terça-feira, junho 23, 2009

Blackwater, de Kerstin Ekman

Estive em Estocolmo e no arquipélago das Lofoten recentemente. Como gosto de ler, uma das coisas que faço quando vou a um país novo é procurar livros de autores desse país, sobretudo quando conheço poucos, como é o caso da literatura escandinava - conheço Karen Blixen, Hans Christian Andersen e Peter Hoeg da Dinamarca, Selma Lagerlof e Strindberg da Suécia e Ibsen da Noruega. De modo que em Estocolmo, entre os conselhos de um conhecido sueco, de um empregado de livraria (que nunca tinha lido nada de Stieg Larsson, esse produtor de best-sellers suecos de quem eu também nada li, e a minha intuição, comprei uns poucos de livros de autores suecos, dos quais acabei de ler o primeiro - Blackwater, de Kerstin Ekman.

Gostei bastante. Um thriller inteligente e sensível, um ambiente sombrio, passado numa zona do norte da Suécia, no círculo Árctico, o que me tocou mais por ter lá estado, e que me lembrou em certos aspectos o livro Smilla's Sense of Snow, de Peter Hoeg; menos científico, mas com uma percepção da transitoriedade da nossa existência (humana) em relação à Natureza que me diz muito.

Espero apreciar igualmente os outros livros que comprei! (seis ao todo)

domingo, junho 21, 2009

Calor

Estava eu tão bem em Estocolmo, com os seus deliciosos 15ºC (OK, os dias de chuva eram dispensáveis), depois dos já um pouco excessivos 4ºC de mínima no Árctico (mas mesmo assim agradavelmente rvivificantes), e fui catapultado para os horrendos 35ºC de Lisboa... Nunca gostei do calor excessivo, e com a idade tenho-me tornado cada vez mais intolerante - tudo o que ultrapasse os 25ºC é demais para mim. E, apesar dessa maravilhosa invenção que é o ar condicionado - no carro, em casa, nos cafés, lojas e centros comerciais, é insuficiente, porque é preciso sair de casa para nos deslocarmos entre esses sítios... Os minutos até o ar condicionado arrefecer o carro - que deve estar a mais de 40ºC quando se entra - são um inferno. Aqui fica o meu lamento do costume: "Nunca mais acaba o Verão!". Eu devia mesmo era viver na Escandinávia.

O Jogador, de Fiódor Dostoievski

Reli O Jogador, e já não me lembrava que era tão bom. Mais pequeno que a maioria dos livros de Dostoievski, é no entanto igualmente fortíssimo, com descrições apaixonantes do estado de espírito dos jogadores compulsivos (que o próprio Dostoievski também era). A narrativa é como sempre tempestuosa, com momentos de humor e cenas de uma crueldade invulgar, que fazem lembrar o Caldwell da Estrada do Tabaco (um dos livros mais cruéis que me lembro de ter lido).

domingo, maio 24, 2009

A empregada russa


Quando era pequeno, tinha sempr uma empregada interna, era habitual na altura, mesmo em famílias da classe média como a minha. Tivemos muitas, devido ao feitio pouco acomodatício da minha mãe, até pouco antes do 25 d Abril; desde então passámos a ter "mulheres-a-dias", muitas também, e a ideia de ter uma empregada a viver em casa tornou-se remota, uma espécie de resquício de épocas passadas. Quando tive a minha própria casa, quando o orçamento o permitiu, também arranjei uma mulher-a-dias, muito fraca aliás, mas a inércia de procurar outra e uma certa timidez em despedi-la fez-me suportá-la durante longos anos, até que a entropia crescente em minha casa, potenciada pela família aumentada e um cão com tendências de vândalo, me forçou a dar o grande passo - despedi a empregada incometente e, seduzido por histórias ouvidas a colegas de maravilhosas empregadas internas imigrantes de Leste, decidi contratar uma.

Comecei por perguntar a alguns conhecidos e vizinhos com empregadas da Europa Oriental se elas recomendavam alguém, sem resultado. Depois, através de uma colega de trabalho, tive conhecimento de uma organização jesuíta de apoio a refugiados que actuava como uma espécie de agênia de emprego para imigrantes, e contatei-os. Depois de duas africanas pouco prometedoras, entrevistei uma candidata russa que me pareceu adequada - de meia idade, o que era uma vantagem, pois sria mais facilmente respeitada pelos meus turbulentos filhos, em Prtugal há tempo suficiente para falar a língua de forma razoável, e que me pareceu sensata, prática e reservada qb. Chegámos facilmente a acordo sobre o ordenado e outros pormenores práticos, e foi com alguma apreensão que a recebi em casa como habitante permanente.

