quinta-feira, junho 29, 2006

The Squid and the Whale, de Noah Baumbach


Gostei muito de A Lula e a Baleia. É um filme comovente e afectuoso, inteligente e divertido, nada pretencioso e que consegue nunca ser lamechas, o que é sempre louvável em filmes sobre relações familiares. Trata do crescimento, da descoberta dos pais e do mundo, e termina como deve, isto é, sem respostas nem didactismos.

Jeff Daniels está excelente, num registo sério (até agora, os seus melhores papéis eram em The Purple Rose of Cairo e Something Wild), tal como Laura Linney e os miúdos. O filme lembrou-me outro, que aborda os mesmos temas e de que também gostei, A Soldier's Daughter Never Cries. Saí da sala a sentir-me bem.

terça-feira, junho 27, 2006

Easy to Love - Chet Baker Quartet

Como sabe bem relaxar em casa ao som da música suave de Chet Baker. Este é o último cd dele que comprei, há algum tempo - lembro-me que o primeiro que me fez apaixonar pelo som de Chet Baker foi Diane. O termo cool jazz assenta-lhe muito bem...

Tenho tido muito trabalho, a disposição não anda grande coisa, com acessos de melancolia ou de impaciência, mas este tempo mais fresco caiu como uma benção, uma espécie de trégua no avançar do Verão e do calor. Sabe bem saborear estes momentos, mesmo se breves. (Entretanto, já me abasteci hoje com mais dois cds - um de Louis Armstrong no seu melhor e outro de Miles Davis - consumismo, consumismo! - mas como diz uma amiga minha, "Para que serve o dinheiro se não para consumirmos oq eu nos dá prazer?")

domingo, junho 25, 2006

The Golden Age, de Gore Vidal

Terminei de reler The Golden Age, que encerra o ciclo de romances históricos sobre os Estados Unidos, Narratives of Empire. E encerra-o com chave de ouro, é um dos melhores da série - maduro, desencantado, inteligente, com o espírito arguto e irónico tão característico de Vidal, cuja escrita derrama um veneno suave e corrosivo, divertido e simultaneamente triste, sobre a historiografia tradicional (elegíaca) do seu país.

Washington, DC foi o primeiro da série, embora cubra o período mais recente, que é repetido em The Golden Age, mais extenso e incluindo personagens que inicialmente não existiam. Cronologicamente, os outros são Burr, Lincoln, 1876, Empire e Hollywood.

Em Burr, os primeiros tempos dos Estados Unidos são narrados de uma forma arrasadora para as figuras habitualmente veneradas, como Jefferson, Washington ou Hamilton, vistas sob a perspectiva de Aaron Burr, que se tornou uma espécie de maldito da historiografia tradicional - e como tal, praticamente esquecido. Lincoln também apresenta uma perspectiva pouco ortodoxa da Guerra Civil, e embora Vidal mostre admiração por Lincoln, esta é expressa por motivos bem diferentes da virtuosa imagem que habitualmente se transmite. Em 1876, mais uma vez o sistema político é implacavelmente dissecado, e é interessante relacionar a história da eleição desse ano com a de 2000 (eu já tinha lido antes, pelo que as peripécias da primeira eleição de George W. Bush me surpreenderam pouco). Empire (que por acaso foi o primeiro da série que li) relata de forma magistral o início do Império Americano (além de introduzir a personagem de Caroline, que Vidal utiliza de certa forma como veículo da sua perspectiva pessoal), continuando em Hollywood.

Em The Golden Age, Gore Vidal reúne as pontas soltas, retoma a história de Washington, DC, fazendo uma admirável transição do protagonista da história (ou seja, do veículo dos seus pontos de vista) de Caroline para Peter Sanford, e termina com um encontro imaginário entre a sua personagem e ele próprio. Concordo com o que ele diz no posfácio, que este tipo de ficção histórica (tão diferente dos irritantes livros sobre personagens históricas romanceadas, quase sempre terrivelmente mal escritos, que ultimamente proliferam como cogumelos nas livrarias - que fome súbita será esta do público por este género de livros?) é mais útil para a compreensão da História, das suas causas e correntes, do que os manuais tradicionais, geralmente imbuídos de ideias feitas e influenciados pela óptica dos vencedores. E num mundo em que todos vivemos mais ou menos sob a égide do Império Americano, é extremamente interessante ler a obra de Vidal.

