (na forma de declarações, artigos de informação nem sempre muito informativa, colunas de opinião, trocas de galhardetes, debates televisivos, opiniões do Professor Martelo..., em que cada um ocupa um lugar bem determinado e diz exactamente aquilo que se espera dele, como numa peça de teatro inúmeras vezes representada em que os papéis parecem já mais representados por hábito do que por convicção), cuja intensidade se vai esbatendo até se desvanecer a agitação e ficar tudo como antes. É tudo tão previsível, e tão estereotipado, faz-nos sempre lembrar como vivemos num país de opereta.

Mas, tal como no caso do referendo, em que a indignação contra a hipocrisia levou a melhor sobre a minha contenção, também neste caso da menina entre famílias me apetece dar a minha opinião, porque se trata de assunto que me toca particularmente, pois também eu já passei pelos retorcidos labirintos das adopções.

E mais uma vez, o que ressalta deste caso é muito menos a “razão” de uma parte ou da outra do que a ineficácia e injustiça do nosso sistema judicial e a impunidade total dos juízes, que se comportam como se fossem uma casta à parte com poderes de direito divino (como tal, indiscutíveis). Porque, quer se favoreça o pai biológico ou a família que quer adoptar, é inaceitável que um processo de que depende a vida de uma criança pequena demore anos. E depois há os habituais elementos bizarros tão característicos da nossa “justiça”, neste caso aplicados ao capítulo particular que respeita crianças / adopções / família.

Em primeiro lugar, é o descrédito generalizado de que o sistema goza junto das pessoas que leva a que um casal que deseja adoptar recorra a “portas travessas” para o fazer. Com efeito, este casal não obteve a criança por vias oficiais, mas directamente da mãe, com uma declaração desta “cozinhada” por eles em que renunciava a quaisquer direitos sobre a filha e permitia a sua adopção por eles, e só depois tentou oficializar a situação. O problema começa logo aqui – desde que a lei obriga a que seja investigada a paternidade de qualquer criança registada sem nome de pai (tendo desaparecido a figura do pai incógnito) por se considerar ter um pai um direito fundamental da criança, esta criança nunca poderia ser adoptada por ninguém enquanto a questão da sua filiação não estivesse resolvida, já que o pai teria um direito à tutela igual ao da mãe e poderia querer exercê-lo (como aconteceu). O casal errou aqui – por ingenuidade apenas? por chico-espertice à portuguesa? provavelmente por uma combinação das duas.

Depois, é o tempo infindável para resolver qualquer coisa – as notificações, as análises e, por fime pior que o resto, as decisões. Como sempre, enfeitadas, acrescentadas e compostas por muitos recursos e trecursos, considerações e protestos, com processos que somam centenas de páginas por qualquer questiúncula. O que levou a que uma questão que surgiu quando a criança ainda não tinha 2 anos se tenha arrastado até estar com quase 6. O que obviamente altera completamente a situação – até os ferozes defensores de que um embrião conta o mesmo que uma criança de 2 anos reconhecerão que os laços familiares criados em 6 anos são mais fortes do que os estabelecidos até aos 2.

Quanto a pormenores, tão característicos do nosso sistema, cito apenas um exemplo, tirado de um jornal no sábado 27 de Janeiro: um casal foi condenado por maus tratos a um bebé de Viseu que deu entrada no hospital aos 50 dias de idade “em coma, com fracturas do crânio, hemorragias intra-cranianas e da retina e lesões do ânus” a 10 e 4 anos de prisão (o pai e a mãe, respectivamente). Comparem-se as penas com os 6 anos de prisão aplicados ao sargento que tenta adoptar a Esmeralda, e que foi preso preventivamente em vésperas do Natal.

Segue-se o queda do seixo na poça e os círculos ondulatórios do costume, com os vários corifeus sacando apressadamente da sua máscara (fixa e imutável, como no teatro grego) para não perderem a oportunidade de cumprir o seu papel.

Por fim, a única vantagem de todo este triste caso é chamar a atenção para o péssimo funcionamento do sistema judicial, para a inimputabilidade dos juízes (tanto mais chocante quanto maior a sua falta de senso, que não é rara) e para o predomínio (quanto a mim injusto e indevido) que a nossa lei confere aos laços biológicos, que levam à manutenção de tantos casos de maus tratos sobre crianças que por vezes terminam com a morte destas.

Já agora, dou a minha opinião pessoal sobre este caso concreto: não simpatizo com nenhuma das partes (apenas com a criança, coitada, que não tem culpa do que lhe acontece) – os candidatos a pais que quiseram contornar com chico-espertice a legalidade, à maneira dos construtores de habitações clandestinas, e depois persistiram nas suas manobras utilizando para engonhar a situação a mesma chicana processual que agora criticam e de que se reclamam as vítimas; o pai biológico que não o queria ser e que assumiu uma postura de arrependido / convertido; a mãe biológica que renunciou acertadamente a uma criança que não podia criar mas que agora não resistiu à oportunidade de ter o seu momentozinho de celebridade e aproveitar para um ajuste de contas; os juízes insensatos e pomposos que vivem aplicadamente noutro planeta. Todos juntos criaram uma bela embrulhada. Penso que o caso devia ter sido decidido há 4 anos, provavelmente a favor do pai biológico caso assegurassem a capacidade deste para exercer a tutela e para desencorajar as adopções à margem do sistema; agora penso que deveria ser decidido a favor da família de facto (a adoptante) a bem da criança, com direitos ao pai biológico semelhantes aos que tem qualquer outro pai com filhos cuja tutela é concedida ao outro cônjuge.

Como todos estes casos – a Esmeralda, o referendo, o Apito, a Casa Pia, o Sistema Nacional de Saúde a saque, o caos do ensino – me entristecem e me desanimam quanto a viver em Portugal...

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Hipocrisias

Como me enfurecem as pessoas hipócritas que defendem o não no próximo referendo sobre o aborto, escudando-se em pretensos humanismos e defesas da vida, e ao mesmo tempo afirmam serem contra o julgamento e a punição das mulheres que abortam! Então por que raio votam não? Se é precisamente essa a questão? Porque por mais evasivas e tergiversações com que essas pessoas enfeitem os seus discursos, com argumentos imbecis como "não há mulheres presas por aborto" e outros que tais, é isso que se pretende mudar - a lei que permite julgar e condenar a pena de prisão as mulheres que abortam. Não as julgam? Não as prendem? Mas podem fazê-lo, e em princípio devem. Portanto, se essas virtuosas pessoas discordam da lei, votem sim, ou então não digam que discordam. Porque nada as impede de depois propor outras leis, as tais para estabelecer regras e limites para as comparticipações, etc, mas não é isso que está em causa agora, apesar do que dizem, com a sua pretensa sensibilidade e previdência. Não há pachorra!!

Janeiro



Sempre gostei especialmente do mês de Janeiro. Gosto do frio claro e limpo das manhãs de sol de Inverno, com a sua luz transparente ou meio neblinosa; daquele frio intenso que faz a face contrair-se e deixa os dedos entorpecidos, mas enrijece e nos faz sentir mais vivos. Lisboa é particularmente bonita nessas manhãs. E por pouco que se ligue às mudanças do calendário, é o início de um novo ano, o que associado ao clima revigorante faz a vida parecer mais leve e mais fácil e que muito (já não consigo pensar "tudo") ainda é possível.

terça-feira, janeiro 23, 2007

Marley & Eu, de John Grogan

Este Natal, uma amiga que estava ao corrente da minha aquisição de um novo cãozinho em curso ofereceu-me o livro Marley & Eu, de John Grogan. É um livro engraçado, especialmente apelativo para quem gosta de cães, e foi um presente muito apropriado. Uma história bem contada, divertida, por vezes comovedora, nomeadamente nas partes inicial e final, quando Marley é cachorrinho e quando está a morrer. Tendo perdido o meu velho cão há poucos meses e com um novo cachorrinho em casa há 1 semana, obviamente revi as minhas experiências e sentimentos. Conviver com um cão é uma delícia, o seu instinto de matilha é canalizado para nós em forma de uma torrente de amor e dedicação incondicionais que são o melhor antidepressivo do mundo. E perdê-lo é profundamente triste, como perder um amigo, simultaneamente parte da família, de nós.