Raramente devo ter tomado decisão mais acertada. Gosto imenso da minha empregada russa, omo os meus amigos me têm dito, "foi um achado". Rapidamente tomou nas mãos as rédeas do governo da casa, com firmeza e espírito prático, elaborou listas do que precisava e que tenazmente me levou a comprar - nomeadamente a famosa máquina Bimby, que eu sempre soberanamente desdenhara ("Mas em Junio em quero a Bimby"). Algo ígida e reservada a princípio, foi-se rvelando uma mulher afectuosa e debom coração, afeiçoando-se rapidamente às crianças, e pouco depois até ao cão, que inicialmente fora motivo para quase recusar o emprego. Intuitiva e inteligente, debita máximas e conselhos na sua pronúncia russa e português algo macarrónico sobre os mais variados assuntos - "Abdallah precisa ver mundo! Assim vai perceber que tem de estudar para ganhar dinheiro!", "Bimby muito boa; poupa tempo e dinheiro - cozinha do século XXI.", "Russos nada poupados... Gostam muito de beber, todos gordos!", "Amsterdão muito barulho, um horror, vê-se em 20 minutos!", e muitas outras. Tem características divertidas, como uma certa tendência para o exagero ("Cão hoje fez 30 cócós!") e uma paixão por futebol e por compras de "coisas doméstecas"; a sua cozinha é algo pesada e altamente calórica (não admira que "russos sejam todos gorods"...), mas tem-nos feito provar saborosas sopas, almôndegas, bolos e saladas.

Estou mesmo satisfeitíssimo com a minha Avdótia Romanovna. A sua figura maciça e as uas feiçõs nitidamente eslavas ("sou russa russa", respondeu-me quando lhe perguntei de onde vinha na Europa de Leste) lembram-me uma simpática e reconfortante matrioshka, uma mãezinha, como os russos dos romances chamam às mulheres de certa idade. Gosto de a ouvir contar episódios da sua vida na Rússia soviética, e do período das "perturbações", como ela lhe chama - a omnipresença do mercado negro, as viagens a Moscovo para comprar botas, as festas do 1º de Maio e do dia da Revolução de Outubro... - e tenho aprendido muito. Até já tenho vontade de seguir o seu conselho tantas vezes repetido: "Você tem de ir à Rússia, levar Abdallah!".

Sim, estou mesmo contente com a minha Tatiana Alexandrovna, que sinto como já fazendo parte da família, e que completou recentemente um ano de casa.

sábado, maio 23, 2009

Uma História de Amor e Trevas, de Amos Oz

Gostei muito deste livro, uma memória de Amos Oz sobre a sua infância durante o nascimento do estado de Israel. Muito bem escrito, com um olhar nostálgico, afectuoso e lúcido sobre factos e emoções traumáticas - a guerra e o cerco de Jerusalém em 1948, o suicídio da mãe, a frustração crónica do pai, as relações com os palestinianos. Continuo a gostar imenso de ler memórias de pessoas inteligentes e sensíveis, que pela sua narração e reflexão sobre o qe viveram nos ajudam a compreender infinitamente melhor a sua época e civilização - e consequentemente a nossa época e civilização - do que múltiplos artigos jornalísticos ou capítulos de livros de História. Neste caso, os sentimentos e razões de cada lado do conflito israelo-árabe e a sua evolução, e a mentalidade e aspirações de uma geração de judeus, os colonos europeus da primeira metade do século, e o que procuravam no país para si e para os seus - em grande parte, a realização de uma Europa idealizada, livre do anti-semitismo que os oprimia há gerações.

Nunca tinha lido nada de Amos Oz - mais um autor a juntar à interminável lista dos que vale a pena ler!

Efeitos laterais de séries como o ER...



Foi publicado recentemente um estudo numa revista científica (a referência é Resuscitation. 2008;79:490-498), que vi referido na newsletter do Medscape e que achei interessante: trata-se de um inquérito à população sobre qual acham que é a percentagem de sobrevivência após paragem cardíaca e reanimação. E o resultado foi:

The average estimate of predicted survival after cardiac arrest with full return to prior baseline functional status was 54%.