quarta-feira, junho 21, 2006

The Common Reader

Que delícia ler pela primeira vez um livro de Virginia Woolf! Como de costume, sou imediatamente conquistado, primeiro pela forma - é incrível como ela escreve bem, cada palavra sucedendo-se num ritmo fluido e elegante, cheio de espírito e de fina ironia. Depois, pelo conteúdo, pois estes ensaios são perfeitos no seu género (ensaístico): perspicazes, esclarecedores, provocadores, lúcidos e inteligentes e repassados pela sensibilidade poética e pelo humor mordaz de Virginia Woolf, que ela sempre combinou tão bem. Seja sobre clássicos da Literatura Inglesa como Jane Austen, Chaucer ou Defoe, sobre géneros como os Isabelinos ou os Gregos, escritores obscuros, os grandes escritores russos - em que ela exprime como talvez nunca vi tão bem expressa uma análise de Dostoievski e Tolstoi com que eu concordo inteiramente -, ou problemas literários como a natureza do ensaio ou da ficção moderna, Virginia Woolf é sempre interessante; ágil e irónica, inteligente e profunda, a sua prosa sabe incutir-nos suavemente as suas ideias, que parecem brincar com os assuntos mas que nos deixam uma impressão séria quase sem nos apercebermos de como a absorvemos.

Logo no início, aborda o carácter interactivo da leitura (pensei em traduzir, mas rapidamente desisti, para não estragar o estilo de VW que é uma das delícias da sua prosa):

"For we are apt to forget, reading, as we tend to do, only the masterpieces of a bygone age, how great a power the body of a literature possesses to impose itself: how it will not suffer itself to be read passively, but takes us and reads us; flouts our preconceptions; questions principles which we had got into the habit of taking for granted, and, in fact, splits us into two parts as we read, making us, even as we enjoy, yield our ground or stick to our guns." (em Notes on an Elizabethan Play)

Há duas passagens sobre a natureza da ficção moderna que acho particularmente to the point:

"Examine for a moment an ordinary mind on an ordinary day. The mind receives a myriad impressions - trivial, fantastic, evanescent or engraved with the sharpness of steel. From all sides they come, an incessant shower of innumerable atoms; and as they fall, as they shape themselves into the life of Monday or Tuesday, the accent falls differently from the old; the moment of importance came not here but there; so that if a writer were a free man and not a slave, if he could write what he chose, not what he must, if he could base his work upon his own feeling and not upon convention, there would be no plot, no comedy, no tragedy, no love interest or catastrophe in the accepted style, and perhaps not a single button sewn on, as the Bond Street tailors would have it. Life is not a series of gig lamps symmetrically arranged, but a luminous halo, a semi-transparent envelope surrounding us from the beginning of consciousness to the end. Is it not the task of the novelist to convey this varying, this unknown and uncircumscribed spirit, whatever aberration or complexity it may display, with as little mixture of the alien and external as possible? We are not pleading merely for courage and sincerity; we are suggesting that the proper stuff of fiction is a little other than custom would have us believe it."

"'The proper stuff of fiction' does not exist; everything is the proper stuff of fiction, every feeling, every thought: every quality of brain and spirit is drawn upon: no perception comes amiss. And if we can imagine the art of fiction come alive and standing in our midst, she would undoubtedly bid us break her and bully her, as well as honor and love her, for so her youth is renewed and her sovereignty assured." (em Modern Fiction)

Há muito que me sinto fascinado pela época das primeiras décadas do século XX, em que houve uma verdadeira revolução cultural, em que tudo foi posto em questão de uma forma positiva, em que se criou toda uma estética e uma civilização radicalmente diferentes de tudo o que existira até então - na pintura, na música, na literatura, na arquitectura, nos costumes. Foi uma época de incrível optimismo, em que os milagres tecnológicos ainda não tinham sido maculados pelas tragédias dos anos 30 e 40 e em que o futuro estava repleto de possibilidades e tudo parecia possível.