Aconselho a leitura a todos os que acreditam que os animais de estimação são um conributo fundamental para o nosso bem estar e felcidade e enriquecem a nossa vida - e de forma simples e ecológica!

domingo, janeiro 21, 2007

How weird are you?

You Are 50% Weird
Normal enough to know that you're weird...But too damn weird to do anything about it!

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Guerra e Paz, de Lev Tolstói, relido


Não me lembro exactamente de quando li pela primeira vez Guerra e Paz, provavelmente por volta dos 17 - 18 anos, mas lembro-me de que gostei na altura mas pensei no final: "é só isto?". Esta relativa decepção deveu-se a dois factores: primeiro, tinha lido Ana Karenina aos 14 anos e tinha sido um verdadeiro amor à primeira vista, e depois a aura de fama que rodeia Guerra e paz é tão grande que suponho que esperava algum tipo de revelação ou deleitamento que não aconteceu (já quando li um pouco mais tarde Em Busca do Tempo Perdido, outro livro envolto numa aura mítica, as minhas expectativas foram fantasticamente excedidas). Recentemente, a propósito da nova tradução e da minha reaproximação à literatura russa desde a descoberta de Dostoievski, reli-o.

Desta vez, fui surpreendido no sentido oposto. Quase a cada página, dei por mim a pensar: "mas isto é tão bom! Como foi possível não ter percebido antes?". Li os quatro volumes a uma velocidade inesperada, tendo em conta que os horários da vida profissional dificilmente se conciliam com a leitura de livros muito longos, que têm de ser mesmo bons para se conseguir embarcar neles sem desvios, longas pausas ou mesmo desistências.

De facto, Guerra e Paz é mesmo uma obra-prima, amplamente merecedor de toda a fama que tem. Tolstoi mostra uma extraordinária capacidade de conciliar uma visão de conjunto inteligente e lúcida com uma minúcia e perspicácia na descrição (criação, uma vez que se trata de ficção) de sentimentos, situações, atitudes, que tornam as suas personagens, cenas e diálogos extremamente credíveis e reais - do género que nos faz pensar com surpresa e deleite "mas é mesmo assim!".

Um aspecto que admiro imenso em Tolstói é o seu conceito das causas dos acontecimentos históricos, a forma como ele analisa com lucidez e sensibilidade a complexa rede de causas e efeitos e a dependência das teorias do ponto do observador e do distanciamento no tempo, numa altura em que não se conheciam os conceitos de relatividade ou de efeito de borboleta nem as teorias do caos. A sua análise lógica leva-o a duas conclusões possíveis - a da falta de sentido de tudo, ou seja, a de que tudo é como é porque a sequência lógica dos acontecimentos desde sempre o determinou, ou a de que existe um sentido que está tão para além do nosso conhecimento que não fazemos a mínima ideia dele. Isto leva obviamente à noção da existência de um deus cujos desígnios desconhecemos, e é possível que ele acreditasse nisso, mas mais uma prova da sua honestidade intelectual é que nunca o afirma (o que de resto seria perfeitamente razoável num homem do século XIX), limitando-se a apresentar os seus raciocínios e a deixar a conclusão ao leitor - no meu caso, obviamente, opto pela primeira.

Para terminar, e já que tenho também falado dela, deixo a palavra a Virginia Woolf:

"Life dominates Tolstoy as the soul dominates Dostoevsky. There is always at the centre of all the brilliant and flashing petals of the flower this scorpion, 'Why live?' There is always at the centre of the book some Olenin, or Pierre, or Levin who gathers into himself all experience, turns the world round between his fingers, and never ceases to ask, even as he enjoys it, what is the meaning of it, and what should be our aims." (in The Common Reader)

Ou seja, no fundo, mais uma forma da eterna pergunta: o que fazemos nós aqui?

quinta-feira, janeiro 18, 2007

O meu voto no referendo

Tal como os partidos de direita, acho absurdo que se referende a despenalização do aborto. Só que pelos motivos contrários - em primeiro lugar, discordo que a questão seja referendada, o governo (dito socialista, e com maioria absoluta no Parlamento!) devia simplesmente legislar sobre o assunto. Para piorar as coisas, o primeiro-ministro ainda decidiu que o resultado do referendo será vinculativo, mesmo que a participação seja inferior a 50%, o que além de abrir um péssimo e perigoso precedente é um disparate completo - obviamente, se as pessoas não votarem significa que não se interessam particularmente pela questão, o que é mais um motivo para ser decidida no Parlamento. Em segundo lugar, acho completamente anacrónico que áinda se esteja a debater a questão da despenalização do aborto, ou seja, se as mulheres devem ser julgadas e presas por abortar. Isto é tanto mais absurdo quanto significa equiparar o aborto voluntário a um assassínio, o que automaticamente obrigaria a considerar um assassínio um aborto realizado segundo a lei actual (porque se abortar é assassinar, é evidente que as situações actualmente autorizadas não o deveriam ser, porque o produto de uma concepção por violação ou portador de deficiência vale tanto, em si, como outro qualquer), o que é um paradoxo.


E haverá alguém no seu juízo perfeito que ache sinceramente que uma mulher utilize o aborto como meio anticoncepcional de escolha? Já deixando de lado os problemas morais (que são convenientemente ignorados pelos opositores da despenalização, que devem considerar que as mulheres - essas potenciais abortadeiras / assassinas, com a provável excepção de extremosas mães como Maria José Nogueira Pinto - não têm consciência e se lançarão alegremente no caminho do aborto / assassínio para não terem o incómodo de tomar a pílula), será que pensam de facto que alguém escolhe sofrer um processo doloroso e traumatizante e não isento de riscos como opção preferencial?


Enfim, toda esta argumentação anti-despenalização se reveste de uma tal hipocrisia e tartufice que causa náuseas. E sobretudo interrogo-me - mas porque é que estas personalidades fazem isto? Como se conseguirão sentir bem consigo próprias defendendo publicamente o sofrimento, o recurso ao aborto clandestino ou no estrangeiro, esgrimindo argumentos absurdos ou nojentos (os cartazes que proliferam pelas ruas são particularmente desonestos), para quê? Racionalemente,a cho impossível que essas pessoas acreditem no que dizem ou se julguem de facto defensoras da vida de inocentes bebézinhos, e acho incrível como a desonestidade intelectual - e moral - e a ambição da manipulação / rodriguinho políticos pode chegar a este ponto.


Para finalizar, e para o caso de não ter sido claro, gostava que despachássemos de vez este assunto constrangedor (o debate, não o aborto voluntário, que é um recurso desagradável e deprimente, mas por vezes necessário, sendo obsceno estar ainda a culpabilizar as pessoas que já estão em sofrimento), e por isso espero que muita gente faça como eu e vote pela despenalização do aborto.