Ora o verdadeiro número é cerca de 10%. Devo dizer que o resultado não me surpreende, é apenas mais um dos muitos conceitos errados, geralmente excessivamente optimistas, que as pessoas têm em relação às potencialidades da Medicina.

O estudo apresentava outros dados interessantes, como a referência a outros dois estudos: em resposta à mesma questão, um universo de alunos do 4º ano de Medicina achava que era 42%, e outro de médicos que não trabalham em urgência respondeu 24%...

A conclusão a tirar é que é urgente aumentar o grau de informação, o que impediria muitas expectativas frustradas e muitas tentativas fúteis de prolongamento da vida, que além de serem imensamente dispendiosas apenas geram sofrimento para os doentes / vítimas e frustração para os profissionais envolvidos.

quinta-feira, maio 07, 2009

The trouble with Tamiflu... e com o exagero dos media a trabalhar para a Roche!



Melhor do que o poderia dizer, deixo o link de uma notícia do Guardian sobre toda esta patetice da gripe suína. Por acaso, o abundante stock de Tamiflu produzido por altura da gripe das aves - essa gripe que provavelmente foi a que menos matou na história documentada das gripes... - estava a terminar o prazo...

Geórgicas, de Virgílio


Mais um clássico, também na tradução de Agostinho da Silva, como a Eneida. Muito belo, e muito interessante, transporta-nos a um tempo em que os homens cultos viviam ainda muito ligados à natureza e à agricultura, antes de toda a tecnologia nos ter dela afastado; ajuda-nos a compreender como era a vida há 2000 anos.

terça-feira, maio 05, 2009

Viagem à Bélgica

Mais uma curta viagem, desta vez a Ghent, Bruges e Bruxelas. Não conhecia a Bélgica (tal como ainda não conheço a Holanda, que ficou para uma próxima vez), e gostei muito; aliás, como viajante optimista que sou, geralmente aprecio sempre os sítios onde vou, uns mais do que outros, é certo, mas tem valido sempre a pena viajar, e só lamento não o poder fazer mais e por mais tempo.

Desta vez, comecei po Ghent, que é uma bela cidade, de belas casas antigas e igrejas góticas à volta dos rios Leie e Scheldt e dos canais que os ligam. Foi o meu primeiro contacto com a Flandres, o tempo estava óptimo, céu azul e temperatura agradável sem estar calor. Fiz a volta de barco pelos canais, almocei carbonades flamandes e a sopa de peixe local (na vedade de frango, e depois de ver os peixesmortos a boiar no Leie fiquei satisfeito pela opção...) na esplanada do restaurante que fica na antiga casa dos condes de Egmont no Graslei, iniciei a degustação das inumeráveis cervejas e dos excelentes chocolates belgas, admirei o políptico de Jan van Eyck A Adoração do Cordeiro Místico na catedral, subi ao Belfort, visitei o castelo dos condes... Como o tempo estava bom, havia imensos grupos de jovens nas margens dos canais e nas praças, a fumar e a beber, como em Espanha. Os flamengos pareceram-me um povo alegre e saudável; as mulheres podiam ter saído dos quadros de Rubens e Brueghel, de formas generosas, pele clara e faces coradas, fáceis de imaginar em tamancos a ordenhar vacas; a língua parecida com o alemão mas mais suave parecia fácil de aprender.




De Ghent fui para Bruges, uma cidade lindíssima, de conto de fadas, como dizem no filme In Bruges, que tinha visto recentemente quando já planeava lá ir. Mais uma vez, tive sorte com o tempo, que continuou excelente e me permitiu passear e apreciar a cidade. E foi de facto um encantamento, é daqueles sítios que para onde quer que se olhe parece estar a ver-se um cartão postal. Fiquei num hotel mesmo atrás da praça principal, o Markt, numa água-furtada com uma vista esplêndida. Nem sequer tive vertigens (uma maldição que me persegue desde a adolescência) ao subir ao Belfort, por uma deliciosa escada de caracol que vai estreitando até ser verdadeiramente exígua - mas que panoramas se têm do cimo! Passeei imenso, entrei em várias igrejas - gostei do altar macabro da Jerusalemkerk e a estátua de Miguel Ângelo da Virgem com o Menino é lindíssima, ainda mais do que a Pietá - e vi a exposição sobre a corte da Borgonha de Carlos o Temerário, que estava no museu - uma excelente mostra do esplendor da Flandres do Renascimento. E a comida sempre deliciosa - moules, gauffres, mais chocolates e mais cervejas.