E Virginia Woolf pertence a essa geração, e contribuiu para essa revolução cultural na Literatura. E as questões que se punha não são, no fundo, as mesmas que ainda hoje, 100 anos depois, nós nos pomos? Como, nesta passagem a propósito de Montaigne:

"Here is someone who succeeded in the hazardous enterprise of living; [...] But, as we watch with absorbed interest the enthralling spectacle of a soul living openly beneath our eyes, the question frames itself, Is pleasure the end of all? Whence this overwhelming interest in the nature of the soul? Why this overmastering desire to communicate with others? Is the beauty of this world enough, or is there, elsewhere, some explanation of the mystery? To this what answer can there be? There is none. There is only one more question: “Que sais-je?”"

domingo, junho 18, 2006

Mais uma


Esta é a última adição à minha família, mais uma consequência da recolha há quase um ano da gatinha que se deveria ter chamado Pandora, porque libertou, não os males do Mundo, mas uma verdadeira "gatofilia" que se traduziu por um notável aumento na população felina entre os meus amigos.

Após eu recusar repetidamente os insitentes pedidos do meu Abdallah para recolher uns gatinhos nascidos perto da escola, ele, com o seu desembaraço habitual, trouxe esta para casa argumentando que estava abandonada e morreria se não fosse recolhida. A história não era exactamente assim, motivo pelo qual depois lhe censurei o recurso a meios desonestos para conseguir o que quer, ao que obtive a resposta "alguam coisa tinha que se fazer"... Enfim, depois de regularizada a questão, como recusar esta criaturinha? Quem não gostou foi a dita Pandora, que protestou à sua maneira a intrusão de uma estranha no seu território. Foram uns dias um tanto tensos por entre a população de animais domésticos, mas o hábito vai criando um novo status quo, e as duas gatas já brincam enroladas uma com a outra e já partilham comida e casa-de-banho. A recém-chegada tem uma personalidade bastante reivindicativa e faz-se ouvir de forma bem desproporcionada ao seu tamanho, mas é uma delícia e estamos todos encantados com ela.

Tartüff, de Friedrich-Wilhelm Murnau

Mais um filme mudo, de Murnau. Mais uma vez, constato que é possível contar uma história sem som - e neste caso, nem sequer havia música a acompanhar, suponho que por se desconhecer qual a música que originalmente acompanhava o filme - mas a realização, as expressões dos actores - numa representação com uma mímica exacerbada, com efeitos cómicos - mostra-se perfeitamente suficiente. Os efeitos de luz e sombra são espectaculares, os actores não precisavam de ser bonitos - mas, como diria a personagem de Gloria Swanson em Sunset Boulevard, "they had faces!".

sexta-feira, junho 16, 2006

Jarhead, de Sam Mendes


Gostei do filme Jarhead, de Sam Mendes. Aborda de uma forma interessante um tema menos apelativo que o heroísmo ou a solidariedade - a desumanização da personalidade na criação de um soldado, a perda da identidade e a sua substituição por uma padrão de reflexos condicionados e reacções estereotipadas que, ironicamente, vão tornar-se por sua vez uma fonte de instabilidade ao se revelarem desnecessárias no terreno. É essa desumanização que é mostrada na progressão da recruta, nas actividades de preenchimento do tempo interminável da espera, nas reacções violentas aos contratempos, e por vezes de forma irónica, como quando os recrutas vêem uma cena de Apocalypse Now com a reacção exactamnete oposta à desejada pelo autor do filme. E as tentativas dos homens de resistirem a essa desumanização, de se agarrarem aos pedaços de identidade que vão perdendo, pareceram-me os momentos mais fortes do filme - como o sonho ao som de Something in the Way, dos Nirvana, um bom exemplo da utilização da música nos filmes para fins emocionais sem cair na lamechice.

O filme é interessante também pelo relato da Guerra do Golfo do ponto de vista de um soldado participando na operação e não particularmente informado, que tem da guerra uma perspectiva limitada a uma série de pormenores que, precisamente por desconhecer o quadro geral, lhe parecem absurdos. Sempre gostei desse género de testemunhos pessoais de "grandes acontecimentos", que lhes conferem uma dimensão humana e no-los apresentam como provavelmente foram realmente vividos (um bom exemplo é o relato da batalha de Waterloo vista por Fabrício em O Vermelho e o Negro).