(E isto não tem a ver com a questão da despenalização, mas lembrei-me porque era um dos assuntos abordados na entrevista de Zita Seabra que li há dias num jornal que encontrei na sala de espera de um consultório. Mas aquela mulher existe mesmo?? Foi sempre uma caricatura - primeiro da estupidez e casmurrice comunistas, depois da vira-casaquice despudorada, agora de quê? Do capitalismo selvagem neocon? Até a sua fealdade disforme é caricatural. Há pessoas mesmo inacreditáveis! Esta devia estar num freak show.)

The Letters of Vita Sackville-West and Virginia Woolf

Como grande admirador de Virginia Woolf, comprei gulosamente esta selecção de cartas, editadas por Louise DeSalvo e Mitchell Leaska, dois estudiosos da escritora e cujo prefácio é interessante e elucidativo, embora demasiado longo. Mas depois o livro não correspondeu às minhas expectativas, principalmente porque contém muito poucas cartas de Virginia Woolf, sendo a esmagadora maioria de Vita Sackville-West. Ou seja, tenho de caçar mais cartas de Virginia Woolf! Apesar disso, gostei, são mais elementos para conhecer uma escritora e uma época que me interessa muito e, mesmo que uma parte significativa do livro trate de encontros e desencontros, o que em si é pouco interessante embora ilustre de forma verdadeira como são as relações humanas, só as partes sobre o nascimento de Orlando ou a discussão a propósito de Three Guineas (que eu imperdoavelmente ainda não li!) valeriam a pena. Tal como muitas outras passagens, sobre vários assuntos - a amizade, as paixões, a escrita, os amigos e conhecidos, a época, a vida familiar - tratados de forma coloquial, perspicaz e afectuosa ou irónica e mordaz.

Para variar, dou a palavra a Vita, sobre a escrita: "...I think about my novel, and a sort of patch-work counterpane is beggining to form, but so far the patches are only laid side by side and I have not yet begun to stitch at them. Is it better to be extremely ambitious, or rather modest? Probably the latter is safer; but I hate safety, and would rather fail gloriously than dingily succeed. Anyhow I don't care for what is 'better', for however many resolutions one makes, one's pen, like water, always finds its own level, and one can't write in any way other than one's own."

(Era o último livro que me restava da "colheita" da CityLights de San Francisco... O que vale é a Amazon.com e muitas outras livrarias online!)


quarta-feira, janeiro 17, 2007

Aumento de família

Finalmente fui buscar o meu tão desejado cachorrinho. Desde a morte do meu velho amigo épagneul que sentia imensa vontade de voltar a ter um cão, um vazio por preencher como acho que só as pessoas que já tiveram um cão compreendem. Até dos passeios matinais e nocturnos sentia saudades.


Nos últimos anos, a minha intenção de sempre de voltar a ter um cão se perdesse o meu sofreu várias oscilações. A causa foi sempre a mesma - os entraves crescentes postos por uma sociedade cada vez mais asséptica e insensata, preocupada com o acessório em detrimento do essencial, e que dificultam a vida aos donos de cães. Não podem estar nos relvados, não podem estar na praia, querem açaimá-los nos transportes, etc, etc. Cultiva-se a noção saloia de que os cães são "porcaria" porque andam com as patas no chão e defecam e urinam - que horror! Como se as pessoas que o dizem não fizessem o mesmo, esquecendo-se que a solução é lidar com isso de forma higiénica e cívica e não suprimir os cães - a velha história de deitar fora o bebé com a água suja do banho. Esquecem-se de toda a felicidade e qualidade de vida que nos trazem, dos inúmeros estudos que demonstram as vantagens de saúde física e mental de ter um cão (como outros animais de estimação) ou para as crianças de crescerem com um. Mas todos estes apóstolos da pseudo-higiene, da pseudo-saúde, da pseudo-segurança, podem ser terrivelmente maçadores no dia-a-dia, e eu muitas vezes não me sentia com vontade de os enfrentar diariamente, e pensava que o melhor mesmo seria não voltar a ter cão.


E quando finalmente a questão se pôs, foi adiada sumariamente até ao próximo Verão, em parte pelo desgosto e luto pelo meu velho amigo, em parte por diversos problemas que me têm mantido ocupado, no mau sentido. Por vezes, os amigos e familiares opinavam sobre o assunto, predominando a corrente do "não te metas nisso, arranjar mais trabalho além dos que já tens?", mas os que melhor me conhecem encorajavam-me, fosse pela ideia de que "ao menos terias alguém em casa a portar-se bem!" ou simplesmente por acharem que me faria mais feliz devido "às boas vibrações". Até que de repente a saudade da sensação do companheirismo, do afecto incondicional, dos passeios partilhados, impôs-se de tal forma que mandei as dúvidas às urtigas e em poucos dias procurei e descobri este pequeno perdigueiro que era então um bebé de mama e que desde há poucos dias está comigo.


Não estou mesmo nada arrependido! É como se bastasse olhá-lo para sentir o coração mais leve, tocar o seu pelo macio e quente e recolher automaticamente os espinhos eriçados ao longo do dia. Neste momento escrevo com um focinho confiantemente adormecido apoiado no meu braço, e esse simples contacto é apaziguador e reconfortante.


Quem, mas quem, resistiria a este cachorrinho?

quarta-feira, janeiro 10, 2007

20,13, de Joaquim Leitão

Gostei de 20,13. Não é um filme do Grande Manoel (felizmente!); é uma história bem contada, bem filmada, interessante, um filme de guerra mais sobre as pessoas apanhadas numa situação de tensão do que sobre a guerra em si. O argumento é bom (apenas a parte dos cacifos está um pouco forçada e pouco clara), as personagens bem construídas e bem defendidas (até o Júlio César está suportável), a época bem recriada. Nunca tinha visto nada de Joaquim Leitão, mas fiquei bem impressionado. Penso que é disto que o cinema português precisa. E Marco d'Almeida, que eu nunca tinha visto trabalhar, e que é possível que ande desperdiçado (mas a ganhar a vida, que também é preciso) por essas inenarráveis novelas televisivas, está excelente, um bom duro que nada fica a dever a tantos outros do cinema americano.


terça-feira, janeiro 09, 2007

Críticas e críticos


Este post vem a propósito da atribuição de estrelas / bolas pelos críticos de cinema nos jornais. Tinha eu visto Babel recentemente, e gostado bastante, quando, ao ler o jornal no fim-de-semana, me surpreendi ao ver que os críticos do mesmo tinham sido unânimes na avaliação: 1 bolinha ou 1 bola preta (o pior da escala)! Fiquei um bocado perplexo; habitualmente não ligo às "notas" dos críticos, e se os leio com alguma regularidade, ao fim de algum tempo são-me úteis, não por seguir as suas opiniões, mas porque lendo o que eles acharam consigo ter uma ideia razoavelmente precisa se vou gostar ou não (o que não significa que concorde com eles; há muitos louvores que me fazem logo perceber que detestaria o filme).


Mas neste caso fiquei surpreendido; ao fim e ao cabo, Babel parecera-me um filme bastante consensual, com muita coisa de que gostar mesmo que não se apreciassem alguns aspectos. Seria eu que estava a ser saloio? Ora ninguém gosta de ser saloio, muito menos quem tem algumas pretensões de inteligência e bom gosto! (Culpado!)


Revi mentalmente os defeitos do filme. Sim, todo o episódio japonês é um bocado fraco, o recurso a uma surda-muda para ilustrar dificuldade de comunicação um bocado óbvio demais. Sim, há muita political correctness - o guia marroquino tão íntegro e bonzinho, a nanny mexicana tão boazinha, a festa mexicana tão feliz e tão pura, os turistas americanos e franceses tão egoístas - e eu até detesto a political correctness. Sim, alguns planos, como os da discoteca em Tóquio, são fracos. Por vezes o ritmo do filme é um bocado lento. E provavelmente se me esforçasse encontraria mais uma meia dúzia de defeitos (ou mais).