Em Bruxelas já o tempo foi menos simpático, e tive a tradicional chuva da Bélgica, felizmente com abertas suficientes pra andar a pé sem ser desagrdável. Antes de ir, vários conhecids meus que já lá tinham estado me tinham dito que Bruxelas não tinha graça nenhuma, resumindo-se o interesse à Grand Place e pouco mais. Discordo; pareceu-me uma cidade viva e cosmopolita, com boa qualidade de vida e várias zonas interessantes. A Grand Place é de facto imponente, mas toda a zona central à volta dela e da Bolsa é animada, com muitos cafés e esplanadas (o café nas Halles Saint Géry deixou-me particularmente encantado - que sítio magnífico para ler e estudar!), o bairro à volta dos Sablons é muito bonito, as igrejas góticas de Notre Dame du Sablon e a catedral são belíssimas. O museu tem uma colecção magnífica de primitivos flamengos e muitos Rubens interessantes (embora longe da magnificência da sala Rubens do Louvre), mas fiquei decepcionado por não ter visto os quadros de Magritte - o Museu Magritte abrirá em 2 de Junho...). O Centre Belge de la Bande Dessinée é um sítio onde adoraria ter estado há 30 anos, quando era um fanático adepto da revista Tintin; agora, deixou-me indiferente, e apreciei mais o edifício art nouveau onde fica. Vêem-se muitos imigrantes africanos e muçulmanos, e muitos pedintes pelas ruas, que na sua maioria são belgas, com ar de toxicodependentes, e a limpeza e cheiro das ruas e das estações de metro deixa bastante a desejar - talvez efeito de tanta cerveja... Comi e bebi novamente muito bem, e como bom turista comprei chocolates e uma t-shirt. Last but not least, terminei a visita a Bruxelas com uma idaao Brupark e a sua Mini-Europe, onde foi divertido reconhecer edifícios que já vi ao natural, como a Bolsa de Copenhaga, e fiquei com vontade de ver outros sítios (Portugal está representado pela Torre de Belém, o Oceanário, a Ribeira do Porto e uma aldeia algarvia).


Blue Valentine, de Tom Waits

O video é muito piroso, mas foi o único que encontrei desta música, que é linda, e que me apeteceu partilhar hoje.

sexta-feira, maio 01, 2009

Dois livros de Carlos Ruiz Zafón



Acontece às vezes um livro, por um motivo ou outro, "cair no goto" do público e tornar-se um enorme sucesso de vendas. Aconteceu por exemplo com O Código Da Vinci, recentemente com os livros de vampiros adolescentes de Stephanie Meyers, ou há muito anos com O Nome da Rosa. O ano passado, por alturas do Natal, ouvi pela primeira vez falar de A Sombra do Vento a uma colega, quando procurava um presente de Natal para pessoas que não me dizem muito, algo mais ou menos susceptível de agradar a qualquer pessoa. Sugeriu-me de imediato uma edição deste livro, que vinha com um cd, e teceu-me grandes elogios a seu respeito. En nunca tinha ouvido falar do livro nem do autor, mas segui o conselho e ofereci a dita edição. Nunca mais me lembrara do livro nem do autor até que, meses depois, me ofereceram O Jogo do Anjo, que vinha anunciado como "do mesmo autor de A Sombra do Vento". Como me lembrava de ter visto pouco tempo antes num blog que costumo ler um comentário a este livro, fui relê-lo, e era altamente elogioso. Como uns posts nos remetem a outros, fui percorrendo vários blogs, alguns de pessoas cujas opiniões habitualmente aprecio, e deparei-me com uma série de comentários aos dois livros de Ruiz Zafón, cada um mais elogioso que o anterior, e acabei a pensar: "mas como raio me passou despercebido?".