Esteticamente, tem belas imagens - as cenas do deserto, com o seu ambiente de extra-realidade -, uma excelente banda sonora e, apesar de tratar extensamente do aborrecimento da espera, não é nada aborrecido, e é bem interpretado - gostei de Jake Gyllenhaal no seu papel de perda da inocência, e de Peter Sarsgaard como o homem que se agarra ao seu papel de soldado como o único sentido que lhe resta, quanto a Jamie Foxx, a personagem do sargento instrutor preto durão já me parece um bocado batido.

terça-feira, junho 13, 2006

Quase


Um pouco mais de sol - eu era brasa.
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador d'espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser-quase, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

...................................
...................................

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...



Mário de Sá-Carneiro, 1913

Patriotismo futeboleiro


Como me irritam estes ataques periódicos de patriotismo futeboleiro... ou deveria deizer futebolismo patrioteiro? Não tenho nada contra o futebol em si, apenas contra a importância que o futebol toma no nosso país, enchendo as primeiras páginas de todos os jornais, abrindo todos os telejornais, e os campeonatos promovidos a "desígnio nacional"... Sempre fui contra todas as espécies de "ópio do povo", e acho uma tristeza que este tipo de ópio do povo seja promovido desta forma desmesurada, cada vez mais. Mal vão as coisas quando o rogulho de ser português se liga a um fenómeno tão frívolo e efémero. Sei que a glamourização do futebol não é uma tendência exclusivamente portuguesa - aliás, o seu símbolo mais acabado, David Beckham, nem é português - mas não deixa de ser caricato que os futebolistas, antigamente considerados na generalidade uns "grunhos", sejam agora incensados como personagens modelos, e até guindados sistematicamente à posição de homens mais bonitos, como no caso do Cristiano Ronaldo, que pode ser um rapaz robusto, mas é o perfeito retrato do parolo. Haja juízo!

segunda-feira, junho 12, 2006

Match Point, de Woody Allen



Gostei muito de Match Point, embora me tenha surpreendido um pouco como um filme "pouco típico" de Woody Allen. Não que ele não tenha feito outros filmes "sérios" - basta lembrar Interiors, September ou Another Woman (este dos meus preferidos), ou que não tenha já abordado este tema, da culpa, como em Crimes and Misdemeanours, que de certa forma aborda o mesmo assunto. E também não é o primeiro filme dele que não se passa em Nova Iorque. Mas talvez seja uma combinação de tudo isto, não sei, mas de alguma forma não senti o Allen touch que tanto aprecio.

No entanto, nada disto diminui o filme em si - um film noir perfeito. Como sempre, os diálogos estão excelentes, a história desenrola-se de forma irrepreeensível, e Scarlett Johansson está bela e sensual como sempre (já Jonathan Rhys Meyers, embora bem, não convence tão bem como ela, ou como Martin Landau em Crimes and Misdemeanours).

sábado, junho 10, 2006

domingo, junho 04, 2006

Junho, ou a chegada do Verão



Habitualmente, detesto o calor, e os dias da última semana com temperaturas superiores a 30ºC foram muito desagradáveis, mas estou a apreciar a chegada do Verão. Sabe-me bem estender-me a ler na cama, no meu quarto que é sempre agradavelmente fresco, ou estar aqui a escrever com a brisa da janela aberta, enquanto a gata dorme voluptuosamente no quadrado de sol da janela à minha frente. Gosto da sensação de conforto de voltar a usar roupas leves, gosto de passear o cão à noite, quando não está absolutamente nenhum frio nem calor. Aprecio particularmente a abertura da saison de jantares na varanda, onde fico a conversar com amigos à luz das velas. Enfim, sei que em breve estarei farto do Verão, do calor, do carro abafado (felizmente por pouco tempo, graças a essa grande invenção que é o ar condicionado!); mas sabe-me muito bem saborear a doçura destes primeiros dias de Junho.

sábado, junho 03, 2006

O Rei que foi e que será...

And when her baby boy was born,
In cloth of gold with state
'Twas given to a beggar-man,
Who waited at the gate.

But this was Merlin, in disguise
Of beggar old and grey,
The great enchanter, Merlin hight,
Who bore the babe away

Unto a holy, saintly man,
Who christened him by name
Of Arthur -- prince of chivalry,
First on the scroll of fame.




