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terça-feira, janeiro 09, 2007

Críticas e críticos


Este post vem a propósito da atribuição de estrelas / bolas pelos críticos de cinema nos jornais. Tinha eu visto Babel recentemente, e gostado bastante, quando, ao ler o jornal no fim-de-semana, me surpreendi ao ver que os críticos do mesmo tinham sido unânimes na avaliação: 1 bolinha ou 1 bola preta (o pior da escala)! Fiquei um bocado perplexo; habitualmente não ligo às "notas" dos críticos, e se os leio com alguma regularidade, ao fim de algum tempo são-me úteis, não por seguir as suas opiniões, mas porque lendo o que eles acharam consigo ter uma ideia razoavelmente precisa se vou gostar ou não (o que não significa que concorde com eles; há muitos louvores que me fazem logo perceber que detestaria o filme).


Mas neste caso fiquei surpreendido; ao fim e ao cabo, Babel parecera-me um filme bastante consensual, com muita coisa de que gostar mesmo que não se apreciassem alguns aspectos. Seria eu que estava a ser saloio? Ora ninguém gosta de ser saloio, muito menos quem tem algumas pretensões de inteligência e bom gosto! (Culpado!)


Revi mentalmente os defeitos do filme. Sim, todo o episódio japonês é um bocado fraco, o recurso a uma surda-muda para ilustrar dificuldade de comunicação um bocado óbvio demais. Sim, há muita political correctness - o guia marroquino tão íntegro e bonzinho, a nanny mexicana tão boazinha, a festa mexicana tão feliz e tão pura, os turistas americanos e franceses tão egoístas - e eu até detesto a political correctness. Sim, alguns planos, como os da discoteca em Tóquio, são fracos. Por vezes o ritmo do filme é um bocado lento. E provavelmente se me esforçasse encontraria mais uma meia dúzia de defeitos (ou mais).


Mas, UMA mísera bolinha? Bola preta? O pior possível? Não haverá um ligeiro exagero? Um desejo de ser tão inteligente, tão cool? Certamente são admiradores dos filmes do Grande Manoel! (O Mestre - e aqui curvemo-nos todos reverentemente) Bolas, Babel está longe de ser dos melhores filmes que vi, enferma dos defeitos que referi - mas amplamente compensados pela capacidade de transmitir emoção, de perturbar, o que a political correctness pura nunca faz, pois só consegue ser irritantemente didáctica -, tem inegável mérito artístico (bem filmado, bem interpretado) - é um bom filme! Por acaso, recentemente dera com uma outra manifestação desta característica de irritante pedantismo crítico: uma crónica do Pedro Mexia referia-se a uma lista do Observer de 50 filmes do tipo lista-de-filmes-a-ver-antes-de-morrer, quase totalmente constituída por filmes mais ou menos obscuros, que continha inclusivamente títulos como Tin Cup! (uma xaropada com Kevin Costner) Traduzindo: "ai que inteligentes e cultos nós somos, que vamos desenterrar estes filmes com um mérito estupendo que só nós percebemos!" Ou seja - a velha estratégia de turvar as águas para parecerem profundas, tão querida a mestres (inegavelmente mestres nessa estratégia) como o Grande Manoel, João César Monteiro, Godard e tantos outros...


Para terminar - eu gostei de Babel, e já que os outros classificam, aqui vai a minha nota:



quarta-feira, janeiro 03, 2007

Babel, de Alejandro González Iñarritú



Tal como 21 Grams, também Babel é construído por três narrativas relacionadas, embora neste filme seja fácil perceber quais as relações entre as partes. O tema principal de Babel é a dificuldade de comunicação paradoxalmente crescente num mundo cada vez mais globalizado - mostrada sobretudo no episódio em Marrocos, que tem uma das sequências mais bem conseguidas do filme, quando o autocarro de turistas entra na aldeia do guia e cada habitante vulgar, cada cena do quotidiano, é percebida como uma ameaça latente, em que os turistas parecem uns marcianos completamente estranhos ao mundo em que estão.

Os outros dois temas, o efeito de borboleta (ou seja, os efeitos calamitosos longínquos de uma acção insignificante, assim chamado pelo exemplo hipotético de um bater de asas de uma borboleta em Pequim poder causar um ciclone na América) e a solidão na sociedade hipertecnológica, são ilustrados principalmente pelo episódio americano e pelo japonês, respectivamente. As consequências inesperadas e imprevisíveis de actos casuais são aliás um tema fulcral já em 21 Grams, como de resto em inúmeras obras (livros, filmes) que reflectem sobre a estranheza de vida, as causalidades, o que é e o que poderia ter sido.


Emocionalmente, os episódios americano e marroquino são os mais fortes e os mais tensos, de uma violência latente que nos mantém presos à cadeira à espera da cena seguinte. Não é um filme optimista, mas é extremamente adequado ao mundo em que vivemos.


As interpretações são excelentes na sua sobriedade, sobretudo a da ama mexicana, e a realização das cenas em Marrocos e no deserto californiano magnífica. Fiquei com vontade de ver Amores Perros.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Cartas de Iwo Jima, de Clint Eastwood

Este foi um dos poucos anos em que tinha visto os 5 filmes nomeados para o Oscar de melhor filme do ano antes da cerimónia, e se tivesse voto na matéria teria escolhido Letters from Iwo Jima (em 2º lugar The Departed, em 3º Little Miss Sunshine, em 4º Babel e em 5º The Queen). Letters from Iwo Jima é também o melhor filme de Eastwood, o que não é dizer pouco, tendo em conta a qualidade de filmes como Bird ou Million Dollar Baby.

O filme tem um arranque um bocado lento, agravado pelo facto de ser falado em japonês, o que diminui a "adesão" ao enredo, mas assim que começa o ataque americano ganha um fôlego que não perde até à cena final. É um filme belíssimo, de uma poesia inspirada, sobre o absurdo da guerra e o que há de admirável na natureza humana - Eastwood gosta aliás de a representar com uma grandeza inspirada e poética na derrota que pode ser considerada um tanto idealista / ingénua, mas fá-lo melhor do que ninguém; é belo e edificante, e a arte não tem de ser forçosamente cínica ou realista, mesmo que nós o sejamos. As interpretações são excelentes e a fotografia é muito bela, contribuindo para o tom emocional do filme.

Gostei mesmo muito, e tenciono ver em breve Flags of our Fathers.