Foi assim com muita curiosidade que comecei a ler O Jogo do Anjo (e mais uma vez, como costumo andar com os livros atrás de mim or cafés, fiquei surpreendido com a quantidade de pessoas que me diziam como era bom, e que "o primeiro ainda era melhor"). Fiqei desapontado - é um livro sem dúvida agrdável de ler, um thriller gótico com uma história engraçada e algumas boas ideias, mas compersonagens muito simplistas, um desenlace decepcionante e sobretudo excessivamente longo, abundando em descrições e situações bastante repetitivas. Mas como sou curioso e apesar de tudo o livro não era mau, lá me lancei à leitura do "primeiro", que segundo a unânime opinião era melhor.

De Facto, A Sombra do Vento é melhor do que O Jogo do Anjo; mais uma vez, lê-se bem, mas seria muito melhor se tivesse metade do tamanho, e mais uma vez as personagens são pouco credíveis e, talvez por já ter lido o outro, o desenlace é inteiramente previsível, sempre um defeito neste tipo de livros.

Resumindo: Carlos Ruiz Zafón escreve na tradição dos thrillers góticos, que é longa e respeitável, com muitos livros emocionantes e entusiasmantes, desde O Italiano de Ann Radclyffe e O Castelo de Otranto, de Walpole, até O Clube Dumas, de Arturo Pérez Reverte, passando pelos conto de Edgar Allan Poe, A Mulher de Branco, de Wilkie Collins ou outros mais recentes como The Nine. A Sombra do Vento e O Jogo do Anjo lêem-se bem, mas não ultrapassam a mediania, e de facto não percebo o que os tornou tão populares. Numa linha próxima, acho os livros do português João Tordo bem mais interessantes.

domingo, abril 12, 2009

Facebook


Por sugestão de um amigo, criei um perfil no Facebook. Inicialmente tive alguma resistência, pois não me parecia especialmente interessante. Mas lá acabei por aderir, e até tem uma certa graça. Hoje em dia, a internet proporciona múltiplas possibilidades de socialização - os chats, o messenger, os sites de encontros, etc, além da excelente forma de comunicação que é o e-mail, que veio de certa forma fazer reviver a comunicação escrita. Não tenho grande vocação, nem disponibilidade, para socializar online, de modo que duvido que a minha lista de amigos no facebook cresça por aí além. Mas é divertido; por enquanto serve-me sobretudo para fazer quizes mais ou menos tolos e preencher mapas de viagens.

sábado, abril 11, 2009

Postcards from Italy, de Beirut

E como tenho estado a digitalizar as fotos de uma viagem a Roma em 1996, esta música vem mesmo a calhar... Nostálgica e doce.



A Doença como Metáfora e A Sida e as Suas Metáforas, de Susan Sontag

Muito interessantes, estes ensaios de Susan Sontag sobre a doença como metáforas, sobre a forma como as doenças são encaradas e demonizadas. O primeiro, focado na tuberculose e no cancro, é de longe o melhor, o segundo uma extensão ao caso da sida. A autora demonstra como estas doenças, por muito terríveis que possam ser, são apenas isso - doenças. Não são maldições, nem castigos, nem "privilégios" - no sentido de tornarem as pessoas melhores ou " mais interessantes", como se pensava no século XIX em relação à tuberculose e na primeira metade do século XX em relação às doenças mentais. E mostra com lucidez como o impacto devastador que têm sobre a nossa sociedade tem muito mais a ver com a forma como são encaradas e mitificadas do que propriamente com os seus efeitos directos. A comparação da visão da tuberculose no século XIX e com a do cancro no século XX está muito bem apresentada, e o olhar igualmente lúcido sobre a sida, numa altura (1988) em que esta era ainda uma doença intratável (a grande viragem do tratamento anti-retroviral foi em 1996) é elucidativo e de certa forma tranquiilizador - por haver alguém que saiba expor e desmascarar os mitos da doença ( e do medo da doença) tão bem.

Como médico, o assunto interessa-me particularmente, e também me fez relembrar a minha "relação" pessoal com as doenças - como muitas almas livrescas e algo românticas, também eu tinha na juventude uma visão irrealisticamente idealizada das doenças mentais, como algo que tornava as pessoas mais "interessantes" - as neuroses, as psicoses - tomando como exemplo personagens como Sílvia Nogaret de O Príncipe das Trevas de Durrell. Só quando comecei a lidar ao vivo com a doença mental, primeiro nas enfermarias do Hospital Miguel Bomabarda na Faculdade, depois com alguém que me era muito próximo, me apercebi da verdadeira natureza destas doenças - tais como as físicas, doenças, causa de sofrimento terrível, talvez ainda pior porque levando ao desmoronamento da personalidade, da ideia de nós próprios. Como diz a personagem de Settembrini a Hans Castorp, a certa altura de A Montanha Mágica, a doença em nada "enriquece" nem torna "interessante" quem dela sofre. Causam sofrimento, e geralmente provocam uma degradação de quem sofre; não há nada de romântico nas doenças.