E assim nasceu o rei Artur, de Uther Pendragon e da bela Igraine, duquesa da Cornualha. Cresceu na casa de Sir Hector, a seu tempo arrancou a espada da pedra e foi Rei da Bretanha, governando sensato e valoroso com o auxílio dos conselhos do sábio Merlin. Muitas batalhas venceu, lutando com a sua espada Excalibur, que lhe foi dada pela Dama do Lago, ao lado dos seus valentes cavaleiros da Távola Redonda, descansando nos intervalos na sua brilhante corte de Camelot.



E assim foi uma época dourada, cantada por Thomas Mallory e nas baladas de Chrétien de Troyes, entre outros, até ao fim, quando foi mortalmente ferido pelo traidor Mordred e levado numa barca com quatro rainhas, entre elas a sua irmã Morgana a Fada, para Avalon. E como diz Thomas Campion:

Merlin, the great King Arthur being slaine,
Foretould that he should come to life againe,
And long time after weild great Brittaines state
More powerfull ten-fould, and more fortunate.
Prophet, 'tis true, and well we find the same,
Save onely that thou didst mistake the name.


E como tão grande Rei deve ser sempre celebrado, está na hora de seguir para o banquete!

sexta-feira, junho 02, 2006

Absalão, Absalão!, ou a Tragédia Grega no Sul

Ao reler Absalão, Absalão!, de William Faulkner, impressionou-me novamente, mais do que da primeira vez. A escrita é belíssima, um autêntico poema em prosa, do melhor de Faulkner. E a sensação que fica é a de uma tragédia grega - a mesma impressão da luta inútil e patética contra a Fatalidade e o Destino, com letras maiúsculas como pensavam neles os gregos, com Orestes, Antígonas, Medeias, Electras e Agamémnons sulistas, tão trágicos como os seus contrapartes de Micenas ou Tebas, no ambiente tão intenso e dramático das mansões brancas sulistas, árvores cobertas de mousses espagnoles ou fogueiras de acampamentos confederados como o era a terra castanha do Peloponeso ou os templos dóricos, em que a história se vai desenrolando inexoravelmente, repassada de melancolia e estoicismo.

quinta-feira, junho 01, 2006

O Gabinete do Dr. Caligari, de Robert Wiene

Vi ontem o clássico do expressionismo alemão O Gabinete de Dr. Caligari, em versão restaurada e com textos em inglês. É um filme excelente, só lamento não o ter visto num écran de cinema para apreciar melhor o ambiente.

É interessante como o filme, de 1919, conserva ainda hoje a qualidade intrínseca, como filme, não como obra documental ilustrativa de um determinado período, neste caso o expressionismo alemão. Mas de resto, é isso o que distingue uma obra de arte a sua intemporalidade - da mesma forma ouve-se com prazer uma peça de Bach ou admira-se um frecso de Masaccio, sem ser preciso pensar neles como, testemunhos do barroco ou do renascimento - embora, claro, a sua inserção numa época e numa cultura os enriqueça, no sentido de aumentar o prazer, as sensações e as ideias que nos despertam.

Caligari é um filme fantástico, um thriller perfeito e actual, que
até tem um twist no final. Os cenários são soberbos, e contribuem ainda mais do que as interpretações excelentes e a fotografia e a coloração - aprendi que os filmes mudos eram muitas vezes coloridos - para criar o ambiente do filme, de irrealidade onírica e macabra.

Há cerca de um ano, quando descobri o cinema mudo, escrevi um pouco sobre isso, na altura a propósito de Metropolis, de Fritz Lang. Até essa altura, sempre pensara no cinema mudo com alguma condescendência, como se se tratasse de uma forma algo rudimentar de uma arte que depois se aperfeiçoou e cujo interesse era meramente documental. Percebi depois que isso era uma ideia preconcebida incorrecta - aliás, o cinema dessa época foi feito por pessoas adultas e com tanta sensibilidade artística como em qualquer outra, apenas a tecnologia era mais limitada, e eles souberam utilizar os meios que tinham para criar uma forma de cinema que depois caiu em desuso por se dispor de novas técnicas, mas seria tão pouco acertado compará-lo depreciativamente com o cinema mais recente como comparar nesses termos a escultura grega clássica com as obras de Giacometti ou Brancusi.

Resta-me sentir-me mais uma vez grato a quem me proporcionou esta descoberta, e saborear os muitos e muitos filmes que ainda tenho para ver!