Mas, UMA mísera bolinha? Bola preta? O pior possível? Não haverá um ligeiro exagero? Um desejo de ser tão inteligente, tão cool? Certamente são admiradores dos filmes do Grande Manoel! (O Mestre - e aqui curvemo-nos todos reverentemente) Bolas, Babel está longe de ser dos melhores filmes que vi, enferma dos defeitos que referi - mas amplamente compensados pela capacidade de transmitir emoção, de perturbar, o que a political correctness pura nunca faz, pois só consegue ser irritantemente didáctica -, tem inegável mérito artístico (bem filmado, bem interpretado) - é um bom filme! Por acaso, recentemente dera com uma outra manifestação desta característica de irritante pedantismo crítico: uma crónica do Pedro Mexia referia-se a uma lista do Observer de 50 filmes do tipo lista-de-filmes-a-ver-antes-de-morrer, quase totalmente constituída por filmes mais ou menos obscuros, que continha inclusivamente títulos como Tin Cup! (uma xaropada com Kevin Costner) Traduzindo: "ai que inteligentes e cultos nós somos, que vamos desenterrar estes filmes com um mérito estupendo que só nós percebemos!" Ou seja - a velha estratégia de turvar as águas para parecerem profundas, tão querida a mestres (inegavelmente mestres nessa estratégia) como o Grande Manoel, João César Monteiro, Godard e tantos outros...


Para terminar - eu gostei de Babel, e já que os outros classificam, aqui vai a minha nota:



sexta-feira, janeiro 05, 2007

A Rainha, de Stephen Frears


The Queen é um filme interessante e engraçado. O que mais se destaca é obviamente a fantástica interpretação de Helen Mirren, que está perfeita. Também as escolhas para os intérpretes do príncipe Filipe e de Blair estão excelentes. De resto, é uma boa reflexão sobre um estranho período de histeria colectiva, as reacções institucionais às mudanças do mundo e o papel da monarquia britânica actualmente. Os diálogos são inteligentes e bem humorados, com vários pontos hilariantes - como as intervenções da rainha-mãe e várias de Filipe, ou os encontros de Blair com a rainha. Não sei se já há nomeações para os oscares, mas Helen Mirren parece-me desde já uma candidata difícil de bater.

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Babel, de Alejandro González Iñarritú



Tal como 21 Grams, também Babel é construído por três narrativas relacionadas, embora neste filme seja fácil perceber quais as relações entre as partes. O tema principal de Babel é a dificuldade de comunicação paradoxalmente crescente num mundo cada vez mais globalizado - mostrada sobretudo no episódio em Marrocos, que tem uma das sequências mais bem conseguidas do filme, quando o autocarro de turistas entra na aldeia do guia e cada habitante vulgar, cada cena do quotidiano, é percebida como uma ameaça latente, em que os turistas parecem uns marcianos completamente estranhos ao mundo em que estão.

Os outros dois temas, o efeito de borboleta (ou seja, os efeitos calamitosos longínquos de uma acção insignificante, assim chamado pelo exemplo hipotético de um bater de asas de uma borboleta em Pequim poder causar um ciclone na América) e a solidão na sociedade hipertecnológica, são ilustrados principalmente pelo episódio americano e pelo japonês, respectivamente. As consequências inesperadas e imprevisíveis de actos casuais são aliás um tema fulcral já em 21 Grams, como de resto em inúmeras obras (livros, filmes) que reflectem sobre a estranheza de vida, as causalidades, o que é e o que poderia ter sido.


Emocionalmente, os episódios americano e marroquino são os mais fortes e os mais tensos, de uma violência latente que nos mantém presos à cadeira à espera da cena seguinte. Não é um filme optimista, mas é extremamente adequado ao mundo em que vivemos.


As interpretações são excelentes na sua sobriedade, sobretudo a da ama mexicana, e a realização das cenas em Marrocos e no deserto californiano magnífica. Fiquei com vontade de ver Amores Perros.

sábado, dezembro 30, 2006

Assiduidades controladas



Não tencionava escrever sobre este assunto, mas posts como este (de médicos, ainda por cima) fizeram-me mudar de ideias. Vem isto a propósito de mais uma medida zelosa do nosso governo que, como a maior parte das que tem tomado, se destinam a desacreditar os profissionais de uma determinada classe e a ter impacto mediático - do tipo "nós vamos pôr isto na ordem" - e, como todas as outras, são suficientes para deixar as pessoas descontentes mas não para resolver o que quer que seja.

Pessoalmente, não tenho dúvidas de que sou frontalmente contra a medida de controlo da assiduidade dos médicos nos hospitais com relógios de ponto, sejam mecânicos, electrónicos ou digitais. Acho que se trata de uma medida claramente destinada a humilhar e a complicar a vida das pessoas, sem qualquer vantagem.

Com efeito, quem ganha com este controlo? Os doentes? A produtividade? Não, servem apenas para reforçar a ideia de que os médicos são uns malandros de uns privilegiados, que querem é sair tarde da cama e safar-se para a privada, deixando os pobres utentes à espera horas a fio por consultas e parasitando o dinheiro dos impostos nada fazendo nos hospitais onde lhes pagam.

É claro que há médicos pouco produtivos, atrasados e mandriões. Como em todas as profissões. Mas não será certamente por picarem o ponto que se tornarão melhores. Por outro lado, o descontentamento será generalizado, e o que é certo é que as pessoas trabalham pior se estiverem descontentes e desmotivadas, o que é o que este governo - na linha aliás dos anteriores - tem trabalhado arduamente para conseguir.

Eu não chego às 8 ao hospital, que é a minha hora oficial de entrada. Porque não é necessário. E saio muitas vezes antes da hora oficial de saída, outras vezes depois, conforme o trabalho que tenho. Em alguns serviços, a pontualidade é importante, como nos blocos operatórios, nos turnos de urgência, nos exames complementares ou consultas marcados. E nesses serviços as pessoas são geralmente pontuais, porque é necessário. Porque ao contrário da ideia que o governo gosta de propalar, e que estas medidas acentuam, os cirurgiões querem operar e não o fazem porque têm pouco tempo de bloco, as pessoas entram a horas nas urgências porque também gostam de ser rendidas a horas, e em geral os médicos gostam do que fazem e são pessoas responsáveis - o curso de Medicina, os internatos, os exames, passa-se por tudo isso porque se tem vontade, não porque é um emprego confortável onde se ganha muito dinheiro.

Ou seja, o que eu quero dizer é que o nosso trabalho não é uma tarefa burocrática com horas marcadas; quando estas existem, a organização da estrutura (hospital, centro de saúde) é o que é necessário para esses horários serem cumpridos. Quando não são, é geralmente por má organização - exames ou consultas marcados em excesso para o tempo disponível, ou para horas em que as pessoas estão obrigatoriamente a acabar outras coisas, ou má coordenação com secretariados ou resultados de exames complementares.

Mas é sempre mais fácil assumir poses de autoritarismo virtuoso e fazer leis que se sabe antecipadamente que não vão ser cumpridas. Essa é aliás uma característica muito portuguesa - a plétora de leis incumpríveis, que nos coloca a todos no papel de transgressores, dependentes do livre-arbítrio das pessoas com poder para punir as transgressões. E é tão conveniente acirrar a opinião pública contra os médicos, enquanto se corrói o Sistema Nacional de Saúde! Porque o que o governo se esquece de dizer é que está a pressionar os médicos para diminuirem os horários, e não para os aumentarem, para pagar menos. Como de resto já fez com os enfermeiros. Como se esquece de publictar as restrições orçamentais que impedem que se utilizem melhores meios, se contrate o pessoal necessário, nomeadamente para cumprir as reestruturações ordenadas pelo próprio governo, como é o caso do novo plano de urgências.