Algumas passagens que considero especalmente significativas:

Além do mais, existe uma particular predilecção dos tempos modernos pelas explicações psicológicas da doença, como de tudo o resto. "Psicologizar" dá uma aparência de controlo das experiências e dos acontecimentos (como as doenças graves) sobre os quais as pessoas de facto pouco ou nenhum controlo têm. Tal realidade tem que ter uma explicação. (O seu real significado é; ou é um símbolo de; ou deve ser interpretada como sendo.) [...] Grande parte da popularidade e do poder de persuasão da psicologia vem-lhe do facto de ser um espiritualismo sublimado: um modo secular, ostensivamente científico, de afirmar o primado do "espírito" sobre a matéria.

Nada é mais repressivo do que atribuir um significado a uma doença sendo tal significado invariavelmente moralista.

O meu objectivo era o de aliviar o sofrimento inútil - exactamente como Nietzsche o formulou, numa passagem de Aurora que li recentemente: Reflexões sobre a doença - Tranquilizar a imaginação do enfermo, a fim de que pelo menos não sofra mais com os seus pensamentos sobre a doença do que com a própria doença - eis o que, na minha opinião, já seria alguma coisa! Seria mesmo uma grande coisa!

(A desconfiança em relação à medicina eficaz, científica, por oferecer tratamentos meramente específicos de determinada doença, e muitas vezes tóxicos, é uma suposição errada recorrente entre pessoas que se consideram esclarecidas.) Esta escolha desastrosa coninua a ser feita por pessoas com cancro, uma doença que muitas vezes a cirurgia e os medicamentos podem curar. [...] Mas submeter um corpo emaciado à purificação de uma dieta macrobiótica é tão útil na cura da sida como fazer uma sangria, o tratamento médico "holístico" por excelência na época de Donne.

Um cenário moderno constante: o apocalipse espreita... e nunca acontece. Aparentemente vivemos a um passo de um dos modernos tipos de apocalipse. [...] O apocalipse tornou-se num acontecimento que está e não está a acontecer.


É sempre bom, e instrutivo, lermos as reflexões de pessoas lúcidas e inteligentes.

The Ladykillers, de Joel e Ethan Coen


Ontem vi The Ladykillers, dos irmãos Coen, em video, e fartei-me de rir. É uma comédia negra muito divertida, num tom disparatado e exagerado, mas hilariante. Nunca vi o filme de que este é um remake, e os críticos dizem que é melhor - talvez, portanto, sorte a minha de ter visto este primeiro. Habitualmente não gosto de Tom Hanks, mas aqui está excelente. Soube-me muito bem ver um filme assim, depois de ter adormecido na pretensiosa e sobre-arrebicada "comédia" Duplicity há uma semana.

sexta-feira, abril 10, 2009

As Três Vidas, de João Tordo

Mais um livro de João Tordo, depois de O Livro dos Homens Sem Luz e de Hotel Memória. E é um prazer ver que continua a escrever muito bem, aliás, melhor, pois o seu estilo está a tornar-se mais pessoal e individualizado. Trata-se mais uma vez de uma história muito bem imaginada, de um thriller psicológico que agarra o leitor do princípio ao fim, e se se alonga por vezes um pouco excessivamente nas reflexões depressivas, no conjunto o livro está muito bem conseguido. Dos novos autores portugueses, este continua aparecer-me de longe o mais interessante. Muito bom.

quarta-feira, abril 08, 2009

Crime e Castigo, de Fyodor Dostoievsky

Reli recentemente Crime e Castigo, e foi absolutamente como se o estivesse a ler pela primeira vez. Pergunto-me mesmo onde teria a cabeça quando o li há muitos anos - a resposta é simples, no entanto: num período conturbado da minha vida e mais absorvido em outros assuntos. Mais precisamente, foi num Verão em que andava profundamente infeliz por uma paixão sem esperança, e a estudar Anatomia I, a cadeira mais terrível do 1º ano - e acho que de todo o curso - de Medicina. Durante cerca de um mês li, entre outros de que não me lembro, Crime e Castigo e Fado Alexandrino. O segundo detestei, e o primeiro não me deixou qualquer impressão e esqueci-o quase completamente. Só muitos anos depois me apaixonei por Dostoievsky, ao ler Os Possessos; desde então li vários, sempre com o mesmo entusiasmo, e fui adiando a releitura de Crime e Castigo - talvez com receio de uma decepção - até agora.