E depois vêm estes burocratas virtuosos aplaudir estas medidas! Ah, como detesto a mania portuguesa (e não só) da honestidade por decreto! Que só tem paralelo na chico-espertice portuguesa de rodear as regras e não cumprir as ditas leis.

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Diálogos de Vanguarda - a exposição de Amadeo Souza-Cardoso

Gostei imenso da excelente exposição de Amadeo Souza-Cardoso na Gulbenkian. É sem dúvida das melhores exposições que vejo em Portugal em muitos anos - uma boa quantidade de obras, com boa representação de todas as fases do pintor, bem apresentadas, e com o cuidado de as integrar no contexto de obras que o influenciaram e de trabalhos dos seus contemporâneos. Acho sempre muito interessantes estas retrospectivas de um artista - mais ainda quando se trata de alguém que eu aprecie particularmente, como é o caso, pois considero Amadeo Souza-Cardoso dos melhores pintores portugueses de sempre (juntamente com Vieira da Silva e Almada Negreiros), e pertence à época que acho culturalmente das mais interessantes de todos os tempos (o início do Modernismo, a fase revolucionária das primeiras 2 décadas do século XX). Permitem-nos acompanhar a sua evolução, testemunhar as experiências realizadas, particularmente nas várias versões com que um tema é tratado, as suas influências, etc.

O conjunto das obras expostas é soberbo, muito completo. Gosto principalmente das do ano de 1913, quando Amadeo começa a abandonar o desenho mais realista e convencional mas ainda não mergulhou no abstracto da sua última fase, quando as formas se estilizam e decompoem, como vitrais - as minhas telas favoritas são Barcos e Les Cavaliers, que me apaixonaram desde a primeira vez que as vi, já há muitos anos, por alturas da abertura do Centro de Arte Moderna.
Gostei também muito da colecção de desenhos, que não conhecia, e que inclui um magnífico D. Quixote e o moinho, e em geral das figuras de cavalos e galgos, simultaneamente elegantes, fortes e sensuais. As obras de Modigliani expostas são muito belas, sobretudo uma figura de nu em fundo azul e uma cabeça de pedra, que parece uma divindade tutelar poderosa e enigmática. As esculturas de Brancusi, os quadros de Kokoshka, as máscaras africanas, os desenhos de cavalos japoneses, ajudam a compreender a arte e as experiências de Souza-Cardoso. Ver a colecção de livros de arte do pintor lembra-nos que é recente a facilidade de acesso a reproduções fidedignas de arte; naquela época, as fotografias de quadros eram a preto e branco e pouco nítidas; que revelação e experiência fantástica devia ser então a descoberta das obras num museu! Mesmo agora, é diferente ver as obras ou as suas reproduções, mas nada que se compare a esse tempo, em que era necessário ir ao Louvre para descobrir Rubens, a Florença para Botticelli, a Paris e Nova Iorque para os impresionistas, etc... Assim se compreende o impacto que tiveram acontecimentos como as exposições pós-impressionistas em Londres organizadas por Roger Fry, ou os ballets russes de Diaghilev (aliás, também evocados nesta exposição, com os desenhos de figurinos).

O principal defeito da exposição, a meu ver, é a iluminação - pareceu-me em muitas partes mal iluminada, gostaria de ver os quadros inundados de luz e não numa penumbra algo soturna... Mas no geral acho que a exposição está muito boa, e não resisti a comprar o catálogo, que por sinal é caríssimo, mas enfim, não é todos os dias que há uma retrospectiva desta qualidade de Amadeo de Souza-Cardoso.


Nota: como é habitual, vagueando pela net a propósito deste tema, dei com este blog - http://pinturaportuguesa.blogs.sapo.pt/ - que tem uma selecção notável de obras de pintura portuguesa, como o nome indica. Vale a pena ver.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Where the Sidewalk Ends, de Otto Preminger


Vi este filme ontem à noite na Cinemateca. Um belo film noir, com Dana Andrews e Gene Tierney, escelentes. Há alguns dias, vira Fallen Angel, também de Otto Preminger, menos bom, mas razoável. Saliento que a programação da Cinemateca para Janeiro é óptima, planeio ir lá muitas vezes! Para mais informações, consultar o site www.cinemateca.pt. É bom lembrar que o cinema começou há mais de 100 anos, e que os filmes bons antigos continuam a ser bons.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Durante a batalha de Borodino, segundo Tolstoi, ou o valor das opiniões "entendidas"



"A ordem de disposição citada aqui não era em nada pior, ou era ainda melhor, do que todas as ordens de disposição anteriores de Napoleão com que as batalhas tinham sido ganhas. As pseudo-ordens no decorrer da batalha também não eram piores do que as antigas, mas as mesmas de sempre. Mas esta ordem de disposição e outras ordens parecem piores do que as anteriores porque a batalha de Borodino foi a primeira que Napoleão não ganhou. Todas e quaisquer ordens, por mais perfeitas e inteligentes que fossem, parecem muito fracas quando com elas não foi ganha uma batalha, e cada cientista militar as critica com ar entendido; e as piores ordens parecem muito boas, levando pessoas sérias a escreverem grossos volumes a mostrar os méritos de ordens sem mérito nenhum, quando com elas foi ganha uma batalha."

Lev Tolstoi, in Guerra e Paz

Transcrevo esta passagem porque me parece uma descrição perfeita sobre as avaliações a posteriori, que é aplicável a praticamente todos os acontecimentos históricos (da História e de histórias). Aliás, Tolstoi faz observações semelhantes ao longo do livro em outras passagens. Estou a reler Guerra e Paz, que tinha lido há muitos anos, e estou a gostar imenso, muito mais do que da primeira vez. De facto, há muitos livros que são muito mais bem compreendidos e apreciados com um pouco mais de maturidade... E este merece amplamente a fama que tem. Quanto a esta passagem durante a extensa parte dedicada à batalha de Borodino (que toda ela é uma descrição excelente de como eram confusas e complicadas as batalhas nos tempos anteriores à facilidade de comunicações que hoje nos parece tão óbvia), é muito apropriada para nos fazer repensar a validade de tantas apreciações feitas com ar entendido sobre os mais variados acontecimentos...

terça-feira, dezembro 19, 2006

Modas na linguagem


As modas vêm e vão, na linguagem como nos chapéus ou no formato das calças ou no corte de cabelo. Mas há algumas tão irritantes...

Uma expressão que entrou na linguagem corrente nos últimos tempos é o irritante "Peço desculpa", em vez do "Desculpe", tão mais simples e menos servil. Acho que o acrescentar "peço" deve pretender enfatizar a expressão de arrependimento, o que torna a frase ridícula, uma vez que na esmagadora maioria dos casos em que é utilizada aplica-se a prosaicas situações do género de pisar o pé num ajuntamento ou de passar à frente numa porta. Ou será uma tentativa de reproduzir em Português a expressão tão british "I beg your pardon"? Acho que não resulta!

Mas a pior de todas é mesmo aquela que se tornou quase universal nos últimos anos: "há xx tempo atrás", porque ainda por cima é gramaticalmente incorrecta. O correcto é "há xx tempo" ou então "xx tempo atrás". Mas o "há xx tempo atrás" alastrou dos locutores de televisão (esse terrível meio de difusão de disparates linguísticos) às novelas portuguesas (idem), aos políticos, aos colunistas nos jornais... Quando, há uns tempos, ouvi o meu próprio pai, habitualmente de linguagem correcta e austera, a utilizá-la pensei: "Pronto! Já não há remédio!".

Também as modas de linguagem gestual surgem sem se saber como e difundem-se imperceptivelmente. Quem raio terá inventado aquele actualmente ubíquo gesto com os 2º e 3º dedos das mãos a significar "entre aspas"?

Pois, bem sei que isto são frivolidades; e então? Não se vive só a pensar nos romancistas russos nem no problema do aborto!

domingo, dezembro 17, 2006

Um passeio a Fronteira


Sempre gostei imenso do Alentejo no Outono, sobretudo num dia de sol. As cores - castanhos e verdes, com o azul ocasional das ribeiras e o branco das casas -, a luz, as oliveiras e os sobreiros espalhados. Que boa forma de passar um sábado outonal, percorrendo as estradas do Alentejo em boa companhia, ouvindo música e conversando! E por fim realizando o objectivo do passeio, e descobrindo um delicioso sucessor para o meu saudoso companheiro de tantos anos. Há dias bons.

terça-feira, dezembro 12, 2006

Estranhos, de Simon Brand


Unknown é um bom thriller, na linha de filmes como The Usual Suspects ou Memento - argumento engenhoso, ambiente de film noir muito bem criado, interpretações sóbrias e sólidas. Greg Kinnear como sempre muito bom, twists credíveis qb. É bom constatar que se continuam a fazer bons filmes negros.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Entre Inimigos, de Martin Scorsese


The Departed é um dos melhores filmes de Martin Scorsese, pelo menos dos últimos 20 anos. Violento, desenrola-se como uma tragédia grega moderna até ao final. O argumento é excelente, as personagens construídas com verosimilhança e suportadas por actores no seu melhor - Jack Nicholson parece melhorar com a idade, Matt Damon, Mark Wahlberg e Martin Sheen óptimos, até Leonardo DiCaprio, com cujas interpretações habitualmente não empatizo grandemente, está convincente - é sem dúvida o seu melhor papel. É bom ver Scorsese voltar em grande forma, depois dos últimos anos, de que apenas vi Gangs of New York e me fez adormecer... Já desanimava, desde The Age of Innocence, que ele voltasse a fazer algo de valor. Mas voltou, e ainda bem.

A Queda, de Oliver Hirshbiegel


Der Untergang é um filme impressionante, não só por si próprio - o tom sóbrio e o ambiente sombrio, as excelentes interpretações - mas sobretudo pelo que evoca, como todas as obras de qualidade que tratam o tema do nazismo. Impõe-se sempre a pergunta: como foi possível? Mas foi, aconteceu. É fundamental nunca ser esquecido, e filmes como este contribuem para isso da melhor forma, apelando à nossa consciência e às nossas emoções.

Não sei se tudo o que aparece é factualmente correcto, já vi referido que há inexactidões, como a falta de disciplina dos guardas durante a vida de Hitler ou as festas no bunker. Mas não custa a acreditar, naquele ambiente surrealista, com o ditador desesperado comandando exércitos inexistentes, Himmler preocupando-se com a melhor maneira de cumprimentar Eisenhower ou Magda Goebbels dirigindo o coro celestial dos seus 6 filhos que já decidira matar para não viverem num mundo sem nacional-socialismo.

Bruno Ganz está excepcional como Hitler, destacando-se num elenco todo ele magnífico.

terça-feira, novembro 28, 2006

The Castle of Otranto, de Horace Walpole


The Castle of Otranto desiludiu-me, esperava melhor daquele que é considerado o primeiro romance gótico, de 1764. Parece-me um dos casos em que um livro fez época mas fica irremediavelmente datado - ao contrário, por exemplo, dos romances góticos de Ann Radclyffe, como O Italiano ou The Mysteries of Udolpho, que ainda hoje se lêem com agrado e conseguem manter um clima de mistério e suspense digno do que foram os antepassados dos romances de mistério / policiais (ou como, décadas depois, o excelente A Mulher de Branco, de Wilkie Collins). Uma das diferenças dos livros de Ann Radclyffe, por exemplo, é que nestes nunca há recurso ao sobrenatural, os mistérios aparentemente inexplicáveis têm sempre uma explicação terrena mais ou menos engenhosa; em Otranto, a utilização do sobrenatural parece-me sinal de falta de imaginação e acaba por ser moralista e empobrecedora.

Mas enfim, é um livro de referência, um marco, e tem a virtude de ser pequeno e nada maçador. A título de curiosidade, Horace Walpole também lançou a moda do revivalismo neogótico na arquitectura com o seu castelo no campo e inventou a palavra serendipity. E mais uma vez louvo a iniciativa do projecto gutenberg (www.gutenberg.org) que nos permite aceder a obras fora de circulação ou difíceis de encontrar.

segunda-feira, novembro 27, 2006

A propósito de Lytton Strachey - The New Biography, de Michael Holroyd


A primeira vez que ouvi falar de Lytton Strachey foi nos Diários de Virginia Woolf. Aliás, foi através destes Diários que se desenvolveram o meu interesse e admiração pelo Grupo de Bloomsbury.
Lembro-me vagamente de ler Virginia Woolf pela primeira vez por volta dos 18 anos, Mrs.Dalloway, de ter gostado mas sem me impressionar especialmente (gostei muito mais quando o reli, anos mais tarde). Só mais tarde, com Rumo ao Farol, seguidos de Orlando, O Quarto de Jacob e As Ondas, e dos Diários, é que me tornei um fervoroso adepto da escrita de Virginia Woolf e, através dela, de Bloomsbury. Por essa altura já conhecia também os romances de E.M. Forster, a que chegara pelos filmes de James Ivory dos finais dos anos 80, e que nem sabia ser conhecido de Virginia Woolf. Mas, ao contrário de Lytton Strachey, Morgan Forster nunca foi uma personagem fulcral do grupo. Ao longo do tempo, os nomes e as vidas de pessoas como Virginia e Leonard Woolf, Vanessa Bell, Duncan Grant, Roger Fry, Lytton Strachey, Clive Bell, Maynard Keynes (de quem ouvira falar nos livros de História), Ralph Partridge e outros foram-se-me tornando familiares, quase como amigos ou velhos conhecidos.
O Bloomsbury Group esteve alternadamente na moda e fora de moda ao longo das décadas, foi meticulosamente escalpelizado (a começar pelos seus próprios elementos) e abundantemente criticado – as críticas mais frequentemente apontadas aos bloomsberries ou bloomsburyites, como são chamados, são as de serem pretensiosos, pedantes, maldizentes, mentirosos ao ponto da mitomania, auto-complacentes, narcisistas, superficiais, frívolos, e em geral inconsequentes.
Certamente, cada um deles tinha muitos defeitos, eram provavelmente vaidosos e algo arrogantes, seguramente mexeriqueiros (como disse Gore Vidal algures, they turned gossip into a form of art), e o valor artístico do que fizeram foi muito variável. Mas para mim, representam uma época que me fascina e que admiro imensamente – o começo do século XX, o aparecimento da modernidade, a ruptura com os valores tradicionais dos séculos anteriores que permitiu o nosso mundo contemporâneo de ideias e valores modernos (não consigo encontrar palavra melhor), no sentido de liberdade de espírito, de independência e tolerância.