E de facto não sei como me pôde deixar indiferente... Falta de maturidade? Não é o melhor de Dostoievsky - gostei mais de Os Possessos, Os Irmãos Karámazov e O Idiota, por exemplo - mas é excelente. Dostoievsky escreve sempre com uma paixão inigualável, as suas personagens são sempre terrivelmente fortes e reais, a sua descrição dos sentimentos, violentos e angustiantes, é sempre poderosa e convincente. O dilema da escolha, da responsabilidade pessoal do Bem e do Mal, e neste caso da culpa e do remorso, é um dos seus temas recorrentes e que expõe sempre como um mestre. Como diz Virginia Woolf em The Common Reader, somos arrastados num turbilhão de emoções tempestuosas (se não diz exactamente isto, é algo do género, num ensaio excelente sobre os romances russos), mas saímos desse turbilhão mais vivos e conscientes, e mais ricos; deixamos a poeira assentar e sentimos que compreendemos melhor o mundo e as pessoas. Decididamente, gosto imenso de Dostoievsky.

domingo, abril 05, 2009

Gran Torino, de Clint Eastwood


Mais um belo filme de Clint Eastwood. Nostálgico e melancólico, mas com momentos de humor, profundamente afectuoso, e transmitindo uma mensagem de esperança para a América, de integração e continuação dos valores que constituiram o core da formação do país, simbolizados na aproximação progressiva do velho reaccionário aos vizinhos hmongs, no seu papel de role model em relação ao adolescente asiático e no legado final do Gran Torino ao jovem. Uma boa história, bem filmada no modo contido habitual a Eastwood, emotivo sem lamechice, e bem interpretada pelo próprio e com destaque para a jovem actriz que faz de Sue. Muito bom.

domingo, março 29, 2009

Nostalgia - a propósito de uma notícia do Guardian

Li há dias uma notícia no Guardian que dizia que David Hockney não terminaria uma série de quatro quadros que estava a pintar sobre as estações do ano, porque as árvores que eram o tema da série tinham sido abatidas. Não sei porquê, mas senti-me solidário com a tristeza do pintor, talvez porque é sempre triste quando algo majestoso e antigo como aquele cnjunto de árvores desaparece, talvez pela beleza dos quadros já pintados e o contratse entre as fotografias do local antes e depois do abate. Ficam as imagens:


O quadro do Verão


O quadro do Inverno


As árvores dos quadros...


...e o local depois do abate.

There is a Light that Never Goes Out, por The Smiths

Mais uma das minhas bandas favoritas, que gosto de ouvir em qualquer circunstância e disposição. Esta é uma das minhas músicas favoritas deles.



Take me out tonight
Where theres music and theres people
And theyre young and alive
Driving in your car
I never never want to go home
Because I havent got one
Anymore

Take me out tonight
Because I want to see people and i
Want to see life
Driving in your car
Oh, please dont drop me home
Because its not my home, its their
Home, and Im welcome no more

And if a double-decker bus
Crashes into us
To die by your side
Is such a heavenly way to die
And if a ten-ton truck
Kills the both of us
To die by your side
Well, the pleasure - the privilege is mine

Take me out tonight
Take me anywhere, I dont care
I dont care, I dont care
And in the darkened underpass
I thought oh god, my chance has come at last
(but then a strange fear gripped me and i
Just couldnt ask)

Take me out tonight
Oh, take me anywhere, I dont care
I dont care, I dont care
Driving in your car
I never never want to go home
Because I havent got one, da ...
Oh, I havent got one

And if a double-decker bus
Crashes into us
To die by your side
Is such a heavenly way to die
And if a ten-ton truck
Kills the both of us
To die by your side
Well, the pleasure - the privilege is mine

Oh, there is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out