Uma passagem do livro de Holroyd (episódio que já lera na biografia de Virginia Woolf de Quentin Bell): “Lytton ‘released Vanessa from guilt and the need to conform’, wrote her biographer Frances Spalding. Her sister Virginia recorded a famous incident the following year when, entering the drawing room at Gordon Square, Lytton pointed his finger at a stain on Vanessa’s dress and inquired ‘Semen?’ Could one really say it, they wondered, ‘& we burst out laughing’. Only those getting to know Lytton well in those days when freedom of mind and expression were almost unknown, Vanessa wrote, ‘can understand what an exciting world of explorations of thought and feeling he seemed to reveal.’”

Os bloomsburyites fizeram parte da geração que criou o mundo moderno – intelectual e moralmente aventureiros, irreverentes, tolerantes, pacifistas, curiosos. Aquilo que na época era tomado como decadência de costumes porque tão aberrantemente diferente da norma estabelecida e que hoje parecem frivolidades para atrair as atenções porque são comportamentos que actualmente já não espantam ninguém, exigiu na altura muita coragem moral. E de certa forma, a intrincada rede de relações de amizades e solidariedades entre eles contribuiu para que tivessem a coragem e a segurança para viver segundo as suas ideias – é de todos os tempos a tendência de grupos com comportamentos / ideias pouco convencionais encontrarem segurança num código de conduta / atitudes partilhadas, que facilmente parecem aos outros tolices arrogantes.

Quanto a Lytton Strachey, era provavelmente muito irritante, teatral, e aquilo que hoje chamaríamos “muito bicha”. Mas escrevia admiravelmente bem, e defendia as suas ideias com uma ironia aparentemente suave mas arrasadora – o seu Eminent Victorians é demolidor, desmascarando completamente os valores vitorianos em toda a sua hipocrisia e influência perniciosa sobre a liberdade de espírito, e no entanto sempre no tom mais perfeitamente culto e educado que se possa imaginar. Aliás, ouvira falar muito deste livro antes de o ler, e já conhecia então a vida de Lytton Strachey em linhas gerais, e fiquei surpreendido em como é bom – imensamente actual (porque a hipocrisia e o tartufismo são eternos, e não exclusivos dos vitorianos – e como tendem por natureza a tomar conta dos moeurs!) e delicioso de ler. E a vida de Lytton, a sua longa relação com Carrington, é mais um exemplo de como as relações e os amores podem ser diferentes, estranhos só na aparência, mas essencialmente individuais, no sentido em que cada um é um caso, precioso para quem está envolvido, e podendo evoluir das mais variadas formas, até onde cada um se deixar ir.

A biografia de Michael Holroyd é minuciosa e compreensiva, e mostra um imenso afecto e admiração pelos seus sujeitos. Lê-se como um romance, interessante, divertido e dramático. Há anos, vi o filme Carrington, de Christopher Hampton, que é baseado neste livro – penso que no geral é uma boa adaptação, com um ambiente bem recriado e personagens bem conseguidas, nomeadamente a Carrington de Emma Thompson e o Lytton de Jonathan Pryce.

Continuo pois um fan de Bloomsbury – próxima incursão, a correspondência entre Virginia Woolf e Vita Sackville-West!

sábado, novembro 25, 2006

A Prairie Home Companion, de Robert Altman


Vi há dias A Prairie Home Companion, por coincidência no dia da morte de Robert Altman. E é de certa forma um filme apropriado para fazer perto da morte – todo repassado de um afecto nostálgico, de uma sensação mista de melancolia, de amor à vida e de gosto pelo que se viveu, ou seja, o tom de uma elegia de quem ama a vida e sente que esta está a terminar. A construção do filme é semelhante à de outros filmes de Altman – numerosas personagens apanhadas num momento crucial, interpretadas por um excelente naipe de actores, histórias cruzadas, diálogos sobrepostos, uma morte pelo meio. Os números musicais estão magníficos, com uma série de jingles hilariantes e Garrison Keillor (o intérprete do animador do programa, que também é o autor do argumento, das letras e da maioria das músicas) actua como uma espécie de fio condutor – penso que ele é na vida real semelhante à personagem, e deve ter sido a inspiração da ideia do filme. Meryl Streep, Lily Tomlin, Woody Harrelson e John C. Reilly estão óptimos como habitualmente, gostei menos da interpretação de Kevin Kline. A personagem de Virginia Madsen lembra um pouco uma personagem semelhante de Jessica Lange num outro filme-prenúncio-de-morte, All That Jazz.

Short Cuts continua a ser o meu filme favorito de Robert Altman, que encontrou então em Raymond Carver o contador de histórias perfeito para o seu tipo de filmes. Mas A Prairie Home Companion é também muito bom, muito melhor que Gosford Park, que achei um bocado falhado.

domingo, novembro 19, 2006

Os Arautos do Paintball, ou o marketing modernizado


Há dias, o meu Abdallah apareceu em casa todo entusiasmado (o que não é raro, pois ele é um optimista incurável) com uma notícia da escola (o que já é mais raro, dado que é um gazeteiro rufião): “Foram lá umas pessoas, e vou inscrever-me no karate e poder fazer paintball de graça!!” Abriu a sempre caótica mochila, e num restolhar de papéis amarrotados, cordéis, tampas de garrafas, paus e outras utilidades várias, lá sacou de uns prospectos: “Só tens de preencher a autorização e a inscrição, é aos fins-de-semana e é grátis!” (Não é que eu seja assim tão avarento, mas como um dos argumentos que eu geralmente lhe avanço quando lhe recuso actividades como karting, paintball, laserfight ou outras de que se lembra é o preço, suponho que ele achava que enfatizando bem o grátis era meio caminho andado para me convencer.)

Sempre céptico quanto às grandes facilidades que o meu Abdallah calvinescamente me apresenta, deu uma vista de olhos pelos prospetos, onde se destacavam belas fotos de miúdos em actividades “radicais” várias; depois vi os cabeçalhos: Arautos do Evangelho, e um logotipo ao canto com um desenho em que figurava, salvo erro, uma Nossa Senhora de Fátima e as chaves de S.Pedro. “Pois, pensei, cá está a explicação de tanta facilidade”. A minha resposta foi curta: “Arautos do Evangelho? Nem pensar. São coisas religiosas, não vês?” E apontei-lhe os símbolos e o pequeno texto explicativo sobre o que eram os Arautos do Evangelho (que ele obviamente não lera); ele ainda insistiu (“Mas não temos de lhes dar dinheiro”, “Mas é paintball!”) mas com pouca convicção, porque ele sabe bem que as minhas posições anti-religião são inabaláveis – foi-lhe incutido desde o berço, ao fim e ao cabo era ele que aos 3 anos apontava para as fotografias do Papa João Paulo II no jornal e dizia que era “um homem muito mau”.

Nunca tinha ouvido falar dos Arautos do Evangelho, mas não é nova esta forma da Igreja tentar aliciar os miúdos para as suas fileiras – suponho que a oferta do paintball grátis nos anos 00 é equivalente à táctica, que hoje nos parece ingénua, de pôr jovens no coro da missa a tocar guitarra e a cantar músicas do Bob Dylan e do Simon & Garfunkel com letras piedosas nos anos 70-80.

OK, a Igreja é livre de utilizar as técnicas de marketing que desejar, e só resulta com quem quiser. O que me irrita é a escola, pública e laica, permitir que o seu espaço e o tempo lectivo sejam utilizados para essa propaganda. Tal como me irritou quando, na primária, ele me apareceu um dia com os impressos para a inscrição na catequese, “para fomentar a boa relação entre a escola e a paróquia”. Sou acérrimo defensor da laicidade da escola pública e da sua separação de qualquer confissão religiosa. E acho muito pior esta utilização da escola pela Igreja para fazer propaganda do que o uso do véu islâmico por alunas (ou, já agora, de crucifixos ou turbantes sikh ou ankhs ou cornos diabólicos). Porque se um aluno acha que esses símbolos fazem parte da sua identidade e são importantes para ele, não acho que daí venha mal ao mundo se os usar, é a sua atitude pessoal, que é tão importante para os outros como usar T-shirt encarnada ou uma corrente no cinto. Por isso sempre achei estéril e contra-producente (porque exacerba as convicções de quem quer usar esses símbolos, porque passam a sentir-se perseguidos, e algo que na maior parte dos casos era um simples adereço cultural passa a assumir uma importância muito maior) esse tipo de proibições. Mas sou frontalmente contra a escola pública, como instituição ser utilizada para difundir proselitismos / propagandas religiosos. Sim, e isso inclui os crucifixos na parede, que não têm o mesmo significado que usados ao pescoço de estudantes.

quinta-feira, novembro 16, 2006

8 1/2, de Federico Fellini


Vi finalmente 8 1/2, de Fellini, que é tão bom como dizem. Um caleidoscópio de cenas magníficas numa bela fotografia a preto e branco, Marcello Mastroianni e Anouk Aimée execelentes. Há muitas referências freudianas, a banda sonora e a sequência de cenas evocando o universo do circo (lembrando um pouco La Strada, mas não triste como este, antes repassado de um optimismo e gosto pela vida entusiasmantes). Até agora, o meu filme favorito de Fellini era La Dolce Vita, mas este não lhe fica nada atrás.

terça-feira, novembro 14, 2006

The Hamlet, de William Faulkner


The Hamlet é o primeiro livro do ciclo de Yoknapatawpha centrado nos Snopes, que aparecem em vários outros livros da série. Os Snopes são os perfeitos representantes do white trash - como ervas daninhas, aparecem e multiplicam-se, tenazes, rasteiros, sonsos, cruéis, quase todos incapazes de passar da miséria, exceptuando o matreiro Flem, que vai devorando implacavelmente o que o rodeia. Como sempre, o livro está excelentemente escrito, faz-nos sentir o universo cruel, estranho e fascinante do Sul de Faulkner, bem mais real e impressionante que as versões cinemascope de Gone With the Wind ou televisivas de North and South.

domingo, novembro 12, 2006

Little Miss Sunshine, de Jonathan Dayton e Valerie Faris


Gostei muito deste filme, talvez o melhor road movie que vejo desde Thelma and Louise. Muito engraçado - muitas vezes hilariante -, inteligente, sensível e afectuoso, sobre a busca da felicidade e de objectivos numa época de confusão e de falta de perspectivas, e os valores a que nos podemos segurar. Sem lamechices nem condescendências, com uma boa dose de humor. As personagens estão bem construídas e as interpretações são excelentes, sobretudo as de Greg Kinnear e Toni Collette. A cena do concurso é arrasadora.

(Não tem nada a ver com o filme, mas as cenas do arranque da carrinha em 3ª fizeram-me lembrar uma viagem que fiz há muitos anos. Planeáramos - a minha namorada, eu e um casal de amigos - uma viagem pelo norte de Espanha. Na véspera da partida, o carro avariou-se: não se conseguia reduzir de 3ª para 2ª. Com a alegre irresponsabilidade da juventude, e já que não havia dinheiro para alugueres de automóveis, partimos na mesma, pensando que se podia perfeitamente conduzir em 3ª. De facto, assim foi, mesmo pelas estradas dos Picos de Europa, onde nos íamos espetando contra um autocarro de turistas ao sairmos de uma curva, a subir, em contra-mão... Mas como diz o ditado, audaces fortuna juvat, e não houve consequências.)

quarta-feira, novembro 08, 2006

Star Wars - a exposição


Fui ver ao Museu da Electricidade a exposição Star Wars. É interessante, embora um bocada cara - 10 euros por pessoa, só não pagam as crianças até aos 7 anos. Além de múltiplos objectos usados nas filmagens - roupas, uniformes, cadeiras, os robots R2D2 e 3CPO, o podracer de Annakin, um caça Naboo, modelos de naves, etc -, tem desenhos de projectos, pequenos documentários sobre a utilização das peças expostas, cenas do filme em que estas aparecem, e um documentário muito bom sobre as filmagens. Enfim, é engraçado para quem conheça bem a série, e uma alegria para as crianças fãs - desde a presença de guardas do Império devidamente uniformizados aos jogos de X-box - como o meu Abdallah, que lá se passeou todo contente armado com a sua espada de laser. Vale também a pena rever o Museu da Electricidade, que é um edifício soberbo, interessante pelo conteúdo e esteticamente belíssimo - um excelente exemplo de recuperação de um edifício industrial, que é raro entre nós.

segunda-feira, novembro 06, 2006

Ainda sobre o Sistema Nacional de Saúde


Este pots já vai um bocado atrasado, mas não queria deixar de assinalar a reportagem da Visão sobre onde os nossos políticos se tratam quando estão doentes. Sem excepção, todos disseram que recorrem ao serviço público quando têm alguma coisa de grave, utilizando o privado para processos minor, como check ups e consultas. Penso que é útil contrastar com a reportagem da semana anterior, sobre onde punham os filhos a estudar, em que a maior parte optava pelo ensino privado. Não é isto dos melhores indicadores da qualidade dos serviços públicos de saúde? Acho que deviam reflectir nisto antes de desmantelarem o Sistema Nacional de Saúde... É que deviam lembrar-se de que as alternativas são muito pouco seguras, e a saúde é um assunto muito sério.

Memórias


Last night I dreamed I was in Manderlay again...

voz de Joan Fontaine na abertura de Rebecca


Fez-me pensar nisto um post que li recentemente num blog, que era uma evocação idílica de cenas de infância. Porque ao ler sobre aquelas cenas de uma infância que também foi a minha, revi as minhas próprias recordações das mesmas, e de outras, e pensei que se eu escrevesse daquela forma terna e nostálgica, de alguma forma sentiria a minha voz soar ligeiremente a falso. Não que não guarde boas recordações da infância, nomeadamente daquelas cenas em casa dos meus avós. Mas não consigo evocá-las sem de imediato lembrar outras partes, aquilo que falta na descrição - os conflitos, as infelicidades, as tempestades permanentes, mesmo aquelas de que só me fui apercebendo mais tarde, mas que ficaram irrevogavelmente inseridas no conjunto. E quando hoje revejo a minha infância, não sou capaz de evocar aquela idílica Arcádia habitualmente associada a essa época das nossas vidas, mas um período longo e algo acidentado em que a sensação dominante que recordo era a de me sentir incompleto. O mundo que me rodeava, nomeadamente e sobretudo (porque constituiam a maior parte dele) as relações familiares, parecia-me opressivo e algo que eu desejava superar; queria crescer e as incertezas do futuro, ou provavelmente da minha capacidade para construir esse futuro, assustavam-me.

Toda a memória é uma reconstrução mental e por isso suponho que temperada pelo nosso carácter e pelo nosso perfil emocional. Talvez por eu ser depressivo / ansioso não consiga evocar o passado da mesma forma romântica e idealizada que outras pessoas. Mas a verdade é que não consegui evitar, ao ler esse post, uma sensação algo condescendente de como tudo aquilo me parecia... simplório (haverá talvez outra palavra melhor para exprimir a ideia. Parochial?) Em todo o caso, acho que não foi mau que Manderlay tenha ardido.